O Vanerão da Roda-Viva?

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Papo Anterior – http://mpbsapiens.com/parraredo-vanerao-e-sapiens/

Resposta:

Fábio:

É uma pena que você não tenha tido a oportunidade de ver o Canal 100 numa tela de cinema, pois imagino que isso tenha ocorrido só nos cinemas de Porto Alegre nos anos 60, 70…; até quando durou a coisa não posso precisar, porque nunca fui um frequentador assíduo de cinemas. Tá certo que a maioria dos jogos era de clubes do Rio, mas quando o cinegrafista fazia as tomadas do comportamento das pernas do Garrincha num drible, e depois era exibido naquela tela imensa, virava uma coisa tão orgásmica quanto a sensação de um poema recém-escrito.

Lendo novamente tudo o que escrevi na postagem, já que, como disse, o refrão pegajoso demora pra sair da cabeça, e comparando com o que li nesse seu comentário acima, surgiu uma idéia.

Um dos fatores que mais colaborou para que se criasse o vácuo cultural histórico na MPB foi a acomodação dos compositores, mas não foram somente Chico e Vandré que tentaram denunciar o problema. O próprio Raul Seixas já passeava por Sampa nos anos sessenta.  Raul não era roqueiro, suspeito até que tenha se aproximado do antigo iê-iê-iê da Jovem Guarda numa espécie de represália aos ecos mudos dos colegas mais próximos, da mesma MPB, também baianos, diante das suas omissões, porque, afinal:

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…O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia???
a
…É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes…

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O Raul chegou para a MPB antes de Woodstock chegar para o mundo. Via tudo aquilo ocorrendo ao redor em Sampa, como os Diálogos de Gaitas menos famosas que citei na postagem, olhava o mesmo jornal do Caetano, observava neles incentivos mais voltados às disputas com os militares do poder, aos montes, sem que aquele encontro das tendências musicais de norte e sul merecesse qualquer citação na imprensa, e nenhum artista falando do problema, que já saltava aos olhos na época, em suas músicas. Suspeito até que o posterior e famoso Ouro de Tolo tenha vindo desse mote. Não custa lembrar:

http://www.youtube.com/watch?v=cn0S56WPkjQ

Foi à partir daí que estreiou no cenário da MPB, denunciando que nem Vandré e Chico, com o seu Ouro de Tolo, que entrou como uma faca no conceito cultural da classe artística, já meio acomodada, da época. Também não custa lembrar de um recadinho do Vandré à classe, dado em 1966:

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…Porque gado a gente marca
Tange, berra, engorda e mata
Mas com gente é diferente
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar…

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Daquele povaréu compositor todo da época, só um resolveu levar o Vandré a sério, e escreveu uma peça baseada nas próprias trilhas artísticas. Foi o Chico, que em 1968 escreveu a peça Roda-Viva. Poucos foram os centros culturais que se arriscaram a exibir tal peça, e, se não me engano, Porto Alegre foi um que tentou algo à respeito. Por denunciar a manipulação da mídia na trajetória artística, a peça teve um histórico cheio de controvérsias, sendo mais famosa a ocasião em que puseram fogo num dos teatros.

Muito mais tarde, diversos grupos teatrais tentaram reencená-la, no que foram impedidos pela própria assessoria do Chico, na ocasião, já totalmente domesticado pelos mesmos “patrões” que denunciara no passado.

Isso martelou a minha cabeça até o ano passado, quando resolvi reescrever a peça na forma de Fábula Infantil. Como qualquer fábula exige um narrador, e a cultura da Língua Portuguesa urge por pronúncias que a lembrem, ou melhor, relembrem o que dela restou, pensei até em usar algum gaúcho como narrador, posto que é aí pelo Rio Grande que o Português ainda é bem pronunciado no linguajar cotidiano. O primeiro nome que me veio à cabeça foi o do Prates, mas a sua bela pronúncia não consegue encobrir toda a cumplicidade jornalística de quem faz sucesso pela globo.

Quanto maior o sucesso do cara, mais sabe daquilo tudo que você leu na postagem anterior, logo, é cúmplice proporcional.

Quando Chico escreveu Roda-Viva, situou a denúncia num só tempo e num só local: O sudeste brasileiro de 1968; mas, sendo o problema bem anterior a isso, mostrou-se maior e preocupante desde muito antes. Mais precisamente, no Iluminismo Francês do século XV, tratado originalmente por Vitor Hugo em O Corcunda de Notre Dame.

É à partir de tal época que começa A Fábula da Roda Nova, que liga o passado a um suposto futuro pelas descrições do presente. Trata-se de um drama, muito mais comédia do que tragédia, e musical, baseado originalmente na carreira de um compositor sambista sujeito às manipulações vistas.

Nada me impede de transformar o sambista original, em São Paulo, num roqueiro gaúcho tradicionalista, submetido às mesmas situações do sambista e no mesmo local onde tudo acontece, cuja estação rodoviária lembra:

http://www.youtube.com/watch?v=XZm5EYCR2PA

Se você puder ouvir o original da música, que não achei, sentirá que o andamento musical está muito mais para o rock do que esse, um blues. Essa música não faz parte da peça. Usei apenas para mostrar que a possibilidade é muito mais real e presente do que fantasiosa, ou mesmo do que em 1968, quando nasceu na forma de Roda-Viva.

Como você insinuou, numa das nossas conversas anteriores, estar propenso a retomar os trabalhos da banda, por que não começar já, com um musical?

Caso você ache muita erva para a sua pequena cuia, suspeito que você conheça alguns roqueiros, que estando meio gaudérios por aí queiram topar a parada.

Como o meu negócio é escrever, isso faço, mas estou meio velho para ficar correndo atrás do sonho, o que não impede que outros mais jovens o façam por mim. Ajustar os texto é a parte mais fácil nesse divertido depoimento.

Tá vendo? Agora não consigo tirar da cabeça um roqueiro gaúcho, cantando Vanerrock em Sampa, ou mesmo em Porto Alegre, munido de gaita e chimarrão.

Por falar em gaiteiro, estive dando uma pesquisada maior no Da Fronteira e, pela idade, um pouco mais velho do que eu, sugere até que possa ter acompanhado o Conjunto Farroupilha numa das ocasiões em que tivesse ido a Sampa nos anos sessenta. E também nada impede de ter participado daquelas rodas de gaiteiros do lado de fora do Teatro Record.

Eu, ainda moleque, ficava só observando toda aquela musicalidade correndo solta ao meu redor. Ía para dentro do teatro nos festivais de MPB com a mesma naturalidade com que acompanhava os músicos diante de algumas novidades salvadoras para eles. Foi o que ocorreu num desses encontros, quando um daqueles gaiteiros foi chamado de lado por um senhor bem apessoado, que conversou um pouco e saiu discretamente. Logo em seguida, o grupo se dispersou, mas os que restaram receberam uma proposta daquele escolhido:

- Querem defender uma bóia (refeição) grátis? É óbvio que aquele bando de duros aceitou, e eu fui atrás. O destino acabou sendo uma cervejaria, que também funcionava como restaurante: Urso Branco!

E entre salgados, cervejas e música aquele diálogo cultural recomeçou nesse novo local.

Na esperança de vê-los novamente reunidos, voltei à cervejaria no dia seguinte, mas fui informado de que não haveria mais nada semelhante. Passado um tempo, insisti em voltar lá, e pude observar que havia um pequeno palco, com um grupo musical, comandado pelo mesmo gaiteiro da oferta anterior, acompanhando um pistonista chamado Ronaldo Lark. O nome dessa banda era Os Versáteis. Como a época vivia uma coqueluche chamada Herp Albert & Tijuana Brass, banda mexicana, os frequentadores do local ouviam coisas bem parecidas com esta:

http://www.youtube.com/watch?v=VTcbTlmbHVk

Ronaldo Lark & Os Versáteis se apresentaram bom tempo por lá. De lá foram para a Jovem Guarda e depois desapareceram do mapa musical brasileiro, restando apenas, na net, alguns esparsos trabalhos dos Versáteis, bem diferentes do original, nascido do lado de fora do Teatro Record naqueles repentes de gaiteiros do sul e do norte do Brasil. O mais próximo que consegui foi:

http://www.youtube.com/watch?v=uiw0aYoeeq0

Mas sumiu o gaiteiro, e nem sei se é o mesmo cara que toca o órgão.

Apenas tive a sorte de ser curioso o bastante para outrora testemunhar felizes encontros musicais, e agora me decepcionar com os atuais e infelizes desencontros, que até têm algo de musicais.

Tudo isso tem um histórico e uma razão para ter ocorrido. A Fábula da Roda Nova só procura contar a História, olhando de forma menos triste o lado da Razão.

 

 

 

 

 

 

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  del.icio.us isto!

7 Respostas até o momento »

  1. 1

    Fábio Marinho said,

    novembro 13, 2011 @ 7:00 pm

    Buenas, mestre Dalton

    Rapaz do céu, é muita informação para os limites dos meus limitados neurônios…..rsrsrs

    Puxa vida, primeiro tenho que te agradecer a confiança, cara!!! Valeu mesmo…..

    Gostei muito das histórias da Roda Viva e da sua Fábula da Roda Viva. Eu já tinha ouvido falar da peça do Chico, pelo meu pai e já vi alguns DVD’s sobre os Festivais da década de 60, mas nunca me aprofundei no assunto e não sabia sobre o que tratava a peça.

    Saquei as misturas musicais que você citou na resposta, assim como o Raul, quando misturou o rock e o baião, em “Let me sing”, por exemplo, que ele defendeu no VII Festival Internacional da Canção, em 1972, se não me engano. Ele dizia que tinha se dado conta de que os dois estilos musicais, já que era fã de Elvis e Luiz Gonzaga, tinham a mesma forma malandra de cantar e o mesmo balanço no jeito. Como ele fala em “Rock n’ roll”, do LP A Panela do Diabo, de 1989:

    “…e pra terminar com esse papo
    eu só queria dizer
    que não importa o sotaque
    e sim o jeito de fazer
    pois há muito percebi
    que Genival Lacerda te a ver
    com Elvis e com Jerry Lee…”

    Então, eu te resumo os meus desejos numa única frase:

    Se tu estiveres disposto a me ensinar o que tiver que ser ensinado, eu estou disposto a tentar aprender, beleza????

    Não acredito muito que eu possa fazer algo além dos poemas que faço, mas de todo jeito, vamos à luta e ver o que acontece, já que: “…o destino é a gente que faz, quem faz o destino é a gente, na mente de quem for capaz…” (Raul Seixas)

    É só tu me dizer o que devo fazer, bixo, ok???

    Grande abraço
    Fábio

    Ahh….tenho músicos amigos pra poder contar, sim, pra quando precisar…

  2. 2

    Fábio said,

    novembro 14, 2011 @ 8:22 am

    Dalton…

    Não sei o que eu fiz que a minha resposta não gravou, cara. Te respondi ontem, 13.11, domingo, vi a resposta gravada e hoje não acho onde ficou. Não sei se foi porque não respondi do meu PC, que é de onde eu sempre falo contigo. Estava no PC do meu véio, na casa dele, onde a internet é mais lenta, mas me parece que isso não era motivo pra não gravar.

    Em todo caso, te respondi que claro que topo aprender mais um pouco se tu estiver disposto a me ensinar o que for preciso!!!

    Me diz o que eu preciso fazer e a gente vai conversando, beleza????

    Grande abraço
    Fábio

  3. 3

    Fábio said,

    novembro 14, 2011 @ 11:39 am

    Bah, mas to ficando louco. Agora apareceu o negócio, desculpa, mestre Dalton, mas acho que me perdi na jogada, isso que não tomei nada…eheheh

    Abraços

  4. 4

    admin said,

    novembro 14, 2011 @ 12:28 pm

    Buenas, terminei.

    Agora vou buscar a mulher, o garoto na escola, e depois que voltar começo a estruturar o e-mail. Enquanto isso, vai se divertindo com http://mpbsapiens.com/erasmo/

  5. 5

    Fábio said,

    novembro 14, 2011 @ 2:29 pm

    Bahhh, mas o Tremendão é foda….

    Sempre quis tocar, na época da banda: “Ei mãe, não sou mais menino, não é justo que também queira parir meu destino….” “Filho único”…sensacional!!
    E o solo de guitarra é um mel meloso, simples e gostoso…

    Vou me deleitar, hoje à noite, lendo a postagem…

    Abraços

  6. 6

    admin said,

    novembro 14, 2011 @ 5:43 pm

    A encomenda já foi despachada pro seu e-mail. Boa sorte.

  7. 7

    Fábio said,

    novembro 14, 2011 @ 6:13 pm

    Opa, muito obrigado, tchê!! Hoje à noite eu começo a estudá-la.
    Valeu!!

    Abraço

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