Tiradentes e o Samba do Crioulo Doido-Análise de Texto

Sérgio Porto Narrando:

Este é o Samba do Crioulo Doido. A história de um compositor, que durante muitos anos obedeceu ao regulamento e só fez samba sobre a História do Brasil.
Em nome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva…; e o coitado do crioulo teve que aprender tudo isso para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado:
 
- Atual Conjuntura!
 
Aí o crioulo endoidou de vez e saiu este samba:
 

Quarteto em Cy canta:

 
Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casá    
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes
    
Lá iá lá iá lá ia
O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá
O bode que deu vou te contar
    
Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
    
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
    
E foi proclamada a escravidão
E foi proclamada a escravidão
      
Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
A Leopoldina virou trem  
E D.Pedro é uma estação também
    
O, ô, ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou
O, ô, ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou
 
U u úuuuuu (buzina)
 

Quando um pensador enxerga um problema social, se preocupa. Invariavelmente, no momento seguinte o pensamento dedutivo faz com que vislumbre as soluções, que uma vez conceituadas lhe exigem uma tomada de atitude.

Ao tentar tomá-la e as condições sociais que o cercam não o permitem, o mesmo é tomado pela Ira, que amordaçada é destilada e encontra na Sátira o seu último recurso.

Sérgio Porto era um deles, que embora tivesse colunas de jornais à disposição era proibido de escrever o que pensava da sociedade. Como não podia correr o risco de perder o emprego de jornalista, adotou o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta e compôs o Samba do Crioulo Doido.

Não enxergo qualquer preconceito racial no título da composição, pois distávamos somente oitenta anos da oficial Abolição da Escravidão e a segregação racial, embora condenável, era uma normalidade social já pertencente ao linguajar depreciativo do brasileiro por anos de uma secular sedimentação.

Com a chegada da Revolução Militar dos anos sessenta, estendeu-se a obrigatoriedade de um Nacionalismo, que já era espontâneo por natureza, à nossa conduta social, todavia, a Censura de Exposição das Idéias é que levou os Pensadores a enveredar por um mesmo caminho de protesto, independente dos ideais, Nacionalistas ou Socialistas, que os fundamentavam filosoficamente até então.

Como Sérgio Porto presenciara, na década anterior, a uma espécie de Abolição e Renascimento da Escravidão no Brasil, pelas dívidas externas saldadas e novamente contraídas, percebendo também que as últimas implicavam no exercício proposital de perda cultural na sociedade, se viu amordaçado por duas vias:

1 – Sabia que a perda dirigida da cultura nacional era feita pelos jornais em que trabalhava e se sustentava.

2 – Vivia num regime social comandado pelos militares, que atirando primeiro e perguntando depois, não lhe davam muita chance de saber dos resultados das exposições de suas idéias.

Junta-se a essas duas vias proibitivas a normalidade do Samba Enredo ser feito, na ocasião, por negro em escola de samba, suspeito ter sido essa a base do Quadro que o inspirou e traduziu numa Sátira comum às de Gregório de Matos Guerra, feitas num Brasil Colonial, portanto bem antes do que qualquer conceito de Nacionalismo, Socialismo ou Ditadura Militar tivesse sido sequer sonhado por algum outro colega Pensador do Futuro.

Creio que bastem dois registros históricos para se compreender todo o Veneno Destilado que Stanislaw Ponte Preta deu à letra do samba:

1- A primeira dívida externa, iniciada por D.Pedro I, foi paga por Getúlio Vargas.

2 – A segunda dívida externa, iniciada por JK logo após o pagamento total da primeira, ainda não foi paga.

Joaquim José
Da Silva Xavier
Morreu a vinte e um de abril
Pela independência do Brasil…
         
…A morte de Tiradentes não foi em vão
São hoje símbolos vivos da nossa nação
A maçonaria muito contribuiu…
        
        
  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

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