Tempo Rei (Gilberto Gil)- Análise de Texto

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Em Tempo Rei, Gilberto Gil mostra, logo no início, que há uma ligação com o
Expresso 2222, onde começou a sua Aventura Relativista na MPB, só que
agora o Corcovado apenas se mostra menos apocalíptico e mais sensato:
 
Vídeo de Mardosom
 
Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos…
 
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva
E pelo eterno vento…
 
Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Que não restará
Nem pensamento…
 
Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!…
 
Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos…
 
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas…
 
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo…
 
Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!…
 
Na primeira estrofe, Gil mostra a evolução conceitual do Expresso 2222 na
sua vida de poeta, num assunto que continua sendo explicado na segunda,
associando um dito popular ao Pensamento relutante, mas mutante.
 
Na terceira estrofe, que funcionou como Refrão, é que vem a mistura das 
filosofias do poeta com as do religioso, pois, no Candomblé, temos o orixá
Obá-Tempo, cujo significado é “Rei-Tempo”, onde Tempo, embora não
tendo o significado que damos para o termo, possui um histórico essencial
que acaba o assemelhando à nossa idéia vulgar.
 
Qualquer casa de Candomblé que se preze tem no seu quintal uma bandeira
branca presa a um mastro, e que apresenta embaixo um pequeno recinto
destinados às oferendas. Esse é o símbolo da presença do orixá Tempo na
casa, e que quer dizer mais ou menos isto:
 
 - Aqui os orixás têm todas as idades!
 
Uma das formas do Babalawô (pai do culto) explicar aos seus filhos
sobre as suas mudanças comportamentais é pela Idade do Orixá. Por 
exemplo, temos três distintos orixás para cada essência. No caso do 
Administrador Espiritual da Terra temos três nomes:
 
Oxaguian, que representa à idade jovem do orixá, Oxalá, que corresponde à
idade adulta do mesmo orixá, e Oxalofan, que corresponde ao mesmo
orixá quando velho. Podemos ter três filhos distintos, um para cada uma idade,
mas todos sujeitos às variações das demais idades da essência.
 
Se eu for, por exemplo, um filho de Oxalá, poderei ter, ao longo da vida, os
três comportamentos distintos Oxaguian -> Oxalá -> Oxalofan; o mesmo 
ocorrendo com Azoano > Omulú -> Obaluayê etc.
 
Cada vez que um filho começa a mudar o seu comportamento, o Babalawô
o coloca para conversar na Casa de Tempo, para que essas mudanças
comportamentais, comuns às diversas possibilidades sociais que temos em
vida, possam ser melhor traduzidas pelo orixá responsável por tais ajustes, 
cujo nome é Obá-Tempo, ou, se preferirem:
 
Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!…
 
As três estrofes restantes se prestam justamente a tentar traduzir, de forma
mais racional, às súbitas mudanças comportamentais nossas através do tempo.
É até engraçada a forma que Gil usou para mostrar que isso ocorre com
toda a sociedade, neste fragmento:
 
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas…
 
Não é muito distante o tempo em que se usava a expressão: “Pai zeloso e
Mãe coruja”, pois esse era o nosso padrão social, quando o homem da casa
saía para ganhar o dinheiro necessário e a esposa ficava cuidando dos filhos
do casal, com a corujice típica de quem queria provar, para si mesmo, ter
feito um bom trabalho. Mas os tempos mudaram e as coisas ficaram meio
invertidas.
 
Creio que Gil tenha usado a expressão “águas sujas” mais por questão de
rima, com “coruja”, quando, dependendo de quem interpreta, o mais correto
seria dizer “águas turvas”.
 nota: Sugiro ver abaixo o comentário da leitora, Rose.
A Estrada do Tempo Relativo do Gil deu uma guinada religiosa em Tempo
Rei, mas voltará muito mais Relativista na próxima composição, em que até
tentou enveredar poeticamente pelos termos científicos.
 
Não percam.
 
 
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                .

  del.icio.us isto!

12 Respostas até o momento »

  1. 1

    Sergio Tomayno said,

    March 12, 2011 @ 1:56 am

    Questionado sobre a interpretação acima, o próprio Gil diz que quem interpretou essa composição assim viajou feio na maionese.

  2. 2

    admin said,

    March 12, 2011 @ 8:17 am

    Sergio Tomayno:

    Infelizmente, para o Gil, o poema foi escrito em Português, uma Língua que permite flexibilidade nas interpretações de texto.

    Felizmente, para mim, o mesmo Português permitiu uma interpretação distinta que enxerguei como lógica.

    Só ficou faltando nesta história um sanduíche seu com maionese própria. Você teria alguma idéia própria à respeito de Tempo Rei?.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  3. 3

    Rose said,

    February 18, 2013 @ 5:01 pm

    Olá Dalton! “Águas sujas” penso que Gil quis falar do impuro. Nas religiões orientais, o impuro não tem um significado negativo como no ocidente. Uma água impura, suja, é uma água que não está mais em seu estado puro, cristalino, original. Foi ela misturada com outras substâncias que, talvez, a tornem melhor. Essa metáfora utilizada na música pode se referir aos conhecimentos que os filhos adquirem ao longo dos anos, e que os transformam. Eles saem de um estado puro para o impuro, ou seja, de um estado no qual não possuíam conhecimento, para um estado no qual estão repletos dele. E não adianta o quanto os pais zelem os filhos, eles crescerão e se transformarão, e essa mudança é veloz.

    Mães zelosas
    Pais corujas
    Vejam como as águas
    de repente ficam sujas…

  4. 4

    admin said,

    February 18, 2013 @ 5:22 pm

    Rose:

    Você tem razão. De fato, o Gil até pode ter usado essa sua ideia na construção filosófica do texto, pois os filhos só aprenderão realmente a vida social quando submetidos às informações vindas dos cotidianos outros. Deixam as suas purezas em casa e caem na vida.

    Obrigado pela dica, Rose.
    Dalton.

  5. 5

    Anselmo Coyote said,

    March 10, 2013 @ 8:44 am

    Sugiro que leiam o songbook/livro texto Todas as Letras (Gilberto Gil), no qual ele conta a história de todas as músicas que fez até então (1997/1998).

    Se interpretação puder ser interpretado como adivinhação, esta do texto realmente não acertou o alvo. Porém, interpretar não é adivinhar, mas tentar encontrar o sentido e direção um fenômeno. Fenômeno no sentido filosófico daquilo que se mostra e ao mesmo tempo se esconde justamente atrás do que se dá a conhecer. Tenta-se estabelecer uma relação entre o cognoscível e o incognoscível. Trata-se de uma tarefa árdua e ingrata se se pretende alinhar o interpretado com o fenômeno em sua totalidade.

    Não que se dizer da infelicidade do Gil por ter usado o português nem da felicidade de qualquer intérprete pelo mesmo motivo. Qualquer idioma se dá à interpretação, embora alguns sejam mais específicos como, por exemplo o alemão que, ao lado do grego e do latim, é a única língua que possui um gênero neutro, nem masculino nem feminino, o que faz toda a diferença.

    O Gil pode dizer que quem interpretou assim ou assado viajou, desde que esteja (e só pode estar) considerando o que ele quis dizer. No entanto, se se pretende ser claro, não para si, mas para os outros, faz-se necessário falar a língua dos outros. Mas quem disse que ele quis ser claro? Se quisesse, com toda a sua competência, ele teria sido.

    É preciso ter em mente que a verdadeira arte é expulsa pelo artista de dentro de si mesmo por não suportar mais o tormento de com ela conviver. E a plenitude do alívio do artista está em expulsar exatamente aquilo que o incomoda como o incomoda.

    Quando queremos desabafar com um sonoro e completo “filho da puta”, “vá para o inferno” ou “eu te amo”, outras expressões não servem – tem que ser uma dessas. O Gil usou as expressões que ele quis, o que pode nos parecer desconexo e nos desafiar a interpretá-las em um esquema lógico, muitas vezes com a mesma inquietação do artista, mas sentido oposto. Enquanto aquele quis externar um sentimento nós pretendemos interiorizá-lo. Por quê? Para diminuir a distância entre nós e o artista e talvez experimentar viver nele e permitir que ele viva em nós.

    Sei lá.

  6. 6

    admin said,

    March 10, 2013 @ 10:59 pm

    Muito bom o seu comentário, Anselmo Coyote.

    Pouco me importa o que Gilberto Gil, ou Chico Buarque etc. tenham pensado quando escreveram as suas letras de músicas, pois na maioria delas tinham bem menos pretensões do que o alcance dos textos permitiria posteriormente. Diria até que nem sabiam o que estavam escrevendo, posto que são, como artistas, meros instrumentos da Arte, que é bem mais ampla e complexa do que eles.

    O próprio Gil, quando escreveu as músicas do LP O Eterno Deus Mu Dança, poderia até ter-se cercado de algum conhecimento histórico dos Sumérios, mas como poderia adivinhar, em 1989, quando escreveu a composição Amarra Teu Arado a Uma Estrela, que estaria usando trechos de textos semelhantes aos das 13 tábuas que faltavam aos antropólogos para montarem o epílogo do primeiro épico de que tivemos notícias, com o curioso nome A Epopéia de Gilgamesh, remontada originalmente pelo antropólogo inglês, Smith, em 1891, mas incompleta até um século após, 1991, quando os americanos, ao bombardearem os arredores de Bagdá na chamada Guerra do Golfo Pérsico, acabaram atingindo no subsolo a ancestral Biblioteca de Assurbanipal, tão bem preservada por Saddan Hussein.

    Nos trabalhos de recuperação dela, a equipe do antropólogo alemão, Ceram, acabou dando de cara com as treze tabuletas de barro restantes que finalizavam a epopéia e faltaram a Smith cem anos antes.

    Ainda dizendo respeito à Epopéia de Gilgamesh, e apesar de filho de um famoso historiador, quem soprou para o Chico o verso, “Te dei meus olhos pra tomares conta” (Eu Te Amo – 1980), dito originalmente por Gilgamesh ao falecido amigo Enkidu, ao lembrar do “Pacto dos Olhos”, quando teve que cruzar o Vale das Trevas na mesma epopéia?

    A maioria das pessoas vai atrás do que esses caras ficam dizendo das músicas que dizem deles, mas que a Arte lhes concede escrever, e esquece de conferir que um texto possa significar bem mais do que aqueles meros e limitados intrumentos se permitiram traduzir por linguagem alfabético-musical.

    Todos associam a música do Chico, Angélica, à sofrivel história de Zuzu Angel, quando a letra foi de uma grandeza bem maior do que essa parca e propagada idéia. Dê uma conferida nesta postagem, Anselmo:

    http://mpbsapiens.com/angelica/analise-de-texto/

    Tem também algumas brincadeiras que fiz, na forma de contos, mas baseados em seguras informações da História.

    http://mpbsapiens.com/amarra-arado/

    http://mpbsapiens.com/o-mestre-sala-dos-mares-conto/

    Cabe somente a cada um de nós aceitarmos o que os instrumentos dizem, ou nos propormos a eternos aprendizes do que a Mãe Arte pode nos contar.

    Grato pelo comentário e volte sempre, Anselmo.
    Dalton.

  7. 7

    Jailton said,

    March 19, 2013 @ 11:53 am

    Definitivamente este espaço engrandece por conteúdo, expressões e opiniões. Ainda não consegui ler todos os comentários, mas não pude deixar de ler o comentário da Rose, sugerido pelo caríssimo Dalton. Simplesmente um primor.

    Sobre a abrangência das letras e o que elas despertam, não vou conseguir trazer pesquisas tão bem elaboradas, mas acredito também que dependerá muito mais do estado emocional de quem é tocado por ela e seu vocabulário para se expressar, do que das intenções de letrista. Este, também concordo, um instrumento de algo muito maior que ele, aqui chamado de Arte. Nesse cenário nós, de alguma forma, também somos “instrumentos” que “tocados” propagamos para muitos mais longe esses sentimentos, através de um corrente sem fim.

  8. 8

    admin said,

    March 19, 2013 @ 4:50 pm

    Jailton:

    A Interpretação de Textos da Língua Portuguesa já foi mais uniforme. Já houve uma época em que as palavras possuiam lógicos Radicais, precedidos ou sucedidos por Prefixos e Sufixos igualmente lógicos.

    Não posso precisar quando foi que essa estrutura racional da Palavra Escrita foi perdida coletivamente na interpretação do texto, mas é fato que, hoje, tendemos à individualidade na maior parte dos entendimentos que nos cercam pelo cotidiano.

    Quando afirmo, que pouco me importa o que um certo compositor diga sobre um texto escrito por ele numa letra de música, é porque ainda acredito no dicionário para conceber uma idéia do texto à partir do significado das palavras que o formam, qualquer que seja a elegância ou deselegância de quem escreve.

    Por exemplo: – Sabendo que as palavras Princípio, Base, Estrutura e Fundamento são sinônimos; o que dizer das expressões Princípio Básico, ou mesmo Estruturas Fundamentais, que já há bom tempo povoam com deselegância a nossa realidade literária?

    O deus grego Apolo era um poeta que adorava tratar dos próprios feitos. Depois que o menino Hermes roubou uma das suas rêses, e das tripas dela inventou um brinquedo chamado Lira, Apolo só não deu um fim no moleque porque gostou do brinquedo, que passou a acompanhá-lo nas suas recitações.

    Foi assim que nasceu o termo, Lírico, como qualidade do texto que trate do seu próprio autor.

    Sendo óbvia a relação entre o Lírico e o pronome Eu, por qual razão inventaram o “Eu Lírico”?

    Talvez esteja meio por aí, pelos Princípios Básicos do Eu Lírico, a residência oficial da individualização nas interpretações de texto.

    Adoro quando o poeta nada diz após o seu texto escrito, porque gosto de acreditar no que o próprio texto disse. Como no exemplo abaixo:

    http://www.youtube.com/watch?v=L1UH93AhhN0

    Grato pela elegância e volte sempre.
    Dalton.

  9. 9

    Karol said,

    October 2, 2013 @ 9:50 pm

    Oque a segunda parte significa nao sei ainda

  10. 10

    admin said,

    October 2, 2013 @ 10:43 pm

    O que você quer dizer com “segunda parte” Karol?

  11. 11

    Felipe said,

    November 5, 2013 @ 5:09 pm

    http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_info.php?id=578&letra

    Quem falou de viagens e maioneses que viajou nesta…

  12. 12

    admin said,

    November 6, 2013 @ 10:07 am

    Felipe:

    As palavra possuem os seus significados próprios, mas quando as juntamos na forma de texto cada uma delas perde a sua essência objetiva e se entrega ao Reino do Subjetivo, e todas as interpretações decorrentes do texto são válidas, já que ninguém que se atreve a expor um pensamento seu na forma de texto torna-se Proprietário da Interpretação do Texto.

    Por exemplo, Chico Buarque escreveu a linda canção, Pedaço de Mim, onde tentou passar-nos as suas várias interpretações da pala Saudade. A música, que foi feita para a Ópera do Malandro, se refere a uma cena em que a mulher, visitando o marido preso, canta com ele a música.

    Veja o que fiz com o texto dela no vídeo que seguirá abaixo. Compare o texto de cada verso com as fotos que usei, e acabará descobrindo que o Chico foi apenas um instrumento usado por mim no desenvolvimento da minha arte, e não da dele:

    http://www.youtube.com/watch?v=EugUN75Eqmo&list=FLIp4ojngO4Hte11scgsndxQ&index=52

    Caso queira continuar a ver o que cada um de nós pode fazer com as palavras de um texto, veja este outro vídeo que fiz ontem, em que utilizei a música, Frevo Diabo (Chico e Edu Lobo) e dei às palavras do Chico uma ideia que suponho ter sido bem diferente da dele:

    https://www.youtube.com/watch?v=CxLRyKiY6Cw&feature=c4-overview&list=UUIp4ojngO4Hte11scgsndxQ

    Grato pelo comentário e volte sempre.
    Dalton.

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