Tamandaré-Análise de Texto


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A composição seguinte, segundo algumas fontes, teria sido a primeira a receber intervenção da censura e proibida pela mesma pelo fato de tratar de um nobre e histórico militar cuja estampa caracterizava a antiga nota de Um Cruzeiro.

Como nunca ficou provado nada a respeito, preferi lançar mão da dúvida, no entanto as Rimas Paralelas (verso1 rimando com 2 e verso 3 com 4) são consideradas as de colocação mais pobre na poesia, estando aí uma dúvida a respeito da composição anteceder até a Tem Mais Samba, que já apresentou uma construção poética mais elaborada e com Rimas Alternadas (verso 1 rimando com 3 e verso 2 com 4), considerada uma colocação mais nobre.               

Zé qualquer tava sem samba, sem dinheiro
Sem Maria siquer
Sem qualquer paradeiro
Quando encontrou um samba
Inútil e derradeiro
Numa inútil e derradeira
Velha nota de um cruzeiro.
                        
Seu Marquez seu Almirante
Do semblante meio contrariado
Que fazes parado
No meio dessa nota de um cruzeiro rasgado?
Seu Marquez seu Almirante 
Sei que antigamente
Era bem diferente
Desculpe a liberdade
E o samba sem maldade
Deste Zé Qualquer
Perdão Marquez de Tamandaré
Perdão Marquez de Tamandaré
                        
Pois é, Tamandaré
A maré não ta boa
Vai virar a canoa
E este mar não dá pé, Tamandaré
Cadê as batalhas
Cadê as medalhas
Cadê a nobreza
Cadê a marquesa, cadê?
Não diga que o vento levou
Teu amor, até
Pois é, Tamandaré
A maré não ta boa
Vai virar a canoa
E este mar não dá pé, Tamandaré
Meu marquez de papel
Cadê teu troféu
Cadê teu valor
Meu caro almirante
O tempo inconstante roubou
                        
Zé Qualquer tornou-se amigo do marquez
Solidário na dor
Que eu contei a vocês
Menos que queira ou mais que faça
É o fim do samba, é o fim da raça
Zé Qualquer ta caducando
Desvalorizando
Com o tempo que passa, passando
Virando fumaça, virando
Caindo em desgraça, caindo
Sumindo, saindo da praça
Passando, sumindo
Saindo da praça

No começo dos anos 60, a nota de um cruzeiro era capaz de pagar uma engraxada. Com ela eu conseguia comprar dois picolés e alguns morteiros (fogos). Valia muito.    

Desde 1956 o samba tradicional estava sendo desvalorizado pela imprensa em benefício da bossa nova, levada por três figuras principais: um maestro (Tom Jobim), um poeta (Vinícius de Moraes) e um músico que havia dado ao violão uma batida diferente (João Gilberto).       

Os dois primeiros conseguiram levar a tradição da MPB para a geração seguinte de compositores como Edu, Vandré, Chico, Caetano, Gil, Miler, Paraná, Caymis, Vales etc. O terceiro está até hoje na batidinha, pois só fez isso.

Numa famosa Carta ao Tom, Vinícius conta que na sua vida de constante exilado sentia saudades do Brasil. Embora estivesse cercado pela bossa do violão de Baden Powell, contou que nesses momentos só conseguia lembrar do samba tradicional, compondo então Formosa.    

Tal episódio também ficou marcado por uma observação do crítico Ruben Braga a Vinícius no momento em que escrevia a carta que continha isto: “…pode-se pensar quando muito na mulher amada…comendo papos de anjo…”, no que Ruben observou: – Não seria melhor apenas pensar em papos de anjo comendo a amada?         

Tamandaré foi escrito numa época em que os críticos ainda tinham a rapidez do raciocínio crítico para intervir num texto de Vinícius sem que o mesmo pudesse discordar muito da crítica sem se comprometer…        

Infelizmente, ao contrário do ocorrido com Vinícius e Tom, Ruben Braga, Antônio Cândido etc. não deixaram herdeiros nos jornais. Só alguns eventuais franco-atiradores.

        

 

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  del.icio.us isto!

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