Superbacana (Caetano Veloso) – Análise de Texto
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| Nas postagens anteriores, Essa Moça Tá Diferente e Lunik-9, tratei das |
| distintas formas como diferentes poetas interpretaram à quebra dos seus |
| ancestrais motivos de inspiração, como banda, realejo, lua; pela feroz entrada |
| da televisão na vida deles. |
| Citei a peça Roda-Viva, do Chico Buarque, como uma denúncia contra esse |
| tipo de manipulação da carreira do artista pela mídia e mostrei como Gilberto |
| Gil reagiu a toda essa nova realidade das telas nas composições musicais. |
| Continuo o assunto com uma composição do Caetano Veloso que, ainda |
| bem jovem, sofreu esse tipo de intervenção pelo povo concretista que |
| habitava a crítica da folha de São Paulo, sendo portanto, a composição a |
| a seguir, uma espécie de depoimento dele de como enxergava ao quadro. |
| Quando queremos dominar o comportamento de um jovem, temos várias |
| estratégias de ação, e dentre elas, a jogada do Elogio, que suponho ter sido |
| o argumento daquele povo velhaco para puxar o Caetano para o lado dele. |
| Enquanto Gil sempre teve uma visão mais contudente do quadro social que |
| o cercava, Caetano, como bom baiano, sempre deu uma idéia do tanto faz, |
| e muitas vezes foi mal interpretado por isso, no entanto, esse joguinho do |
| descompromisso era apenas uma armadura do artista para manter a sua |
| essência poética fora do alcance, naquela jogada do Ser x Parecer. |
http://roda-viva-disparada-claro-enigma/ |
| Diante de toda aquela oferta de elogios, Caetano se defendeu assim: |
| Toda essa gente se engana |
| Ou então finge que não vê que eu nasci |
| Pra ser o Superbacana |
| Eu nasci pra ser o Superbacana |
| Superbacana, Superbacana |
| Superbacana |
| Super-homem, Superflit, Supervinc, Superist |
| Superbacana |
| Estilhaços sobre Copacabana |
| O mundo em Copacabana |
| Tudo em Copacabana |
| Copacabana |
| O mundo explode longe, muito longe |
| O sol responde |
| O tempo esconde |
| O vento espalha |
| E as migalhas caem todas sobre |
| Copacabana me engana |
| Esconde o superamendoim |
| O espinafre, o biotônico |
| O comando do avião supersônico |
| Do parque eletrônico |
| Do poder atômico |
| Do avanço econômico |
| A moeda número um do Tio Patinhas não é minha |
| Um batalhão de cowboys |
| Barra a entrada da legião dos super-heróis |
| E eu superbacana |
| Vou sonhando até explodir colorido |
| No sol, nos cinco sentidos |
| Nada no bolso ou nas mãos |
| Um instante, maestro! (consagrada frase do maestro Flavio Cavalcanti) |
| Super-homem Superflit |
| Supervinc, Superist |
| Superviva, Supershell |
| Superquentão |
| De repente, aquele jovem compositor, supervalorizado pela mídia, por |
| alguns momentos se sentiu ridículo diante daquilo, e misturando os valores |
| infantis aos novos que se ofereciam, se transformou no Super-Tudo. |
| Misturou valores dos gibis do Tio Patinhas a outros, tidos como mais |
| adultos, como Avanço Econômico. A coisa ganha um pouco mais de |
| lógica quando se sabe que toda aquela “piscina de dinheiro”, exemplo da |
| riqueza do Tio Patinhas, se deveu à famosa e oculta Moeda Número 1. |
| Se percebe que parte do texto de Superbacana foi tirado da composição |
| Alegria-Alegria, só que com uma nova visão, muito mais realista, daquele |
| mundo que o cercava como artista. |
| Se por um lado: |
| O sol nas bancas de revista |
| Me enche de alegria e preguiça |
| Quem lê tanta notícia? |
| Mostra a reação de um garoto, mais interessado no gibi do Tio |
| Patinhas, que diante daquela oferta toda de notícias, comum a uma |
| banca de jornais, tenha se explanado daquela maneira, por outro: |
| Sem lenço, sem documento |
| Nada no bolso ou nas mãos |
| Eu quero seguir vivendo |
| Amor |
| Mostra que, buscando se livrar daquele jogo todo de interesses da mídia, |
| tenta voltar a um tempo menos exigente, além de sugerir, que a despeito |
| da Super-Propaganda ao redor do seu nome, continuava quase tão |
| “duro” quanto antes, já que a fatia maior do dinheiro, resultante da |
| exposição do artista e sua arte, sempre fica nas mãos dos empresários. |
| Os compositores musicais da época sabiam que faziam algo que os |
| diferia do povo. Se por um lado tinham uma condição de vida bem |
| melhor do que a maioria do povo para o qual a sua arte era negociada, |
| por outro, tal situação os chateava, mais ou menos, mas incomodava. |
| Essa leveza baiana, com que Caetano Veloso enxergava a Roda-Viva |
| do Chico Buarque era descrita na época, pelo também baiano Gilberto |
| Gil, de outra forma mais contundente. |
| É o que veremos na próxima postagem. |
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Superbacana (vídeo de LeandroRJ)
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