Sabiá-Análise de Texto

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Já morando na Itália, Chico e Marieta acabaram por hospedar Toquinho com eles. Ao mesmo tempo em que eram amigos, desde a época pré festivais, Toquinho também era parceiro de Vinícius de Moraes nas composições musicais.

Desconfio até que a presença do Toquinho lá pela Itália, junto com o casal, tenha vindo de algum acordo do pai do Chico com o amigo Vinícius, ambos preocupados com seus filhos natural e “adotado”.

Como diplomata, o constante trânsito internacional dava a Vinícius a categoria de “Eterno Exilado”, e tal aspecto permitiu que se prestasse como uma espécie de Correio Confiável, já que por aqui, na época, a correspondência vinda de qualquer suspeito era digna de censura.

Para se ver a falta de estrelismo de alguns compositores, que se sabiam nobres, Tom Jobim mandou por Vinícius uma fita contendo uma melodia para que Chico a recheasse com letra. Sugeriu a um velho parceiro, e consagrado poeta, que pedisse a outro poeta o favor de letrar a melodia?

Sem qualquer constrangimento, Vinícius levou a fita contendo a melodia do Jobim e entregou ao Chico, conforme combinado.

Para entender o conteúdo do recheio que Chico deu à melodia do Jobim, convém lembrar um pouco da realidade em que ele se encontrava na ocasião:

1 – Tinha saído do Brasil por vontade própria.

2 – Tal exílio espontâneo, como já suspeitei nos posts anteriores, tinha começado, de forma interior, quando ainda morava por aqui.

3 – Por mais que não gostasse da nossa situação social, tinha saudades da terra, o que é comum aos nativos.

4 – Quando se está longe de casa, lembra-se primeiro dos estandartes culturais da História, associando-os à realidade presente no novo habitat.

Creio que baste. Como estava exilado, ainda que de forma espontânea, ao abandonar uma realidade social que não satisfazia, a saudade nativa buscou na nossa literatura um poema de Gonçalves Dias, 1847, famoso pelos versos iniciais, só se lembra mais destes: 

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá… 

Talvez pelo fato de ter um texto exagerado em nacionalismo, o poema, para os jovens das décadas de 50, 60 e 70; era bem chato e nem um pouco memorizável. Justamente por esse motivo só os quatro primeiros versos bastavam para justificar o Sabiá do Chico, acontece que ele costumava ler os poemas inteiros, e esse, que tem o interessante nome de Canção do Exílio, apresenta também estes versos:

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá
 

Em termos do contexto direto de Sabiá, tais versos pouco somariam à conceituação:

- Tudo bem, ele não morreu e sabia que iria “Voltar”, como disse muitas vezes desde o primeiro verso!

 Quem assim pensasse estaria cometendo um grave engano, pois o universo literário do Chico é capaz de buscar informações em diversas partes, tais como nestes versos:

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá…
 

Ocorre que esses versos, de Guilherme de Almeida, além de dois deles serem iguais aos da Canção do Exílio, são também parte do Hino da FEB (Força Expedicionária Brasileira).

Estaria a engenhosidade do Chico se divertindo com os marionetes militares que deixara no Brasil?

Pode até ter ocorrido isso, mas a coisa fica mais interessante quando a História conta que os Expedicionários ficaram mais conhecidos pela tomada do Monte Castela, na Segunda Guerra Mundial, e tal monte ficava na mesma Itália que Chico escolhera para o Auto-Exílio Oficial.

Pode ser até que Chico não tivesse construído a letra de Sabiá com essa idéia na cabeça, mas que ela existiu, não tenho dúvidas, pois é História Oficial aceita até por quem costuma ilustrá-la com lindos “Passarinhos”, a imprensa. 

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
      
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra de uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia
     
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos de me enganar
Como fiz enganos de te encontrar
Como fiz estradas de me perder
Fiz de tudo e nada e te esquecer
     
Repete a primeira estrofe 

Sabiá concorreu num festival de 1968, interpretada por Cynara e Cybele, que teve também a composição Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores (Geraldo Vandré). 

Suspeitando encrencas com a censura e sem avisar o Chico, Jobim adicionou uma estrofe no final: 

Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida já vai chegar
E que a solidão vai se acabar – bis  

Talvez, graças a isso Sabiá passou de fase, porém, se compararmos o texto extra com o anterior, notaremos que o segundo tornou o primeiro apenas uma espécie de desabafo e jogou o Chico Letrista num time bem comum à época da ditadura: A turma do Eu Te Amo Meu Brasil!

 Sem saber de nada, Chico voltou ao Brasil para a finalíssima e encarou a um auditório em alvoroço e protesto. Ainda sem saber de nada, ficou lá em pé, feito bobo, escutando, ao que dava para se escutar da doce interpretação, debaixo da maior vaia da história dos festivais. Escutou a estrofe extra de Jobim, virou as costas e voltou pra Itália.     

Quem me contou o ocorrido foi Ana Buarque, irmã dele, depois que eu disse a ela ter estranhado o final da composição. Primeiro porque  apresentou, pela primeira vez, uma repetição de rimas já usadas por Chico em Carolina, e segundo por não ser do seu estilo ferir e fazer curativo na mesma composição.

Chico não usa uma rima de duas palavras mais de uma vez. Triste com Existe, em final de verso e com a mesma ordem, pertencem só à Carolina. Podem ocorrer numa cruzada, mas nunca em final. Quanto às guerras nas composições, sempre atira depois e ainda se faz de arrependido.

 Para a minha sorte, consegui um compacto do Vandré assim que saiu, o que aconteceu logo depois da primeira apresentação na fase  classificatória. Eu estava lá no festival. Procurei algum panfleto com as letras, não consegui e pensei:

- Pôrra, lá em S.Paulo nunca foi assim, pois o que mais faziam era propaganda em panfletos que continham as letras das composições concorrentes!

Ao escutar o disco estranhei um grupo de pessoas aplaudindo à fatídica terceira estrofe:  

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão… 

…antes mesmo de Vandré começar a cantá-la.               

Se não havia panfleto algum com as letras, como é que aquele grande grupo sabia do conteúdo da terceira estrofe antes mesmo de ser iniciada? Será que algum Anjo os havia contratado para baterem palmas?

Era somente um fragmento do texto, pois no restante dele Vandré incluiu os militares no mesmo barco em que estávamos.

Aliás, a obra do Vandré foi fundamental para o desenvolvimento do enredo, anterior e posterior, da do Chico. Assim sendo, colocarei, neste ponto cronológico da MPB, a essência filosófica do Vandré como Premissas responsáveis pelas Conclusões do Chico, que em algumas composições respondeu nitidamente a Vandré e vice-versa.

A análise de Sabiá continuará depois, visto que gerou uma outra Novela da MPB com um rico diálogo cultural dos dois maiores pensadores sócio-musicais da época:

- Quem pode garantir que o próprio Sabiá não foi uma carta filosófica do Chico, endereçada ao Vandré, como resposta a uma possível cobrança deste, numa espécie de tira-teima do Festival de 1966, quando empataram com A Banda e Disparada?

Ambos eram grandes compositores, e por se suspeitarem assim, estendiam suas grandezas à Ética e à Elegância, qualidades natas dos que se sabem nobres e se bastam.

Próxima – > http://mpbsapiens.com/pois-e-analise-de-texto/
        
  del.icio.us isto!

12 Respostas até o momento »

  1. 1

    Glauber said,

    junho 20, 2009 @ 9:01 pm

    Parabéns pelo resgate na história desses grandes nomes da música, e para não dizer da literatura. Parabéns ao criador deste texto, pois fez uma belíssima comparação entre Canção do Exílio e Sabiá, levando-nos a conhecer os motivos que levou Chico a se “vestir” do poema de Gonçalves Dias.

  2. 2

    admin said,

    junho 21, 2009 @ 9:06 am

    Glauber!

    Se por um lado entristece o fato de ter que resgatar ao que já deveria ser histórico e presente na Literatura Brasileira, há muito tempo, por outro alegra-me escutar o eco vindo de pessoas conscientes como você.

    Grato!

  3. 3

    Meirielza said,

    maio 31, 2010 @ 12:28 pm

    Muito Obrigada pela análise, me ajudou a descartar algumas duvidas sobre esse periodo… e a realizar meu trabalho… obrigada

  4. 4

    admin said,

    maio 31, 2010 @ 12:45 pm

    Meirielza:

    Fico feliz por tê-la ajudado no trabalho, e mais feliz ainda por você, elegantemente, ter agradecido.

    Volte sempre.
    Dalton.

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    Tales Rodrigues said,

    dezembro 30, 2011 @ 7:04 pm

    Ótima matéria, me ajudou muito a entender o “background” dessa composição do Chico
    Só sobre o penultimo parágrafo:
    Parece que o Chico havia pedido ao diretor do festival que Vandré ficasse com o primeiro lugar, ou então entregaria o prêmio ao mesmo
    Segundo relatos do jornalista que mantem os papéis da votação até hoje, Chico teria 7 votos contra 5 de Vandré
    No momento estou sem a fonte, mas assim que acha-la eu posto aqui em futuros comentarios, abraçoes

  8. 8

    admin said,

    dezembro 30, 2011 @ 7:21 pm

    Tales:
    Houve isso sim, mas no festival de 1966, quando ocorreu o empate entre A Banda e Disparada. Eu estava até próximo quando ele avisou: – Sozinho, eu não canto!

    No festival de 68, se soubesse o que o Jobim fizera com o final da letra de Sabiá, nem teria vindo da Itália.

    Grato pela visita, pela disposição em colaborar e volte sempre.
    Dalton.

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