junho 12, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça, Texto
…No milagre desmascarado
E, no entanto
Ainda quis me defender
Ainda me expliquei
Não fui eu que comecei
Não fui eu que me inventei
Mas aí a festa me chamou
E eu aceitei
O rei me convidou
E eu dei-lhe a mão…
Se me pedissem para resumir em poucas palavras a peça Roda Viva, esse trecho retirado da declamação de Ben Silver ao amigo Mané bastaria, pois todo o restante dela foi feito para explicar a essa passagem.
Foi uma espécie de honesta auto-biografia do conjunto Chico – Francisco nos seus poucos 3 anos de carreira, e talvez esse seja o real motivo pelo qual a sua equipe de Anjos e Capetas insista em furtá-la de um melhor esclarecimento público até hoje.
Quando assisti à peça contava apenas com 16 anos. Como nessa idade se usa espernear feito criança, quando não tratado como adulto, valia tudo para protestar. Até aplaudir “Arremessos de Fígado” na platéia, como de fato ocorreu na peça.
Roda Viva teria todos os ingredientes necessários para que nós, jovens de então, recebêssemos uma lição histórica acerca dos meandros do Poder Invisível, que assolava e cercava o Visível dos Militares, através dos veículos de comunicação.
Infelizmente a direção da mesma, talvez propositalmente, acabou por transformá-la em algo semelhante a um programa contemporâneo do Chacrinha, em que oferecia e arremessava coisas no público: “- Vocês querem Bacalhau???”.
Imaginemos o que poderia estar se passando pela cabeça do jovem compositor de 24 anos, cujo pai era um famoso sociólogo, logo, ciente desses movimentos sociais, sentindo o seu talento literário disputado a tapas por dois “Reis”:
- Um europeu, com o trono perdido 10 anos antes, e um americano que lhe sucedera nessa absurda Dinastia Capitalista.
Ainda na sua infância artística, ao ser cobrado pelo “velho poeta” do súbito sucesso na carreira (A Banda), e, talvez, por desconhecer a parte da História à qual o próprio pai participara – Semana Literária de 1922 – Chico não tenha se dado conta de que ambos, o pai e o velho poeta, na tal Semana já podiam ter igualmente recebido os mesmos benefícios e estendido as mãos ao mesmo Rei, só que europeu.
A peça começou a ser escrita em 1967, quando Chico escreveu, e inscreveu, a composição Roda Viva. Acima de qualquer competição dos Festivais, pulsava uma reação honesta do artista a todas essas pressões da mídia, justificada por:
A gente vai contra “a corrente”
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a Roda Viva
E carrega a roseira pra lá
Logo após esse festival, um dos Capetas de São Paulo começou a bagunçar os caminhos da MPB, pois tivemos nas 4 primeiras colocações Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico e Caetano, respectivamente.
Esses quatro compositores poderiam, caso se unissem no propósito da Cultura Popular, fincar de vez as raízes históricas da Razão em nossa consciência artística, mas sendo jovens e entusiasmados com os próprios sucessos, se tornaram presas fáceis dos múltiplos tentáculos do “Polvo Capeta”.
Tínhamos em São Paulo dois Capetas: Um fiel aos interesses europeus, e outro representando à nova realeza americana.
Chico possuia, em atavismo e genética, maior proximidade dos europeus, no entanto estava, profissionalmente, sujeito à chefia americana.
Como se não bastasse esse jogo dos Bastidores do Poder extra militar, havia sido lançado no meio artístico por ninguém menos que Geraldo Vandré, na composição Sonho de Um Carnaval.
Ao escrever a peça, e praticamente assumir a identidade do Ben Silver, Chico acabou dando um mote a Vandré, que talvez por gozação, usou as flores finalizantes dela para escrever a composição “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, inscrita no Festival de 1968, cujo texto apresenta, em um dos fragmentos, a seguinte resposta a Chico:
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções*
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Obs. * “Tijolo por tijolo num desenho lógico” seria uma parede erguida pelo Pedro Pedreiro na Construção, ou uma jovem Lira Poética tentando dizer algo?
Vandré apenas deu um refresco a Chico, pois generalizou o ”assédio” da mídia a todos os artistas, mas não deixou também de alerta-los no trecho final da música:
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A História na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma “nova lição“
Caberia a cada um dos colegas compositores entender o recado do Vandré e optar.
Os articulistas concretistas do tal Capeta Americano conseguiram convencer Gil e Caetano a desenvolverem na MPB um movimento conhecido como Tropicalismo onde, segundo Caetano, tentavam até enfear às letras mas não conseguiam.
Edu Lobo resolveu estudar melhor as suas melodias e sumiu do mapa. Chico continuou na dele, se mandou para a Itália, mas bem incomodado com o fato de ter tentado abrir o jogo, os demais colegas terem fugido da ráia e ele ficado só na questão.
Suspeito até que a ida para a Itália, logo após a peça, já estivesse programada pela dupla Capeta-Anjo, européia, que no futuro o comandaria, antes mesmo da peça ser exibida.
A quantidade de “coincidências” dos caminhos do Ben Silver, que foi transformado no exportável Benedito Lampião, e o da sua esposa-irmã; com os fatos que cercaram os dias de Chico e Marieta Severo, nas imediatas fases pré e pós peça, apenas o sugerem bem possível.
Nos meus estudos preliminares, dessa fase da MPB, acreditava que Chico realmente havia sido mandado para fora do país e se consumado formalmente um Exílio no qual ele optara por passar na Itália.
Imaginava também que, curiosamente, antes mesmo de estar fora do Brasil, já compunha como um exilado, haja vista que algumas composições imediatas futuras possuem os textos com características de terem sido feitos por alguém fora do país. Retrato em Branco e Preto, por exemplo.
Essa fase chamei de Auto-Exílio-Interior. Tudo isso, somado ao que aconteceria com Sabiá, no mesmo Festival de 1968, acabou dando ao Chico uma idéia de Traição aos amigos, companheiros, ou mesmo ao povo brasileiro.
Sentimento esse que nos rendeu belíssimos resultados, frutos da sua consciência, dentre os quais destaco Calabar, O Elogio da Traição, aonde se projetou no personagem Sebastião Souto.
Não me furtarei a melhor explicar esses movimentos ocorridos nos Bastidores do Poder, pois a partir da peça Roda Viva a obra do Chico virou uma romântica e idealística Novela Literária.
Uma novela cheia de linguagens cifradas, nas quais enxerguei a divertidas batalhas entre o que ele, talvez, quisesse dizer e o que os jornais diziam ter Chico dito contra os militares.
Mostrarei adiante o próprio Chico sendo mais claro ainda acerca do tema. Não percam a ousadia do Auto-Exilado, pois não foi mandado embora coisa alguma, logo, o que se afigurou como Tragédia Histórico-Literária, nada mais foi do que uma Bonita Comédia de Bastidores do Poder, visto que voltou da Itália bem acertadinho com a sua nova gravadora, a Phillips.
del.icio.us isto!
jeanete gouvea said,
julho 11, 2008 @ 11:16 pm
Parabéns! Análise bastante correta, a crítica é a função do intelectual, né?
É bom ver as questões colocadas nos seus devidos lugares. Mas, ainda hoje, há quem diga que Vandré fez “Pra Não Dizer…”, para os militares; ele teria dito numa entrevista que foi alerta aos militares… Como se explica?
Bjs