Roda Viva Disparada, um Claro Enigma-Análise de Texto
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Festival de 1967
Comecei a tratar do exílio interior do Chico em Sem Fantasia, pois vejo nela a efetivação do mesmo, mas será que ele não teria dado alguma pista anterior? Quando ele teria aceitado, pra si mesmo, àquela condição subjetiva iniciada em Sem Fantasia?
Da metade dos anos 60 ao princípio dos 70 um escritor francês era muito lido pelos jovens mais dados à cultura: Jean Paul Sartre, que abordava às questões existencialistas de uma forma mais atual que Freud, até então tido como o grande parâmetro.
Creio que a obra de Sartre tenha influenciado, ou se assemelhado, ao que posteriormente Carlos Drummond de Andrade chamaria de Claro Enigma onde, em síntese, observava o poeta em dois estados de contemplação: Ser e Parecer.
O Ser era a verdade interior e o Parecer o verniz social.
Algo semelhante ao que, também na época, só que em outra vertente social, o escritor Carlos Castañeda desenvolvia com o seu gurú, o índio Don Juan. Duas Atenções: a de Espreita e a de Sonho.
A de Espreita conduzia o Parecer, a do Sonho era a essência do Ser, e o equilíbrio delas permitia ao contemplador alcançar o sucesso do Feiticeiro ou do Poeta, dá no mesmo.
Essa era a base literária, que cercava os jovens cultos da época, quando Chico escutou, em 1966, o seguinte pensamento musical:
E no sonho que fui sonhando
As visões se clareando Até que um dia acordei Então não pude seguir Valente, lugar-tenente E dono de gado e gente Porque gado a gente marca Tange, berra engorda e mata Mas com gente é diferente Se você não concordar Não posso me desculpar Não canto pra enganar Vou pegar minha viola Vou deixar você de lado Vou cantar noutro lugar… (Disparada – Geraldo Vandré e Théo de Barros) Tem dias que gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda viva E carrega o destino pra lá (Refrão) Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá Refrão A roda da saia, a mulata Não quer mais rodar não senhor Não posso fazer serenata A roda de samba acabou A gente toma a iniciativa Viola na rua a cantar Mas eis que chega a roda-viva E carrega a viola pra lá Refrão O samba, a viola, a roseira Um dia a fogueira queimou Foi tudo ilusão passageira Que a brisa primeira levou No peito a saudade cativa Faz força pro tempo parar Mas eis que chega a roda viva E carrega a saudade pra lá Refrão (repetido e acelerando)Como sempre ocorrerá na obra do Chico o uso da nomenclatura dos recursos poéticos, como reforço do texto objetivo dos versos, por coincidência ou não, cada vez que observar isso citarei aqui neste espaço, pois são essenciais à análise objetiva, ficando o estudo da estrutura poética reservado ao espaço respectivo em outra postagem.
A presença da mesma rima nos versos finais das estrofes grandes (lá) já caracterizaria a composição como Lírica, cujo uso mais nobre, ao longo dos anos, por ocorrer em Oitavas, fez com que a Ciência Poética batizasse a esse tipo de estrofe com o nome de Oitava Lírica, como ocorreu em Roda Viva.
Se a rima final das oitavas já daria à Roda Viva a qualidade de Lírica, tal intenção é reforçada pelo fato de todas as oitavas terem todas os mesmos dois versos finais. Isso não foi coincidência, mas um efeito bem intencional mesmo.
É sempre necessário lembrar do significado original do termo Lírico, que mostra, acima de qualquer outro conceito, que o poeta está falando da própria vida no poema em questão. (vide Meu Refrão).
Uma outra coincidência, que observarei muitas vezes adiante, é a do uso de alteração na Métrica (comprimento do verso), ou do Ritmo Poético (tonicidades das sílabas poéticas); a chamar a atenção para algum texto objetivo de verso.
Cada verso das estrofes oitavas possui oito sílabas no comprimento, e tonicidades nas sílabas dois, cinco e oito, menos um deles, o quarto verso: Ou FOI o MUN do-en TÃO que cres CEU; que além de ser o único a possuir nove sílabas, possui um Ritmo diferente de todos os demais na obra inteira. Basta ler o texto do verso e encontraremos a qualidade “Cresceu“.
Coincidentemente, isso ocorrerá diversas vezes na obra. Ora para reforçar o sentido objetivo do texto, ora para negá-lo e assim por diante.
Outra coincidência interessante ocorre nas Rimas ao longo da estrofe. Todos os versos têm um parceiro sonoro na estrofe, mas, de repente, surge um cujo som não se apresenta em nenhum outro, havendo uma ausência de Rima.
A esse tipo de verso dá-se o nome de Verso Branco. Basta interpretarmos o texto objetivo do mesmo para, na grande maioria das vezes, termos nele alguma idéia de Solidão, embora em Roda Viva Chico não tenha usado de tal coincidência.
Além do já visto até aqui, Chico tentou um efeito poético, que buscou chamar maior atenção para a expressão Roda Viva, usando duas sílabas tônicas seguidas, algo condenável na poesia latina, mas corriqueiro na poesia grega clássica com o nome de Pé Espondeu, um pé de verso quaternário (quatro tempos) que apresenta a seguinte sequência de tonicidades no ritmo: átona-tônica-tônica-átona. Não me atreveria a dizer que foi o único poeta brasileiro da MPB a tentar isso, mas certamente foi um dos poucos. Na composição Carolina voltará a fazê-lo com o mesmo truque de alongar o tempo de duração da nota musical, normalmente Semínima trocada por Colcheia, que abriga a segunda sílaba tônica do Pé, como que dando um breque:
mas EIS que che GA-A RO da VI va
O texto da composição bem que poderia ser uma profecia do que viria a acontecer com a MPB nos tempos modernos, principalmente a última estrofe.
Analise de Texto de Roda Viva (a música)
A primeira estrofe mostra o Ser do poeta atônito espreitando todo o Parecer que o cerca e exige. Aqui, aquele, até então adolescente, sente o peso da responsabilidade escalando as suas costas.
A segunda, o Refrão, se presta a explicar a atitude do Ser poético diante de toda aquela sujeira destrutiva do Parecer social, o que se repete após cada Oitava.
A terceira já mostra o choque dos sonhos do poeta no Ser com a contrastante postura exigida pelo verniz do Parecer.
A quarta e a quinta só descrevem a destruição total, causada pelo Parecer, das bases poéticas que abrigam os motivos Ser.
A execução do Refrão no final, quando Chico e o MPB4 aceleraram as repetições, serviu para dar uma idéia da rapidez com que aquela loucura do cotidiano acelerava a poesia, que nem um trem aumentando a velocidade, aliás, Chico sempre buscou esse efeito desde o trem de Pedro Pedreiro.
Comparando todo esse resultado textual a uma composição mais recente, destinada até a motivos outros, vejam o que o compositor Peninha diz:
Tudo era apenas uma brincadeira E foi crescendo, crescendo e me absorvendo E de repente eu me vi assim completamente seu…Foi mais ou menos isso o que aconteceu com Chico na época, em relação a Ser e Parecer, ou mesmo ao Sonho dominado pela Espreita.
Em outra época adiante, nem tão explicativo, mas igualmente pessoal, vejam o que Gilberto Gil cantou:
Sabe, genteÉ tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer Sabe, gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder Sabe, gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer E quando escutar um samba-canção.
Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”.
Reagir e ouvir o coração responder:
“Eu preciso aprender a só SER.”
Obs. Percebam o conceito do termo Lírico que coloquei no começo. Basta reparar na som das rimas pertencentes a cada último verso das estrofes. O poeta pode nem saber disso, mas resulta naturalmente nisso, quando o Ser fala e o Parecer cala.
Mas isso veio bem depois do Festival da Record, em 1967, no qual Chico concorreu com Roda Viva, alcançando o terceiro lugar.
A nata da MPB estava lá, nas quatro primeiras colocações. Todas realizando os sonhos de continuidade dos ancestrais, embora ainda atuantes, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi.
Curiosamente, todos os quatro compositores tratavam do mesmo assunto em suas canções, cada qual no seu estilo e linguagem. É sempre bom lembrar o que foi, e ainda é, valioso e atemporal, aqui vai cada uma das composições, mas em distintas postagens. Até lá.


































