Roda Viva Comparada – Interpretando Textos
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Tropicália – Vídeo de JazzySimpleton
No tópico anterior mostrei as letras de dois sambas que tratavam mais de aula ufanista de História do Brasil, um satírico Samba do Crioulo Doido e uma composição que serviu como estandarte do movimento Tropicalista criado por um jornal de S.Paulo.
Nos anos 60 a matéria Língua Portuguesa usava interpretar textos baseados nas Histórias Oficiais comparadas às Contemporâneas, que abrangiam os últimos 20 anos.
Num período em que se lia mais do que se ouvia, e quase nada se via, a televisão era encarada como a temida “Máquina de Ensinar”, citada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo (1931).
A Locução Roda Viva já era Adverbial e significava um incessante movimento, ou uma Barafunda, ou Azáfama. Em suma, Roda Viva era uma Inquietação Social que Chico transportou para o cotidiano artístico como um Advérbio de Modo ou Conduta.
A História Econômica do Brasil contava do pagamento da nossa Dívida Externa, contraída por D. Pedro I junto aos credores ingleses, por ocasião do Reconhecimento da Independência; ocorrido com Getúlio Vargas em seu segundo mandato.
Contava também a História dos novos pedidos de empréstimos estrangeiros, feitos por Juscelino Kubitscheck aos credores americanos. Em suma: – Desde a oficial proclamação da nossa independência estávamos dependentes dos credores ingleses.
Nem bem Getúlio a proclamou novamente, só que, daquela feita, em forma plena e irrestrita; enveredávamos por nova dependência financeira, só que nas mãos de diferentes credores.
Não sei de que forma hoje é abordada tal época da nossa História Econômica, mas essas informações acima faziam parte dos conteúdos de duas disciplinas escolares – Educação Moral e Cívica – Organização Social e Política do Brasil – para os alunos dos chamados Cursos Científico, Clássico ou Normal dos anos 60.
A partir dessas informações oficiais das redes pública e privada da Educação nos anos 60, tentemos interpretar os textos que Sérgio Porto e Caetano Veloso deram às respectivas composições Samba do Crioulo Doido e Tropicália.
Sérgio bagunçou a História oficial, mas se nota que ele cita JK logo no início, cita a princesa Leopoldina, esposa oficial de D. Pedro I, associada a Tiradentes, um ícone da Liberdade, mas tão mineiro quanto o JK.
Em seguida diz que Tiradentes viajou de Minas para São Paulo, se associou a D. Pedro, acabou com a Falseta e “Proclamou a Escravidão”, para finalizar contando que “o trem (da História) tá atrasado ou já passou”.
Vejamos agora o que Caetano Veloso, talvez de forma tão subjetiva quanto Sérgio Porto, disse em Tropicália:
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
O surpreso Migrante Nordestino, nos chamados “Caminhões Paus de Arara”, chegando às metrópoles, com o pensamento voltado aos “Chapadões”, que sabemos estarem em Minas e Brasília.
Eu organizo um movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro um monumento
No Planalto Central
Do país
O movimento organizado era o Concretismo, a orientação do carnaval era a exigência dos enredos históricos, e o monumento do Planalto Central é obviamente Brasília.
Viva a bossa sa sá
Viva a palhoça, ça ça ça çá
Tanto o movimento literário, quanto o monumento Brasília, como a Bossa Nova foram obras de uma mesma causa: Novas e caras realidades virtuais brasileiras em confronto com a paupérrima situação social do povo surpreso nas suas Palhoças.
O monumento é de papel crepom e prataOs olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
Brasília, em essência, misturou o material barato das alegorias das escolas de samba com algum luxo caro. Coisa de Novo Rico mesmo, que, por estar cercada pelas selvas, se isola e guarda dos pobres sertões nordestinos que a construiram.
O monumento não tem portaA entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão.. Viva a mata ta tá
Viva a mulata ta ta ta tá.
Aqui o paradoxo descritivo cresce, mas não deixa de sugerir o quanto tal “nebulosa” iniciativa deva ter custado ao povo miserável estampado na criança.
No pátio interno há uma piscinaCom água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Abaixo da rampa do Palácio do Planalto tem a Piscina Amaralina, com faróis submersos. Por cima da rampa passam ventos e sotaques diversos do nordeste, homenageando ao mesmo povo usado na construção.
Na mão direita tem uma roseiraAutenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis…
Viva Maria ia iá
Viva a Bahia ia ia ia iá
Enquanto, no monumento-sede, o braço direito da mídia, ou mesmo do “Rei” ao qual ela pertence, sugere flores eternas, em seus quintais os urubus fazem a festa sobre a carniça da simplória Maria, da Bahia…
No pulso esquerdo o bang-bangEm suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança um samba De tamborim
O pulso esquerdo da mídia sugere ter ela vindo do faroeste americano, no entanto é fria e calculista o bastante a seu coração comandar até as batidas dos nossos tamborins (eu oriento o carnaval).
Emite acordes dissonantesPelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim…
Viva Iracema ma má
Viva Ipanema ma ma ma má
Os cinco mil alto-falantes demonstram o Poder dos olhos grandes da mídia sobre o Pobre Artista Nativo, ainda preso à imagem da folclórica e famosa conterrânea índia, Iracema, em contraste com a realidade social vivida por ele na Ipanema do sudeste.
Se Caetano quisesse prender a idéia mais à televisão, poderia até usar:
Emite acordes refletores / Pelos cinco mil receptores
Domingo é o fino-da-bossaSegunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem
Viva A Banda da dá
Carmem Miranda da da da dá…
Aqui o Caetano fala do seu cotidiano que lhe alterna a atenção entre as realidades do Ego e da Profissão, associando um sucesso recente do Chico ao anterior da Carmem Miranda, pelo mesmo poder da mídia americana e, de leve, coloca o Roberto Carlos no time dos artistas “Amigos do Rei”, já que usa um pensamento de uma das composições mais famosas dele: “E que tudo mais vá pro inferno”.
Repito: Embora colocados em diferentes times pela mídia, Chico e Caetano falaram da mesma Roda Viva que os assolava. Um da sua ação direta nele e outro dos meandros do poder que a mantinha.
…O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
- Quem lê tanta notícia?…
…Pedro pedreiro, penseiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem…
Eu vou, por que não…?
Por que não?
…O o oô oô
O trem tá atrasado ou já passou…



































jeanete gouvea said,
julho 11, 2008 @ 11:32 pm
Dalton, adorei a interpretação que vc fez do Samba do Crioulo Doido e Tropicália… Era isso mesmo que estava acontecendo e o pessoal amordaçado,
fazia verdadeiros malabarismos para denunciar e até mesmo, em alguns casos,autocriticar-se sem parecer que estava abrindo mão de convicções…
Bjs
Márcia said,
outubro 2, 2008 @ 10:26 am
Dalton, excelente o trabalho que vc realiza aqui nesse espaço!!!
Muito gostoso de ler seus textos e interpretações!!!
beijo.
admin said,
outubro 2, 2008 @ 3:24 pm
Obrigado Jeanete.
Beijos.
admin said,
outubro 2, 2008 @ 3:30 pm
Obrigado Márcia!
Por mais que os artistas, hoje, evitem falar de tal período das respectivas carreiras, é sempre bom lembrar dos motivos históricos do Hoje.
Beijos.