Roda Viva – Como Andava a MPB

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Embora a maioria dos colegas compositores tenha, de imediato, se esquivado de qualquer engajamento com a filosofia explícita resultante da peça Roda Viva, alguns se aventuraram a tentar algo semelhante na MPB.

Vivíamos sob a óbvia influência da excepcional musicalidade dos Beatles, a objetividade das músicas e textos adolescentes da Jovem Guarda, da Bossa Nova Elitista do João Gilberto (já em menor escala) e dos sambas.

Chico gostava de fazer sambas bem escritos, mas sofria com a concorrência de outros, com musicalidade excelente, porém com textos desta qualidade:

Valeu o sacrifício dos Andradas
E as preces da princesa Leopoldina
A morte de Tiradentes não foi em vão
São hoje símbolos vivos da nossa nação
A maçonaria muito contribuiu
Na surdina do nome conseguiu
E o príncipe regente se fez imperador
Num gesto de coragem e de amor
Independência ou Morte Dom Pedro primeiro bradou
E o sonho dos brasileiros se concretizou
                                  
Oh, meu Brasil segue avante
Olha o futuro que lhe espera
Ninguém segura esse gigante
Raiou-se o sol de primavera

Uma delícia de melodia, uma letra fácil de ser cantada e um óbvio sucesso.

Na mesma época Elis gravou este outro samba:

Joaquim José
Da Silva Xavier
Morreu a vinte e um de abril
Pela independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
                  
Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado
Pela nossa liberdade
Esse grande herói
Pra sempre deve ser lembrado

Outra melodia gostosa, que, cantada pela voz marcante de Elis Regina, não poderia resultar em nada diferente de sucesso imediato, mas o que poderia estar se passando pelas cabeças dos velhos e jovens compositores da MPB?

Quando um pensador é amordaçado pelas forças superiores, governamentais ou não, tenta de alguma forma mostrar o seu desconforto e a última delas é a Sátira.

Roda Viva pode muito bem ter vindo do que Chico observou na época, onde destaco o surgimento do FEBEAPÁ – FEstival de BEsteiras que Assolam o PAís – um clube de pensadores presidido pelo jornalista Sérgio Porto, cujo pseudônimo era Stanislaw Ponte Preta.

Com notáveis membros como Nelson Rodrigues, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Leon Eliachar etc; que, diante da censura imposta pelos militares e a insistência da mídia em valorizar músicas que apresentassem textos semelhantes aos vistos acima, se usavam da sátira como último recurso da filosofia.

As escolas de samba eram obrigadas a usar nos enredos somente episódios ocorridos na História do Brasil (a dos Vencedores), contada nas escolas.

Foi quando Stanislaw, com a ajuda do time do Febeapá, construiu o histórico Samba do Crioulo Doido, provido de introdução explicativa:

“Este é o Samba do Crioulo Doido, a história de um compositor, que durante muitos anos obedeceu o regulamento e só fez samba sobre a História do Brasil. Em nome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva… e o coitado do crioulo teve de aprender tudo isso para os enredos da escola.

Até que no ano passado escolheram um tema complicado: Atual conjuntura! Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba:”

Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casaá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes
               
Bis
Laiá, laiá laiá
O bode que deu vou te contá
                   
Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro Segundo
Das estradas de minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
A aliança a Dom Pedro
Acabou com a Falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi Proclamada a Escravidão – bis
                        
Assim se conta esta história
Que é dos dois a maior glória
A Leopoldina virou trem
E Dom Pedro é uma estação também
                            
Bis
Oo oô oô
O trem tá atrasado ou já passou

Pode-se perceber notável semelhança filosófica no texto do Crioulo Doido com os dos sambas vigentes na época.

Esse era o espírito dos pensadores na década de 60. Todos já sabiam que a História do Brasil sempre fora manipulada pelos “colonizadores” anteriores, intermediários e posteriores: Portugueses, credores europeus e credores americanos, respectivamente.

Em 1968 a MPB estava dividida em várias correntes filosóficas, mas a atenção maior da mídia se voltava a duas delas, criadas pela própria, a partir do festival de 1967: Chico x Baianos.

Por exemplo, embora colocados em distintos times pela mídia de São Paulo, mais especificamente pelo jornal A Folha de São Paulo, tratavam do mesmo tema em formas distintas.

Enquanto Chico tratava mais especificamente da “Fabricação de Ídolos” na Roda Viva, Caetano abordava mais às raízes históricas e próximas do problema.

Aproveitando o estilo do Samba do Crioulo Doido, na época Caetano escreveu a composição Tropicália, também com uma introdução satírica:

“Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis e verdejantes escreveu uma carta ao rei:

- E no que nela se planta tudo cresce e floresce!

E o caos da época gravou…”

                  
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
 Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central
Do país…
              
Viva a bossa sa, sá
Viva a palhoça ça ça ça  çá
               
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão…
             
Viva a mata ta tá
Viva a mulata ta ta ta tá
               
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis…
                   
Viva Maria ia iá
Viva a Bahia ia ia ia iá
               
No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim…
               
Viva Iracema ma má
Viva Ipanema ma ma ma má
            
Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem
                
Viva A Banda da dá
Carmem Miranda da da da dá…

 

OBS. O leitor Paulo Rocha Sux colaborou com a seguinte informação:  

“…o samba-enredo em questão é de autoria de Zé Di (José Dias) paulista de Mogi Mirm, composto para o enredo Independência ou Morte, do ano 1971 do Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai. ”    

                           

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  del.icio.us isto!

8 Respostas até o momento »

  1. 1

    ed figueiredo said,

    março 4, 2009 @ 5:15 am

    Fantastico.
    Sou novo aqui.
    Quem escreveu isso?
    Onde encontro o texto da peça?

    Caro Ed!

    Bem Vindo!
    Espero que se torne rapidamente velho por aqui.
    Todos os posts são de minha autoria.
    O texto original e completo da peça foi proibido pelo autor, para qualquer tipo de divulgação.
    As razões pelas quais ele ainda faz isso estão nos demais posts seguintes, onde suponho ter sido claro o bastante a respeito.
    Bom divertimento, pois reescrevo, como posso, a História exatamente para você.

    Grato.

  2. 2

    Mônica said,

    dezembro 22, 2009 @ 12:56 pm

    Qual o nome da primeira música que diz oh! meu Brasil segue adiante… quem é o compositor e onde posso encontrar esta música, em qual CD?

  3. 3

    admin said,

    dezembro 22, 2009 @ 4:34 pm

    Mônica:

    Essa música foi um samba enredo de uma das escolas do Rio de Janeiro nos anos 60. Não lembro o nome do enredo, mas acho que a Elis Regina gravou. Me perdoe se não posso informar melhor, pois a usei apenas como exemplo da guerra filosófica de Brasil Nacionalista X Brasil Socialista da época.

    Obrigado pela visita.
    Dalton.

  4. 4

    Wagner Augusto said,

    janeiro 17, 2010 @ 5:53 pm

    Em resposta à pergunta de Monica Said, o nome da música é Independência ou morte (Zé Di) – foi um samba de enredo de uma escola de samba do Rio, acho que foi interpretada por Mano Décio da Viola. Tammbém estou atras dessa música, pois me lembra mto minha infância. Caso alguem a tenha, por favor mande-a para mim em wagneraugust@hotmail.com

  5. 5

    admin said,

    janeiro 17, 2010 @ 9:13 pm

    Wagner Augusto:

    Obrigado pela intervenção. O Site agradece.

    Dalton.

  6. 6

    Paulo Rocha Sux said,

    setembro 26, 2010 @ 3:41 pm

    Apenas para colaborar a pesquisa de Mônica Said, o samba-enredo em questão é de autoria de Zé Di (José Dias) paulista de Mogi Mirm, composto para o enredo Independência ou Morte, do ano 1971 do Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai.

    Valeu o sacrifício dos Andradas
    E as preces da princesa Leopoldina
    A morte de Tiradentes não foi em vão
    São hoje símbolos vivos da nossa nação

    A maçonaria muito contribuiu
    Na surdina do nome conseguiu
    E o príncipe regente se fez imperador
    Num gesto de coragem e de amor

    Independência ou Morte Dom Pedro primeiro bradou
    E o sonho dos brasileiros se concretizou

    Oh, meu Brasil segue avante
    Olha o futuro que lhe espera
    Ninguém segura esse gigante
    Raiou-se o sol de primavera

  7. 7

    admin said,

    setembro 27, 2010 @ 8:04 am

    Paulo:

    Grato pela colaboração e informo que ela já passou a fazer parte da postagem oficial, na forma de OBS. no final.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  8. 8

    Prestashop Templates said,

    novembro 7, 2011 @ 5:04 am

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