Peça Roda-Viva Vira A Fábula da Roda Nova
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Um dos fragmentos mais significativos da obra de Chico Buarque nos anos 60 foi a peça Roda-Viva.
Nas minhas pesquisas mais recentes sobre ela fui informado, por vários grupos teatrais, de que muita gente tentou reencená-la e teve como obstáculo o próprio Chico.
Como entre o Chico Buarque e nós, admiradores da obra, há um imenso espaço preenchido por um contingente de intermediários, não se pode afirmar se a notícia recebida é verdadeira ou falsa.
Sem querer entrar em tais méritos, ou deméritos, da questão resolvi brincar de teatrólogo, e reescrevi a peça baseado no máximo que a memória me premiou nestes 43 anos de distância.
Dessa forma, surgiu A Fábula da Roda Nova, que ao invés de prender-se, qual Roda-Viva, a uma momentânea realidade artística brasileira, ousou tentar localizar, noutras terras e tempos, os embriões da intervenção da mídia na carreira do artista; para a partir de então progredir a 1968, chegar ao presente 2011 e sugerir renovadas intervenções em tempos futuros.
Caso algum grupo de teatro se interesse, informo que já está registrada na Biblioteca Nacional e não há qualquer embaraço para que seja encenada, posto que foi reescrita. Vejam um fragmento do Prólogo:
Voz
Podemos notar que, de repente, não mais que de repente, surge uma multidão reclamando da vida, como mostram as exigentes placas:
(desfile de placas)
Fim Dos Impostos,
Educação Para Todos,
Parada Geral.
Eis que surge, sobre uma carroça, um POETA, que trazendo ao peito duas placas: VITOR e BENÊ, declama para o povo:
Falta tudo para vós Falta-lhes vida-e comida Falta-lhes feijão e-arroz Mas tudo ficará fácil Se fizermos um bom laço Mudando-o vós para-o nós E oprimindo o algoz pela voz! Assim: O vaqueiro é dono da vaca O ferreiro é dono da faca Mas isso não é-o bastante Para a-um povo-alimentar O trigueiro é dono do grão O padeiro é dono do pão Misturamos tudo-e num instante Saberão no que-é que dá: Uma vaca tem o leite E-uma faca corta o ventre Mas um grão indo pro chão Pode-em pão se transformar Porque o povo quando une Suas forças fortalece Junta-a voz na mesma prece Não precisa se-estressar Meu vizinho, vem comigo Nós podemos sim juntar Meu vizinho, vem comigo Nós podemos sim juntar
Voz
Enquanto o Poeta declamava ao povo, do meio deste surgiu um casal CIGANO. Ela dançando, ciganamente, e ele tocando o seu alegre violino. Como viviam no Iluminismo, cujo nome indica luzes, ele serve também para explicar a presença desses focos de luz transitando no palco.
(foco inicial sobre o casal e depois só sobre o cigano violinista, que enquanto toca segue em direção à carroça)
Ao suspeitar da intenção do cigano, para com a carroça, Capetê começa a empurrar a sua prensa recém adquirida. Posiciona-se próximo a ela e aguarda. O cigano sobe na mesma carroça e vê-se que, a exemplo do Poeta Vitor Benê, também traz no peito duas placas: HUGO e SILVÊ. Toca mais um pouco o seu alegre violino, e brada furiosamente para o Poeta:
Político-e-artista dão todos no mesmo! Primeiro-o político vem com promessas Até atingir os seus objetivos Mas desaparece com todas as pressas Que-até duvidamos dos próprios ouvidos Mas você, meu doce-e-ilusório poeta Declama na praça-o seu sonho-aratório Porém, que na mente do povo penetra E nela se torna-ideal amatório
(foco piscando sobre os dizeres: Liberdade, Igualdade, Fraternidade)
Em meio-às duas supostas nobrezas O pobre do povo só herda-incertezas De-estar além ou aquém da pobreza Pois ambos não põem o pão nessas mesas Se-iludindo estar livre ou mais solto Todo homem tem o corpo e-o raciocínio Que no fundo são escravos um do outro-e Liberdade vira-um sonho em declínio Se você só sobrevive no incerto E eu junto todo-um ouro infalível Ta na cara que-um dos dois é mais esperto-e Igualdade vira-um sonho impossível Tendo-os homens todas essas diferenças: Liberdade, só num corpo que não pensa-e Igualdade que não pode ser inteira A Fraternidade vira pura brincadeira Repetez: Tendo-os homens todas essas diferenças: Liberdade, só num corpo que não pensa-e Igualdade que não pode ser inteira A Fraternidade vira pura brincadeira Cirrandá, cirrandin Alez túti cirrandê… Pra riba dí moá, jacarrê? Parlez Sério poeta!
Obs. Esse fragmento ocorre em 1482.
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novembro 7, 2011 @ 5:57 am
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