Retrato Em Branco E Preto (Chico-Jobim)-Análise de Texto

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Se por um lado o autor preferia se livrar do Parecer exterior, o seu Ser interior, ou todo um contingente de Seres interiores que houvera criado, recrutavam os seus versos a cada nova visão social que tinha ao redor, nas vezes em que ousava espiar o cotidiano por uma janela cada vez menor. Foi numa dessas espiadelas que um dos personagens do contingente requisitou continuidade.

O Ser, inserido naquele jovem corpo, provavelmente sentado na cama do seu quarto-cúmplice, observando a algum rascunho de um inacabado “retrato sem cor jogado aos seus pés” lhe cobrou uma atitude, e ele respondeu com Retrato Em Branco E Preto: 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei decór
      
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar
Tanto pior
      
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que no entanto             
Volta sempre a enfeitiçar
      
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
     
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
      
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas
Minha cara:
Ainda volto a lhe escrever
     
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
     
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
 A maltratar meu coração 

 

Esta composição está tão ligada a Desencontro, que demonstra nitidamente ter sido começada antes dela e terminada depois. Mas quem seria o personagem de Desencontro, capaz de promover essa explosão toda de arte poética no Ser?

Suspeito que fosse a mesma essência contida na Juliana, de Sem Fantasia: A MPB!

Naquela época Chico tinha duas atenções maiores, ambas musas, esposas e inter-dependentes:

A MPB no Ser e a Marieta Severo segurando a barra do Parecer, como uma espécie de Guardiã da Arte, pois, conhecendo o Chico, sabia que, mantido fora do alcance dos interesses comerciais da mídia, a MPB, e consequentemente nós, só tinha a ganhar com novas composições maravilhosas.

Nada melhor do que uma mulher de classe, incapaz de ser atingida por essas vulgaridades menores do cotidiano comercial, com cintura bastante a deixar Jacós falando sozinhos nas laterais do campo, formulando novas regras para o jogo, enquanto ela já cuidava de fazer um cruzamento preciso para o seu centro-avante preferido.

Essa era a Coringa Marieta, que jogava em qualquer posição do Campo Dos Bastidores, para a segurança do, até então, imaginário Polytheamma F.C.

- Deixem o Chico sossegado jogando, lá com os seus botões, que vocês só têm a ganhar!

Acho até que alguns versos, feitos bem depois, tenham começado a nascer nessa época: 

Que nobreza você tem
Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além…
 
…Que salta de sonho em sonho
E não quebra a telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha… 

Voltando ao Retrato, tenho uma idéia do porque fora interrompido para continuar o papo na forma de Desencontro. Isso requer algumas explicações sobre Ciência Poética.

Se tomarmos como referência a primeira parte do Retrato, perceberemos que foi feita em catorze versos que, com alguns truques de pausas na interpretação, e de sintaxe na escrita, poderiam resultar num esboço de Construção Poética de Forma Fixa chamada Soneto Italiano.

Digo: Somente Um Esboço; pelo fato do texto não obedecer às regras de construção desse tipo de soneto, o outro é o Soneto Inglês com regras próprias; o Italiano exige catorze versos, dispostos em duas Quadras e dois Tercetos, preferencialmente com as Quadras antes e os Tercetos depois, já que uma outra regra exige que estejam ligados por, pelo menos, uma Rima em comum.

A primeira parte apresenta, na ordem das estrofes, um Terceto, seguido por duas Quadras, seguidas do segundo Terceto. Como a ordem delas fugia um pouco da regra, Chico tentou corrigir interligando o Terceto Inicial à Quadra primeira por uma Rima comum – Decór com Pior – o mesmo ocorrendo com a segunda Quadra e o Terceto final – Enfeitiçar com Colecionar.

Com esses ajustes, de fato, ficou algo parecido com um Soneto Italiano Adaptado, mas uma regra, bem importante, pela história do surgimento de tal tipo de construção poética, estava sendo desrespeitada: O Soneto deve ser construído inteiro em versos Decassílabos Heróicos, que além das óbvias dez sílabas, requerem acentuação interior na sexta.

Chico até tentou seguir essa regra no primeiro verso, mas o máximo que conseguiu foi um Eneassílabo (nove sílabas) que não atendia, e nem teria cabimento atender, a tal regra.

Acredito que essa tenha sido a razão maior da interrupção do Retrato: Ter que decidir entre a Objetividade do Texto e os fundamentos da Ciência Poética, ambos de suma importância, pra ele, nas construções poéticas das composições musicais!

E agora?

 - Bom, pra descansar a idéia, enquanto decido o melhor a fazer, mostro todo o meu Desencontro com a questão da carta resposta!

A saia era justíssima. Acho que nem a dona do Folhetim caberia nela!

A melodia era do Tom Jobim. Nada preocupante, em se tratando somente do maestro, mas o cara também havia sido parceiro do mestre Vinícius de Moraes, cujos famosos Sonetos Chico deva ter cansado de escutar, quando criança, nas espiadelas que dava em conversas do pai com os amigos, que incluíam Vinícius.

Acabou decidindo por manter o texto original de Soneto Adaptado, fez a segunda parte com os mesmos truques da primeira, se justificando no final dela com o texto: 

Vou colecionar mais um Soneto (aliás, mais dois sonetos)
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração (a indecisão judia mesmo…)

Com certeza, pouca gente notou a jogada. Creio que só o Vinícius possa ter dado uma gozada nele, já que nem o Tom mostrara ter entendido a letra, pois ficou famosa uma pergunta dele ao Chico, e a resposta deste ao Tom:

- Mas Chico, o mais certo não é escrever Retrato em Preto e Branco? No que Chico respondeu:

- Pois é, mas daí eu teria que usar “tamanco” como rima e não ficaria tão bonito!

Quanto à crítica literária da época, ninguém comentou, talvez porque, já com o respeitoso nome de “Articulista”, não mais soubesse o significado de Ciência Poética, quanto mais o de um Soneto Italiano.

Por mais engraçada que a situação pudesse se insinuar, da Ignorância Literária Articulista, toda aquela parvoice da crítica deu a Chico uma triste constatação:

- Estou falando sozinho!

O cara tinha todo um cuidado poético nas composições pra que, ou pra quem?

Só lhe restou, muitos anos mais tarde, admitir tristemente: 

Palavra dócil
Palavra d´água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra… 

Bem mais à frente virá a composição Outra Noite, que apresentará internamente os acordes de Retrato em Branco e Preto. Poderá soar como inexplicável para a maioria, mas não para nós, como cúmplices do enredo dessa novela do Auto-Exílio Interior. 

Outra noite
Outro sono
Como se eu sonhasse o sonho
De outro dono… (cada um de nós)
   
   
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  del.icio.us isto!

7 Respostas até o momento »

  1. 1

    Lustato Tenterrara said,

    novembro 28, 2009 @ 4:48 pm

    Esse site existe?
    Li o post anterior – e fiquei maravilhado.
    Agora esse, a causar mais maravilhas.

    Também eu poderia dizer:
    ” – Estamos todos ilhados!
    Numa enseada, perdidos,
    cercados de ilhas por todos os lados.”

    Excelente. Parabéns.
    O que mais posso fazer, além de “maravilhar-me”?
    Indicar. Indicar. Indicar.

    Um abraço.

    Lustato

    PS.: Possuo algumas comunidades, grupos e até mesmo uma rede social ning dedicada ao Chico. A muitos outros, também. Mas ao Chico, dedico mais. Mais frases, assuntos, e páginas web. Gostarei muito de citar o MPB Sapiens. Parece algo mágico (até onde pude perceber).

  2. 2

    admin said,

    novembro 29, 2009 @ 9:46 pm

    Caro Lustato:

    Peço que perdoe à demora na resposta, pois fiquei afastado por um dia para atender a compromissos em Sampa.
    É com grande prazer que recebo este seu comentário. Em se tratando de Cultura Brasileira, infelizmente, há um grande vazio no estudo das suas raízes poéticas, que procuro preencher como posso com a obra do Chico, porque a sua trajetória o tornou a estrela poética central, ao redor da qual circulou a constelação MPB nos seus últimos tempos efetivos.

    Ainda temos alguma Música Popular Brasileira, já que esta vem do povo, mas nenhuma semelhante àquela em que o mesmo atuou mais ativamente do que neste presente seu quase ausente.

    Tenho ficado muito feliz com a aceitação popular do que faço por aqui, o que me dá boa esperança de devolver, a um número cada vez maior de pessoas, toda uma cultura popular adormecida pela cegueira da mídia, proposital ou não.

    Receberei a cada novo frequentador com o mesmo entusiasmo que o recebo no momento, que é a certeza de estar lhe devolvendo o que lhe pertence e talvez não soubesse.

    Grato pela sua elegância.
    Dalton.

    P.S. O que significa “ning”?

  3. 3

    gabriela said,

    dezembro 5, 2009 @ 7:13 pm

    oi esse retratos oou sei lá o que são feios nao gostei.

  4. 4

    admin said,

    dezembro 5, 2009 @ 8:08 pm

    Gabriela:

    Vou pedir para o Chico compor fotos em cores para, talvez, agradá-la!

    Dalton.

  5. 5

    Anna Carolinne said,

    julho 12, 2011 @ 5:55 pm

    Adorei o texto e a resposta a Gabriela foi fantástica…kkkkkkkkkkkk

  6. 6

    admin said,

    julho 12, 2011 @ 7:15 pm

    Anna Caroline:

    Agradeço a sua visita e a observação oportuna a respeito do comentário. Embora esporadicamente, também existem aqueles tipos de “incentivos” por aqui. Antigamente até respondia, mas confesso que cansei.

    Volte sempre.
    Dalton.

  7. 7

    Yi Gerlich said,

    janeiro 31, 2012 @ 3:08 pm

    Although i dont usual like to comment about law gone poor, occasionally i know i ought to. This is one of those times, I can’t stand sub par search engine optimization.

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