Profecia Palíndroma-Conto
A Busca do Mestre
Buscando encontrar à paz interior, fora dos campos de batalha que o assolavam por aqui, o Mestre, ainda jovem, fez uma peregrinação à Terra Santa do Vaticano tentando encontrar o Sabiá Dourado.
Devidamente alojado nos seus humildes aposentos, o Mestre, a esposa e o fiel escudeiro se submetiam às esperadas penitências, necessárias a qualquer Ressurreição Espiritual, quando, ao ver uma pequena caixa que guardava o seu Jogo de Botões, lembrou de todo o sofrimento que deixara por aqui ao partir, e chorou por sete dias e sete noites.
No oitavo dia, todas as lágrimas secaram, todas as dores se acalmaram, qual prece de caretas. Ele chamou à esposa e ao escudeiro, pois pretendia admoestá-los Sobre Todas As Coisas, e ao final da admoestação proferiu:
- Pelo amor de Deus, preciso de forças para ir!
Temerosos, a esposa e o escudeiro, respeitosamente, interrogaram-no:
- Ir aonde Mestre?
Ele foi à janela, e contemplando o final do infinito, afirmou convicto:
- À Capela Sistina!
Prontamente, o fiel escudeiro saiu em busca do transporte bastante a levá-los a mais um importante Calvário Redentor, enquanto a prestativa esposa cuidava de toda a roupagem e víveres alimentícios, suficientes a outra exaustiva jornada. Com tudo pronto, e munido do Jogo de Botões, o Mestre disse:
- Agora podemos ir, pois é chegada a hora de não prestar atenção, não gostar, nem dizer que não é inútil!
Depois de muita labuta chegaram no local predestinado ao Grande Encontro dos Mestres: A Sistina!
Ao adentrar no recinto sacro, que se encontrava desprovido de animais, irracionais ou não, o Mestre mirou fixamente ao seu redor, sentindo um conflitante ambiente de sentimentos e falas. Viu amores e escândalos, medos e tragédias, fisionomias pálidas sem choro e socorro.
Olhou o teto em forma de abóbada, elevou humildemente a mão que portava o Jogo de Botões, aguardou a resposta, que veio na forma de um silencioso raio de luz, sorriu e sumiu.
Viajou léguas e léguas por Mares que só Ele sabia, cruzou céus que só Ele futuramente imaginaria e parou sobre a Montanha Prometida, que abrigava o Silêncio Absoluto. Sem qualquer ruido, o seu Jogo de Botões se espalhou docemente sobre um Silencioso Monólito Plano, onde qualquer Reta nunca poderia se admitir como Curva de Raio Infinito, numa superfície mais lisa do que um gelo.
Contemplando simultaneamente o horizonte e os botões, percebeu que o primeiro se enchera de palavras que iam e vinham, sempre iguais e em qualquer direção. Nuvens de Versos em movimento se agrupavam Estróficas, e os botões as obedeciam, com novas estratégias inimagináveis de jogo, qual estrelas percorrendo um firmamento em Carrossel Holandês.
Foi quando sentiu o dedo de Michelângelo no jogo, a mão dele no seu ombro e, contemplando, agora com imensidão, novamente ao horizonte, agora finito, alcançou à eternidade momentânea no firmamento DELE.
De volta ao interior da Sistina, notou que nem a serviçal esposa, nem o fiel escudeiro haviam percebido que viajara durante tanto tempo e, desconfiando do silêncio, austeramente bradou a eles:
- Vou voltar!
Retornando à humilde estalagem que os abrigava, o Mestre se deitou e sonhou por sete dias e sete noites, só que desta feita acordou calmo e sereno. Sabendo que iria voltar para o seu lugar, que era ainda lá, chamou novamente à esposa e ao escudeiro para dizer-lhes algo.
Ambos se surpreenderam com o pouco que lhes foi dito. Sequer sabiam do que ocorreria com as multidões de numerosos povos indo e vindo, qual sonido de muitas águas em inundação, após a curta, mas definitiva, Profecia do Mestre:
“Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta!”
Sambistas do mundo inteiro vararam dias e noites a fio, peregrinando em busca do Samba Prometido, e ele veio como recompensa por toda a entrega do Samba àquela União Penitenciária dos Povos:
Ao Palíndromo do Mestre
Alo Bola
Eva asse essa ave
Após a sopa
Assim Marias sairam missa
Anotaram a data da maratona
A torre da derrota
Luz azul
A diva em Argel alegra-me a vida
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da romana: Anil é cor azul
Até o poeta
Oto come mocotó
Roma me tem amor
Saíram Marias
Socorram-me subi no ônibus em Marrocos
Sá da tapas e sapatadas
Zé de Lima, rua Laura, mil e dez
Viu o vôo do ovo Uiv
O caso da droga da gorda do saco
Saíram o tio e oito Marias
Com ódio do doido Moc:
Morram após a sopa marrom!
A babá baba
A cera causa sua careca
O dedo
O céu sueco
Oto:
Ame o poema
O Galo no Lago
A Mala Nada na Lama
Amor a Roma
Roma é amor
Aula é a Lua
Reviver
Rir, o breve verbo rir
Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta!
O MITO É ÓTIMO!
Nota: Esse samba foi construído em Versos Corrente, cuja disposição pode ser alterada ao gosto do sentimento usuário, mas não admitem o tratamento pelo nome Elos de Ligação, já que qualquer corrente, por ser ditatorial, impede a qualquer elo de não sê-lo.
Obs. Quanto ao Sabiá Dourado, só Antonio Carlos Jobim soube do seu final, mas qualquer dia, na Montanha Prometida, o Silêncio Desconfiável fale por ele…
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