Porta Estandarte – O Sonho de Vandré

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Para entender à idéia filosófica da MPB daquela época é imperativo que se
registre também a progressão do pensamento do Geraldo Vandré nas suas
composições, que retratavam o cotidiano social de forma mais contundente.
Muito menos elaboradas do que as do Chico, dentro das bases da Ciência
Poética, as composições do Vandré possuíam uma penetração social maior, já
que tratavam, fundamentalmente, dos conflitos interiores nossos com a situação
social que observávamos e sentíamos; diante do que a imprensa dizia ocorrer.
No princípio de 1964 o Brasil se encontrava numa turbulência social muito
grande. Enfrentávamos, além da propaganda corrosiva da imprensa, na
diminuição dos nossos Valores Culturais próprios, pelo chamado Americanismo
Induzido; a uma grande desvalorização do nosso dinheiro, e consequentemente
do nível de vida.
As horas de trabalho aumentavam e os salários baixavam. Como trabalhadores
era óbvio o nosso descontentamento, o que nos levou a sucessivas e
simultâneas greves em vários setores, dentre os quais os responsáveis pela
distribuição de Energia no país. O Brasil estava parando.
Analisemos os seguintes textos presentes nos capítulos 1 e 2 do livro Os
Protocolos Dos Sábios Do Sião:
“…Basta deixar algum tempo o povo governar-se a si mesmo para que essa
autonomia se transforme em licença. Então surgem dissenções que em breve se
transformam em batalhas sociais, nas quais os estados se consomem e em que
sua grandeza se reduz a cinzas.
Se o estado se esgota nas próprias convulsões ou se suas comoções intestinas
o põem à mercê dos inimigos externos, pode ser considerado irremediavelmente
perdido; caiu em nosso poder.” (capítulo I)
“…Os Estados modernos possuem uma grande força criadora: a imprensa. O
papel da imprensa consiste em indicar as reclamações que se dizem
indispensáveis, dando a conhecer as reclamações do povo, criando
descontentes e sendo seu órgão. A imprensa encarna a liberdade da palavra.
Mas os Estados não souberam utilizar essa força e ela caiu em nossas mãos.”
(capítulo II).
Esse livro, hoje considerado tão Apócrifo quanto a Bíblia, tido como o livro
mais lido no mundo; sempre foi pela oficial literatura. Por ter sido muito lido pela
juventude intelectual dos anos 50 e 60, me leva a supor que tanto Chico quanto
Vandré o conheciam antes de optarem pela carreira de compositores musicais.
Vandré pela profissão que abraçara e Chico pela biblioteca do pai, o sociólogo
Sérgio Buarque de Hollanda.
Suposição esta que conclui ter sido essa a matriz das respectivas contestações
nas letras das futuras composições musicais de ambos, a despeito de Março de
64, quando os militares tomaram o poder no Brasil.
Diante da nossa Constituição corrente, a tomada do poder pelos militares foi
meio óbvia, posto que era essa a obrigação deles diante da instabilidade social
de risco em que nos encontávamos na época, com as paralizações atingindo até
os setores de fornecimento de energia.
Uma coisa é justificar à legalidade de uma atitude social, outra é a de apoiar
uma violência estratégica, tanto na manutenção quanto na destituição de poder
qualquer, convém lembrar.
Em março de 1965 tivemos os primeiros festivais da canção popular. Um
vencido pela dupla Vinícius de Moraes e Edu Lobo, com a composição
Arrastão, no qual Chico Buarque iniciou à trajetória artística com a composição
Sonho De Um Carnaval, defendida pelo amigo Geraldo Vandré.
Vandré, cuja carreira já era um fato, foi o primeiro artista a confiar no jovem
compositor musical que estava surgindo na MPB. Se estivéssemos numa quadra
de escola de samba, e envoltos por seus rituais, seria normal ver Chico pedindo
a benção ao padrinho Vandré, que o iniciou no samba.
O outro festival de 1965 foi vencido por Geraldo Vandré e Fernando Lona
com a composição Porta Estandarte:
http://www.youtube.com/watch?v=LamjauFJON4
Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando o teu canto ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar.
A letra cantada em Recitação Musical nos quatro primeiros versos e Lamento
nos demais mostra dois personagens conversando. Um sugerindo na
Recitação e outro respondendo no Lamento.
Tais personagens do diálogo são os dois lados do mesmo compositor, Vandré,
que já abordei nas postagens anteriores, como Ser, que é a essência poética do
letrista, e Parecer, que é o artista em sua vivência social cotidiana. Ambos
descritos por Carlos Drummond de Andrade no livro Claro Enigma.
Na composição, o Parecer vem antes e recruta o Ser a escrever por ele. O
texto da resposta mostra a certeza do poeta na chegada de dias melhores que
os sugeridos pelo Parecer na Recitação.
Essa divisão das personalidades do Vandré ainda carregava a uma inocência
juvenil muito mais voltada para o Ser do que para o Parecer, porém se nota um
desconforto no segundo, ao constatar à tristeza que o assolava quanto ao
presente e ao futuro do seu povo.
Houve muito mais fé numa possibilidade de mudança, do que propriamente um
recrutamento para a luta.
- Seria um voto de confiança nas mudanças que o novo regime, que se instalara
no país recentemente, poderia resultar futuramente?
Não dá para dizer que sim, porém não é prudente ter a certeza do contrário,
mesmo porque o texto não permite afirmação qualquer. Só diz que a coisa não
andava bem, mas anuncia que iria melhorar, com certeza.
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  del.icio.us isto!

4 Respostas até o momento »

  1. 1

    Fábio said,

    novembro 17, 2011 @ 8:50 pm

    Dalton, parabéns pelas excelentes aulas do teu site.
    Esclarecem os entendimentos dessa época histórica e importante de forma didática.

    Fábio

  2. 2

    admin said,

    novembro 17, 2011 @ 9:37 pm

    Grato, Fábio.

    Como não fui o único educador a testemunhar essa época, esse vácuo histórico observado ficaria bem menor se mais educadores também se prestassem a isso.

    Fico feliz por saber que a estratégia didática o tenha levado ao rápido entendimento. Nem sempre é assim.

    Já que você chegou por aí, aproveita e me conte se encontrar problemas com os endereços que ligam as obras. Seria de grande ajuda para mim.

    Abraços.

  3. 3

    Fábio said,

    novembro 18, 2011 @ 11:26 am

    Ah, ok,ok.

    Na verdade, em alguns clics, não entravam os links. Mas como não tive muito tempo para ler, já que no meio da semana é difícil, estou aguardando o fim de semana para poder ler todos os textos novos que você colocou, aí te aviso sobre qualquer dificuldade.

    Abraços
    Fábio

  4. 4

    admin said,

    novembro 18, 2011 @ 10:11 pm

    Fábio:

    Grato pelo interesse e ajuda. Saindo um pouco do assunto música e entrando noutro também interessante, preciso de uma informação sua.

    Há um jogo memorável que gostaria de poder guardar comigo para assistir quando sentisse vontade de rever a criatividade perdida do futebol brasileiro. O jogo é Santo André 3 x 2 Santos, que foi a final do campeonato paulista de 2010. Embora não tenha feito nenhum gol, o Ganso participou diretamente em dois gols e foi decisivo na retenção de bola para não levar mais gols. Em tal jogo ele inventou algo inédito no futebol, que foi cobrar o escanteio para si mesmo, esperar algum adversário perceber o que ocorrera, para em seguida marcá-lo com a intenção de, se possível, cavar mais um escanteio. Fez várias jogadas semelhantes nessa mesma partida.

    - Como faço para conseguir ter tal jogo comigo. Você sabe?

    Fico no aguardo e abraços.

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