Ponteio (Capinam-Edu Lobo)-Análise de Texto

Festival de 1967

Dando continuidade ao post matriz, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma, aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas no festival da Record de 1967, convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência poética, e o Parecer, que é a postura social do poeta  diante da fama.

Descritas as três composições posteriores, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria, a composição vencedora foi Ponteio, escrita por Capinam, sobre uma melodia de Edu Lobo, que junto com Marília Medalha foi o intérprete oficial.

Convém lembrar que Edu já era um ganhador de festivais, o primeiro deles, da TV Excelsior em 1964, com Arrastão, quando teve a honra de compor sobre uma letra de Vinícius de Moraes, e a sorte de contar com uma intérprete, ainda meio desconhecida, mas de retumbante sucesso posterior: Elis Regina.

Embora Arrastão tenha ganho um histórico pioneiro e próprio no cenário artístico nacional, teve por trás, nos bastidores familiares, toda uma Ética, infelizmente degradada ao longo dos anos, e hoje praticamente extinta.

Nos dias posteriores, e próximos à consagração da composição, houve uma entrevista com Fernando Lobo, pai do Edu, também poeta,  compositor e amigo do Vinícius. Quando perguntado o que achava de tudo aquilo, respondeu secamente com outra pergunta:

- Você está entrevistando o Pai do Edu Lobo?

Meio sem jeito, o entrevistador disse que sim, e ao fazê-lo escutou, também secamente, o seguinte:

- Graças ao amigo Vinícius eu sou o maior vencedor!

Meio sem entender, o entrevistador parou com as perguntas.

Mas o que essa entrevista deixou de útil à MPB?

Apenas a certeza de que ela, a MPB, era tratada, acima de tudo, por Cavalheiros, cuja Ética não era disposta em Códigos. Apenas resultava da Elegância Nata, proveniente da Educação Comum, que tinha o Atavismo como óbvio resultado:

- O filho deixar de ser conhecido pelo nome do pai, para este ser mais conhecido pelo nome do filho!

Fernando Lobo, a partir de Arrastão, conseguira ser mais conhecido como “O Pai do Edu Lobo”. Daí a resposta dele, em pergunta, a outra pergunta.

Do Arrastão, com o Vinícius, Edu passou pra Arena Conta Zumbí, com o Guarnieri e ganhou certa fama.

As quatro composições, todas voltadas às denúncias, que misturavam os conceitos de protesto social e artístico – Militares e Imprensa, respectivamente – apresentaram estilos diferentes e apropriados a cada compositor. Caetano foi o poeta surpreso com uma banca de jornais. Chico tentando se livrar do rótulo Unanimidade Nacional. Gil mostrando todo o sofrimento do poeta-narrador, ao fotografar uma cena comum ao cotidiano dos conterrâneos em terras distantes.

Podem perceber que os pesos dos textos foram fundamentais na ordem das colocações: A Surpresa Leve do Caetano em quarto, a Denúncia Cifrada do Chico em terceiro e o Sangue do Gil em segundo.

Embora tivéssemos, cada qual à sua maneira, parte dessas essências vistas, comum aos nossos sentimentos interiores, faltava uma “pegada” mais forte, no conjunto Letra e Melodia, capaz de impressionar-nos. A receita vencedora já era conhecida, mas somente o Capinam e o Edu enxergaram, quando deram à composição a pegada da Disparada do Vandré e do Théo, voltando o texto mais à realidade do artista do que a do povo. Não deu outra: Troféu em Casa! 

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro…
    
Era um, era dois, era cem
Vieram prá me perguntar:
- Ô voce, onde vai
De onde vem?
Diga logo o que tem
Prá contar…
    
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e não via
Nem sombra, nem sol
Nem vento…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar…(4x)
    
Prá cantar!
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro…
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar…
    
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola
Ponteio!
Meu canto não posso parar
Não!…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar, prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Pontiarrrrrrrr!
    
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro
Quase meio
Encerrar meu cantar
Já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei
Por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim
Prá buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar prá cantar…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Prá cantar
Pontiaaaaarrr!…(4x)
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá Cantar!
 

Embora o texto anuncie, nas três primeiras estrofes, uma Surpresa do Ser poético com o Parecer social que o rodeava, a melodia dava à narrativa uma pegada muito mais forte, já que o quadro do Capinam estava sendo descrito por um pernambucano. Nada da leveza baiana do Caetano, pouco da frieza do Gil e nada do subjetivismo (tanto paulistano como carioca) do Chico. Uma Dura Surpresa Objetiva.

Dentro do Parecer, na época, a palavra de ordem era Engajamento, e isso colaborou muito para o texto do Refrão, quando o Ser pede socorro como um Repentista, que pouco tem a explicar sem a sua fiel companheira: A Viola.

Algo como: -Eu não sei  bem o que estão querendo de mim, com tantas perguntas e exigências de escolher um dos lados, quando não conheço nenhum deles! – Eu só sei cantar, cadê a minha viola? 

Tudo era mal explicado, “Era um dia, era claro, quase meio…”. Acusações, insultos acadêmicos, com a aparência de doutarados, frios protestos musicais, ameaças do Parecer e consequente afastamento da arte musical.

Como diria, muitos anos mais tarde, Fábio Jr.:

Muito cacique pra pouco índio
Muito papo e pouco som
Pessoas querendo ser
O que não são (ou melhor, eram)

Essa parte se encerra no reencontro do Ser Repentista com a Viola Ocultada pelo Parecer social.

Na parte final, já provido da companheira Viola, e ainda com medo dela sumir novamente, o Ser Repentista se manda rapidinho daquela realidade louca do Parecer, mas com a “quase”, ou “meia”, certeza de que um dia achará o mesmo lugar, já muito mais merecedor da sua Arte Espontânea.

Curiosamente, depois de vencer o festival, Edu Lobo e Capinam sumiram do cenário artístico, cuja Roda Viva presente começou, a partir de então, a buscar uma maneira de colocar em conflito as tendências musicais férteis da MPB, comuns aos primeiros colocados. Foi quando o confronto, Chico x Tropicalistas (Caetano e Gil eram os expoentes) começou a ser articulado pelos críticos concretistas do tablóide paulistano a Folha de São Paulo, o que será visto adiante.

Quanto ao Edu, seguiu parcialmente o que o seu Ponteio disse na despedida:

Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar 

Se isolou, trocou a viola pelo piano, melhorando consideravelmente a sua concepção melódica, se tornou Maestro, Arranjador e, quinze após, a arte nos premiou, com a dupla Chico e Edu, já num outro lugar pra cantar,  em O Grande Circo Místico.

Aqueles quatro jovens compositores, sobre os quais Tom Jobim, Dorival Caymmi e, principalmente, Vinícius de Moraes, depositavam os sonhos de continuidade artística na MPB estavam sendo colocados uns contra os outros pela ação nociva de Anjos e Capetas, instrumentos comuns da Roda Viva Norte Americana, na destruição dos valores culturais dos povos a serem dominados por seu Capital Credor, já que os colonizadores anteriores, sendo somente agiotas, só haviam feito por progredir a nossa cultura, incentivando o surgimento de Toms, Caymmis e Vinícius, por exemplo.

Hoje, a MPB continua um fiel espelho do nosso quadro Social. O que mudou foi a Educação. Só isso.

Trazer uma aflição dentro do peito
É da vida um defeito
Que se extingue com a razão
(Chuvas de Verão – Fernando Lobo)

  del.icio.us isto!

6 Respostas até o momento »

  1. 1

    Ana Paula said,

    October 23, 2010 @ 1:40 pm

    Muito obrigada.Foi muito util para meu trabalho e me ajudou a entender melhor.

  2. 2

    admin said,

    October 23, 2010 @ 8:57 pm

    Ana Paula:

    Então volte sempre. Grato pela visita.
    Dalton.

  3. 3

    Ademar amancio said,

    July 28, 2013 @ 7:03 pm

    Gosto muito de análise de letra,considero um trabalho literário da maior importância.Gostaria que você escrevesse um artigo ensinando a gente pontuar um texto, pois sempre tenho muitas dúvidas.

  4. 4

    admin said,

    July 29, 2013 @ 9:40 am

    Ademar amancio:

    O problema da Educação Mundial é muito sério, pois ocorreu a mesma coisa na maioria dos países: A troca do Educador, nas escolas, pelo Formador de Opinião, nas telinhas. O primeiro foi perdendo gradativamente a qualidade e o segundo não se assumiu educador.

    Não há segredo para analisar textos. Há sim a falta de seriedade da educação com o tema Análise de Texto nas escolas. Basta que se leia muito e variadamente nos temas.

    Cito como exemplo a dupla João Bosco e Aldir Blanc, que fizeram O Mestre-Sala dos Mares pensando numa coisa (A Revolta das Chibatas) e, sem saber, acabaram atingindo um outro alvo muito mais denso do que aquele que imaginaram no princípio.

    Quando o poeta começa a escrever uma letra de música acaba enveredando o texto por um universo paralelo da Arte que jamais conheceu. Tive a oportunidade de certa vez conversar com o próprio Aldir Blanc sobre a música e o cara ficou pálido. Depois daquele encontro, lá na quadra da Mangueira, todos os shows do João Bosco passaram a apresentar uma outra sequência de músicas, abrindo com uma em que cita os Jêjes, com o orixá patrono Oxumaré, para logo em seguida cantar o Mestre-Sala dos Mares. Dê uma olhada no que fiz acerca do assunto, na forma de “Conto”:

    http://mpbsapiens.com/o-mestre-sala-dos-mares-conto/

    Temos um outro exemplo de leitura que, infelizmente, sempre foi evitada nas escolas, que é o da História Econômica do Brasil, da independência aos cruciais anos 50, onde quitamos a primeira dívida externa e assumimos a atual logo em seguida. Faço o que posso por aqui para suprir de alguma forma o que nem escolas nem jornais costumam contar:

    http://www.youtube.com/watch?v=0XjANwywRBs

    Também gosto de brincar com a agonia de quem escreve músicas históricas como essa, mas não sai dos palanques políticos:

    http://www.youtube.com/watch?v=ZN6p84cMJZE

    São anos tentando mudar algo que nem deveria ser mudado, caso a Educação brasileira se prestasse realmente a Educar.

    Abraços.
    Dalton.

  5. 5

    Laura said,

    August 13, 2014 @ 3:39 am

    Esse post foi essencial para minha pesquisa de faculdade. Gostaria de saber se eu consigo me aprofundar mais sobre o assunto através de algum livro ou site específico… Muito obrigada de qualquer maneira!

  6. 6

    admin said,

    August 13, 2014 @ 8:36 am

    Laura: Não sei em qual ponto da postagem você gostaria de aprofundar-se. Se for sobre a Construção Poética da letra da música, suspeito que eu seja um dos poucos que restaram em tais análises, mas se for sobre a História da MPB, o pesquisador mais confiável é Zuza Homem de Mello.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

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