Pequenino Morto (Vicente de Carvalho)

Embora a composição Angélica, do Chico Buarque, tenha ganho maior fama
pela história de Zuzú Angel, creio ter nascido muito antes, pois Vicente de
Carvalho escreveu o Pequenino Morto bem antes de nascermos.
 
Poema copiado do site donquixote.blog.terra.com.br/
 
Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te…
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.
Como aquela imagem de Jesus, tão lindo
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronde loura um resplendor fulgindo
- Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores…
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham…
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge das cobiças dessas fundas valas.
Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho… A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre… É a hora
Do cair da noite…
Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!… Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela…
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós… É a hora quando a procuravas…
Vai rezar com ela!
Depois… teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
No colchão de penas…
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregas a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?
Vais ficar sozinho no caixão fechado…
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! – Pequenino!… É tarde!…
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando…
Eis fechada a cova. Lá ficaste… A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca…
Tão sozinho sempre por tamanha noite!…
Pequenino, dorme! Pequenino dorme…
Nem acordes nunca!
 
(Vicente de Carvalho 1866-1924)
 
Próxima – > http://mpbsapiens.com/angelica-analise-de-texto/
 

         .

  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

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