Ópera – Chico Buarque (letra e música)

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Música – Ópera

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Intérpretes Protagonistas

Diva Pieranti (Soprano) – Glória Queiroz (Mezzo Soprano)

Alexandre Trick (Tenor) – Paulo Fortes (Barítono)

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Intérpretes Coadjuvantes

Turma do Funil

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Obras originais

Rigoletto (Verdi)

Carmen (Bizet)

Aida (Verdi)

La Traviata (Verdi)

Tannhauser (Wagner)

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JOÃO ALEGRE

Telegrama

Do Alabama

Pro senhor

Max

Overseas

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

TERESINHA

Chegou a confirmação

Da United coisa e tal

Que nos passa a concessão

Para o náilon tropical

 

MAX

Então nós vamos montar

Em São Paulo um fabricão

 

TERESINHA

Depois vamos exportar

Fio de náilon pro Japão

 

MAX

Sei que o náilon tem valor

Mas começa a me enjoar

Tive idéia bem melhor

Nós vamos ramificar

 

TERESINHA

Já ramifiquei, ha ha

Fiz acordo com a Shell

Coca-Cola, RCA

E vai ser sopa no mel

 

CORO

Que beleza

Que riqueza

Tá chovendo

Da matriz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

MAX

Que tal juntarmos

Esses capitais

Abrindo um banco

Em Minas Gerais

 

TERESINHA

Que brilhante idéia, meu amor

Que plano original

Com fundos do exterior

Você fundar

Um banco nacional

 

CAPANGAS

E eu que já fui

Um pobre marginal

Sem documento

E sem moral

Hei de ser um bom profissional

Vou ser quase um doutor

Contínuo da senhora

E do senhor

Bancário ou contador

 

CORO

Que sucesso

O progresso

Corta o mal

Pela raiz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

CHAVES

Irmão

Nem começar eu sei

Receio te inibir

 

MAX

Tua vontade é lei

É falar

É mandar

É exigir

 

CHAVES

É que

Num mundo tão cruel

Cheio de inveja e fel

Não lhe fará mal

Ter à mão

Proteção

Policial

Quer os meus préstimos?

 

MAX

Eu acho ótimo

 

BARRABÁS

Serve um acólito?

 

MAX

Também vou te empregar

 

LÚCIA

Eu não

Tenho com quem deixar

Meu filho que já vem

 

MAX

Barrabás é um par

Exemplar

Quer casar

 

BARRABÁS

E adoro neném

 

CORO

Maravilha

Que família

Dois pombinhos

E um petiz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

VITÓRIA

Só tenho um único

Breve reparo

A tão preclaro

Genro viril

É o esquecimento

Do sacramento

Afinal

Se casou

Só no civil

Oh oh oh

Oh oh oh

Só no civil

Oh oh oh

Oh oh oh

Só no civil

 

MAX

Mas nesse ínterim

Mudei de crença

Já peço a benção

No santo altar

 

VITÓRIA

Que maravilha

Não perco a filha

E um varão

Bonitão

Eu vou ganhar

Ah ah ah

Ah ah ah

Eu vou ganhar

Ah ah ah

Ah ah ah

Eu vou ganhar

 

DURAN

Minha filha eu desejo pedir teu perdão

 

TERESINHA

Oh, meu pai, isso é bom demais! Finalmente! Até que enfim!

 

DURAN

Não sei como fui pra você tão durão

Tão mandão, tão sem coração, tão malvado assim

 

MAX

Meu sogro, o senhor não sabe quanta alegria

Me dá, ao dizer que já se juntou aos nossos

 

DURAN

Só Deus sabe há quanto tempo eu tanto queria

Poder apertar esses ossos

 

CORO

Que euforia

Quem diria

Como os grandes

São gentis

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

DURAN

Não quero ser

Nas suas costas um fardo

Porém

Talvez

Eu necessite um resguardo

 

MAX

Tua instituição

Tão tradicional

Vai ter um padrão

Moderno

Cristão e ocidental

 

PUTAS

Vamos participar

Dessa evolução

Vamos todas entrar

Na linha de produção

Vamos abandonar

O sexo artesanal

Vamos todas amar

Em escala industrial

 

GENI

O sol nasceu

No mar de Copacabana

Pra quem viveu

Só de café e banana

 

TODOS

Tem gilete, Kibon

Lanchonete, Neon

Petróleo

Cinemascope, sapólio

Ban-lon

Shampoo, tevê

Cigarros longos e finos

Blindex fumê

Já tem Napalm e Kolinos

Tem cassete e rai-ban

Camionete e sedan

Que sonho

Corcel, Brasília, plutônio

Shazam

 

TODOS

Que orgia

Que magia

Reina a paz

No meu país

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

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Black-out; fecha a cortina; orquestra continua

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Ópera do Malandro – Ato II – Cenas 6 e 7

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CENA 6

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Luz geral na cadeia; a alguns passos da cela estão Duran e Chaves, este com a pistola na mão

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DURAN

Que é que está esperando? Três, dois, um, já!

CHAVES

Espera aí, e a passeata?

DURAN

Primeiro executa o teu amigo. Aí a Vitória cuida da passeata.

CHAVES

Eu tenho o maior prazer em executar o meu amigo. Mas tem que desmanchar a passeata antes.

DURAN

Que é isso, Chaves? Não confia em mim?

CHAVES

E tu? Não confia em mim?

DURAN

Não.

CHAVES

Então empatou zero a zero.

DURAN

Assim não dá, Chaves. Alguém tem que agir primeiro.

CHAVES

Eu tô com a arma engatada e na mira, Duran. (Aproxima-se de Max) Tu fica ao meu lado. Na hora exata que esse esporro sossegar, tu me cutuca que eu dou o teco.

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CENA 7

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Entra em cena a passeata, comandada por João Alegre; Vitória caminha em direção à multidão

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VITÓRIA

Muito bem, minha gente, vamos todos pra casa, vamos circular que a passeata está suspensa. Estão me ouvindo? Acabou a passeata! Ei, pessoal! Não tem mais passeata! Não tem…

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A passeata atropela Vitória e segue em frente; Duran tenta socorrer Vitória mas é arrastado; Chaves dá um tiro para o alto em vão, e se esconde; enfim, Vitória levanta-se e vai ao proscênio

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VITÓRIA

Luzes! Eu pedi luzes! Suspende o espetáculo! Luzes na platéia! Ei, vocês aí em cima na técnica! Pára tudo! Acende a platéia!

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Luzes na platéia; passeata pára

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VITÓRIA

Que absurdo! Que palhaçada! Eu não saí de casa pra vir aqui passar vexame! Quem é o responsável por essa bagunça? Eu vou me queixar no Jornal Nacional. Que é que vocês estão pensando? Cadê o produtor?

DURAN/PRODUTOR

Estou aqui, dona Vitória, desculpe. Eu não sei como foi que isso aconteceu. A senhora está bem?

VITÓRIA

Eu estou ótima, e a tua mãe? Exijo satisfações!

DURAN/PRODUTOR

Pois é, essa baderna não estava no roteiro aprovado por todos nós… Ô, “seu” João Alegre, quer dar um pulinho aqui?

VITÓRIA

Seu sem-vergonha! Preto safado! Filho de um cão!

JOÃO ALEGRE

Sabe como é, dona? A senhora entende…

VITÓRIA

Eu não entendo nada!

JOÃO ALEGRE

A gente tá na onda do partido alto. Então, o puxador dá o mote e nego vai tirando o que pintar na mentalidade, sacou? É uma jogada que dá um pé na quadra e eu achei que no teatro ficaria original. Mas não tive a intenção de ofender a madame…

VITÓRIA

Tua intenção era me mandar daqui para o Miguel Couto!

JOÃO ALEGRE

Não, madame, nunca, de jeito nenhum! Foi só um improviso, sem maldade…

DURAN/PRODUTOR

Dona Vitória, eu não sei o que dizer. Talvez fosse melhor a gente esquecer o incidente e recomeçar o final da peça do jeito que tava combinado.

VITÓRIA

Eu, por mim, ía embora imediatamente. Só continuo aqui por respeito a esse público maravilhosos que pagou ingresso… Ô, você! Como é mesmo o nome do crioulo? Vamos fazer um gran finale decente, mas tem que ser igualzinho ao ensaio geral!

JOÃO ALEGRE

Ah, isso não dá, não senhora. O que tá feito, tá feito. Partideiro que se respeita não volta a palavra atrás.

PASSEATA

Viva! Agüenta firme! Boa, João! Salve João Alegre!

VITÓRIA

Que é isso?

DURAN

Tá pensando que é malandro, rapaz?

VITÓRIA

Vai juntar o teu gado e recomeçar o happy end! É pra já!

JOÃO ALEGRE

Vou não senhora.

PASSEATA

Grande, João. É o maior!

JOÃO ALEGRE

Eu também tenho um nome pra zelar.

DURAN/PRODUTOR

Você não pode fazer isso, João. Afinal, teatro é cultura!

JOÃO ALEGRE

Vambora pra rua, pessoal!

PASSEATA

Vamos lá! Apoiado! Viva o João!

DURAN/PRODUTOR

Está certo, João Alegre, você venceu. A carreira é sua e você tem todo o direito de acabar com ela. Mas primeiro tem que me acompanhar ali na administração, que é pra formalizar a rescisão de contrato.

JOÃO ALEGRE

Com todo o prazer, doutor. Pessoal, eu volto já!

DURAN/PRODUTOR

É uma pena. Com um futuro tão promissor…

VITÓRIA

Podia até estourar na Brodway…

DURAN/PRODUTOR

Ia levantar aquela verba na Funarte…

VITÓRIA

Ainda ía ganhar o Oscar! (Saem Duran, Vitória e João Alegre)

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INTERMEZZO

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Luzes gerais no palco e na platéia

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LÚCIA (Entra)

Que é que tá acontecendo, hein?

TERESINHA

O autor se meteu a besta e resolveu embananar o happy end. Daí os figurantes embarcaram na palhaçada…

BEN

Figurante é a mãe! Coadjuvante!

TERESINHA

Vamos, façam alguma coisa aí vocês! Tem que entreter o público!

MAX

Vamos, moçada! The show must go on!

SHIRLEY

Que é que eles tão querendo mais? Tô há quase três horas me esgoelando neste palco!

JUSSARA

Eles tão pensando que são estrela, só porque ganham duas vezes mais que a gente.

MIMI

Mas agora mixou. O João Alegre disse que, em peça dele, fodido é que fala mais alto. Diz que, em letreiro de teatro dele, fodido vai ser estrelo e estrelo vai se foder.

GENERAL

Disse, pois é. Mas quero ver o que é que ele vai dizer agora que estão umedecendo a pata dele.

SHIRLEY

Ele agüenta firme. Pelo João Alegre eu ponho a mão na merda.

PHILLIP

Vou te contar. Enquanto artista depender de autor e produtor, tá ferrado!

DÓRIS

Eu digo mais. A melhor coisa que pode acontecer pra gente, mas a melhor mesmo, coisa de sonho, coisa de shangri-la, é ter um cara da TV Globo na platéia e chamar a gente pra novela das oito.

JOHNNY

Sabe duma? Se fosse atacar de muamba pra valer, tava numa melhor.

FICHINHA

E eu? O que tô ganhando aqui num mês, puta de verdade fatura numa noite, rodando a bolsa na Vieira Souto. Aliás, tô decidida. Vou ser puta no duro! Se alguém aí na platéia se habilita, é só passar no camarim.

GENERAL

Muito me admira é o Barrabás. Como é que é, homem, se bandeou pro lado dos ricos?

BARRABÁS

Te manca, General. Deixa eu me destacar aqui perto dos figurões.

JOHNNY

Belo espírito de solidariedade.

BARRABÁS

Daí eu pago uma lasanha na Fiorentina.

JOHNNY

Ah, bom.

GENI (Entra com duas bolsas grandes de palha)

Olá, todo mundo.

PHILLIP

Ô, Genival, chegue-se aos bons!

GENI

Quem é esse cara mesmo, hein? Ah, Teresinha, Lúcia, que bom encontrar vocês!

PHILLIP

Ô, bichona, eu falei contigo!

GENERAL

Qual é, Geni? Não fala com a gente?

GENI

De onde é que eu conheço esses caras mesmo? É do Retiro dos Artistas ou da TV Educativa? Mas, queridas, olha que barato essas bolsas italianas. Qualquer butique de Ipanema tá vendendo a oitocentos contos! Eu faço por quinhentos…

TERESINHA

Ai, que graça!

GENI

Tem também um soirée bem metido a antigo, ideal pra festa de entrega de prêmio Molière!

LÚCIA

Esse é meu!

GENI

Olha só esses penduricalhos… Bem art-nouveau…

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Entram Duran e Vitória

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EPÍLOGO DITOSO (Ópera)

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VITÓRIA

Música, maestro!

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Orquestra dá acorde seco e introduz a ópera. Do fundo do palco vem surgindo João Alegre, sentado ao volante de um conversível modelo anos 40. De agora em diante, tudo será cantado

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Os artistas cantam a “Ópera”

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Pedaço de Mim – Em Quadrinhos

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aaaaaMúsica - Pedaço de Mim

Intérprete(s) – Zizi Possi e Chico Buarque

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aOh, pedaço de mimaaa Oh, metade afastada de mimaaaaaaaLeva o teu olhar

a

aaaQue a saudade

aaaé o pior tormentoaaaaaaÉ pior do que o esquecimentoaaÉ pior do que se entrevar

a

aaOh, pedaço de mimaaaaaOh, metade exilada de mimaaaaaaLeva os teus sinais

a

aaQue a saudade

aadói como um barcoaaQue aos poucos descreve um arcoaaE evita atracar no cais

a

aaOh, pedaço de mimaaaaaOh, metade arrancada de mimaaaaLeva o vulto teu

a

aaQue a saudade

aaé o revés de um partoaaA saudade é arrumar o quartoaaaDo filho que já morreu

a

aaaOh, pedaço de mimaaOh, metade amputada de mimaaaaaLeva o que há de ti

a

aaQue a saudade dói latejadaaaÉ assim como uma fisgadaaaNo membro que já perdi

a

aaOh, pedaço de mimaaaaOh, metade adorada de mimaaaaaLava os olhos meus

a

aaaaaQue a saudade

aaaaaé o pior castigoaaE eu não quero levar comigoaaaaaaA mortalha do amor

a

aaaaaaaaaaa aAdeus

aa

a

Palavra dócil

Palavra d´água pra qualquer moldura

Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa…

a

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Pedaço de Mim – Chico Buarque (letra e música)

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aaaaaMúsica – Pedaço de Mim

Intérprete(s) – Zizi Possi e Chico Buarque

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Obs. No álbum original da Philips a música é cantada por Gal Costa e Francis Hime, mas como a gravação de Zizi com Chico veio antes, no LP do Chico em 1978, optei por colocá-la.

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TERESINHA

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

 

MAX

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

 

TERESINHA

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

 

MAX

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

 

OS DOIS

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

A

A

A orquestra segue tocando, mas é abafada aos poucos pelo canto barulhento da passeata

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Ópera do Malandro – Ato II – Cena 5

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Cadeia; Max dentro da cela e Barrabás do lado de fora

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BARRABÁS

Desta tu não escapa, hein?

MAX

Escapo sim.

BARRABÁS

Ah, é? E quem te safa?

MAX

Você, Barrabás. Você vai tomar a arma do inspetor, vai trancar todo mundo no banheiro e vai embora comigo.

BARRABÁS

Ah sim, meu amor? Depois promete que casa comigo? Hein, coraçãozinho? Também vai me levar pra Hollywood?

MAX

Não, muito melhor. Vou te levar pra Cuba. Já ouviu falar de Cuba? É o paraíso, Barrabás. Muita praia, muito coqueiro, muito cassino, muita rumba, muita mulher e ninguém precisa trabalhar. Eu tenho um camaradinha lá chamado Fulgêncio. Imagina que o Fulgêncio me mandou um cartão postal contando que, agora ele é o manda-chuva de lá. Quer dizer, Barrabás, que lá em Havana você é amigo do rei.

BARRABÁS

Conta mais, conta mais que eu tô quase abrindo as pernas!

MAX

Pára com isso, Barrabás! Eu sei que você não é mulher nem criança pra cair em conversa fiada. Você é malandro, que eu sei! Muito mais malandro de que eu! Basta dizer que arranjou emprego na polícia, logo você que tem uma folha corrida mais suja que colchão de puta. Não precisa dizer mais nada, é só ver quem tá de que lado da grade pra saber quem é mais malandro.

BARRABÁS

Obrigado.

MAX

Então, isso que eu falo do meu amigo Fulgêncio, isso não é nada, é só uma sugestão dum belo lugar pra você passar o resto dos seus dias, fazendo pesca submarina no Caribe. É só isso, e você não vai me soltar por causa disso. Você vai me soltar porque eu te dou condições de ser feliz em Cuba, em Honolulu ou em qualquer outro lugar do mundo. Em outras palavras, vou te dar todo dinheiro que tenho no cofre.

BARRABÁS

Cala a boca, Max. Assim você me ofende. Agora eu sou um homem de bem… Quanto é que você tem no cofre?

MAX

Pra lá de cinco mil dólares… Escuta! É a voz da Teresinha. Vamos fazer melhor, Barrabás. Eu digo à Teresinha pra te abrir o cofre. Você me solta e fica garantido. Eu não vou te dar um golpe se a Teresinha tá contigo de refém… Teresinha, meu amor!

TERESINHA (Entra)

Max, que bom te ver! Eu tava com tanto medo de chegar atrasada!

MAX

Você chegou na hora exata. Conhece o Barrabás, não é mesmo?

TERESINHA

Prazer. Sabe o que é, Max? A gente tá com o tempo apertado e eu trouxe uns papéis pra você assinar.

MAX

Isso a gente vê amanhã, baby. Agora o Barrabás vai me soltar e você vai dar a ele todo o dinheiro do cofre.

TERESINHA

Dinheiro do cofre?

MAX

Todinho. Vamos, Barrabás! Dá uma gravata no inspetor.

TERESINHA

Mas, querido, não tem dinheiro nenhum no cofre.

MAX

Não tem? Cê tá louca? Tinha mais de cinco mil dólares!

TERESINHA

Cinco mil cento e sete dólares e vinte e cinco cents. Mas agora a gente tá devendo dezessete mil.

BARRABÁS

Adeus, Max.

MAX

Tá brincando. Devendo a quem?

TERESINHA

Aos bancos, é claro. Uma firma tem que estar sempre devendo a todos os bancos. Tá tudo aqui no livro-caixa, meu amor, mas é meio complicado de explicar e não vai dar tempo de você conferir. Mas pra ter uma idéia, só de advogados, contabilidade e documentação, foram uns seis mil. E dez mil dólares eu dei de entrada nun conjunto de salas na Avenida Central. Uma beleza, Max. No oitavo andar, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Você tem que assinar aqui, aqui e aqui. Foi mais por isso que eu vim assim correndo, porque é de maior urgência e mal deu pra eu me pintar. (Max vai assinando tudo sem esboçar a menor reação) A firma precisava dum endereço comercial porque não tinha graça timbrar no papel: MAXTERTEX Limitada, endereço cabana da praia. Ah, as promissórias, que eu prometi levar a tua assinatura aos bancos amanhã bem cedo. Os gerentes têm sido muito camaradas comigo, sabe, Max? Imagina que eles me atenderam em dia de sábado! Agora só falta assinar essa folha em branco que é pra me prevenir em caso de acidente grave ou doença que te deixe impedido e que é pros nossos negócios não sofrerem solução de continuidade e o dr. Sobral já me disse que espólio é um processo muito demorado… Ah, que bom que deu tempo pra tudo! Fala de você agora, querido. Max, eu nunca te vi calado assim! Diz o que é que você tá sentindo, por favor!

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MAX

Eu estou sentindo medo, muito medo. (Cresce o barulho da passeata, como uma canção selvagem)

TERESINHA

Bom, não é pra te consolar, mas quem hoje te condena à morte tá condenado pra depois de amanhã. Papai, inspetor Chaves, a Lapa, as falcatruas, todo esse mundo já tá morto e caindo aos pedaços.

MAX

É, isso não me consola muito não. Tô com medo.

TERESINHA

Eles também tão com medo, Max. Precisava ver a cara da mamãe. Tá ouvindo a multidão aí embaixo? Coitada da mãe, mas essa gente tá certa, tem mesmo que desabafar. Ninguém agüenta mais esse clima, esse sufoco! Tá todo mundo precisando duma coisa nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na cara que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas largas, tem que levantar muitos arranha-céus, tem que inventar anúncios luminosos, e a MAXTERTEX faz parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, porque nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um pouquinho do teu espírito…

MAX

Que se foda o meu espírito. Quem tá com medo é o meu corpo. É deste corpo aqui que eu gosto, gosto muito, adoro. Tô acostumado dentro dele e não quero sair.

TERESINHA

Sangue novo! A nova civilização! É claro que os malandrinhos, os bandidinhos e os que acham que sempre dá-se um jeitinho, esses vão apodrecer debaixo da ponte. E vai ter um lugar ao sol pra quem quiser lutar e souber vencer na vida. É daí que vem o progresso, Max, do trabalho dessa gente e da nossa imaginação. Daqui a uns anos, você vai ver só. Em cada sinal de trânsito, em cada farol de carro, em cada nova sirene de fábrica vai ter um dedo da nossa firma. Você devia se orgulhar, Max.

MAX

Este meu corpo tá inteirinho, tá cheiroso, tá com toda a vida, tá jogando saúde pro ladrão. A boca quer chupar mais manga, a garganta quer tomar mais cerveja, o pau tá querendo foder e a cabeça quer pensar besteira. Depois ia chegar um dia que o corpo ia parando de querer. Ia minguando a fome, a sede, o tesão, ia dando preguiça de pensar, e as carnes se decompondo naturalmente, devagar, na cama. Assim é que tinha que ser.

TERESINHA

E vai demorar meio século pra essa gente se  juntar de novo e levantar a voz. Porque a multidão não vai estar abafada, nem encurralada, nem tiranizada, nem nada. Você devia se orgulhar.

MAX

Então, não é justo esmagar um corpo assim no meio do caminho. Interromper um gesto, a digestão, interromper uma idéia, um programa, uma música, o sangue correndo nas veias, e o corpo parar de chofre, ainda produzindo saliva e esperma, e cheio de merda por dentro.

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Orquestra ataca a introdução, abafando o barulho da passeata

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TERESINHA

Acho que tá na hora, Max.

MAX

Acho que tá na hora.

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Max e Teresinha cantam “Pedaço de Mim”

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