A Rosa

 
As composições anteriores, Bolsa de Amores e Essa Passou, foram feitas em
1971, todavia, para melhor ilustrá-las, citei A Rosa, que só seria feita em 
1979. Resolvi colocar a letra dela fora da época apenas para ter melhor
base de argumento.
http://mpbsapiens.com/bolsa-de-amores-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/essa-passou-analise-de-texto/
A Rosa será analisada normalmente quando o estudo atingir o seu ano de 
criação, como usualmente ocorre com as demais.
 
 Vídeo de andressasouza
 
Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes troca meu nome
E some
 
E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela
Ói ela
Ói ela, vestida de verde e rosa
 
A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente
 
Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa
Abusa
Me acusa, revista os bolsos da calça
 
A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa
Se queixa
A gueixa, que coisa mais amorosa
A Rosa
 
Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa
 
Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes me chama Alberto
Alberto
 
Decerto sonhou c´o alguma novela
Penélope, espera por mim bordando
Suando, ficou de cama com febre
Que febre
A lebre, como é que ela é tão fogosa
A Rosa
 
A Rosa jurou seu amor eterno
Meu terno ficou na tinturaria
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta
Me gusta, cismou de dançar um tango
 
Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa
Às pampa, voltou toda descascada
 
A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota a minha laringe
Esfinge, devora a minha pessoa
À toa
A boa, que coisa mais saborosa
A Rosa
 
Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa
 
Arrasa…
 
 
 

                 .

Comentários (2) »

Essa Passou – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/bolsa-de-amores-analise-de-texto/
 
Chico teve algumas namoradas antes da chegada de Marieta Severo. Era 
comum vê-lo cantando em bares com o seu grupo de faculdade, Sambafo.
Nunca soube se o grupo o acompanhava ou o atrapalhava com o barulho.
 
Era comum vê-lo próximo aos bares das “zonas”, da Consolação ou da Bento 
Freitas, em Sampa, com o violão e um grupo de rapazes. Não tinha mulheres
no grupo, e isso pode ser explicado pelos rigores educacionais da época. Não
havia grupos de moças e rapazes naqueles locais. Não pegava bem.
 
Embora eu não tenha constatado a presença dele nas bares do cais de Santos,
era bem provável que o grupo costumasse fazer farra também por lá, no Bar
Boneca, no Magistral Danças etc.
 
Citei os bares do cais de Santos pelo fato do Chico ter ficado profundamente
marcado pela figura de uma mulher associada ao mar, conforme o visto na
composição Morena Dos Olhos D´Água.
http://mpbsapiens.com/morena-dos-olhos-d%c2%b4agua-t/
Para esse caso, a imprensa encontrou um possível romance entre o Chico e
uma dama da sociedade, cujo nome não lembro, e tanto faz para o estudo da 
obra, nunca confirmado por ele.
 
Nem poderia fazê-lo, pois, no momento em que associasse uma música sua a
uma mulher específica, todas as demais se sentiriam rejeitadas e a fofoca
da imprensa correria solta vendendo jornais e revistas mexeriqueiras, o 
transformando num objeto de estudo dos salões de beleza.
 
Pode ser até que, Essa Passou, se refira à mesma Morena dos Olhos D´Água,
mas convém antes escutarmos a música para depois concluirmos:
 
 Vídeo de sidnei009
 
Foi ela que me convidou
Fui eu que não soube chegar
Foi ela que me maltratou
Fui eu que não soube chorar
Andei sete léguas de amor
Chorei sete litros de mar
Mas ela não se saciou
Mas ela não soube esperar
 
Foi ela que me condenou
Sou eu que vou lhe perdoar
Foi ela que tanto pecou
Sou eu que vou me confessar
Foi ela que se ajoelhou
Sou eu que vou ter que rezar
Foi ela que me arruinou
Sou eu que vou ter que pagar
 
Foi ela que me incendiou
É fogo na roupa contar
É mais uma história de amor
Que outro me tome o lugar
Não está mais aqui quem chorou
Um outro que venha chorar
É mais uma história vulgar
Mas se ela bater faz entrar
 
É mais uma história de amor
Mas se ela chamar diz que eu vou
Correr sete léguas de amor
Beber sete litros de mar
Pra ela dizer que acabou
Pra ela dizer que acabou
Pra ela dizer que não está
Pra ela dizer que não está
 
À primeira vista, é apenas a letra de mais um samba do Chico, desta feita com
a parceria do Carlinhos Lyra, também parceiro do Vinícius na época da
Bossa Nova. Mas dois aspectos da letra mostram se tratar de uma 
composição poética bem mais séria do que tal aparência.
 
1 – Chico dispos os versos em estrofes Oitavas Líricas.
http://mpbsapiens.com/oitava-lirica/
2 – O verso Fui eu que não soube chorar é o mesmo de outra composição dele,
Desencanto, feita muito antes de ganhar alguma fama no cenário artístico, logo,
a Morena dos Olhos D´Água precederia à época em que foi escrita?
http://mpbsapiens.com/primeiros-versos/
Muito se escreveu sobre o Lirismo das letras do Chico, mas ele, de fato, só
o confirmou poeticamente em poucas ocasiões, principalmente usando as
Oitavas Líricas, que sempre foram a nata do lirismo na Construção Poética,
fundamental para ele nas confecções das letras.
 
A música pode ter sido feita para a mesma Carolina, que poderia ser um
apelido da Madalena que foi pro mar, que talvez fosse a morena mais atenta
ao mar que a ele, porém trás também as características fundamentais de outro
personagem vindouro da obra dele, A Rosa.
http://mpbsapiens.com/a-rosa/
A própria composição vista na postagem anterior, Bolsa de Amores, já possui
 características marcantes da Rosa vindoura, e essa, com certeza, seria uma 
habitante tanto das “zonas” de Sampa, quanto do cais de Santos.
 
Sem dúvidas: Essa mulher mexeu com os sentimentos do Chico antes e depois
da chegada da Marieta, caso contrário ele nem escreveria mais a respeito dela,
nem para dizer que “Essa Passou”, ou tampouco a retivesse na memória para
justificar ao futuro surgimento de A Rosa, num Desencanto duradouro.
 
Nesse caso, cabe uma grande quantidade de composições no meu imaginário
enredo: Minha História, Nicanor, A Mulher de Cada Porto…
 
Não confundir esta música com Essa Aí Passou, feita anos após pelo Chico
em parceria com o Dominguinhos.
 
Próxima – >  http//mpbsapiens.com/
 

            .

Nenhum comentário »

Bolsa de Amores – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/cordao-analise-de-texto/
 
Bolsa de Amores foi feita em homenagem ao cantor Mário Reis, que ficou
mais conhecido como o “Bacharel do Samba”, pois além da trajetória artística
era formado em Direito. Nos anos 30 era comum acontecer esse tipo de 
coisas, de, embora artista, o indivíduo continuar os estudos noutras áreas,
talvez pela própria insegurança financeira que a carreira artística oferecia.
 
Na época do rádio, só os chamados vozeirões faziam maior sucesso. Mário
talvez tenha sido um dos primeiros cantores com voz mansa a ter alguma
fama, pois de alguma maneira agia no interior das mulheres, já cansadas da
Sociedade Patriarcal a que se submetiam em tais tempos idos, e esse talvez 
tenha sido o mote para Chico escrever essa letra e dedicar a ele.
 
Chico tem um costume de, às vezes, compor a música inspirado pela figura
de um determinado cantor. O caso mais notável desse costume se mostrou na
composição Bastidores, feita para a voz de Cauby Peixoto.
 
Já no caso do Mário Reis, a letra foi uma espécie de gozação, pelo fato do
cantor também ter ficado famoso pela “Elegância Malandra” nas interpretações
musicais, simulando muito bem uma roupagem distinta sobre a intenção pra
lá de cafajeste. Algo assim como Moreira da Silva, o popular “Kid 
Morangueira, cantando o repertório do Francisco Alves, ou do Silvio Caldas:
 
Comprei na bolsa de amores
As açoes melhores
Que encontrei por lá
Ações de uma morena dessas
Que dão lucro à beça
Pra quem sabe
E pode jogar
 
Mas o mercado entrou em baixa
Estou sem nada em caixa
Já perdi meu lote
Minha morena me esquecendo
Não deu dividendo
Nem deixou filhote
 
E eu que queria
De coração
Ganhar um dia
Alguma bonificação
Bem que dizia
Meu corretor
A moça é fria
Ao portador
 
Umas e Outras foi a composição que marcou o início da atenção do Chico
voltada à prostituição. Em Bolsa de Amores essa atenção ficou melhor
encaixada ao assunto pelo fato de ser mais direta no texto, posto que em 
Umas e Outras a prostituição se referia mais à vida artística dele do que ao
cotidiano social nosso.
http://mpbsapiens.com/umas-e-outras-analise-de-texto/
Mais adiante veremos a peça Gota D´Água, em que Chico adaptou uma
tragédia grega ao cotidiano carioca, fazendo o assunto girar ao redor da
relação entre o cafetão Jasão e a prostituta Joana. Dessa forma, a música
Bolsa de Amores caberia tranquilamente em algum espaço da peça, num 
possível diálogo dos cafetões Jasão e Cassetão, se Chico assim o quisesse.
 
A composição não foi gravada em nenhum dos Lps. Oficiais do Chico, e isso
talvez justifique a ausência de qualquer vídeo na internet. Se algum dos leitores
tiver alguma gravação dela, peço a gentileza de entrar em contato comigo.
 Ver – > http://mpbsapiens.com/a-rosa/
Próxima – > http://mpbsapiens.com/essa-passou-analise-de-texto/
 

               .

Nenhum comentário »

Cordão – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/construcao-poetica-e-texto/
 
As duas Censuras – do governo militar e dos patrões – começaram a pegar
no pé do Chico muito mais quando ele voltou do auto exílio do que antes dele.
Se, por um lado, a sua música poderia ser entendida como incitadora das
massas populares, por outro, as gravadoras estavam mais preocupadas com
as vendagens dos discos.
 
Infelizmente não encontrei nenhum vídeo para anexar à postagem, portanto
aqui vai a letra da composição. Todavia, se algum dos senhores, leitores, tiver 
a possibilidade de produzí-lo, Cordão faz parte do quinto LP oficial dele:
 
Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém 
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão
 
Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
 
Ninguém
Ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender
Na noite da solidão
Pois quem
Tiver nada pra perder
Vai formar comigo o imenso cordão
 
E então
Quero ver o vendaval
Quero ver o carnaval
Sair
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder…
 
Reparando bem, o texto da composição Cordão é uma continuação do que o
mesmo sintetizara em Apesar de Você. Qualquer texto, corrido ou em versos,
é uma Reação, cuja Ação é um sentimento anterior, do escritor ou do poeta,
brotado do seu cotidiano social.
http://mpbsapiens.com/apesar-de-voce-analise-de-texto/
Devemos evitar julgar a certa música do Chico isoladamente, pois ele, como
qualquer poeta, é escravo do verso e sempre volta a um assunto anterior pela
suspeita de não tê-lo terminado.
 
A revolução militar ainda estava lá, censurando, mas não podemos esquecer
que os Anjos e Capetas da peça Roda-Viva também estavam lá, manipulando
as carreiras dos artistas, e o que Chico recrutou em Cordão não foi somente
o povo cantando livre, mas os demais compositores, que o deixaram falando
sozinho quando resolveu denunciar àquela armação da mídia, anteriormente
na peça Roda-Viva, cantando junto.
http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/
 
Diria que o texto de Cordão deve ter voltado à cabeça do Chico, anos após,
no musical infantil Os Saltimbancos, quando escreveu este pensamento:
 
Todos nós num mesmo barco
Não há nada pra temer
Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos Juntos somos fortes
Não há nada pra temer
 
 
Próxima – > http//mpbsapiens.com/
 

            .

Nenhum comentário »

Angélica, A Poesia Dos Anjos do Chico

Anterior – >
 
Nos anos 60, ir para Santos de carro tinha só duas opções: Estrada Velha ou
Via Anchieta. Ir para o Guarujá era um barato, porque exigia que se pegasse
a balsa, também conhecida por Ferry-Boat.
 
Ainda não havia as rodovias dos Imigrantes e, principalmente, a chamada
Piaçaguera-Guarujá, que ligava a cidade de Cubatão à do Guarujá através
de um macio caminho sobre quilômetros de manguezais, que era um paraíso
dos moleques que caçavam caranguejo para vender nas margens da Anchieta.
 
Foi nas primeiras idas ao Guarujá que descobri uma cidade chamada Vicente
de Carvalho, que ficava próxima à Ilha Barnabe, que de alguma forma dava
um charme especial ao nosso popular Barnabé. A placa era famosa: Vicente
de Carvalho e Ilha Barnabe adiante!
 
A ilha era um natural motivo de gozação, mas a minha curiosidade maior ficou
para o nome Vicente de Carvalho, e acabei descobrindo que o cara havia
sido um grande escritor e poeta de Santos, que dentre várias obras, tinha um
longo poema chamado Pequenino Morto.
http://mpbsapiens.com/pequenino-morto/
Pequenino Morto era a história de um pai, que perdera um filho ainda jovem,
e se recusava a acreditar na sua morte, mesmo já repousado o corpo no
devido caixão, mas o que mais me chamou a atenção no poema, além da 
recusa do pai em acreditar que o filho morrera, foi a repetição sonora do
fragmento “Tange-o sino, Tange…”.
 
Além da descrição do texto, o som da frase dava a idéia de “Anjo” (anje + O)
extraída naturalmente do som do verso, o que deu ao poema uma espécie
de Onomatopéia Angelical.
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/
Passado algum tempo, e abandonadas as expedições juvenis ao Guarujá,
certo dia, numa Feira Hippie, simpatizei com um estranho alaúde, que possuia
uma pequena caixa de ressonância, um braço enorme e curiosas 17 cordas
reguladas por três cravelhames.
 
O que mais me chamava a atenção no instrumento musical era o som que o
instrumentista tirava dele insistentemente: “Tange-on, tange-on, tange-on“.
Era o mesmo som do poema Pequenino Morto, do Vicente de Carvalho, na
forma de Mantra Angelical, comum à contracultura da época.
 
Minha vida me enveredou para os lados da composição musical, onde ganhei
uma razoável fama, com outros poemas e sons, mas aquela estranha 
associação mântrica do poema do Vicente, com o som do alaúde estranho, de
alguma forma ficou em minha memória, que simpatizava com Anjos.
 
Eu pertencia a uma família com tradição filosófica socialista, embora papai, um
famoso historiador, não nos furtasse o aprendizado dos demais conceitos
sociais para justificar à sua postura socialista, pois qualquer conceito só se
permite ser escolhido quando se conhece o seu inverso.
 
De alguma forma, os jornais fizeram com que a minha fama ficasse alternando
entre o socialismo e o nacionalismo, do qual virei um ícone em virtude do
impacto que uma feliz composição minha causara no povo, o que me permitiu
aparecer várias vezes na televisão.
 
Nunca entendi direito porque o papai proibia eu e os irmãos de ficarmos
assistindo televisão, embora insistisse na presença de uma na casa.
 
Vivíamos um período que suponho difícil, pois os militares haviam tomado
as rédeas do país em conflito com toda aquela imprensa que me apoiava 
nas canções, mas de forma confusa, pois ora me tornavam um ícone do
Nacionalismo, ora lembravam da minha formação familiar Socialista para
combater aos militares.
 
A família ficara marcada por uma posição Socialista Moderada. Muito mais
conceitual do que ativista, pois papai não era um homem dado a esses abusos
populares, em virtude da sua constante sede pelo conhecimento, que com o
passar dos anos nos torna cada vez mais prudentes.
 
Por outro lado, além de toda aquela festa que a imprensa fazia com o meu 
nome, havia uma cobrança de muitos grupos ativistas para que eu me unisse
a eles nas manifestações, quando, no fundo, o que eu mais queria era continuar
fazendo as minhas canções e vivendo a vida prudentemente.
 
Acabei tendo de sair do Brasil por alguns meses, imaginando que, após o
retorno, aquele tipo de engajamento a fórceps houvesse diminuído entre os
grupos ativistas, mas piorara. De alguma forma acabei indo visitar a uma
ativista, que queria conversar comigo acerca de uma colega, jornalista, cujo
filho havia desaparecido em 1968, provavelmente sequestrado por grupos
de militares de caça aos comunistas.
 
Fui até o endereço da mulher. Era um prédio de apartamentos, e o dela
ficava alguns andares acima do térreo. Quando eu pedia informações ao
porteiro do prédio, houve uma grande explosão no edifício. Sem perder mais
tempo com qualquer pergunta me mandei de lá rapidinho.
 
No dia seguinte fiquei sabendo que a explosão ocorrera exatamente no 
apartamento da mulher com quem eu estaria conversando minutos após. 
 
Deixei toda aquela poeira baixar, continuei compondo as minhas músicas e,
curiosamente, aquele velho som, comum às minhas folias no Guarujá, que
fizeram com que eu conhecesse Vicente de Carvalho, e o Pequenino Morto
com o seu “Tange-o sino tante-o sino…”; associado ao som repetitivo do 
estranho alaúde do hippie, começaram a conversar mais com os meus anjos.
 
Precisava saber o porque daquela insistência da harmonia repetitiva na minha
cabeça. Consultando um dicionário, descobri que, tanto a repetição de uma
harmonia fixa, quanto o nome do estranho alaúde era Angélica. Finalmente
entendera porque os meus Anjos Interiores se manifestavam diante daquele
evento de conjunções sonoras poéticas e instrumentais.
 
Foi quando recebi a visita de uma jornalista, cujo nome era Zuzu Angel, que
me contou a sua história. Aquela mesma que seria contada pela mulher ativista,
caso não houvesse ocorrido aquela explosão no edifício; que chorava à
ausência do filho desde 1968 e, a exemplo do que Vicente de Carvalho havia
me dito em seu Pequenino Morto, se recusava a crer que o filho tivesse
morrido, pedindo a minha ajuda, como se eu, com a minha simples condição
de poeta, pudesse ajudá-la numa missão muito mais apropriada a um detetive
do que a um compositor musical.
 
No entanto, aquela soma de sentimentos poéticos e melódicos anteriores, 
associados ao recente enredo semelhante, adquirido após a conversa com a
jornalista, ficaram perambulando em minha cabeça por alguns dias.
 
Foi quando, certo dia, ao passar em frente à igreja São Bento, em Sampa,
escutei uns cantos dos monges vindos da igreja. Embalado pelo som do velho
companheiro escolar, o Latim, acabei ficando curioso o bastante a saber do
que se tratava aquele evento religioso.
 
Estávamos na época do chamado Círio Pascal, e fui informado que era um
ritual dos monges Marianos, de visitar às demais congregações de monges, 
entoando àqueles cânticos referentes à Páscoa Católica.
 
A coisa pegou mesmo quando me disseram que aquele conjunto de cantos
tinha o nome de Angélicas. Foi como se todos os Anjos, anteriores e recentes,
se unissem em minha cabeça fermentando à inspiração de um novo poema,
pois não podemos esquecer que os monges Marianos estão relacionados ao
nome Maria, que, a exemplo da Zuzu Angel, também teve um famosíssimo 
filho torturado e morto: Jesus.
 
Na música, não poderia faltar o som do Alaúde Angélica, nem a Fixação da
Harmonia Angélica, e muito menos os Pequeninos Mortos do Vicente de 
Carvalho, da Zuzú Angel e da Santa Maria. Dessa soma de sentimentos e 
conceitos, nasceu:
 
 Vídeo de Nad2006
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
 
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar
 
Em todas as estrofes coloquei a figura da mulher cantando, já de olho numa 
Rima de Eco para o segundo verso da última, que deveria ser:
http://mpbsapiens.com/rima-de-eco/
Quem é essa mulher
Que canta como tange-o sino…
 
Entretanto decidi não colocar assim, pois detesto entregar o ouro, pra outro 
Malandro assim, de “mão beijada”!
 
Como, na letra, não sobrou argumento para o Vicente falar do seu Pequenino,   fiz com que Ele cantasse sobre o seu filho pelo drama da mulher Zuzu Angel.

 Basta reparar no texto. O filho não é o dela, mas o do narrador. 

 Como a composição deu origem até a um filme, preferi calar sobre esse detalhe,

que mais uma vez passou despercebido pela crítica.

 

Quem quiser saber qual é o formato do estranho alaúde, Angélica, basta
encontrar uma capa do meu LP Almanaque, achar a letra da música e
reparar ao lado. Tem uma Angélica lá….
 
 - Esse conto foi baseado nas experiências vividas pelo Compositor ou pelo
analista da obra?
 
Tirando a composição musical, nunca se saberá, com certeza, o que pertenceu   a  Um ou a outro, porque:
 
Mulher quando morre vira Santa
Criança quando morre vira Anjo
Malandro quando morre vira samba
http://mpbsapiens.com/malandro-quando-morre-analise-de-texto/
 
Próxima – >  http//mpbsapiens.com
 

              .

Nenhum comentário »