A Foto.


| Caía |
| A tarde feito um viaduto |
| E um bêbado trajando luto |
| Me lembrou Carlitos |
| A lua |
| Tal qual a dona do bordel |
| Pedia a cada estrela fria |
| Um brilho de aluguel |
| E nuvens |
| Lá no mata-borrão do céu |
| Chupavam manchas torturadas |
| Que sufoco |
| Louco |
| O bêbado com chapéu coco |
| Fazia irreverências mil |
| Prá noite do Brasil |
| Meu Brasil! |
| Que sonha |
| Com a volta do irmão do Henfil |
| Com tanta gente que partiu |
| Num rabo de foguete |
| Chora |
| A nossa pátria-mãe gentil |
| Choram marias e clarisses |
| No solo do Brasil |
| Mas sei |
| Que uma dor assim pungente |
| Não há de ser inutilmente |
| A esperança |
| Dança |
| Na corda bamba de sombrinha |
| E em cada passo dessa linha |
| Pode se machucar |
| Azar |
| A esperança equilibrista |
| Sabe que o show de todo artista |
| Tem que continuar |
| Antes de qualquer idéia à respeito dessa composição é necessário ter em vista |
| que, vinda de uma parceria de consagrados instrumentista e letrista, a melodia |
| ficou à cargo de João Bosco e a letra foi obra de Aldir Blanc. |
| Aldir sempre buscou dar às suas letras uma espécie de fotografia do momento |
| social que observava no cotidiano. Basta observar a letra da composição De |
| Frente Pro Crime, que nada mais fez do que retratar o nosso comportamento |
| diante do imaginário quadro proposto. |
| No caso de O Bêbado e a Equilibrista, tais personagens, embora se insinuem |
| populares, como comuns habitantes das ruas e circos, ambos foram extraídos |
| do interior dos autores. Onde ambos se confundem nos desequilíbrios que |
| povoavam as cabeças dos compositores da época. |
| Vivíamos uma ditadura militar, que buscando a reorganização social do país, |
| procurava censurar a toda e qualquer tendência menos nacionalista. O |
| objetivo maior dos militares era o de controlar a imprensa, que por ter nascido |
| no berço da queixa popular, percebeu que essa era também a melhor forma, |
| ou estratégia, de se vender jornais. É assim até hoje. |
| Tal censura se estendeu às obras dos artistas e aí se montou parte do cenário |
| da composição que trata, fundamentalmente, do sentimento do poeta diante |
| dos cotidianos seu (o Bêbado) e da equilibrista (a sua Dúvida interior), que |
| por não estar diante só de fatos, mas também de meras suposições vindas do |
| cotidiano jornalístico suspeito, acabou virando simples Esperança. |
| Caía |
| A tarde feito um viaduto |
| E um bêbado trajando luto |
| Me lembrou Carlitos |
| Na época em que foi escrita a música, o Rio de Janeiro passava pela comoção |
| de ter observado a uma famosa queda de um viaduto, que causou muitas |
| mortes. Diante do triste quadro cotidiano, o poeta se viu qual “Carlitos”, um |
| personagem cômico, vivido pelo ator Charles Chaplin, na época do Cinema |
| Mudo, cujos filmes eram, antes de tudo, voltados à comédia. |
| A lua |
| Tal qual a dona do bordel |
| Pedia a cada estrela fria |
| Um brilho de aluguel |
| Nesta estrofe o poeta observa o céu, provavelmente à noite, e compara o |
| poema que estava escrevendo, às possíveis estratégias de marketing que o |
| mesmo poema sofreria caso virasse música, conforme o Chico Buarque já |
| anunciara na peça Roda-Viva. |
http://mpbsapiens.com/roda-viva-introducao/ |
| E nuvens |
| Lá no mata-borrão do céu |
| Chupavam manchas torturadas |
| Que sufoco |
| Aqui o poeta transforma a imaginária abóbada celestial, algo comum aos |
| Gênesis da maioria das religiões, e mistura duas épocas: A atual do poema e a |
| vivida por ele na infância escolar, pois, afinal, quando Aldir aprendeu a |
| escrever, ainda não havia Caneta Esferográfica, mas aquelas à tinta, onde as |
| famosas Parker eram as mais cobiçadas. |
| Tais canetas à tinta exigiam dos alunos um acessório extra nos seus pertences |
| didáticos: O Mata-Borrão, que servia para secar os excessos de tinta nos |
| textos recém escritos, pois os professores não admitiam manchas neles. Os |
| que mais sofriam eram os alunos canhotos. |
| Isso explica à “chupada das manchas torturadas das nuvens”, pois era mais ou |
| menos o aspecto que os mata-borrões usavam apresentar depois de algum |
| tempo de uso. |
| Já o dito “sufoco” é comum aos dois tempos do poeta: Ao da infância, diante |
| da cobrança escolar sobre o texto, e o da realidade ditatorial-jornalística, |
| diante do teor do atual texto resultante, que viraria música, se submeteria às |
| prostituições da indústria da fama e poderia ser ou não censurada. |
| Louco |
| O bêbado com chapéu coco |
| Fazia irreverências mil |
| Prá noite do Brasil |
| Aldir se sentia qual Carlitos, comum à época em que usava o Mata-Borrão, |
| revisto no presente escrevendo sobre um mesmo país de outrora, o que |
| confirma com a expressão: |
| Meu Brasil! |
| Colocada em verso único exatamente para chamar a atenção pelo que já fora |
| dito e pelo que viria a seguir: |
| Que sonha |
| Com a volta do irmão do Henfil |
| Com tanta gente que partiu |
| Num rabo de foguete |
| Quando foi feita a música, o poeta tinha diante dele duas imprensas: A oficial, |
| dos jornais, que ele aprendera a suspeitar, e a do “boca a boca” da classe |
| artística, que alternava certezas e incertezas. |
| Uma das certezas era a do exílio do Betinho, consagrado defensor dos |
| Direitos Humanos, e que era irmão do Henfil, famoso cartunista da época, que |
| habitava as páginas do jornal O Pasquim, tido, pela ditadura, como um |
| tablóide com alto teor subversivo, embora cômico. |
| Chora |
| A nossa pátria mãe gentil |
| Choram marias e clarisses |
| No solo do Brasil |
| Diante daquela onda de exílios de artistas, oficiais ou voluntários, o poeta tenta |
| descrever à possível tristeza, comum a ele e ao povo, só que de forma bem |
| interessante, misturando as essências de possíveis viúvas às das comuns |
| prostitutas. Os nomes Maria e Clarice eram bem usados tanto por prostitutas |
| do Rio quanto de São Paulo. |
| Mas sei |
| Que uma dor assim pungente |
| Não há de ser inutilmente |
| A esperança |
| Existia uma triste realidade, mas o poeta não concordava em fazer do seu |
| poema um objeto de queixa, e, sim, de possíveis dias melhores, ainda que |
| baseado somente na suspeita Esperança. |
| Dança |
| Na corda bamba de sombrinha |
| E em cada passo dessa linha |
| Pode se machucar |
| Aqui ele reforça as suas suspeitas, diante apenas da certeza que os Ser e |
| Parecer do poeta se equilibravam numa finíssima linha imaginária, que poderia |
| consagrá-lo ou extinguí-lo, de acordo com as conveniências militares ou |
| jornalísticas da época. |
http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-claro-enigma/ |
| Azar |
| A esperança equilibrista |
| Sabe que o show de todo artista |
| Tem que continuar |
| Confirma que tudo não passava de um Jogo de “Azar”, apesar da Esperança |
| ter ficado consagrada como exímia equilibrista no circo da vida social, logo, |
| sempre haveria um lugar para o seu instrumento predileto: O Artista. |
| Acredito que O Bêbado e a Equilibrista tenha servido como parte do Mote |
| que levou Chico a escrever, anos após, a música Vai Passar, onde procurou |
| dar uma idéia mais ancestral do que ocorreu com a “Pátria-Mãe Gentil”, do |
| Aldir, comparada à “Pátria-Mãe tão distraída”, dele. |
| Encerrando, se o Aldir pôde usar as imaginárias prostituições da Roda-Viva |
| dele, porque o Chico não poderia usar-se da mesma Pátria-Mãe, também |
| “subtraída” comum às realidades artísticas de ambos? |
http://mpbsapiens.com/vai-passar-analise-de-texto/ |
.
| Muito já se comentou que parte da obra do Chico estivesse relacionada à |
| política. É preciso ter em vista que Chico foi filho de um consagrado |
| Historiador Social, Sergio Buarque de Hollanda, quando sabemos que a |
| maioria de nós, em alguma fase da vida, buscou dar continuidade às atitudes |
| dos nossos pais, logo, creio que certas músicas dela não estivessem próximas |
| do significado de Política, mas mais adequadas ao de Sociologia, posto que as |
| letras do Chico sempre tenderam à tradução dos nossos comportamentos |
| pessoal e social. |
| Duas das composições mais consagradas por tal engano conceitual foram |
| Apesar de Você e Vai Passar. Segundo a imprensa, e sabe-se lá quem mais, |
| Apesar de Você foi uma espécie de homenagem ao ex-presidente Médici nos |
| anos 70, mas, segundo uma crônica do Mário Prata, jornalista e amigo do |
| Chico, houve este episódio: |
http://mpbsapiens.com/apesar-de-voce-analise-de-texto/ |
| No princípio dos anos 70, em algum show não específico do Chico, a multidão |
| insistia que ele cantasse Apesar de Você e ele se recusava. Em dado momento |
| houve um silêncio na platéia. Foi quando uma senhora, posicionada numa |
| fileira próxima ao palco, bradou a Chico: |
| - Seja corajoso meu filho, cante! |
| Tal senhora era ninguém menos do que Dona Maria Amélia, mãe dele. Apesar |
| Dela, Chico preferiu não cantar a música, mas, mesmo não cantando, após o |
| show foi detido e levado para interrogatório em algum distrito adjacente. |
| Em tal interrogatório perguntou: |
| - Vocês entendem agora o porque da letra? Emendando em seguida: |
| - Ela sempre foi assim, desde que eu era criança, e desconfio até que muito |
| do que escrevo hoje em dia se deve à influência repressiva dela na minha |
| educação! |
| Comovidos com a situação familiar do Chico, os interlocutores encerraram o |
| interrogatório por ali mesmo e ele pode seguir o caminho sossegado. |
| Além de escrever bem como poucos, Chico sempre foi um gozador nato, e o |
| episódio acima, descrito por Prata, foi apenas mais um exemplo da sua |
| agilidade mental na criação das histórias musicais que povoaram as nossas |
| cabeças por anos. |
| Existe um pensamento do jogador, Robinho, que se encaixa muito bem ao |
| comportamento do Chico como compositor musical: |
| - Voltei a atuar no Brasil para recuperar a alegria de jogar futebol! |
| Chico é com a Palavra o mesmo que Robinho é com a Bola de Futebol: |
| Precisa da Alegria para traduzir pelas palavras às nossas emoções |
| comportamentais. Suponho até que escreva sorrindo um drama |
| comportamental cujo normal resultado em nós seja o choro. |
| Com a filosofia, resultante em nós, Chico tem a mesma responsabilidade do |
| Robinho, cujo drible resulte ou não em gol comemorado: |
| Ambos fazem as suas partes, independente do que sintamos, pois basta |
| estarem felizes com o que fazem para que nós sejamos os premiados. |
| Quanto ao Vai Passar foi um samba enredo gravado pelo Chico muitos anos |
| depois de feita a melodia que, segundo o parceiro Francis Hime, começou a |
| ser elaborada nos primeiros ensaios das parcerias dele com o Chico, em 1972 |
| com a composição Atrás da Porta. |
| Não se pode precisar a época em que a letra foi escrita. De 72 a 84, |
| conforme consta oficialmente no songbook da cia. das letras, que é muito |
| suspeito pela série de adequações dadas à cronologia da obra. Cabe qualquer |
| época, inclusive aquela em que o Chico escreveu o seu primeiro livro oficial: |
| Fazenda Modelo – uma novela pecuária. |
http://mpbsapiens.com/fazenda-modelo-novela-pecuaria/ |
| A letra de Vai Passar é uma espécie de enredo sobre a História sócio |
| econômica do Brasil nos anos 50, conforme o próprio Chico sugeriu em |
| entrevista, ao associá-la à letra de Dr. Getúlio, cuja melodia, pertencente a |
| Edu Lobo, também lhe foi entregue bem antes do samba ser oficialmente |
| gravado. |
| O final dos anos 60 e começo dos 70 foi um período muito conturbado. |
| Qualquer coisa que se gravasse, na época, ao invés de ser associada à |
| essência do que Chico tentou transmitir na peça Roda Viva, era |
| automaticamente voltada contra os militares pelas conveniências da imprensa. |
http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/ |
| Esse foi o motivo pelo qual, acredito, tanto Vai Passar quanto Dr. Getúlio |
| terem ficado tanto tempo à espera da gravação oficial. |
| Podem reparar que Vai Passar só apareceu no mesmo LP que continha Pelas |
| Tabelas, essa sim, com alguma aparência política, por ser baseada no |
| movimento Diretas Já, em que a letra mostra Chico com todas as suas |
| indecisões: “Claro que ninguém se toca com minha aflição”. Apoiar ou não |
| àquela folia democrática, elaborada pela Turma Invisível e propagada pela |
| Turma Visível, ambas da globo? |
http://mpbsapiens.com/pelas-tabelas-analise-de-texto/ |
| Qualquer um que se disponha a estudar um pouco da História Econômica do |
| Brasil verá que a nossa primeira dívida externa foi contraída por Pedro I junto |
| à casa britânica dos Rotschild. Verá que essa dívida só foi paga integralmente |
| pelo Getúlio 130 anos após, ficando o Brasil, por pouco tempo, livre da |
| agiotagem dos credores internacionais. |
| Essa liberdade econômica, que nos permitiu até emprestar dinheiro aos demais |
| países sul americanos na época, teve vida breve, pois ao assumir o poder, JK |
| contraiu novas dívidas, com credores americanos, tanto para a construção de |
| Brasília quanto para justificar a abertura das portas do país para a entrada da |
| multinacional indústria automobilística, cujos carros necessitavam de asfalto. |
| Não tínhamos uma realidade automobilística notável. Nossos veículos eram |
| todos importados, accessíveis somente às classes média e alta da sociedade. |
| Por outro lado, tínhamos dois outros sistemas de transporte em franca |
| evolução: Ferroviário e Hidroviário. Não precisa ser muito velho para lembrar. |
| Eu mesmo tinha o hábito de brincar de nadar, no rio Tietê, ao redor das |
| embarcações, cargueiras ou de passageiros, que passavam atrás do clube |
| Corinthians e iam descarregar no porto da Ponte Grande, junto ao Clube de |
| Regatas Tietê. |
| A ferroviária Estação da Luz ficava, e ainda fica, logo ao lado, prontinha para |
| receber cargas ou passageiros dos barcos e remetê-los aos respectivos |
| destinos: Tanto ao interior quanto ao Porto de Santos, quer para embarcarem |
| como exportações, quer para gozarem férias no litoral. |
| Poderíamos até demorar um pouco mais do que os paises mais “civilizados” para |
| enveredarmos pelas trilhas da Indústria Automobilística, mas o faríamos com a |
| direção do país nas próprias mãos, e nunca à mercê dos grandes agiotas |
| internacionais que nos manipulam a Cultura e a História até hoje por seus |
| veículos de comunicação. |
| Chico, alguns anos mais velho do que eu, certamente testemunhou a tudo isso |
| ocorrendo em São Paulo. Tanto o fez, que a composição, que o mesmo |
| reconheceu como primeira do seu estilo contestador foi Pedro Pedreiro, que |
| retrata parcialmente os resultados daquela arrazoada migração do norte e |
| nordeste para São Paulo no princípio dos anos 60. |
| Em síntese, Fazenda Modelo conta a história de Juvenal, o Bom Boi, que |
| resolveu construir no plano alto central da fazenda a sede dos seus sonhos: A |
| Juvenópolis, mas para atingir tal meta teve que se sujeitar aos chamados |
| “Invisíveis”, cujos nomes começavam todos pela letra K. Klaus, Kleber, |
| Krieger, Katazan etc. |
| Acho que esteja meio óbvia a associação do presidente Juscelino Kubitscheck |
| ao Juvenal, dos Kás Invisíveis, presentes em Fazenda Modelo: J + K; bem |
| como Brasília ser a Juvenópolis do plano alto central da fazenda. É muito |
| difícil associar? |
| Vai passar |
| Nessa avenida um samba popular |
| Cada paralelepípedo da velha cidade |
| Essa noite vai se arrepiar |
| Na Velha Cidade do Rio de Janeiro os desfiles das escolas de samba |
| ocorriam na Avenida Presidente Vargas, cujo calçamento era feito em |
| paralelepípedos (Oh, quanta coincidência!). |
| Ao lembrar |
| Que aqui passaram sambas imortais |
| Que aqui sangraram pelos nossos pés |
| Que aqui sambaram nossos ancestrais |
| Muitos sambas se perpetuaram, mas muita gente sangrou para que |
| sambássemos com os pés livres, ao mesmo tempo em que muitos ancestrais |
| nossos “sambaram” nas mãos dos credores internacionais. Mas, quando? |
| Num tempo |
| Página infeliz da nossa história |
| Passagem desbotada na memória |
| Das nossas novas gerações |
| A forma mais fácil de desbotar a memória das futuras gerações é confundir a |
| sua trajetória do passado. O que começou a ocorrer conosco mais fortemente |
| na segunda metade da década de 50 com a chegada dos novos moldes |
| americanos da imprensa. |
| Vejam o que Chico escreveu em Dr. Getúlio: |
| Lutando contra grupos financeiros |
| E altos interesses internacionais |
| Agora vejam como ele tratou do mesmo assunto, continuando em Vai Passar: |
| Dormia |
| A nossa pátria-mãe tão distraída |
| Sem perceber que era subtraída |
| Em tenebrosas transações |
| Notem a interessante coincidência da Juvenópolis, de Fazenda Modelo, |
| com o “posterior” Vai Passar: |
| Seus filhos |
| Erravam cegos pelo continente |
| Levavam pedras feito penitente |
| Erguendo Estranhas Catedrais |
| A Nova História, com os novos “Tapa Olhos” da imprensa, estava resumindo |
| cada vez mais as nossas raízes culturais ao Carnaval, uma fértil reserva |
| comercial que atuava no mesmo povo que construiu Brasília e foi transferido |
| para São Paulo para justificar parcialmente ao atual caos habitacional dessa |
| Orgulhosa Megalópole. . Assim: |
| E um dia afinal |
| Tinham direito a uma alegria fugaz |
| Uma ofegante epidemia |
| Que se chamava carnaval |
| O Carnaval, o carnaval |
| Personagens da nossa História se tornavam elementos banais dessa nova raiz |
| cultural desta forma: |
| Palmas pra ala dos Barões Famintos |
| O bloco dos Napoleões Retintos |
| E os Pigmeus do Bulevar |
| Tivemos na História os riquíssimos Barões do Café ficando duros subitamente |
| por conta das especulações financeiras do produto por mãos de financistas |
| do capital externo. |
| Quando Getúlio chegou ao poder em 1930, o fez com o apoio dos chamados |
| Integralistas, cujo extremo nacionalismo lhes rendeu o apelido de Novos |
| Napoleões, que Chico, por questões de rima, chamou de Napoleões Retintos. |
| Pigmeus do Bulevar foi um apelido que Chico deu aos chamados Novos Ricos |
| que habitaram as residências luxuosas das grandes avenidas (Bulevar) à partir |
| dos anos 40. Grandes fortunas nas mãos de Pigmeus Sociais. |
| Meu Deus vem olhar |
| Vem ver de perto uma cidade a cantar |
| A evolução da liberdade |
| Até o dia clarear |
| Ai que vida boa olerê |
| Ai que vida boa olará |
| O estandarte do Sanatório Geral |
| Vai Passar. |
| Tudo transformado numa Festa de Sonhos, tão atingíveis quanto o significado |
| integral dos termos Liberdade, Lei, Ordem…; comuns ao Sanatório Geral do |
| Carnaval. |
| Vai Passar foi um peculiar estudo da História Recente do Brasil, que apenas |
| mostrou estar a ilusão social acima dos presidentes e seus respectivos partidos |
| políticos, justificados pelos votos que os elege e alimentados pelas próprias |
| trajetórias posteriores às urnas. |
| Ando com minha cabeça já Pelas Tabelas |
| Claro que ninguém se toca com minha aflição… |
.
| Anterior – > http//mpbsapiens.com/ |
| Roda Gigante foi composta em 1965, mas gravada só em 1966, pelo grupo |
| vocal Os Cariocas, aproveitando o lance do ano em que o jovem Francisco |
| explodiu no cenário artístico brasileiro como o compositor Chico Buarque de |
| Hollanda, cuja composição, A Banda, dividiu com Disparada, do amigo e |
| concorrente Geraldo Vandré, o troféu de vencedora do Festival de Música |
| da TV Record de São Paulo. |
| Roda-Gigante – Os Cariocas – 1966 |
| Lembra, amor? |
| Do tempo em que existia, amor |
| Um beijo escondido no parque de diversões |
| E depois, |
| Brincando de brincar |
| Nos brinquedos parados |
| Nós dois. |
| Me leva ao céu, roda gigante |
| E o carrossel não pára um instante |
| Você e eu |
| Brincamos tanto |
| É que só o amor não era um faz de conta |
| Montanha russa emocionante |
| Túnel do amor apaixonante |
| Tapete mágico, aviãozinho, trem fantasma |
| E a noite então |
| Lembra você? |
| Mas qual |
| Você não lembra não. |
| A letra mostra um sentimento adolescente, que se estendia ao texto da Banda |
| em forma semelhante, pelo realce dos costumes juvenis de uma época: |
| Namorar em parques de diversões; tinha muito de “Namorada que contava as |
| estrelas”, “Faroleiros que contavam vantagens” etc. todos presentes na |
| música A Banda, e comuns aos parques de diversões; a exemplo do que |
| ocorreu com Tereza Tristeza em relação ao Sonho de um Carnaval. |
http://mpbsapiens.com/a-banda-analise-de-texto/ |
http://mpbsapiens.com/tereza-tristeza-analise-de-texto/ |
| Creio ter a música provavelmente surgido de um mote vindo de alguma |
| significativa visita dele ao Parque Xangai, que ficava próximo ao Gasômetro |
| de São Paulo. Uma região bem frequentada por ele nos anos 60, pois havia |
| nela algumas casas de dança bem famosas, como o Brás Polytheama, por |
| exemplo, do qual ele tirou o nome para o seu time de futebol particular. |
| Por outro lado, a possível mulher, para qual é dirigida a mensagem do texto |
| da música, tem traços da mesma tratada por ele nas compoições Desencanto |
| e Essa Passou, ambas tratando de um mal resolvido romance do Chico, com |
| alguma dona anterior à Marieta Severo, que pode ter sido a mesma que o |
| inspirou nas músicas Madalena Foi Pro Mar, Morena Dos Olhos D´Água, ou |
| mesmo, Carolina. |
http://mpbsapiens.com/primeiros-versos/ |
http://mpbsapiens.com/essa-passou-analise-de-texto |
http://mpbsapiens.com/madalena-foi-pro-mar-analise-de-texto/ |
http://mpbsapiens.com/morena-dos-olhos-dagua-analise-de-texto/ |
http://mpbsapiens.com/carolina-t/ |
| Mais uma composição que a assessoria artística do Chico furtou da nossa |
| literatura, mas graças à internet, pude resgatar com a ajuda do amigo Paulo |
| Sergio Mariani, que possui o original em disco de vinil. |
| Ainda virão mais elos musicais perdidos pela incompetência empresarial. |
| Aguardem. |
| Próxima – > http//mpbsapiens.com/ |
.
Anterior – > http://mpbsapiens.com/tem-mais-samba-analise-de-texto/ |
| No princípio dos anos 60 inventaram o Vídeo-Tape, no entanto, por estar |
| ainda em desenvolvimento, além do alto preço do equipamento, as emissoras |
| de televisão brasileiras não o tinham. |
| Foi quando a TV Record, de São Paulo colocou no ar, em 7 de dezembro de |
| 1964, a novela Prisioneiro De Um Sonho, escrita por Roberto Freire e |
| estrelada por Eva Vilma, com direção do próprio autor e de Randal Juliano, |
| que então era só apresentador da emissora em início de carreira. |
| Pelos programas serem ao vivo, tudo era meio improvisado. Foi o que |
| aconteceu com essa novela que, em alguns capítulos, apresentou um jovem |
| compositor, Francisco, com o seu inseparável violão, ainda mal executado, |
| interpretando o samba Tereza Tristeza. |
| Creio que essa “brecha” na mídia tenha ocorrido pela intervenção do autor |
| da novela, Roberto Freire, que simpatizando com as composições do jovem |
| Francisco, tinha se tornado uma espécie de padrinho artístico dele. |
| A novela ficou no ar até fevereiro de 1965, portando, antes do jovem |
| Francisco virar Chico Buarque de Hollanda, nome que entrou no cenário |
| artístico brasileiro no mesmo ano, como compositor do samba Sonho de Um |
| Carnaval, cantada por Geraldo Vandré em um festival posterior. |
| Tereza Tristeza – MPB4 – 1966 |
| Tereza Tristeza – MPB4 – 1966. |
| Oh Tereza essa tristeza |
| Não tem solução |
| Tire o meu lugar da mesa |
| Não me espere não |
| Não vou, não |
| Ao menos sou sincero |
| Que te adoro, que te quero |
| Mas não passo bem sem carnaval |
| Não |
| Oh Tereza essa tristeza |
| Não tem solução |
| Ser mulher é muito mais |
| Do que pregar botão |
| Não vê não |
| Pois, homem quando é homem |
| Passa frio passa fome |
| Mas não passa bem sem carnaval |
| Diz que não tem café |
| Diz que não tem feijão |
| Nem sandália pro pé |
| Nem aliança pro dedo da mão |
| Oh Tereza |
| É tão pouca tristeza |
| Tem gente que nem carnaval |
| Não tem não. |
| A letra mostra que o jovem Francisco, apesar da influência da Bossa Nova, |
| coqueluche da MPB na época, gostava mesmo de compor sambas, pois, no |
| mesmo ano, compos também sobre o mesmo tema, Carnaval, o samba Sonho |
| de um Carnaval e já houvera composto Tem Mais Samba. |
http://mpbsapiens.com/sonho-de-um-carnaval-analise-de-texto/ |
http://mpbsapiens.com/tem-mais-samba-analise-de-texto/ |
| A música não foi gravada posteriormente pelo Chico, mas isso não quer dizer |
| que ele não a tenha composto, logo, deveria também fazer parte do songbook |
| da cia. das letras, que funcionou como uma espécie de biografia oficial da |
| obra por muitos anos, antes da chegada da internet. |
| Muito se queixa da perda dos valores da MPB ao longo dos anos, mas o |
| cancro está bem aí, no descaso dos assessores com a Literatura Brasileira, |
| pois essa música passaria batida também por aqui se não fosse a internet, |
| porque foi através dela que conheci o amigo Paulo Sergio Mariani, que tendo |
| o disco original colaborou com as informações básicas. |
| Isso não ocorreu apenas com Tereza Tristeza. Houve mais músicas com o |
| mesmo descaso; sabe-se lá quantas, mas algumas outras poderão ser salvas, |
| conforme mostrarei posteriormente. |
| Até a próxima. |
Próxima – > http://mpbsapiens.com/sonho-de-um-carnaval-analise-de-texto/ |
.