março 11, 2008
· Arquivado na categoria Versificação
Adiante passarei para o estudo do Verso em si. Alguns possuem nomes específicos na Ciência Poética. São eles:
Verso Manco
Já visto anteriormente como o verso de “pé quebrado”, é aquele que se mostra diferente, em Métrica num poema regular, ou em ritmo em qualquer poema, porém, chamo a atenção para os versos mancos do Chico, cuja perfeição da construção poética não admitiria tais erros.
Engano. Ele manca versos sim, mas propositalmente, quando necessita, a exemplo do que faz com o verso Branco, chamar a atenção para um fragmento de texto dentro do contexto estrófico.
A maioria das vezes em que faz isso é para brincar com as palavras, normalmente envolvendo noções abstratas de medida. Vejam o exemplo abaixo:
Tem/ di/as/ que-a/ gen/te/ se/ sen/te 2-5-8G
1 2 3 4 5 6 7 8
Co/mô/ quem/ par/tiu/ ou/ mor/ reu 2-5-8A
1 2 3 4 5 6 7 8
A/ gen/te-es/tan/cou/ de/ re/pen/te 2-5-8G
1 2 3 4 5 6 7 8
Ou/ foi/ o/ mun/do-en/tão/ que/ cres/ceu 2-4-6-9A
1 2 3 4 5 6 7 8 9
Não se admirem com a estranha acentuação em “comô”, no verso 2, pois, em composição musical, a maioria dos poetas usa esse artifício de trocar a acentuação original das palavras para não perder o ritmo poético atrelado ao melódico.
Alguns o fazem de forma até acintosa, outros, mais suavemente, deixando que o nosso instinto obedeça ao ritmo musical, o que de fato acontece sem que percebamos.
Tentem cantar a composição Construção pronunciando normalmente a palavra “como” e sentirão uma incômoda sensação na fala. Cito apenas um verso da composição:
“Amou daquela vez como se fosse-a última”.
Ao se tentar a pronúncia correta do termo “como” algo incomoda. Fica difícil pronunciá-lo normalmente por dois motivos:
1 – O Ritmo átona-tônica-átona-tônica-átona-tônica-átona; que o precedeu, não deixa a fala fugir da tendência dos pés Jambos (fraco-forte) repetitivos. Aliás, Construção é inteira Jâmbica. Da primeira sílaba átona do primeiro verso à tônica final do último.
2 – O ouvido latino não gosta de escutar a duas sílabas tônicas em seguida.
Voltando ao estudo mais acima deste, perceberão que os três primeiros versos tiveram o ritmo 2-5-8, mas o quarto apresentou uma irregularidade métrica e rítmica em relação aos anteriores:
É Manco, porque, além de apresentar outra cadência, teve uma sílaba a mais que os anteriores, ou seja “Cresceu”.
Basta prestarem atenção no texto dele e entenderão do que estou falando a respeito do “verso manco” do Chico.
Verso Anacíclico, Políndromo ou Sotádico
Conhecido originalmente por esses três nomes, embora o neologismo tenha trocado Políndromo por Palíndromo, aceita a leitura em vice-versa. Chico tem um, mas não faz parte de qualquer composição musical:
“Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”
Percebam que ele permite ser lido nos dois sentidos. Nas composições musicais, o máximo que Chico conseguiu ocorreu em Linha de Montagem, no verso que diz:
“Mão ir mão irmão”
Mantido o padrão de leitura, perceberão que as sílabas obedecem à mesma ordem em ambos os sentidos.
“O mito é ótimo” não acham?
Verso Corrente
Nota de Chico – “Nesta corrente, os versos são elos que podem ser dispostos livremente, conforme as preferências do usuário; observe-se, por exemplo, que uma mesma corrente tanto pode ser lida para frente quanto para trás”.
Essa nota consta na contra-capa do Lp Meu Caro Amigo, logo abaixo da letra da composição Corrente.
Confesso nunca ter encontrado qualquer menção a tal tipo de verso. Talvez Chico o tenha visto no mesmo dicionário que trás o significado da palavra “Penseiro”, usada como qualidade básica do Pedro Pedreiro, ou mesmo o verso de Linha de Montagem, visto acima, tenha recebido o nome de “Verso Transílabo”.
São todos “Elos de Ligação”. Nunca se sabe quando não sejam né?
Verso Ropálico
Composto por vocábulos em ordem crescente ou decrescente de sílabas. Por exemplo, se um Ropálico tiver dez sílabas, obrigatoriamente terá de ser composto por vocábulos com uma, duas, três e quatro sílabas ordenadamente, ou pelo inverso. Por exemplo:
O Chico ainda construirá (1-2-3-4)
Totalmente voltado para cá (4-3-2-1)
Verso Iambo
Em homenagem aos Pés Iambos, a poesia satírica francesa criou tal verso, que consiste em combinar Jâmbicos de 12 (6 pés) com outros de 8 (4 pés) sílabas.
No passar dos anos, a lógica relação entre a Métrica e o Ritmo vistos no Classicismo acabou fornecendo uma evolutiva escala padrão dos versos, que passaram a ter nomes próprios.
À primeira vista, tais nomes mereceriam pouco destaque, já que o estudo até agora permitiria uma boa análise poética das composições. Ocorre que Chico, a exemplo do que usou fazer com os versos Manco e Branco, também o fez com os nomes próprios para embutir os seus “recadinhos específicos”. São eles:
Monossílabo e Dissílabo – Possuindo respectivas uma e duas sílabas, são usados com pouca freqüência, pois visam, na maioria das vezes, apenas a obter efeitos sonoros, quando combinados com versos longos:
Foi
O che fe mais a ma do da na ção
Pois é
Fi ca-o di to-e re di to por não di to
Trissílabo – Combina bem com os versos de 7 e/ou 10 sílabas:
Qual o que
Lo go vou-es quen tar seu pra to
Tetrassílabo – Conhecido pelo nome Quebrado de Redondilha Maior:
O rei che gou
Pentassílabo – Mais conhecido por Redondilha Menor:
Diz que não dá jei to
De jei to ne nhum
Hexassílabo – Conhecido pelo nome de Heróico Quebrado, é muito usado por Chico no seu duplo sentido de texto:
A go ra-eu e ra-he rói (perceberam o Herói montado num “Heróico” Quebrado?)
Heptassílabo – Conhecido por Redondilha Maior, é o verso mais popular.
Joga pedra na Gení
Octossílabo – Quando tem acentuação na quarta sílaba é chamado de Sáfico Quebrado. Se possuir cadência nas sílabas 2-5-8 receberá o nome de Quebrado de Arte Maior:
Mas ti ve que fu gir da-es co la (Sáfico Quebrado)
És sú pi ta vir gem a ves sa (Quebrado de Arte Maior)
Eneassílabo – Quando acentuado nas sílabas 3-6-9 recebe o nome de Gregoriano Anapéstico (3 pés Anapestos), muito usado nos hinos.
Que é pra to do mun do-a cor dar
Decassílabo – Apresenta 4 cadências fundamentais:
a) Heróico – Cadência interna forte na sexta sílaba:
E-as mi nhas mãos o gol pe du ro-e pres to
b) Sáficos – Cadência interna forte nas sílabas 4 e 8:
Meu co ra ção tem um se re no jei to
c) Gaita Galega – Acentuação interna forte nas sílabas 3 ou 4 e 7:
Mais que de pres sa-a mão ce ga-e xe cu ta
d) Arte Maior – Embora tal nome sirva também para caracterizar os versos que tenham mais de 7 sílabas, já que os com menos de 7 são conhecidos por Arte Menor, tais decassílabos devem possuir cadência interna 2-5-8.
Existem dúvidas quanto à permissão de cadenciá-lo opcionalmente na sétima sílaba, ao invés da oitava. Algumas correntes poéticas aceitam a tal opção, visto que o equilíbrio métrico não seria quebrado, pois teríamos, nos pés, as seqüencias: jambo-anapesto-anapesto-jambo; ou, jambo-anapesto-jambo-anapesto.
Correntes mais tradicionalistas, responsáveis pela reabilitação desses decassílabos, na época em desuso há muito, não admitiam tal alteração na cadência interna, dizendo que a reabilitação da mesma só fora possível pela força que os Hendecassílabos, a serem vistos a seguir, lhes forneciam, por estarem em moda na época. Deixando de lado essa porfia entre Simbolistas e Modernistas, vamos ao exemplo:
Que dá mais que Má ri a sem ver go nha
Hendecassílabo – Possui 4 cadências principais:
a) Arte Maior – Cadência interna 2-5-8:
Que-a tu a-ho lan de sa não po de-es pe rar
b) Guerra Junqueiro defendeu a obrigatoriedade de cadência interna somente na quinta sílaba. As demais tonicidades, a gosto do poeta.
c) Hermes Fontes tentou novas cadências internas e teve êxito com a 3-7:
Ne nhum lou co pra can tar as mi nhas gló rias
d) Esta quarta cadência é especial, pois nunca a tinha visto antes.
Analisando a uma das composições do Chico, e acostumado a não vê-lo fugir das cadências padrão, me surpreendi com uma cadência diferente e repetitiva em vários versos, foi quando, pensando alto, me perguntei: – O que será isso?
Acabara de pronunciar o nome da composição que analisava: O Que Será, com cadência interna 2-6-8 ou 9 em alguns versos:
Que an dam sus pi ran do pe las al co vas
Que an dam sus sur ran do-em ver sos e tro vas
Que an dam com bi nan do no breu das to cas
O verso longo pode ser separado em duas metades, que recebem o nome de Hemistíquios. Ao ponto de separação delas dá-se o nome de Cesura. Tais conceitos são necessários para o estudo dos versos seguintes.
Dodecassílabo – Em suas doze sílabas pode apresentar três cadências mais conhecidas:
a) Alexandrino Clássico – De grande tendência anapéstica, quando Agudo, devido à fortíssima cadência 3-6-9-12, o que lhe dá também o nome de Tetrâmetro (4 metros), tal verso exige a cesura imediata após a sexta sílaba, posicionada preferencialmente em vocábulo oxítono. Caso esteja situada num paroxítono, exige-se que termine em vogal, seguida por outra sílaba átona começada por vogal ou h. Este Alexandrino não admite cesura em vocábulo proparoxítono. Olavo Bilac foi quem melhor trabalhou com ele.
Embora o seu próprio nome fosse um Alexandrino Romântico, a pausa que o nome Martins exige pela força da tonicidade é quase uma Cesura:
O la vo Brás Mar tins dos Gui ma rães Bi la c
Mas na obra do Chico temos:
Eu pen sei que-e ra e la pu xan do-um cor dão
Reparem, que embora Tetrâmetro, Anapéstico e Agudo, o verso não é um Alexandrino Clássico real, por não se permitir à divisão exata dos Hemistíquios, pelo fato da sexta sílaba estar num vocábulo paroxítono terminado em vogal, mas a sétima sílaba começar por consoante.
Por exemplo, se ao invés de puxando, fosse “alegrando, enrolando, ensaiando…”, aí sim teríamos um Alexandrino Clássico.
b) Alexandrino Romântico – Apresenta cadência 4-8-12, conhecido também pelo nome de Trímetros (3 Metros), tais Alexandrinos são os preferidos dos poetas da MPB:
Tem cer tos di as em que-eu pen so-em mi nha gen te
c) Embora os Alexandrinos tenham as cadências preferidas pelos nossos poetas, Vitor Hugo desenvolveu uma, 2-6-8-12, utilizada algumas vezes por Chico:
É bom pra quem vai ter de ser bom so fre dor
Alexandrino Espanhol – Com uma sílaba a mais, trata-se de uma versão espanhola do original Alexandrino francês, só que com a única regra da obrigatória cadência interna na sexta ou sétima sílaba. Dos nossos poetas, Castro Alves foi o que mais o utilizou, embora Chico também o tenha feito:
Te mos si do tão che ga dos na de so la ção
Bárbaro – Deste tipo de verso, o único que pertence à poesia é o Agudo, exigindo cadência interna apenas na sétima sílaba, ficando as demais ao gosto do poeta. A grosso modo, representam à soma de dois Redondilhas Maiores Agudos, como Hemistíquios, mas ao contrário dos Alexandrinos Clássicos, não exigem nenhuma regra quanto à cesura:
O pe ão la çou a jo vem fi lha do co ro nel
A composição Quadrilha, que contém o verso acima, serve bem para mostrar-nos o comportamento do verso Bárbaro, quando ultrapassa os limites da poesia e inicia a prosa, fornecendo à última os agradáveis recursos sonoros da primeira:
O for ró cor ri a man so sem pro ble ma-e sem ve xa me
Quan do-o che fe da qua dri lha de cre tou “chan gê de da me”
A mu lher do de le ga do ren deu o ba cha rel
O pe ão la çou a jo vem fi lha do co ro nel
Percebam que os dois primeiros versos da composição já têm quinze sílabas e são Graves, logo, pertencem à prosa, sem que tenham perdido à regularidade trocáica capturada da poesia nos versos seguintes.
Os versos Bárbaros, desenvolvidos e oficializados pela poesia italiana foram, através dos anos, se fortalecendo nos meios intelectuais em discordância com as escolas poéticas que determinavam as catorze sílabas como limítrofes entre a Poesia e a Prosa.
Foi durante tal discordância que surgiu a Versificação Irregular, já tentada desde o Trovadorismo com o nome de Versificação Acentual Trovadoresca. Tudo isso se efetivou no Parnasianismo, portanto, independente do rótulo literário de uma determinada época, esse foi o movimento que permitiu a evolução da Construção Poética na MPB, do qual a maioria dos nossos compositores derivou, ou ainda tenta derivar.
Liberdade para o poeta compor da forma que bem entendesse, Regular ou Irregular, com ou sem Ciência Poética e apenas sensatez em Métrica e Ritmo, pois, afinal, os versos abaixo, mesmo divertidos, não deixam de ser poéticos:
Oh menina vá ver nesse Almana//que como-é que-isso tudo começou
Diz quem é que marcava-o tique taque-e-a-ampulheta do tempo disparou
Para responder a todas as perguntas da composição Almanaque precisaríamos de um Super Herói Filosófico, que está embutido na construção poética dos versos.
Basta escandir para notar que as vinte sílabas de cada um deles formam dois decassílabos Heróicos ou, se preferirem, um Super Heróico exato em Ritmo e Metro.
…Mesmo porque-estou falando grego com suá imaginação
Mesmo que você fujá de mim por labirintos e-alçapões
Saiba que-os poetas como-os cegos podem ver na-escuridão…
Ver Também – Todos Os Ritmos Poéticos da MPB
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del.icio.us isto!
Victor said,
julho 29, 2009 @ 5:37 pm
Achei tudo interessantíssimo. Está me ajudando a desenvolver poemas! rs
Vou fazer um agora com verso alexandrino espanhol.
admin said,
julho 29, 2009 @ 8:32 pm
Victor:
O propósito é mesmo esse. Boa sorte e conte comigo.
Abraços.