O Soneto da Separação e o Apelo (Vinícius de Moraes e Baden Powell) – Análise

O nascimento de um poema é semelhante ao de qualquer outro nascimento:
 
 - É a mais antiga sequência da Natureza se justificando pela Vida.
 
No caso do poeta, para a nossa sorte, isso ocorre só no primeiro poema,
porque os demais só representam o renascimento do assunto abordado 
pelo pensamento matriz.
 
No caso do Vinícius de Moraes, para a Literatura Brasileira, a sorte foi 
imensa quando ele optou por traduzir os seus sentimentos usando os Sonetos, 
que limitados aos catorze versos, ainda que em longos decassílabos, deram 
aos seus poemas uma densidade sentimental muito grande.
 
Essa constante busca do complemento do poema, para nós completado, mas 
sempre inacabado pro poeta, acabou fazendo com que o Vinícius encontrasse
na MPB as continuidades dos seus muitos sonetos densos e inacabados.
 
O Soneto Da Separação foi um deles. Para nós, expectadores, atendeu por
completo às expectativas de cada um, mas para o poeta, escravizado pelo 
poema matriz, não.
 
Tal dependência do Vinícius, cujos poemas apresentavam as subjetivas
melodias próprias, acabou promovendo o seu encontro com os parceiros
musicais instrumentistas, que de alguma forma apresentassem semelhantes
harmonias nas melodias extraídas dos instrumentos.
 
O violão do Baden Powell foi o grande responsável pelo reencontro do 
Vinícius com uma Separação mal resolvida dentro dele. Escrevera sobre Ela,
mas os motivos do nascimento Dela num soneto se mostravam necessários.
 
E dessa dependência surgiram o Encontro com o Baden, a Fecundação da 
composição musical por acasalamento poético, a Gestação de um 
reencontro e o Nascimento da composição musical Apelo:
 
Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora
Vê que triste esta canção
 
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão
 
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa 
A tristeza que causei
 
Eu te suplico não destruas 
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei
 
Originalmente, a composição trás o Homem cantando. Posteriormente, a
segunda parte dela, que vem abaixo, se encaixou muito bem à voz da Mulher
cantando, tanto no som agradável da voz feminina, quanto no drama descrito
pelo outro lado envolvido na original Separação.
 
Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
 
Se tu soubesses num momento 
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu
 
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus
 
Soneto da Separação (declamado)
 
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
 
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pré sentimento ***
E do momento imóvel fez-se o drama.
 
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho que se fez contente.
 
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente não mais que de repente.
 
(volta a música cantada)
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.
 
*** Vinícius tinha uma grande preocupação com o que o desenvolvimento da
Língua Portuguesa estava causando aos significados das palavras. De alguma
forma estávamos juntando os Prefixos e Radicais delas em conceito único, o 
que nos levava a uma ignorância cada vez maior da amplitude dos conceitos.
 
O Pré Sentimento já virara, para a maioria de nós, um Pressentimento que 
perdera no significado a razão do Prefixo, englobado no conceito do Radical.
Sentimento é uma coisa definida, mas Pré Sentimento é a mesma coisa apenas
suposta, posto que a Suposição é só a fase anterior do Conceito Adquirido.
 
Várias foram, as falas e declamações em que ele procurava separar o Prefixo
do Radical de forma bem definida. Por exemplo:
 
…Aquela amada
Pelo amor Pré Destinada
Sem a qual a vida é nada…  (Minha Namorada)
 
Com excessão do Soneto embutido, Vinícius conjugou a composição Apelo 
inteira na Segunda Pessoa do Singular, o que é dificílimo e arriscado, já
que o Tu andava perdendo feio para o Você no nosso cotidiano verbal, assim
como, hoje, quase não empregamos mais as conjugações em Primeira Pessoa
do Plural. Nós acabou virando A Gente.
 
 - E o que é ainda pior: evoluimos até o “A Gente Regredimos”!
 
A análise poética do Soneto da Separação pode ser vista na postagem:
http://mpbsapiens.com/soneto-e-assim-que-faz/
 
Estou fazendo a análise do Espectro do Soneto da Separação e calculando a
melodia natural dele. Tenho dificuldades em encontrar as partituras 
musicais, portanto, se algum dos senhores leitores puder me ajudar enviando
a partitura da composição Apelo, poderíamos observar à semelhança das
linguagens entre as melodias, do Violão do Baden e da Poesia do Vinícius.
 
Grato!
 

           a

  del.icio.us isto!

4 Respostas até o momento »

  1. 1

    Cedric said,

    November 4, 2009 @ 11:04 am

    achei espetacular sua análise, estava procurando por esta versão da música que vem com vinícius recitando o poema, mas não estou conseguindo. gostei da surpresa de encontrar este site. obrigado. =]

  2. 2

    admin said,

    November 4, 2009 @ 12:42 pm

    Isso só me anima, Cedric, pois suspeito estar no garimpo certo das pepitas da MPB.

    Volte sempre, e caso precise de alguma orientação pode perguntar que o atenderei o mais breve possível.

    Grato.
    Dalton.

  3. 3

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    November 11, 2011 @ 12:09 pm

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  4. 4

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