O Pensamento e o Tempo

 

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Era uma canção    
Um só cordão         
Uma vontade          
De tomar a mão
De cada irmão
Pela cidade  

               (Sonho de um Carnaval-1965)

Sonho de Um Carnaval foi a composição que anunciou o nome do Chico à MPB. O texto ingênuo traduz um sonho comum a qualquer jovem dos anos 60.                     

Esperando o sol, esperando o trem
Esperando enfim, nada mais além         
Da esperança aflita, bendita, infinita      
Do apito de um trem”        

                                    (Pedro Pedreiro-1965)

Pedro Pedreiro já trás uma adolescente impaciência social com o desnível das classes. A do Francisco em contraste com a que o Chico observava na Estação da Luz, S.Paulo, no seu cotidiano dos anos 60.

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou     
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou         
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor     
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

                             (A Banda-1966)

          A Banda começa a trocar a impaciência adolescente de Pedro Pedreiro do Chico por um cônscio conformismo adulto de impotência do Francisco.

Quem me dera ter um choro de alto porte         
Pra cantar co´a voz bem forte
E anunciar a luz do dia       
Mas quem sou eu
Pra cantar alto assim na praça     
Se vem dia, dia passa
E a praça fica mais vazia” 

                             (Um Chorinho-1967)

Em Um Chorinho, Chico e Francisco começam a perceber que os seus ideais não cabiam, o quanto supunham, na classe artística. Muito menos na imprensa, hoje Mídia, que já os rotulara convenientemente em A Banda como Unanimidade Nacional.

A gente vai contra a corrente       
Até não poder resistir        
Na volta do barco é que sente     
O quanto deixou de cumprir”        

                                   (Roda Viva-1967)  

Roda Viva foi puro confronto das consciências social e artística. Se por um lado o Pedro Pedreiro do Chico lhe cobrava uma postura semelhante à do amigo Geraldo Vandré, por outro, a mídia do Francisco preferia mantê-lo com o rótulo criado em A Banda.

Não
Foi tudo escrito em vão    
Eu lhe peço perdão           
Mas não vou lastimar      

                         (O Velho-1968)

Embora a crítica literária, da mídia do Francisco, fizesse propaganda do lado artístico do Chico, as limitações da mesma tornavam-na incapaz de melhor aquilatar a construção poética das letras nas composições. O Velho se conformou.                                        

Mas toda santa madrugada         
Quando uma já sonho com Deus
E a outra triste namorada
Coitada já deitou c’os seus         
O acaso faz com que essas duas           
Que a sorte sempre separou       
Se cruzem pela mesma rua         
Olhando-se c´oa mesma dor     

                           (Umas e Outras-1969)

Além de oficializar a disputa dos lados da consciência vista em Roda Viva, Umas e Outras contém O Velho na “praça vazia” do Chorinho. Basta observar o termo “coitada”, que ao longo da obra só surgirá em Gení E O Zepelim (1977) e A Rosa (1979).

É costume nosso associá-lo a alguém digno de dó, sem atentarmos que o mesmo dizia respeito a Coito em suas origens. “Coitada já deitou c’os seus”; “Mas de fato logo ela / Tão coitada, tão singela…”; “E some nas altas da madrugada / Coitada, trabalha de plantonista…”. Prostitutas profissionais ou amadoras. Levianas conceituais, cotidianas, normais; mas grandes freqüentadoras da obra, logo, da cabeça ou da consciência dupla dos respectivos criadores Chico e Francisco.

Não sei se preguiçoso ou se covarde   
Debaixo do meu cobertor de lã   
Eu faço samba e amor até mais tarde   
E tenho muito sono de manhã”    

                                      (Samba e Amor-1969)       

Quero perder de vez tua cabeça 
Minha cabeça perder teu juízo     
Quero cheirar fumaça de óleo diesel      
Me embriagar até que alguém me esqueça    

                                                              (Cálice-1973)

Samba e Amor e Cálice foram típicas leis de Ação e Reação. Ações da consciência e reações do ego.

Luz, quero luz         
Sei que além das cortinas
São palcos azuis     
E infinitas cortinas
Com palcos atrás  

                                   (Vida-1980)

Treze anos após, olha aí Um Chorinho e Roda Viva revistos. As mesmas aflições no grande teatro de Vida.  

A metade do seu olhar     
Ta chamando pra luta aflita          
E metade quer madrugar  
Na bodeguita        

                         (Tanto Amar-1981)

Após doze anos Umas e Outras volta muito mais adulta, branda, sábia e conformista em Tanto Amar.

Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar 
Toda alma de artista quer partir   
Arte de deixar algum lugar 
Quando não se tem pra onde ir   

                                    (Na Carreira-1982)

Na Carreira trás as mesmas dúvidas abstratas, que ganham conceitos mais palpáveis, por ironia, numa parte de um Grande Circo Místico.

No bucho do analfabeto   
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto   

              (A Bela e a Fera-1982)

A Bela e a Fera foi um recado de ambos, à mídia, bem mais claro que o dado em 67 com O Velho. Na época os críticos da Folha de S.Paulo eram concretistas.                                   

Nós aprendemos
Palavras duras        
Como dizer perdi, perdi     
Palavras tontas
Nossas palavras     
Quem falou não está mais aqui”   

                        (Tantas Palavras-1983)

Eles deram mais uma vez um recado não entendido pela crítica. Após um ano de espera se despediram dela com Tantas Palavras.

E topa pela frente um contingente          
Que ele já deixou pra trás 
Os soluços dobram tão iguais     
Seus rivais, seus irmãos   
Seu navio carregado de ideais   
Que foram escorrendo feito grãos          
As estrelas que não voltam nunca mais 
E um oceano pra lavar as mãos

                                                (Meia Noite- 1985)

Meia Noite reforça a incompetência vista em Roda Viva e tenta dar adeus a Pedro Pedreiro, a Vandré e a qualquer preocupação sócio-idealística. Chico e Francisco assumem a separação.

Rio do lado sem beira
Cidadãos inteiramente loucos
Com carradas de razão     
À sua maneira, de calção
Com bandeiras sem explicação   
Carreiras de paixão danada         
São Sebastião crivado
Nublai minha visão  
Na noite da grande fogueira desvairada          

                                    (Estação Derradeira-1987)

Tentativa porque todo aquele contingente voltou a importunar Francisco, ao observar e traduzir um cotidiano da Mangueira, derradeira estação, onde até rezou para ficar cego, tamanho a força do renovado Pedro do Chico.

Prometo te querer 
Até o amor cair doente, doente    
Prefiro então partir a tempo de poder     
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza   
Talvez num tempo da delicadeza 
Onde não diremos nada
Nada aconteceu      
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu     

                          (Todo Sentimento-1987)

Diante da impossibilidade de um adeus grotesco do tipo Pilatos dado em Meia Noite, uma espécie de pacto interior e brando é visto em Todo Sentimento, onde tentam se desvencilhar do que foram para, com calma, apenas Serem. Como diria Gilberto Gil “Eu preciso aprender a só ser”.

Acho que fui deputado      
Acho que tudo acabou      
Quase que já não me lembro de nada   
Vida veio e me levou       

                                   (Velho Francisco-1987)

Velho Francisco reforça a idéia mostrando a realidade do Chico, idoso e desmemoriado, incapaz de perceber que está em algum asilo, ou até num cemitério, pois “todo domingo tem cheiro de flor”.

Palavra prima         
Uma palavra só, a crua palavra    
Que quer dizer         
Tudo  
Anterior ao entendimento, palavra           
… Palavra boa         
Não de fazer literatura, palavra     
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra       

                                      (Uma Palavra-1989)

Por fim, em Uma Palavra a tentativa de se despedir do Velho, de si mesmo e da incômoda tendência de transpor os limites da poesia paradoxal vigente, rumo ao inevitável e futuro solipsismo de A Ostra e o Vento.

         


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  del.icio.us isto!

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