O Mestre-Sala Dos Mares-Conto
a
Faz muito tempo.
Fui procurar um amigo na Galeria Pajé – SP. Vendo que a sua antiga sala virara um escuro estúdio fotográfico, temeroso adentrei à procura do Ramirez, mas só encontrei um fotógrafo russo com estranhas roupas da década de 40.
Perguntei pelo amigo Ramirez e o estranho fotógrafo pediu-me uma foto dele. Não a tendo, pois ninguém costuma andar com fotos de amigos na carteira, insisti e o russo me mostrou algumas abreugrafias para tentar reconhecê-lo pelos pulmões.
Reparei também que havia sobre a mesa um velho gibi do Tio Patinhas: O Holandês Voador; largando então a simpática chapa dos pulmões e me apossando do gibi.
De súbito, uma câmera disparou um flash vermelho duplo: Um em minha direção e outro na do gibi. O russo pegou o filme e preocupou com o resultado: Eu e o Tio Patinhas dentro do navio Holandês. As últimas palavras que lembro foram dele gritando: – Você antrou no Univerrso Parralelo!
Ao dar por mim, estava no passadiço de um Navio Negreiro, com minha roupa de moto, diante de um velho Comandante dando as suas últimas instruções, em vida, ao seu Imediato, um homem negro.
O navio era uma corveta chamada Dianna, pertencente ao Comandante José Marques de Sant´ Anna. Foi quando o negro virou pra mim e disse: – Innocêncio Marques de Sant´ Anna a seu dispor, e o senhor?
Ainda sem entender o que se passava, tentei um salvador “Veja Bem”, ele balançou a cabeça e mandou que o seguisse. Pendurei o capacete no timão do navio e fui atrás em direção ao tombadilho.
Estávamos num porto e pela quantidade de homens negros com poucas vestimentas suspeitei se tratar da África remota. Entramos num forte chamado São Jorge. Innocêncio conversou algo com um rei chamado Adandozan, saiu junto com dois outros negros trajados com roupas multicoloridas. Depois vim a saber que eram embaixadores; voltamos ao navio já carregado com escravos e zarpamos.
Tudo acontecia muito rápido, já que depois de instantes chegávamos a Salvador, que se encontrava bem agitada por um levante de escravos Malés. Os embaixadores eram conhecidos deles, logo, seriam bem impopulares em terra firme.
Demos um tempo de alguns segundos, anoiteceu subitamente, o porto esvaziou, Innocêncio escondeu-nos na casa da viúva do Comandante José de Sant´Anna, saiu e voltou logo em seguida. Embarcou-nos novamente e zarpamos.
Depois de constatar que o capacete permanecera aonde o deixara, sem que o timão se movesse, subitamente percebi que estávamos adentrando em novo porto. Pelo sotaque dos estranhíssimos transeuntes do cais, suspeitei estarmos em alguma localidade portuguesa.
Em seguida, Innocêncio nos levou a uma espécie de palácio, que depois descobri ser o Palácio Real de Lisboa, onde só os três conversaram com um rei, cuja fisionomia não me era estranha, mas ainda indecifrável. A dúvida durou até o momento em que Marieta Severo, vestida a caráter, passou rapidamente ao meu lado e foi em direção a eles.
Encontrando alguém mais contemporâneo, e carente de maiores informações acerca de tudo aquilo, tentei me aproximar dela na esperança de que se lembrasse da ocasião em que me pagou um sorvete no Festival da Canção de 1966. Infelizmente fui contido por um grupo de polidos eunucos.
Pelas vestimentas de Marieta pude me localizar melhor no espaço e no tempo. Era a Carlota Joaquina no Palácio Real de Lisboa, logo, o rei só poderia ser o D. João VI.
Já um pouco mais aliviado pela descoberta, andei pelos arredores notando que a minha roupa de moto causava grande interesse nos fidalgos transeuntes. Pensei no Ramirez vendendo suas coisas do Paraguai pós guerra numa corte em tempo de pré guerra.
Embora a Pré Guerra fosse em relação à que o Brasil teve com os vizinhos paraguáios, se encaixava também naquele instante, pois Lisboa estava prestes a ser invadida pelas tropas de Napoleão Bonaparte.
Terminada a conversa, D.João carregou alguns barcos com as coisas da esposa Carlota Marieta, pegou o cofre, pôs Innocêncio na Comissão de Frente da esquadra e rapidamente zarpamos todos em direção a algum lugar possível e inimaginável.
Depois de minutos descobri por um dos dóceis eunucos que estávamos chegando à Ilha de Cabo Verde, aonde nos separamos. A esquadra do D. João veio para o Brasil e nós fomos com o Dianna para aquele forte aonde tudo começou.
Deixamos os embaixadores por lá, Innocêncio embarcou 0mais um cento de escravos e notei, pelas características das águas, que seguíamos para Salvador. Ao chegar, Innocêncio ficou bravo, pois D. João já se mandara para a capitania de São Tomé, cujo belo porto chamava Rio de Janeiro, e o combinado não fora bem aquele.
Não deu outra. Conferi a situação do meu capacete e fomos atrás.
Tinha muito tempo que Innocêncio não negociava por lá. Apesar de curta, a viagem foi agradável, pois pude identificar, em algumas encostas, escarpas falésias com várias imagens esculpidas dos meus futuros ídolos de uma MPB que estaria ainda por vir.
Chegando ao porto do Rio de Janeiro, Innocêncio descarregou o seu produto vital na Rua da Alfândega, leiloou, pegou a grana e voltamos para Salvador em nova e agradável viagem, desta feita com um número bem maior de ídolos esculpidos nas falésias.
Lá chegando, fomos até a casa da viúva, que aparentava estar aflita por novas notícias e finanças. Innocêncio tranquilizou-a com boa soma de dinheiro em espécie e jurou-lhe fidelidade igual fê-lo a José, quando entrei na história.
Comprou mais um barco, que batizou como Dragão, ficando a corveta Dianna a cargo de um outro negro, Manuel Luis, que se tornara imediato da Dianna após a graduação do Innocêncio. Apanhei o capacete, fomos para o Dragão e pendurei-o no novo timão, confeccionado em marfim e localizado num tombadilho muito mais confortável do que o anterior.
Fizemos viagens à África. Na primeira, a carga foi destinada a São Tomé e depois ficamos um bom tempo descarregando apenas em Salvador. Na última, o forte São Jorge havia mudado de dono. Parece que o rei Adandozan vendera a própria mãe, Ná Agotimé, como escrava. Seu irmão caçula, Guezo, o matara e tomara o poder na região, cujo nome era Daomé, e se tornara proprietário do forte.
Ao voltarmos dessa viagem, o Brasil se tornara independente e já tinha o rei Pedro I. O jovem rei Guezo veio junto conosco e trouxe um presente para o nosso, também jovem, rei. O trono da Dinastia Vodun Daometana ocupado pelo Adandozan em seus últimos dias como monarca.
Chegando a São Tomé, Innocêncio foi para a Alfândega leiloar, Guezo foi pro palácio formalizar o presente real e eu fiquei no Dragão apreciando o timão de marfim verdadeiro e cuidando do capacete.
Pensava sobre elefantes e já íamos zarpar novamente para Salvador, onde Guezo começaria as suas buscas visando encontrar a rainha Ná Agotimé, sua mãe, mas dei de cara novamente com o fotógrafo russo segurando o gibi do Tio Patinhas, o Ramirez segurando a Abreugrafia e eu, no espelho ao lado, segurando o Capacete.
Estranhei o silêncio que imperava na primeiro andar da Galeria Pajé, normalmente barulhenta. Por um breve instante nos olhamos e subitamente surgiu a voz do João Bosco cantando:
Jeje minha sede é dos rios A minha cor é o arco-íris Minha fome é tanta Planta flor irmã da bandeira… Há muito tempo nas águas da GuanabaraO dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos centos
Inundando o coração Do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:
- Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias!
- Glória à farofa
à cachaça, às baleias!
Glória
A todas as lutas inglóriasQue através da nossa história Não esquecemos jamais
Salve O navegante negro
Que tem por monumento As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo…
Escutamos a composição em silêncio, olhei pro Ramirez e disse:
- Por falar em pirata, conheci um lugar onde você faria a festa… ! Depois a gente conversa, tô atrasado, fui…….!
O pior é que os demais personagens, além de mim, existiram, conforme Pierre Verger citou no livro Libertos, Sete Caminhos na Liberdade…; e Robert E. Conrad idem no livro Tumbeiros.
Pelo que pude apurar, o trono de Adandozan andou pela Biblioteca Nacional – RJ.
A rainha Ná Agotimé, esposa do rei Agonglo, foi adquirida como escrava por fazendeiros do Maranhão, sendo mais tarde responsável pelo surgimento, em São Luis, da primeira casa do Candomblé Jêje no Brasil, conhecida como Casa Das Minas, frequentada, originalmente, só por mulheres e posteriormente por ambos os sexos. – Por que será?
Os povos Jêjes constituem o que se chamou por Nação Daomé, de Daho Mi (justiça em mim), em homenagem ao primeiro rei da dinastia Vodun, Dadaho, também conhecido por Dadá e por Daho, cujo cetro era um Oxé, símbolo místico atribuido ao orixá Xangô, responsável pela Justiça.
Guezo foi um dos últimos soberanos Voduns, estando o antigo Daomé hoje representado mais fortemente pelos países Nigéria, Gana e Burundi, cujos historiadores se recusaram a me fornecer maiores informações sobre o rei Adandozan, que pelo visto foi apagado das respectivas Histórias.
Ainda sobre Ná Agotimé, a rainha acabou virando enredo de uma escola de samba, Mocidade Independente de Padre Miguel, creio.
No filme Amistad, do Spielberg, pude identificar alguns cantos fúnebres voduns, além da destruição do forte, descoberto pelo navegador português Diogo Cão, a serviço da França, em 23 de Abril de 1482, sendo batizado por ele como Forte São Jorge D´Ajuda, posteriormente rebatizado como São Jorge das Minas, de onde saiu a maioria das remessas de escravos chegadas ao Brasil.
Há uma outra versão, também histórica, que associa O Mestre-Sala Dos Mares a João Candido no episódio conhecido como Revolta Da Chibata, que por ter ocorrido por volta de 1910 foge um pouco da letra da composição, que contém muito mais de festa com dor presente do que de batalhas imaginárias em guerras ausentes.
Embora conste nas letras apresentadas pela internet, o texto: Jorravam das costas dos “santos”…; fui informado que o original diz: Jorravam das costas dos “centos” – Centos de Escravos.
Este Conto começou com essa descoberta, pois além de também cantar de forma errada, o termo Santos era totalmente justificado pela rima com o Cantos do verso posterior. O termo Centos levou a interpretação do texto para bem mais longe da simples associação com a imagem de São Sebastião que imaginava até então.
Marieta Severo, dentre outros méritos, ficou famosa como protagonista do filme Carlota Joaquina, esposa de D. João VI.
O Levante dos Malés, em Salvador, faz parte da História do Brasil, que também registra o Comerciante de Escravos José Marques de Sant´Anna, cujo sobrenome herdou do ancestral Marquês de Santana, e possuía um fiel escravo chamado Innocêncio, que além do sobrenome herdou do dono os negócios de navios negreiros, como era comum ocorrer na ocasião com proprietários de escravos fiéis após libertos: Fulano “De Tal”. O Manoel Luis também ganhou o sobrenome na ocasião.
Daí o orgulho do Innocêncio ao se apresentar a mim, pois acabara de ganhar o sobrenome naquela hora com a morte do seu dono.
Uma Holografia resulta do envio de único raio laser, que dividido em dois é focalizado em dois pontos: Um para o que se quer holografar e outro para o filme em que ficará impressa.
O Holandês Voador, no gibi do Tio Patinhas, existiu, assim como o Ramirez da Pajé.
Embora haja diversas origens para as Fotografias Espirituais, na década de setenta a revista Planeta trouxe em um dos seus exemplares as experiências de um fotógrafo russo, nos anos 40, que por um engano na montagem da máquina, quando buscava a um flash eletrônico e automático, acabou nas revelações obtendo fotos de pessoas determinadas com outras imagens, bem definidas, de outras pessoas além das fotografadas. Só não lembro do nome do cara.
Curiosamente, a maioria dos sites sobre a obra do Aldir Blanc não trás a letra da composição dentre as tantas feitas por ele. Qual será o motivo?
Neste meu Sonho Holográfico de Ectoplasma, só procurei tornar uma História Verdadeira em algo menos triste, além de comprovar que um poeta pode até mirar a sua letra num alvo fixo, mas a Composição Artística sempre faz com que também acerte em alvos nunca previstos.
Mas faz muito tempo:


































