O Catolicismo na MPB

    a

Vários foram os compositores musicais, católicos ou não, ateus ou agnósticos, que se dedicaram à descrição das crenças religiosas em músicas na MPB, mas preferi me resumir a Gilberto Gil, Edu Lobo e Chico Buarque para mostrar o trânsito das crenças católicas, desde a Eucaristia, cujos procedimentos formais e organizados são mais reservados ao interior das igrejas, à forma como o povo os transportou para fora delas nas folclóricas crendices populares.

A mais famosa delas foi, ou talvez ainda o seja, a velha Procissão, que de alguma forma guarda parte da organização dos processos eucarísticos comuns ao interior das igrejas. O grande problema sempre foi manter a coisa organizada fora de casa nas excursões de qualquer natureza. Com o catolicismo não foi diferente.

O primeiro relato musical que escolhi, nessa natureza, foi a música Procissão, de Gilberto Gil,  composta em 1968, época em que a MPB ganhou os moldes mais modernos, e os últimos de música popular bem feita:

Vídeo de alle221171

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu
              
E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele que esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
          
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano e nada vem
Meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isso tem que se acabar

Nela o poeta apenas revelou uma fotografia dos rituais, associada timidamente aos possíveis sentimentos de descrença dos participantes e, finalizando, parte do que o próprio poeta achava de tudo aquilo, associado à sua fé de melhora nos dias vindouros.

Imagino que Gil tenha feito essa música baseado nas suas observações ocorridas ainda em Salvador, na Bahia, pela própria descrição do texto na terceira estrofe.

Vinte anos após essa tentativa fotográfica de Gil, Edu Lobo e Chico Buarque compuseram as músicas de uma peça chamada A Dança da Meia-Lua, executada originalmente pelo Ballet do Teatro Guaíra, onde tentaram uma nova tradução dos sentimentos dos fiéis religiosos no transporte dos rituais para fora das igrejas.

Na música do Gil, há um fragmento que diz:

Entra ano, sai ano e nada vem
Meu sertão continua ao Deus dará…

Essa é uma característica natural do nosso sertão nordestino há séculos, e ao longo deles os seus habitantes, de maioria católica, desenvolveram um ritual que consistia em trocar os padroeiros nas igrejas, para ver se as coisas, como a falta de chuva, por exemplo, melhoravam um pouco.

Na contracapa do LP solo Chico Buarque – 1989 – foi colocado um texto explicativo sobre tais eventos:

[...] Outro recurso muito eficaz, o mais eficaz de todos eles, consiste em “contrariar” os santos. [...] em 1779 as imagens de Nossa Senhora da Conceição de Apodi e Nossa Senhora dos Impossíveis foram permutadas, vindo as duas, em procissão, num percurso onde houve sermão e cânticos. Caiu uma chuva tão forte que o padre vigário fez voltar as procissões para as suas respectivas sedes, e ainda brotou uma fonte de água onde os dois andores defrontaram.[...]A permuta das imagens não é privativa da rogação pela chuva. Separar santo da sua igreja, obrigando-o a fazer um milagre, é velha fórmula usual por onde o catolicismo mantém as formas mais doces e mais primitivas do espírito popular.

Luis da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro.

Foi sobre esse procedimento religioso que Chico e Edu compuseram A Permuta dos Santos:

 Vídeo de TheVeidt

São José de porcelana vai morar
Na matriz da Imaculada Conceição
O Bom José desalojado
Pode agora despertar
E acudir os seus fiéis sem terra, sem trabalho e pão
              
Vai a Virgem de alabastro Conceição
Na charola (carroça) para a igreja do Bonfim
A Conceição incomodada
(Há de escutar nossa oração)
Vai ouvir nossa oração
Nos livrar da seca, da enxurrada e da estação ruim
              
Bom Jesus de luz neon sai do Bonfim
Pra capela de São Carlos Barromeu
O bom Jesus contrariado
Deve se lembrar enfim
De mandar o tempo de fartura que nos prometeu
             
Barromeu pedra-sabão vai pro altar
Pertencente à estrela-mãe de Nazaré
A Nazaré vai de jumento
Pro mosteiro de São João
E o Evangelista pra basílica de São José
              
Mas se a vida mesmo assim não melhorar
Os beatos vão largar a boa-fé
E as paróquias com seus santos
Tudo fora de lugar
Santo que quiser voltar pra casa só se for a pé

Obs. Costumeiramente, o Chico regrava certas composições com partes das letras modificadas em relação às gravações originais. Deixei entre parênteses a forma original como foi cantada, e fora deles a forma corrigida na gravação dele.

Esta letra já trás o pessoal, que desesperando com a persistência das condições desfavoráveis, parte para a descrença ao não devolver os santos para as suas originais igrejas.

A sequência natural dessa conduta é uma espécie de Libertação das Regras Religiosas, que permite aos fiéis várias possibilidades de reflexão nas condutas. Alguns, simplesmente, largam a religião. Outros largam e depois voltam. Mas há outros que partem para o extremo oposto, e com a suspeita típica de quem se sentiu traído, se entrega às tentações e ao vandalismo com a certeza de não estar cometendo qualquer pecado.

Muitos desses iniciam as procissões de permutas já meio descrentes, e ao menor descuido, se libertam em plena procissão. Foi sobre o comportamento destes últimos que Edu e Chico compuseram Frevo Diabo:

Vídeo de chmacedo 

É bom, é brabo
É o Frevo Diabo no corpo
Torto, corpo para mais não
Fogo no rabo de qualquer cristão
Solta o Frevo Diabo
E adeus procissão
     
Pelo sinal da santa cruz, Pandemônio
no dia da padroeira
Não tem romeira
Tem, são morenas
Não tem novenas,
 -  Diabo, a gente é feliz!
- Não tem sermão?
- Tem não, tem orquestra,
E cana, e briga, e fogo, e festa na matriz!
      
É o barro,
O berro na garganta:
- Olha a ginga da santa!
- Devagar com o andor!
    
Meu corpo já não sabe o que faz
- Satanás:
- Diz pra parar, que eu já não posso mais!
- Diz pra parar, faz um pouco mais…
 
Faz o Diabo
Hoje é que eu me acabo, meu irmão

- É para pular?
- Não!
- Para parar, para bulinar?
- Não!
- Para parar, para arrebentar!
Frevo Diabo
Hoje é que eu me acabo, meu irmão.

Obs. Há um velho ditado popular, mais comum às procissões das paróquias humildes:

- Devagar com o andor que o santo é de barro!

 Infelizmente, não pude encontrar um vídeo da gravação original, com a Gal Costa. Dos vídeos encontrados, esse que apresentei foi o que mais se aproximou da originalidade, tanto em arranjo e andamento musicais quanto na voz da corajosa cantora, que não cometeu falha alguma nos tempos musical e poético da dificílima canção.

A quem possa interessar, os integrantes do grupo são:

Andressa Parra – Voz
Roberta Oliveira – Violão
Lilian Coeto – Piano
Moacir Cordeiro – Baixo
Paulo – Bateria

Conforme a letra mostra, a anterior procissão de permuta se transforma, pela descrença dos fiéis, em algo mais próximo do que o dito Diabo mais gosta, com direito até a ”Ginga de Santa”, e a divindade assumindo características de sambista, ou jogador de futebol, duas qualidades muito mais próximas do entendimento e idolatria no cotidiano popular.

- Diabo, a gente é feliz!!!

 a

  del.icio.us isto!

Nenhuma resposta até o momento »

Comentário RSS · TrackBack URI

Deixe um comentário