O Bêbado E A Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc)

Vídeo de luanborges


 

Caía 
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto 
Me lembrou Carlitos
 
A lua 
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria 
Um brilho de aluguel
 
E nuvens 
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco 
 
Louco
O bêbado com chapéu coco 
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil
 
Meu Brasil!
 
Que sonha 
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu 
Num rabo de foguete
 
Chora 
A nossa pátria-mãe gentil
Choram marias e clarisses 
No solo do Brasil
 
Mas sei 
Que uma dor assim pungente 
Não há de ser inutilmente
A esperança 
 
Dança 
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha 
Pode se machucar
 
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
 
Antes de qualquer idéia à respeito dessa composição é necessário ter em vista
que, vinda de uma parceria de consagrados instrumentista e letrista, a melodia
ficou à cargo de João Bosco e a letra foi obra de Aldir Blanc.
 
Aldir sempre buscou dar às suas letras uma espécie de fotografia do momento
social que observava no cotidiano. Basta observar a letra da composição De
Frente Pro Crime, que nada mais fez do que retratar o nosso comportamento
diante do imaginário quadro proposto.
 
No caso de O Bêbado e a Equilibrista, tais personagens, embora se insinuem
populares, como comuns habitantes das ruas e circos, ambos foram extraídos
do interior dos autores. Onde ambos se confundem nos desequilíbrios que
povoavam as cabeças dos compositores da época.
 
Vivíamos uma ditadura militar, que buscando a reorganização social do país, 
procurava censurar a toda e qualquer tendência menos nacionalista. O 
objetivo maior dos militares era o de controlar a imprensa, que por ter nascido
no berço da queixa popular, percebeu que essa era também a melhor forma,
ou estratégia, de se vender jornais. É assim até hoje.
 
Tal censura se estendeu às obras dos artistas e aí se montou parte do cenário
da composição que trata, fundamentalmente, do sentimento do poeta diante 
dos cotidianos seu (o Bêbado) e da equilibrista (a sua Dúvida interior), que 
por não estar diante só de fatos, mas também de meras suposições vindas do
cotidiano jornalístico suspeito, acabou virando simples Esperança.
 
Caía 
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto 
Me lembrou Carlitos
 
Na época em que foi escrita a música, o Rio de Janeiro passava pela comoção
de ter observado a uma famosa queda de um viaduto, que causou muitas 
mortes. Diante do triste quadro cotidiano, o poeta se viu qual “Carlitos”, um
personagem cômico, vivido pelo ator Charles Chaplin, na época do Cinema
Mudo, cujos filmes eram, antes de tudo, voltados à comédia.
 
A lua 
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria 
Um brilho de aluguel
 
Nesta estrofe o poeta observa o céu, provavelmente à noite, e compara o
poema que estava escrevendo, às possíveis estratégias de marketing que o
mesmo poema sofreria caso virasse música, conforme o Chico Buarque já
anunciara na peça Roda-Viva.
      http://mpbsapiens.com/roda-viva-introducao/
 
E nuvens 
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco 
 
Aqui o poeta transforma a imaginária abóbada celestial, algo comum aos
Gênesis da maioria das religiões, e mistura duas épocas: A atual do poema e a
vivida por ele na infância escolar, pois, afinal, quando Aldir aprendeu a
escrever, ainda não havia Caneta Esferográfica, mas aquelas à tinta, onde as
famosas Parker eram as mais cobiçadas.
 
Tais canetas à tinta exigiam dos alunos um acessório extra nos seus pertences
didáticos: O Mata-Borrão, que servia para secar os excessos de tinta nos
textos recém escritos, pois os professores não admitiam manchas neles. Os
que mais sofriam eram os alunos canhotos.
 
Isso explica à “chupada das manchas torturadas das nuvens”, pois era mais ou
menos o aspecto que os mata-borrões usavam apresentar depois de algum
tempo de uso.
 
Já o dito “sufoco” é comum aos dois tempos do poeta: Ao da infância, diante
da cobrança escolar sobre o texto, e o da realidade ditatorial-jornalística,
diante do teor do atual texto resultante, que viraria música, se submeteria às
prostituições da indústria da fama e poderia ser ou não censurada.
 
Louco
O bêbado com chapéu coco 
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil
 
Aldir se sentia qual Carlitos, comum à época em que usava o Mata-Borrão, 
revisto no presente escrevendo sobre um mesmo país de outrora, o que 
confirma com a expressão:
 
Meu Brasil!
 
Colocada em verso único exatamente para chamar a atenção pelo que já fora
dito e pelo que viria a seguir:
 
Que sonha 
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu 
Num rabo de foguete
 
Quando foi feita a música, o poeta tinha diante dele duas imprensas: A oficial,
dos jornais, que ele aprendera a suspeitar, e a do “boca a boca” da classe
artística, que alternava certezas e incertezas. 
 
Uma das certezas era a do exílio do Betinho, consagrado defensor dos 
Direitos Humanos, e que era irmão do Henfil, famoso cartunista da época, que
habitava as páginas do jornal O Pasquim, tido, pela ditadura, como um 
tablóide com alto teor subversivo, embora cômico.
 
Chora 
A nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses 
No solo do Brasil
 
Diante daquela onda de exílios de artistas, oficiais ou voluntários, o poeta tenta
descrever à possível tristeza, comum a ele e ao povo, só que de forma bem
interessante, misturando as essências de possíveis viúvas às das comuns
prostitutas. Os nomes Maria e Clarice eram bem usados tanto por prostitutas
do Rio quanto de São Paulo.
 
Mas sei 
Que uma dor assim pungente 
Não há de ser inutilmente
A esperança 
 
Existia uma triste realidade, mas o poeta não concordava em fazer do seu
poema um objeto de queixa, e, sim, de possíveis dias melhores, ainda que
baseado somente na suspeita Esperança.
 
Dança 
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha 
Pode se machucar
 
Aqui ele reforça as suas suspeitas, diante apenas da certeza que os Ser e 
Parecer do poeta se equilibravam numa finíssima linha imaginária, que poderia
consagrá-lo ou extinguí-lo, de acordo com as conveniências militares ou
jornalísticas da época.
http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-claro-enigma/
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
 
Confirma que tudo não passava de um Jogo de “Azar”, apesar da Esperança
ter ficado consagrada como exímia equilibrista no circo da vida social, logo,
sempre haveria um lugar para o seu instrumento predileto: O Artista.
 
Acredito que O Bêbado e a Equilibrista tenha servido como parte do Mote 
que levou Chico a escrever, anos após, a música Vai Passar, onde procurou
dar uma idéia mais ancestral do que ocorreu com a “Pátria-Mãe Gentil”, do 
Aldir, comparada à “Pátria-Mãe tão distraída”, dele.
 
Encerrando, se o Aldir pôde usar as imaginárias prostituições da Roda-Viva
dele, porque o Chico não poderia usar-se da mesma Pátria-Mãe, também 
“subtraída” comum às realidades artísticas de ambos?
http://mpbsapiens.com/vai-passar-analise-de-texto/
 
 

         .

  del.icio.us isto!

17 Respostas até o momento »

  1. 1

    Luiz said,

    março 12, 2010 @ 5:31 pm

    Dalton,

    bacana sua análise do Bêbado e a Equilibrista.

    Sempre me instigou a imagem da noite que caía como um viaduto, e agora tenho de você uma explicação.

    Apenas para, talvez, enriquecer a compreensão que teus comentários nos trazem, lhe dizer que as manchas torturadas que as nuvens chupavam la no mata-borrão do céu, para mim, sempre foram vermelhas de sangue das torturas que corriam soltas aqui na nossa terra, naquela época, tendo o céu por testemunha.

    Outro aspecto, Marias e Clarisses que choravam, naquela época, seriam mães e mulheres dos filhos e maridos que desapareceram, ou que tiveram que partir.

    Mas gostei bastante de seus comentários sobre Chico, referentes aos comentários de Lobão e N. Mota e, também, deles terem me trazido até o seu espaço. Abraço, Luiz.

  2. 2

    admin said,

    março 12, 2010 @ 9:25 pm

    Luiz

    Você tem razão quanto às manchas do mata-borrão estarem ligadas às torturas dos militares, o que daria a elas a cor vermelha como predominante. Tentei associar os dois sufocos, do estudante e do poeta, e acabei fazendo prevalescer as manchas azuis das Parker, embora tenha citado as possíveis viúvas das manchas, misturadas com as prostitutas, já anunciadas pelo Aldir ao tratar da Lua como dona do bordel.

    Seja como for, ou não for, a sua observação presente, sobre a minha ausente, muito me alegra pela assistência complementar. Aliás, já nem lembrava ter comentado algo envolvendo Lobão, Mota e Chico fora do orkut. Você pode me dizer aonde foi isso?

    Grato e Abraços.

    Dalton.

  3. 3

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    março 15, 2010 @ 4:42 pm

    Michael, a very interesting post thanks for writing it!

  4. 4

    admin said,

    março 15, 2010 @ 7:00 pm

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    Dalton

  5. 5

    Eduardo said,

    maio 14, 2010 @ 12:28 pm

    Pelo que sei, a frase “Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil” se refere a mãe de Henfil e Betinho (Maria) e a Clarisse Herzog, viúva de Wladimir Herzog.

  6. 6

    admin said,

    maio 14, 2010 @ 12:56 pm

    Eduardo:

    Por não ter a chance de conversar pessoalmente com os autores, apenas suponho o que observei na postagem.

    Pode ser que Marias e Clarisses tenham o significado que você, oportunamente, citou, caso o Aldir ou o João tenham dito em público ou particularmente a você.

    De qualquer forma, obrigado pela informação e visita.
    Dalton.

  7. 7

    ownsahi said,

    maio 31, 2010 @ 6:51 pm

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    maio 31, 2010 @ 8:56 pm

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    Dalton.

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    Light said,

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    março 27, 2012 @ 10:41 pm

    Parabéns… Seria possível me falar qual o nome da música francesa ou com realejo que inícia e encerra o Bêbado e a Equilibrista? Ela é linda.
    Obrigado.

  11. 17

    admin said,

    março 28, 2012 @ 9:05 am

    Grato pelo comentário, Alex, mas infelizmente não conheço a música à qual você se refere.
    Dalton.

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