O Amanhã e as Raízes Negras

         a

Na ocasião em que fiz a postagem, O Ocultismo do Canto das Três Raças, pretendia dar continuidade ao tema apresentando a música, O Amanhã, cantada por Simone em uma, e somente uma, das muitas apresentações outras, todavia, na época, eu não encontrara essa determinada gravação que, felizmente, surgiu no Yotube.

http://mpbsapiens.com/o-ocultismo-do-canto-das-tres-raças-analise-de-texto/

Vídeo de TheBetlen 

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
E eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino…
          
E vai chegando o amanhecer (atabaque)
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz…
        
Como será amanhã? (agogô)
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?…
         
Como será amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Mas a cigana!…
        
A cigana leu o meu destino (violinos)
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será?
(O que será?) (coro de vozes)
O amanhã?
(O Amanhã?)
Como vai ser?
(Como vai ser?)
O meu destino?
Já desfolhei
(Já desfolhei!)
O mal-me-quer
(O mal-me-quer!)
Primeiro amor
(Primeiro amor!)
De um menino…
       
E vai chegando o amanhecer
Oh! Oh! Oh! Oh!
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz…
        
Como será amanhã?
(Como será?)
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser

Como será?…
      
Como será amanhã?
(Como será?)
Responda quem puder
(Quem sabe é Deus!)
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser

Como será?… (toque ritualístico)
        
Como será amanhã?
Responda quem puder (Seu Marabô)
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser… (festa de samba)

       

No Canto das Três Raças procurei mostrar uma evolução histórica da percussão, à partir do atabaque em toque Angola, apenas com as mãos, e que acabou dando origem ao nosso abençoado Samba.

 Em O Amanhã a base ritualística dessa evolução, dos ancestrais toques africanos ao Samba, se mostra ainda mais presente, só que com a percussão contando a história por uma outra vertente do candomblé, a dos povos Ketu.

 A exemplo do ocorrido no Canto das Três Raças, a música começa com acordes de violão, só que ao invés do atabaque, quem o acompanha é um único tamborim. Isso persiste até o surgimento do verso “E vai chegando o amanhecer”, quando o atabaque, tocado apenas com as mãos, começa a dar o seu, ainda tímido, ar da graça.

 Isso dura até a entrada do refrão “Como será o amanhã”, quando também entra no conjunto um agogô abafado, e esse quadro melódico persiste até o fim do refrão, que também finda a letra.

 Quando Simone dá uma chamada “Mas a cigana”, para reiniciar o canto, surge ao fundo um acompanhamento de violino, instrumento característico dos ciganos. Isso vai até a chegada do verso “O que será o amanhã”, quando Simone ganha a companhia de um coro de vozes semelhante aos dos terreiro de candomblé e umbanda.

 Isso vai até o término da segunda execução do canto completo, quando Simone dá a chamada “Como será”, para depois colocar o improviso “Quem sabe é Deus”, e o coro de vozes persiste cantando o refrão até o verso “O meu destino será como Deus quiser / Como será”, quando o som dos atabaques ganha as baquetas ritualísticas, também conhecidas por “Oghdavi”, comuns aos rituais Ketu.

 Percebe-se aí a fusão dos toques ritualísticos com os de uma bateria de Escola de Samba, já que o som Ketu lembra muito os das Caixas de percussão das baterias, mas são diferentes, e anunciavam tratar-se de um ritual.

 Nenhum terreiro começa o seu ritual sem pedir licença para o dono dos atabaques, o Exu, e aquele improviso ritualístico ganha, de fato, um pedido de licença explícito, quando o coro canta “Responda quem puder”. Ao invés daquele “Quem sabe é Deus”, cantado anteriormente pela Simone, surge uma voz do coro dizendo: “Seu Marabô”, um conhecidíssimo Exu cultuado pelos povos Ketu.

 Pedido o devido Agô para Exu, logo após a entrada do som ritualístico, a coisa virou uma deliciosa festa de cantos e percussão de Angola e Ketu, duas das principais raízes do Samba Brasileiro.

Aliás, como O Canto das Três Raças foi postado num carnaval passado, e neste eu lembrei das suas raízes,  repito:

-Bom carnaval a todos!

      a

  del.icio.us isto!

11 Respostas até o momento »

  1. 1

    Mauricio Keller said,

    março 12, 2011 @ 1:35 am

    Olá, já deixei alguns comentários em textos anteriores e gostaria de reafirmar que o seu blog está muito bom. Tenho aprendido muito. Sou compositor e só agora estou despertando para a ciência poética. Com o GAN – Grupo Arte Nascente, já tenho 4 CDs e dois DVDs lançados. Gostaria muito de evoluir ainda mais neste terreno tão apaixonante.

    Quero viver mais que longos anos,
    viver mais que uma vida,
    viver sem negar os enganos,
    viver cada idéia querida.

    Mauricio Keller

  2. 2

    Mauricio Keller said,

    março 12, 2011 @ 3:48 am

    Será que consegui fazer um soneto?

    Avatar
    Mauricio Keller 27/02/11

    Serenas névoas neste espaço etéreo
    onde pétalas líricas cintilam.
    Abrem paredes, soltam os meus laços
    de forças que, no medo, se detinham.

    Brumas leves me fazem mais aéreo
    onde seres celestes ali flutuam.
    Dissolvem mil couraças deste aço
    que tesouros, lá dentro, escondiam.

    Sou eu, em projeção quase divína!
    Um fragmento na eterna nebulosa
    que com amor sobe e sem ele declina.

    Solto este avatar que me refina,
    veste que, por demais bela e formosa,
    me devolve ao éter. Minha sina.

  3. 3

    admin said,

    março 12, 2011 @ 9:05 am

    Mauri Keller:

    É um bom nome artístico. Ficou bom assim?

    É um Soneto Italiano sim, mas requer alguma atenção na declamação em alguns pontos. Veja:

    Bru/mas/ le/ves/ me/ FA/ zem/ mais/ a/é/reo (6-10)
    on/de/ se/res/ ce/les/tes/ a/li/ flu/tu/am. (6-11)

    Mesmo que você faça uma Anáclase entre a sílaba átona final do verso anterior e a tônica inicial do posterior, este último continuará Hendecassílabo, já que a sílaba tônica apenas capturará o som da átona final do verso anterior. Corrija isso. Por exemplo:

    On/de-o/ ser/ mais/ ce/ LES/ te-a/ li /flu/TU/a

    Um/ fra/G/men/to/ na-e/ter/na/ ne/bu/lo/sa (7-11)
    que/ com/ a/mor/ so/be-e/ sem/ e/le/ de/cli/na. (5-8-11)

    Evite usar palavras com consoante muda – fragmento – pois, por mais que a gramática tente justificá-la como trissilábica – frag/men/to – a realidade sonora poética dá à palavra 4 sílabas – (fra/gui/men/to) – o que acabará com o Decassílabo Heróico, uma exigência do Soneto Italiano. Sugestão:

    Um/ fra/gui/men/to/ NES/sa/ ne/bu/LO/sa – (6-10)

    No verso seguinte, para que seja um Deca Heróico, é necessário que haja uma contração de sons em “com amor”. Assim – c´o-amor – senão vira hendecassílabo.

    Feito isso, você terá, de fato, um Soneto Italiano dentro de todas as exigências:
    14 versos Decassílabos Heróicos distribuídos em 2 Quadras e 2 Tercetos, com rimas comuns aos 2 tercetos.

    Fico feliz de poder ajudar um compositor musical que ainda busque fazer as letras das músicas de um jeito que já foi comum à MPB: Pela Versificação.

    Sempre que precisar, conte com este site.
    Dalton.

  4. 4

    Mauricio Keller said,

    março 12, 2011 @ 6:13 pm

    Muito bom.
    Preciso realmente entender melhor sobre estas fusões silábicas tão comuns e necessárias à poesia. Mudei algumas coisas. Se entendi direito então ficará assim:

    Avatar
    Mauricio Keller

    Serenas névoas neste espaço etéreo
    onde pétalas líricas cintilam.
    Abrem paredes, soltam os meus laços
    de forças que, no medo, se detinham.

    Brumas leves me fazem mais aéreo
    entre seres celestes que flutuam.
    Dissolvem mil couraças deste aço
    que tesouros, lá dentro, escondiam.

    Sou eu, em projeção quase divína!
    Um nada nessa eterna nebulosa
    que por amor vai, sobe e não declina.

    Solto este avatar que me refina,
    veste que, por demais bela e formosa,
    me devolve ao éter. Minha sina.

    Obrigado.

  5. 5

    Mauricio Keller said,

    março 12, 2011 @ 6:16 pm

    Muito bom.
    Preciso realmente entender melhor sobre estas fusões silábicas tão comuns e necessárias à poesia. Mudei algumas coisas. Se entendi direito então ficará assim:

    Avatar
    Mauricio Keller 27/02/11

    Serenas névoas neste espaço etéreo
    onde pétalas líricas cintilam.
    Abrem paredes, soltam os meus laços
    de forças que, no medo, se detinham.

    Brumas leves me fazem mais aéreo
    entre seres celestes que flutuam.
    Dissolvem mil couraças deste aço
    que tesouros, lá dentro, escondiam.

    Sou eu, em projeção quase divína!
    Um nada nessa eterna nebulosa
    que por amor vai, sobe e não declina.

    Solto este avatar que me refina,
    veste que, por demais bela e formosa,
    me devolve ao éter. Minha sina.

    Muito Obrigado.

  6. 6

    admin said,

    março 12, 2011 @ 6:48 pm

    Mauricio Keller:

    Agora ficou dentro das normas do Soneto Italiano. Sugiro a você que, dentre as Formas Fixas de Poema, tente também escrever em Soneto Inglês, ou mesmo em Balada. Dê uma pesquisada no Glossário Poético, que fica no cabeçalho da página principal do site, e boa sorte.

    Quando precisar, volte que estarei sempre por aqui. Boa Sorte!
    Dalton.

  7. 7

    Mauricio Keller said,

    março 13, 2011 @ 12:00 am

    OK, vou pesquisar aqui no blog. Estou maravilhado com as infinitas possibilidades, estruturadas. Entre elas, achei interessante Anapesto, pude variar várias melodias bem leves, macias. Como esta, por exemplo onde tentei o verso ternário”tum-tum-plá”:

    Alturas de Mim
    Mauricio Keller 12-03-11

    Viverei pra cantar por amor
    levantar quem caiu sem saber
    encontrar quem perdeu-se na dor
    resgatar quem deixou-se ceder

    Quero mais, vou subir e planar
    Quero ir nas alturas de mim
    Superar a leveza do ar
    Nem mais ter um início, nem fim

    Muito mais perdoar que julgar
    Acolher o mendigo de paz
    Socorrer o carente de lar
    E o que tira uma vida que traz

  8. 8

    admin said,

    março 13, 2011 @ 7:13 am

    Mauricio:

    Ficou muito bonito o poema. Esses Eneassílabos Anapésticos sempre dão um impacto emocional muito grande ao verso. Não é à toa que foram muito usados na composição de Hinos.

    Para ficar exato o poema, eu sugeriria que o termo “Nem” não surgisse de forma repetitiva no oitavo verso. Basta trocar o primeino NEM por um NÂO.

    Como próximo exercício em versos com pés ternários, eu sugeriria a você terminá-los também com palavras paroxítonas e proparoxítonas, já que a Métrica encerra na última sílaba tônica do verso. Joga de forma alternada que nem você fez com as rimas. Você pode também alternar versos com 6, 9 e 12 sílabas, que continuarão anapésticos, mas o poema ganhará uma leveza maior e atenderá possibilidades melódicas variáveis, caso seja colocado numa música.

    Gostei muito cara. Continua fazendo, mas volte aqui pra me mostrar, pois adoro ver a coisa bem escrita. Não é à toa que analiso a obra do Chico.

    Vai firme.
    Dalton.

  9. 9

    Mauricio Keller said,

    março 13, 2011 @ 10:35 pm

    Dalton,
    parabéns pelo carinho, a humildade e a forma apaixonada com que nos ensina. Esse é um capital intangível, algo que poucas pessoas são capazes de avaliar e sentir. Admiro seu conhecimento e a sua conduta. Quanto ao mestre Chico? É indiscutível a sua obra, mas entendê-la, só agora, por você, é que estou começando. Vou seguir a sua sugestão e também aceitar os desafios.
    Siga em frete em sua missão de resgatar a poesia. Precisamos disso.

    Mauricio Keller

  10. 10

    admin said,

    março 14, 2011 @ 12:09 am

    Maurício:

    Não tenho qualquer compromisso comercial com a cultura. Basta reparar no site que não encontrará nenhuma parceria comercial, pois cultura não se vende, não se compra, não se retém…

    Peço que leve adiante, pelo seu próprio site, o máximo de informações coletadas por você aqui no Sapiens. Copie o que bem entender e reescreva com o texto próprio. Eu apenas planto sementes para vingarem de forma sólida, como ocorreu com você, porque um dia já estive no seu lugar.

    Há uma grande tendência à extinção da História da Ciência Poética. Seja mais um semeador para evitar que essa tendência se efetive.

    Se cada um de nós fizer a sua parte, sem se entregar ao comércio, creio que manteremos acesa a labareda sagrada do Verso.

    Grato pela confiança, pelo elogio, e volte sempre para discutirmos. Abraços.
    Dalton.

  11. 11

    Prestashop Templates said,

    novembro 6, 2011 @ 9:16 pm

    Sources…

    [...]here are some links to sites that we link to because we think they are worth visiting[...]…

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