Noite Dos Mascarados-Análise Poética

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Quem/ é/ vo/ 1-4A

A/di/vi/nhe/ se/ gos/ta/ de/ mim 3-6-9A

Ho/je-os/ dois/ mas/ca/ra/dos    3-6G

Pro/cu/ram/ os/ seus/ na/mo/ra/dos     2-5-8G

Per/gun/tan/do-as/sim:     1-3-5A

Quem/ é/ vo// di/ga/ lo/go     1-4-7G

Que-eu/ que/ro/ sa/ber/ o/ seu/ jo/go     2-5-8G

Que-eu/ que/ro/ mor/rer/ no/ seu/ blo/co     2-5-8G

Que-eu/ que/ro/ me-ar/der/ no/ seu/ fo/go     2-5-8G

Eu/ sou/ se/res/tei/ro/ po/e/ta-e/ can/tor (*)  2-5-8-11A

O/ meu/ tem/po-in/tei/ro/ só/ zom/bo/ do-a/mor (*)   2-5-8-11A

Eu/ te/nho-um/ pan/dei/ro     2-5G

Só/ vou/ de/ vio/lão (*)   2-5G

Eu/ na/do-em/ di/nhei/ro     2-5G

Não/ te/nho-um/ tos/tão (*)   2-5G

Fui/ por/ta-es/tan/dar/te/ não/ sei/ mais/ dan/çar (*)   2-5-8-11A

Eu/ /des/tia-à/ par/te/ nas/ci/ pra/ sam/bar (*)   2-5-8-11A

Eu/ sou/ tão/ me/ni/na     2-5G

Meu/ tem/po/ pas/sou (*)   2-5G

Eu/ sou/ Co/lom/bi/na     2-5G

Eu/ sou/ Pi/er/ (*)   2-5G

Mas/ é/ car/na/val 2-5A

Não/ me/ di/ga/ mais/ quem/ é/ vo/ 3-6-9A

A/ma/nhã/ tu/do/ vol/ta-ao/ nor/mal 3-6-9A

Dei/xa-a/ fes/ta-a/ca/bar 3-6A

Dei/xa-o/ bar/co/ cor/rer 3-6A

Dei/xa-o/ di/a/ ra/iar 3-6-A

Que-ho/je-eu/ sou 3A

Da/ ma/nei/ra/ que/ /ce/ me/ quer 3-6-9A

O/ que/ /ce/ pe/dir 3-6A

Eu/ lhe/ dou 3A

Se// vo// quem/ for 2-4-6A

Se/já-o/ que/ Deus/ qui/ser 2-4-6A

No manuscrito a composição mostra duas estrofes. Uma com 21 e outra com 12 versos, totalizando 33. Após escutar a diversas execuções dela constatei uma imensa pausa após o 5° verso e nenhuma após o 21°, o que me fez crer ter havido um erro de grafia, pois surge até um solo de trombone antes do 6° verso, caracterizando a um nítido final de estrofe em tal ponto. Na ausência de outra pausa qualquer, os demais 28 versos formariam claramente à segunda estrofe.

A própria construção poética justifica a essa minha intervenção, porque uma das características presentes nos grandes poetas é o zelo com o qual tratam o ritmo após a última sílaba tônica de um verso.

Teoricamente, ele termina nela. Quando muito, por questões de rima, se observa as sílabas átonas posteriores a ela; no entanto, embora findo o verso, os tempos poéticos do ritmo permanecem pulsando no inconsciente do ouvinte, pois o seu compasso de referência, que é o coração, não para.

Um dos cuidados que Chico tem é o de dar à pausa, que finda um verso, um comportamento adequado à recepção do seguinte, buscando sempre o Equilíbrio Rítmico.

É o que observarei com mais empenho em Noite Dos Mascarados, cujo texto simplório jamais sugeriria tamanha nobreza na construção poética, pois trata do simples  diálogo de um casal folião qualquer em noite de carnaval. As fantasias do casal já sugerem a toda a vulgaridade do quadro.

Ele adora ocultar a essas preciosidades poéticas nos textos que sugerem vulgaridade.

Embora pareça fácil de ser cantada, Chico experimentou muitas parceiras na execução da obra, e não fez isso à toa, porque existem pausas em final de verso que deveriam ser respeitadas, principalmente no diálogo que , como qualquer diálogo, sugere um breve tempo para se dar a resposta a uma proposta recém-chegada.

É difícil de ser cantada obedecendo à maravilhosa construção poética em que prevaleceram os pés ternários. Observem que, fora os versos 5, 32 e 33, todos apresentam em seu interior um espaço de duas sílabas átonas entre as tônicas. Esse espaço não se resume aos versos, pois Chico o manteve entre o final do anterior e o começo do próximo.

Chico dificilmente deixa dois tempos fortes em seguida, porque o nosso “Ouvido Latino” não gosta de escutar duas sílabas tônicas coladas. Verão, neste estudo, que ele fará isso poucas vezes. Se o verso anterior terminar em sílaba tônica, e o seguinte começar também em tônica, fatalmente ele dará 1 ou 2 tempos de pausa na interpretação do Andamento musical.

Considerem ao sinal (*) como pausa de 1 tempo e vejam o que acontece com o ritmo poético da obra. Com excessão dos 3 versos citados, os 30 demais apresentam ritmo de 3 tempos no seu interior, e a primeira sílaba tônica de cada um dista os mesmos 3 tempos da última tônica do verso anterior.

Creio que os dois últimos versos tenham servido como uma espécie de lembrete ao ouvinte: ”Não esqueça que o coração bate em 2 tempos”!

Um verso Agudo sempre aconselha uma pausa na recitação de um poema.

O que é mais importante ao verso, a Estética do Metro, desenvolvida pela posterior Poesia Latina, ou o fundamental Ritmo da ancestral Poesia Grega?

Por que será que Chico simpatiza tanto com a Mitologia Grega?

Deixando de lado essa polêmica toda, observem o que aconteceu com as sonâncias nos versos. Não estou considerando às Rimas, padronizadas nos finais dos versos, mas ao comportamento sonoro ao longo deles inteiros. Vejam apenas um exemplo:

Fui porta-estandarte não sei mais dançar

Eu destia-à parte nascí pra sambar

Eu sou tão menina

Meu tempo passou

Eu sou colombina

Eu sou pier

Uma outra curiosidade, quanto às sonâncias, pude perceber já por ocasião da gravação original da composição. Embora o manuscrito apresente o verso “Só vou de violão”, na gravação e na contracapa do Lp surge “Eu quero violão”. Chico deve ter posteriormente modificado a letra por causa da sonoridade, que ficaria mais compatível à do verso “Não tenho um tostão” pela identidade das vogais tônicas em “quero” e “tenho”.

São essas minúcias que tornam um texto, aparentemente simplório, numa composição musical que não sai da cabeça por anos a fio. Segue abaixo a relação das qualidades e quantidades de todos os versos utilizados na obra.

2 versos Trissílabos Agudos.

1 verso Tetrassílabo Agudo.

10 (pentassílabo) Redondilha Menor, sendo 2 Agudos e 8 Graves.

7 (hexassílabo) Heróicos Quebrados, sendo 6 Agudos e 1 Grave.

1 (heptassílabo) Redondilha Maior Grave

4 (octossílabo) Quebrados de Arte Maior Graves.

4 (eneassílabo) Gregorianos Agudos

4 Hendecassílabos de Arte Maior Agudos

Curiosidade Numerológica: O 5° verso é o primeiro dos com 5 sílabas e o único a apresentar a cadência 1-3-5.

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  del.icio.us isto!

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