Morena dos Olhos D´Água-Análise Poética

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Sílabas nicas em Vermelho
Números – Posição ordinal da sílaba no verso
Letras A, G ou D = Timbres de Verso: Agudo, Grave ou Dáctilo
 A+  Anáclase – captura da sílaba átona inicial do verso posterior pela do anterior 
B – Verso Branco

 

  1   2   3   4   5   6   7   8
Mo  re  na dos   o lhos  dá gua        
                       
 Ti re-os seus   o lhos  do mar          
                       
Vem   ver que-a   vi da-in  da  va  le-o A+      
                       
Sor   ri  so que-eu    te  nho B          
                       
Pra   lhe  dar                  
                       
  1   2    3   4   5   6   7  8   9  10  11  
                       
Des can sa-em meu  po bre pei  to        
                       
Que   ja  mais  en fren ta-o mar          
                       
Mas  que  tem   a bra ço-es trei  to mo re na  
                       
Com   jei   to  de lhe-a  gra  dar          
                       
Vem   ou  vir  lin das  his  tó rias        
                       
Que  por  seu   a mor   so nhei          
                       
Vem   sa  ber quan tas   vi  tó rias mo re na  
                       
Por   ma  res  que  só   eu   sei          
                       
  1   2   3   4   5    6   7   8   9   10  11  
                       
 O seu  ho mem foi  em  bo  ra        
                       
Pro  me  ten   do vol  tar   já          
                       
Mas  as  on  das não  têm   ho  ra  mo  re  na  
                       
 De par  tir   ou  de  vol  tar          
                       
Pas sa-a  ve  la-e vai se-em   bo  ra        
                       
Pas sa-o tem po-e vai  tam  bém          
                       
Mas meu can to-in  da lhe-im   plo  ra  mo  re  na  
                       
  A  go  ra mo  re   na  vem          

 

A Imagino que a construção poética desta composição mostre bem as reações interiores do poeta  estampadas nas características dos versos.

Todo poeta, embora trabalhe com versos em diversos comprimentos e cadências, se identifica melhor com determinado Ritmo, ou em certa Métrica, ou mesmo com um misto dos dois, podendo estender os sentimentos próprios também às rimas. Foi o que aconteceu com Chico nesta composição.

Desde os tempos da Consolação Chico era conhecido pelo apelido Chico Redondilha, pois o próprio nome artístico é um Redondilha Maior: Chi / co / Bu / ar / que / de-Ho / lan / da; mas o Ritmo característico do nome, 1-4-7, embora nobre, não é o preferido dele, tamanha a identificação que tem com o Ritmo Binário acentuado nas sílabas ímpares do verso, característica da Poesia Latina.

Tanto nos Redondilhas Menores, quanto nos Maiores, Chico prefere acentuar nas sílabas ímpares, o que determina as cadências 1-3-5 e 1-3-5-7, respectivamente. Bem mais adiante estudaremos a composição Geni e o Zepelim, cuja quilométrica letra foi feita só com redondilhas. A imensa maioria dos versos foi Redondilhas Maiores, com os Menores sendo usados só nas exclamações: Maldita ou Bendita Geni.

Por apresentar características poéticas semelhantes nos versos, quer em construção, quer em sentimento interior do poeta, a Morena dos Olhos D´Água é bem parecida com a Geni, pois cada vez que o Chico se prestou a narrar sentimentos dúbios, o Ritmo dos Redondilhas mudou. Isso não quer dizer que os personagens das composições tenham comportamentos sociais semelhantes.

A letra desta composição sugere ocorrer uma dupla “cantada” pra cima da morena. Dois personagens surgem no desenvolvimento da letra. Em certas ocasiões, o Poeta se mostra sincero nos sentimentos expressados nos versos, noutras,  é o próprio Safado mentindo pra morena. Quando sincero, a tendência rítmica do verso é binária, mas é só o safado entrar em cena que o verso começa a alternar Metros binários com ternários. É conveniente escutar a gravação original com o Chico interpretando, pois as acentuações internas dos versos foram bem diferentes das que outros cantores deram à composição. Por exemplo:

Vem / ou / vir / lin / dás / his / / rias

Que / por / seu / a / mor / so / nhei

A maioria dos cantores acentuou o primeiro verso na forma apresentada por dois motivos:

1- A sequência tônica-átona-tônica-átona…; sendo cardíaca, vicia o nosso ritmo interior, tornando-se difícil  pronunciar o ritmo de outra forma, principalmente quando o verso seguinte tem um ritmo idêntico. Fica mais fácil de decorar com tudo isso a favor.

2- A Poesia Latina é viciada em sequências métricas binárias. Tanto é verdade, que as cadências 2-5 e 2-5-7 são consideradas Nobres dentre os Redondilhas Menores e Maiores, por mesclarem pés de verso binários e ternários: jambo-anapesto nos redondilhas menores, jambo-anapesto-jambo nos maiores.

Na primeira estrofe, uma Quintilha, temos somente um grupo de Rimas Consoantes Vulgares envolvendo os versos 2 e 5, um grupo de Rimas Toantes, se é que podemos considerá-las como rimas, envolvendo os versos 1 e 3; e um Verso Branco, o “sorridente” quarto.

Nessa estrofe, os quatro primeiros versos alternaram metros binários com ternários e só o último apresentou uma sequência de dois binários. Isso não quer dizer que foi feita em Versos Mancos, pelo contrário. Apresentou nobreza na uniformidade rítmica, só que com características diferentes das demais estrofes, que tiveram alternâncias nos comportamentos dos versos.

Reparem nos Timbres dos versos. Só tivemos uma quebra da sequência Grave – Agudo, ocorrida nos versos 3 e 4 da primeira estrofe, Os dezesseis demais versos alternaram Timbre Grave com Agudo até o fim.

Na segunda estrofe, uma Oitava, é que ocorreu mais nitidamente a alternância comportamental entre o poeta e o cafajeste, Com excessão dos versos 3 e 7, que apresentam a exclamação “morena” em seus finais, foram todos Redondilhas Maiores, incluindo o 3 e o 7, pelas próprias rimas fundamentadas nas sétimas sílabas. O 3 rimou com o 1 e o 7 rimou com o 5, já que a “morena extra” foi a mesma e repetitiva em ambas as estrofes Oitavas.

Na segunda estrofe, os versos 1, 4, 5, 7 e 8; são cantadas do cafajeste. Já o Lirismo Rítmico do poeta imperou nos versos 2, 3 e 6 .

 Um jogando a lábia e o outro tratando da sua honesta realidade sentimental. É só reparar nos textos dos versos de cada um deles.

Em sete, dos oito versos da terceira estrofe, quem fala é o poeta, mas justamente no oitavo, o último da composição, o cafajeste dá o ar da graça com um nobre 2-5-7.

Creio ter sido por esta composição, também, uma descoberta do Chico, que virou posterior estilo, em inverter, pelos parâmetros de nobreza da construção poética, às interpretações diretas dos textos nos versos. Tivemos um honesto poeta usando um ritmo popular no verso, e um cafajeste compondo os seus versos com nobreza poética.

Essa característica da Morena dos Olhos D´Água voltará a ocorrer em Amor Barato, composta quinze  anos após, quando Chico qualificou versos com adjetivos como Barato, Modesto, Curto…; nos difíceis e nobres Decassílabos de Arte Maior, cujo ritmo é 2-5-8-10.

A Estrofe Refrão apresentou um total de trinta e duas sílabas, e as outras duas, Oitavas,  sessenta e seis em cada, apesar do confronto rítmico dos personagens

Quanto ao Lirismo Rítmico, que salientei acima, foi tema de discussão entre Poetas e Gramáticos, por ocasião da Poesia Trovadoresca, pois embora ambos concordassem que as composições Líricas costumassem apresentar as mesmas Rimas nos últimos versos de cada estrofe, alguns Poetas argumentavam, que o Ritmo dos versos, funcionando como uma espécie de identidade de cada poeta, também deveria permitir-se a rotular os poemas como Líricos.

Para a nossa sorte venceram os Gramáticos, pois uma composição como esta não poderia ser considerada como Meio Lírica, por ter sido composta por uma metade poética do Chico.

Os vinte e um versos utilizados nas três estrofes foram estes:

Trissílabo Agudo – 01

Redondilha Menor Grave – 01

Redondilha Maior Agudo – 09

Redondilha Maior Grave – 06

Decassílabo Comum Grave – 04

      a
  del.icio.us isto!

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