Mordaça – Análise de Texto

Mordaça (vídeo de Jabur64)

Nota: Dentre várias músicas cantadas pelo MPB4, parte da composição Mordaça está localizada aos 2 min. e 38 seg. do vídeo.

Anterior – http://mpbsapiens.com/comunicacao-analise-de-texto/
 
Paulo Cesar Pinheiro é um dos maiores letristras da MPB, embora o seu
nome seja bem menos famoso do que o de outros, já que, ao contrário 
deles, não investiu na carreira de cantor das próprias composições.
 
É daquela leva de bons compositores dos anos 60 e, a exemplo deles, foi
submetido a uma série de cobranças de engajamentos político-sociais, no 
entanto a sua luta maior foi pela qualidade das composições musicais.
 
O texto de Mordaça pode sugerir até àlguma dor de cotovelo, vinda de um
relação amorosa em vias de extinção, mas o título dela nos leva a suspeitar
ter abordado à famosa Censura dos militares na época em que foi escrita.
 
Como já disse, engajara-se também na causa da composição musical bem
escrita e honesta, voltada muito mais ao sentimento do poeta do que às
conveniências do mercado de discos. Coincidiu que tal época também
apresentou alguns compositores se voltando mais para o aspecto comercial,
e suspeito que Mordaça tenha se referido mais a esse aspecto:
 
 - Ou escreve como achamos melhor, ou não tem divulgação da obra!
 
Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa
 
É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
 
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar
 
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
 
Convém lembrar que os compositores musicais dos anos 60 formaram uma
espécie de sindicato classista, cujas sedes estavam espalhadas por bares do
Rio e de Sampa, e era dessa forma que se mantinham informados sobre os
trabalhos da maioria deles, desde os problemas com a Censura, quanto das
debandadas de alguns para o lado das conveniências comerciais.
 
Olhando por esse lado, o texto da composição mostra claramente, à partir
da primeira estrofe, que havia uma coesão de pensamentos sendo rompida.
Na segunda, o Ser poético, esboça uma reação contra o Parecer artístico 
dando, na terceira,  uma espécie de receita para a retomada da coesão 
filosófica perdida.
http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-um-claro-enigma/
O texto é encerrado com uma retomada forte da reação vista na segunda
estrofe, que cita a uma “dor secular”. O que seria essa dor?
 
Poderia muito bem ser as diferenças sociais que nos posiciona em classes, 
inclusive a de compositores musicais preocupados com a cultura do povo, o
que era bem o caso do Paulo Cesar na época, tanto que um dos seus maiores
sucessos, Canto Das Três Raças, trás num fragmento essa idéia:
 
…Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um Soluçar de Dor.
 
Havia uma preocupação dos poetas da época com a condição social, tanto
do povo, quanto da honestidade dos compositores que os alimentavam na
cultura. Sugiro a leitura da postagem:
http://mpbsapiens.com/o-ocultismo-do-canto-das-tres-racas/
 Nota: Composiçâo de Paulo Cesar Pinheiro e Eduardo Gudin
Próxima – > http://mpbsapiens.com/viola-enluarada-analise-de-texto/

         .

  del.icio.us isto!

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