Meu Refrão-Análise de Texto


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Embora Raul Seixas ainda nem tivesse surgido no cenário musical com o seu “Ouro de Tolo”, para posteriormente também ser consagrado pela composição Ghitá.

Parte do livro Baghavad Ghitá, da cultura religiosa Védica, trás um diálogo entre o Homem (Arjuna) e o Criador (Krishna), no qual o primeiro, para crescer como Homem, se vê em uma guerra cujos inimigos eram os próprios parentes.

Ao consultar Krishna a respeito, Arjuna recebe duas possibilidades:

1 – Mudar de lado e ser apenas mais um dos parentes. (vide A Missão do Artista)

2 -  Matar a todos e carregar sozinho todo o peso da tradição familiar.

O que rodeava a cabeça do jovem Chico nessa época? O já consagrado pai, Sérgio Buarque de Hollanda com seus prováveis 60 anos, todo um planetário de irmãs a circundar o seu sucesso crescente, uma Faculdade de Arquitetura em pleno curso irresponsável e uma namorada bem convicta do que tinha e queria evoluir, o sucesso: Marieta Severo!

Me atrevo até a supor que Marieta representaria muito bem o papel de Krishna em qualquer cenário védico brasileiro, só alterando um pouco o texto original do livro e dando ao seu romântico e promissor Arjuna uma única possibilidade: A segunda. – Obrigado Marieta!

Só restou a Chico compor Meu Refrão:  

Refrão
Quem canta comigo    2-5
Canta o meu refrão   1-3-5
Meu melhor amigo   1-3-5
É meu violão    1-3-5
Meu melhor amigo
É meu violão
                        
Já chorei sentido   1-3-5                                
De desilusão   1-3-5           
Hoje-estou crescido   1-3-5          
Já não choro não   1-3-5                    
Já brinquei de bola   1-3-5           
Já soltei balão   1-3-5            
Mas tive que fugir da-escola   2-4-6-8 
Pra-aprender essá lição   1-3-5-7
                         
Refrão
                                              
O refrão que-eu faço-   1-3-5
É pra você saber   1-3-5            
Que-eu não vou dar braço   1-3-5                              
Pra ninguém torcer   1-3-5    
Deixa de feitiço   1-3-5     
Que-eu não mudo não    1-3-5      
Pois eu sou sem compromisso   1-3-5-7         
Sem relógio-e sem patrão   1-3-5-7             
                        
Refrão        
                        
Eu nasci sem sorte   1-3-5
Moro num barraco   1-3-5    
Mas meu santo-é forte-   1-3-5
E-o samba é meu fraco   1-3-5
No meu samba-eu digo   1-3-5
O que-é de coração   2-4-6
Mas quem cantar comigo   2-4-6 
Canta-o meu refrão   1-3-5

Para buscar entender a linha filosófica que levou Chico à trama dos personagens da obra, é necessário que às vezes eu mostre um pouco de Ciência Poética.

A grosso modo, Refrão é uma estrofe repetida ao longo do poema. Quando um Refrão com poucos versos entremeia a 3 estrofes com o dobro da sua quantidade de versos, tal Construção Poética de Forma Fixa é conhecida por Balada: – E daí nasceram as Baladas…, lembram?

Quando as estrofes longas apresentam a mesma rima nos últimos versos de cada, recebem o nome de Lírica, logo, esta composiçao se trata de uma Balada Lírica, posto que apresenta três Oitavas Líricas entremeadas por mesma quadra.

Lembrando sempre que a contagem métrica do verso termina em sua última sílaba tônica, não estranhem também algumas acentuações fora de lugar. Por exemplo, “Pra-aprender essá lição”.

A contagem das sílabas gramaticais daria ao verso 8 sílabas. No entanto, isso não ocorre pelo fato das sílabas poéticas serem diferente das gramaticais.

Quando aparecer um hífen ligando duas sílabas gramaticais naturais, é porque houve uma fusão silábica conhecida como sílaba poética. No caso do verso acima, quando se junta dois sons iguais num mesmo tempo rítmico dá-se o nome de Crase.

A troca de posição no acento de “essa, que se tornou essá”, se deve à tendência de apresentar tonicidade nas sílabas ímpares. A Poesia Latina não usa trabalhar com sílabas tônicas seguidas, embora Chico tenha feito isso mais à frente e ninguém reparado.

À direita do texto de cada verso aparecem números separados por hífen. Correspondem aos ordinais das sílabas tônicas que determinam o ritmo poético do verso, também conhecido como Cadência.           

Na primeira estrofe nota-se que o ritmo se mantém regular até o sexto verso, um poema quase didático. O sétimo verso muda o ritmo para 2-4-6-8 e diz: “-Mas tive que fugir da escola”, para retomar a regularidade rítmica no verso seguinte: 1-3-5-7 e dizer:

- Pra-aprender essa lição.

Prestem atenção nos textos dos versos e comparem com a anormalidade do ritmo.

Chico adora fazer essas estripulias nas construções poéticas. Desconfigura propositalmente o andamento rítmico de um verso numa estrofe e ainda explica o que fez pelo texto.

Reparem, ainda na primeira estrofe, que ele mantém o ritmo 1-3-5 até o sexto verso. Ao chegar no sétimo verso, ele o deixa com 8 sílabas para logo em seguida, no oitavo, ele deixar com sete.

Esse é um outro tipo de brincadeira que ele fará muitas vezes na obra, trabalhar com os números de sílabas de um verso e as respectivas ordens de colocação no poema.

A segunda estrofe é inteira regular no ritmo, embora altere o metro como na primeira. O texto mostra o autor anunciando regras e réguas próprias.   

Na terceira estrofe vemos a regularidade até o quinto verso. Cinco versos com 5 sílabas cada, cujos textos, mentirosos em relação à condição social do Francisco, são trocados por um de 6 sílabas no sexto verso. 

O que poderia muito bem ser evitado com uma simples Anáclase (lembrando que Anáclase é um truque poético de absorver a primeira sílaba, átona, do verso pela, também átona, sílaba última do verso anterior) entre o quinto e o sexto, a exemplo do já ocorrido na mesma estrofe entre os versos 3 e 4, quando chegou a fundir 3 sílabas átonas. 

Na interpretação ele dá um breque quase total entre tais versos, mostrando não querer dúvidas quanto à separação das sílabas.

Se no samba ele diz “o que é de coração”, por que o Mas iniciando o sétimo verso que manterá o ritmo do anterior, para que o oitavo retome o equilíbrio perdido em tais versos?

Uma Anáclase entre o quinto e o sexto, e uma extração do desnecessário “Mas” no sétimo evitaria todo esse quebra-quebra poético.         

O cidadão cursava e largou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP mais ou menos na época da composição. “Mas tive que fugir da escola” pra fazer essas “arquiteturas” nos poemas.

Se em alguma ocasião Chico misturou os termos lírico e autobiográfico, esta chegou bem perto de ter sido uma.

Chico fará dessas coisas muitas vezes durante a obra, mas não citarei todas para não perder continuidade filosófica e tempo.

                    

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  del.icio.us isto!

4 Respostas até o momento »

  1. 1

    camila said,

    abril 21, 2009 @ 7:36 pm

    como o meu pc pode fazer a separaão silabica poética para mim?

  2. 2

    admin said,

    abril 21, 2009 @ 9:05 pm

    Cara Camila:

    Talvez, com uma programação adequada, em alguma plataforma planejada para isso, você consiga que o pc interprete e separe sílabas gramaticais das palavras, mas como as sílabas poéticas podem ou não diferir delas, dependendo mais de cada poeta, creio ser difícil ao pc interpretar, por exemplo, a um Hiato inter-vocabular de forma não separada.
    Tentei muita coisa com Word e Excel, mas acabei caindo na velha e didática forma de excansão dos versos, com barras / e espaços.
    Infelizmente, não posso ajudá-la em tal aspecto, mas se você descobrir algum jeito de fazer, por gentileza, volte e me conte, OK?

    Grato.

  3. 3

    Del said,

    março 29, 2011 @ 9:25 pm

    Estou encantado com tudo isso!!!

    Obrigado.

  4. 4

    admin said,

    março 30, 2011 @ 5:03 am

    Del:

    Fico feliz que esteja gostando. Bom divertimento.
    Dalton.

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