João e Maria (Chico Buarque e Sivuca) – Análise de Texto

 

Afirmar categoricamente, o que um compositor musical estava pensando quando construiu o poema para casar com a melodia é, no mínimo, imprudente.

Quando o letrista é alguém como o Chico, que usava muitos truques da Ciência Poética nas músicas, e escrevendo a letra num tempo de ditadura militar e censura, muitas são as possibilidades. Tentarei mostrar alguns lados dessa questão nesta letra dele, que recebeu a linda melodia vinda da Harmônica de Sivuca.

 Vídeo de nefelibata82

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
 
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você
Era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
 
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
 
Agora era fatal
Que o faz de conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você
Sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar:
- O que é que a vida vai fazer de mim?
 

Da Estrutura Poética – A composição inicia por um tipo de verso batizado pela Ciência Poética com o nome de Heróico Quebrado, um hexassílabo que, coincidentemente ou não, tem o texto: Agora eu era o herói.

Ou seja, um Herói montado num Heróico Quebrado.

O verso seguinte é um decassílabo, também batizado pela Versificação com o nome de Heróico, cujo texto diz: E o meu cavalo só falava inglês.

Quem poderia ser esse cavalo que só falava inglês?

1- O constante Americanismo, propagado pela imprensa visando à destruição das nossas raízes culturais, poderia ser uma das possibilidades. 2- Os estrangeiros donos das gravadoras, logo, os patrões do Chico, que usavam tal idioma para fazer os seus negócios. Como a música dele dependia desses patrões para divulgar e transitar na mídia, talvez o cavalo uniglota morasse em tais baias internacionais.

A noiva do cowboy – Heróico Quebrado

Era você além das outras três – Heróico.

 

O cowboy era ele, também montado num Heróico Quebrado, mas quem poderia ser a noiva, que o dividia com outras três concorrentes num mesmo nobre verso Heróico?

Cabem duas possibilidades mais concretas, como Poesia e Melodia, somadas a outras mais abstratas e ilusórias, tais como Democracia, Igualdade, Fraternidade, Liberdade… ao gosto do usuário.

Partindo dessa base, o restante da letra pode se ajustar perfeitamente a uma análise mais “engajada”, como sempre se usou, ou se ousou, fazer em se tratando das letras do Chico. Até aquelas, cujos textos eram mais voltados aos sentimentos amorosos  eram, comumente, relacionadas aos militares ou à ditadura, como se ele só escrevesse sobre esse tema.

Na letra teve um país imaginário, com uma noiva que desfilava nua e impune. Convém lembrar que o Chico não foi o primeiro poeta a associar os termos Nudez e Pureza como sinônimos. Em São Demais Os Perigos Dessa Vida, Vinícius diz:

…Uma mulher que é como a própria lua
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor, que vive nua

Mas, no final, Chico despede-se do sonho e torna à realidade:

Agora era fatal – Heróico Quebrado

Que o faz de conta terminasse assim – Heróico

O Herói Quebrado do sonho deu lugar ao Herói verdadeiro da realidade.

Por outro lado, é sabido que o Chico teve três filhas, tendo a primeira nascido em 1969, logo, em 1977, ano em que a música foi escrita, essa menina estaria com 8 anos, e a letra poderia muito bem ter derivado de uma possível fábula que o Chico tenha inventado para a criança, pois sempre foi um especialista em pilotar sonhos.

Partindo dessa base última, tanto a noiva quanto as três concorrentes têm identidade bem definida na seguinte equação familiar:

Uma filha + duas outras + Marieta Severo =

A noiva do cowboy
Era você além das outras três

Bodoque é uma ancestral arma indígena brasileira. Qual seria então o bodoque do Chico, que não a MPB?

Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Uma das coisas que mais nos chateiam nos devaneios é a súbita invasão da normalidade no meio do sonho, e a consequente suposição do que poderia ocorrer conosco ao retomar a realidade. O poeta tenta de todas as formas resistir. É o que suspeito ter começado a ocorrer com o Chico aqui:

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido – Redondilha Maior
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Obs. O Redondilha Maior sempre foi o verso preferido do Chico. Tanto é que acabou recebendo do seu mestre, Vinícius de Moraes, o carinhoso apelido de “Chico Redondilha”.  Em certas composições ele utilizou esse tipo de verso, isoladamente, como sinônimo do seu maior bem poético. Foi o que ocorreu aqui, pois na composição inteira, foi o único com tal metragem.

Esse é o momento em que a horrorosa realidade começa a retomar as rédeas do poeta sonhador, pois aquela menina, para quem contava o sonho, iria crescer e o futuro dela era tão incerto quanto o sonho até então vivido:

Agora era fatal
Que o faz de conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você
Sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar:
- O que é que a vida vai fazer de mim?

Assim como a letra pode ter sido escrita para alguma filha, nada impede que tivesse sido feita para alguma das irmãs dele. Cristina, Heloísa, Miúcha ou Ana. Sempre uma e mais três.

Cabe muita coisa, mas como estamos próximos de um Dia Das Crianças, fico com a possibilidade da filha.

Escolha a sua.

 

        a

  del.icio.us isto!

12 Respostas até o momento »

  1. 1

    Amanda said,

    April 27, 2011 @ 10:03 pm

    Gostei da analise!

  2. 2

    admin said,

    April 28, 2011 @ 5:40 am

    Gostei que você gostou, Amanda.

    Volte sempre.
    Dalton.

  3. 3

    Cristiano Moraes said,

    June 4, 2011 @ 4:34 pm

    Muito Bom!
    Parabéns…

  4. 4

    admin said,

    June 4, 2011 @ 6:08 pm

    Grato, Cristiano!

    Volte sempre.
    Dalton.

  5. 5

    Gabriel said,

    April 24, 2012 @ 9:36 pm

    Oi Admin, acho que a segunda estrofe trata-se sobre a ditadura, assim como a primeira trata sobre o americanismo.
    E sobre o tema ser infantil, se deve a semelhança de “idade” entre a composição da melodia e Chico Buarque, já que ambos nasceram em anos parecidos… assim, ao pensar na época em que a melodia foi criada, Chico acabava assimilando à infância. :)

    Muito obrigado pela sua análise, me ajudou muito num trabalho da escola.

  6. 6

    admin said,

    April 25, 2012 @ 9:16 am

    Gabriel:

    Grato pela visita, pela colaboração na interpretação do texto e volte sempre.
    Dalton.

  7. 7

    Tayná said,

    November 3, 2012 @ 6:38 pm

    Uma dica, essa letra não foi escrita por Chico e sim por Sivuca… logo a interpretação da musica que foi levada na visão de Chico pode estar errada.

  8. 8

    admin said,

    November 3, 2012 @ 7:17 pm

    Tayná:

    Pode ser que você tenha razão, porque deduzi que fosse dele a letra por aparecer no seu songbook, que apresentou, como regra editorial, não colocar nem letras e nem partituras pertencentes aos parceiros. Só as partes feitas por ele nas parcerias, mas podem ter-se enganado nessa música, como não?

    De onde você tirou a sua informação para eu averiguar?

    Ser-me-ia útil saber. Grato e volte sempre.
    Dalton.

  9. 9

    Geraldo Diniz said,

    July 3, 2013 @ 1:50 am

    Ótima analise!

    Tenho que dar minha contribuição também, e tirar essa dúvida que ficou nesses dois últimos comentários.

    Uma resposta do próprio Chico sobre quem escreveu, quem fez a melódia e qual o sentido da letra.

    http://www.youtube.com/watch?v=K2dqYhkXHWk

  10. 10

    admin said,

    July 3, 2013 @ 9:44 am

    Geraldo Diniz:

    O Chico adora dar explicações “inocentes” para as músicas que escreve. Em uma entrevista, assisti, ao vivo, ele dizer que a música O Meu Guri tinha uma “Letra de Amor”.

    Ele gosta de colocar um texto, para praticarmos a nossa interpretação do mesmo, enquanto ele fica no muro. Veja este exemplo:

    http://www.youtube.com/watch?v=ZN6p84cMJZE

    Grato pela visita, pela colaboração e volte sempre.
    Dalton.

  11. 11

    Guilherme said,

    April 12, 2014 @ 1:38 pm

    Eu acho que essa análise foi um tanto quanto “inocente”. Muito boa, porém inocente. A meu ver, Chico estava falando da ditadura mesmo, “meu cavalo só falava inglês”, porque agora tudo era o que os “states” queria. Ele enfrentava “os alemães” exatamente por isso, por causa da influência norte-americana contra o nazismo. “Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz”, ou seja, todo o poder estava concentrado na mão dos militares. “E pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz”, porque se você reclamasse era preso, torturado e exilado, na melhor das hipóteses. “Eu era o seu pião, o seu bicho preferido”, porque o povo aceitou a ditadura de início, pediu por aquilo, pelo golpe, mas logo se arrependeu. “Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim”, pois o mundo estava uma bagunça e ela não tinha mais o apoio internacional. Bem, acho que é isso. Ótima análise, é que eu sou um pouco mais “caótico”

  12. 12

    admin said,

    April 12, 2014 @ 6:16 pm

    Caro Guilherme: Concordo com você, pois só Deus e Juca Chaves sabem o quanto esses artistas apanharam dos militares por aqui, antes de optarem pelo exílio bancado pelas suas gravadoras.

    http://letras.mus.br/juca-chaves/364549/

    Para maiores ilustrações, sugiro a leitura da Fábula da Roda Nova, à disposição dos leitores neste mesmo site.
    Grato pelo comentário e volte sempre.
    Dalton.

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