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Alexandre said,
outubro 6, 2011 @ 4:48 am
DÚVIDA
Gostaria de saber se se pode usar em qualquer caso o hiato intervocabular…
Vou ser mais preciso em minha pergunta: por exemplo, se houver um verso da seguinte maneira: “Que o amor”.
O “a” de “amor” junta-se ao “Que-o”? Pois se se junta, então terá duas sílabas poéticas o verso, caso não se possa juntá-lo, então será um verso de três sílabas.
Alexandre said,
outubro 6, 2011 @ 5:50 am
Eu tenho, ainda, outras dúvidas…
Esse soneto de Camões:
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Claramente ele escreve decassílabo heróicos (tônicas obrigatoriamente nas 6ª e 10ª sílabas poéticas), mas o terceiro verso desse primeiro quarteto eu teria feito a escansão da seguinte maneira:
Mas/não/ser/vi/a-ao/pai,/ser/vi-a-e/la
E, no entanto, Camões deixa a entender que na verdade o “ela” não se une ao “ser/vi-a”, penso eu que pelo “e” de “ela” ser tônica, no caso… mas me tire, por favor, esta dúvida.
Um outro poema de Camões, um vilancete, claramente escrito em redondilhas maiores (7 sílabas poéticas):
“Enforquei minha esperança,
mas Amor foi tão madraço
que lhe cortou o baraço.
(…)
Vem Cupido co a espada” –> este verso que me deixa com dúvidas
Eu teria escandido assim: “Vem/Cu/pi/do/co-a-es/pa/da” (o que daria em 6 sílabas poéticas, heróico quebrado, não sendo, portanto, a intenção de Camões)
Ele, no entanto, parece fazer assim: “Vem/Cu/pi/do/co-a/es/pa/da”
Por quê?
Minha outra dúvida é se se pode unir uma sílaba átona à duas tônicas, respectivamente, como por exemplo:
“Que há anos” –> ficando “Que-há-anos” (1 sílaba poética)
O verso seguinte, do dramaturgo romano Terêncio:
“Enquanto há vida, há esperança”
Eu escandiria assim:
“En/quan/to-há/vi/da-há-es/pe/ran/ça” (7 sílabas poéticas)
Ou estou errado?
Bem, acho que já postei dúvidas demais…
Aguardo por respostas. Até breve.
admin said,
outubro 6, 2011 @ 9:24 am
Alexandre:
Se conseguirmos pronunciar a sílaba num único tempo, qualquer possibilidade de fusão é admissível, embora, em muitos casos, a Ciência Poética ancestral condenasse. Por exemplo: – Não se funde sílabas gramaticais quando a anterior for tônica!
Essa regra vingou por muito tempo dentre os poetas, mas veja este verso de Funeral de um Lavrador (João Cabral de Mello Neto):
É-U/ma/ CO/va/ GRAN/de – 1-3-5
Se você reparar, o som resultante, “ÉL”, coube muito bem em único tempo.
Quanto à sua pergunta específica, cabe ao dono do poema optar por fundir ou não, pois “que-o-a”, com uma predominância do A no som, consome um só tempo. Veja este exemplo da música Almanaque (Chico Buarque):
Diz/ quem/ é/ que/ mar/ ca/ va-o/ ti/que/ ta/ “que-e-a-am”/pu/lhe/ta/ do/ tem/po/ dis/pa/rou
Escute a música e sinta que a gigantesca fusão coube num só tempo: http://www.youtube.com/watch?v=Cy7kWMzxF-g
Curiosamente, no quarto verso da música Roda-Viva, o mesmo Chico não escapou de quebrar o pé, mesmo numa fusão aparentemente fácil “foi+o”, porque a anterior, tônica, impediu a pronúncia em único tempo, e o verso, cujo Ritmo Poético da estrofe exigiria oito sílabas, com cadência 2-5-8, acabou ganhando uma sílaba a mais, como o próprio texto sugere:
Ou/ foi+o/ mun/do-en/tão/ que/ cres/ceu?
Sinta o verso manco na música original: http://www.youtube.com/watch?v=HRFw5u5wR4c
No caso do Camões foi diferente, porque o cara era viciado em Heróico Grave (rima em paroxítonas), aliás, Os Lusíadas foi feito inteiro neles.
Chico pode até ter feito uma das suas jogadinhas de texto em Roda-Viva, com o “cresceu” denunciando o erro, mas o Camões não tinha tanta criatividade, talvez porque meter um Hendecassílabo no meio de um monte de Heróicos seria um ato condenável para a poesia da época.
O mesmo ocorre no caso dos Redondilhas Maiores com o uso do “c´o-a” (quá). Esse é um velho truque para salvar ritmo e métrica no poema. Se tivesse separado “Com e A” o verso viraria um Octossílabo perdido entre os Redondilhas.
O caso do Bra/ço virar “Ba/ra/ço” é o mesmo truque do A/guen/ta virar “A/gu/en/ta”. Fica à disposição do poeta usar qualquer das formas.
No caso do “Que-a-anos” ocorreu o mesmo erro do Chico em “Foi+O”. Não dá para colocar em um só tempo, pois o “nos” exige um segundo tempo.
No poema do Terêncio, que não conheço, para interpretar com maior segurança o verso, convém reparar nos demais versos da estrofe e na época em que foi escrito o poema. Se preceder ao Trovadorismo, a tendência é que pertença a um Poema Regular (versos com idêntica métrica). Se o restante da estrofe for em Redondilhas Maiores, a sua interpretação é a mais sensata. Se o poema for pós-trovadorismo, convém maior atenção na possibilidade de ter sido escrito em Versificação Irregular, deixando-se de olhar para a métrica e olhando-se mais para o Ritmo, pois poderia, por exemplo, estar acompanhado na estrofe por versos como:
não/ SOU/ ne/NHU/ma/ cri/AN/ça – 2-4-7
se/ TRA/go/ VI/va-a/ MI/nha/ lem/ BRAN/ ça – 2-4-6-9
en/TREI/ de/ VEZ/ nes/sa/ DAN/ça – 2-4-7
en/QUAN/to-há/ VI/da/ Há/ es/pe/RAN/ça – 2-4-6-9
Nos poemas, procure sempre interpretar o verso como sensato em relação aos demais, porque esse negócio de ficar mancando versos para reforçar o texto é marca registrada do Chico Buarque.
Grato pela visita e volte sempre.
Dalton.
Alexandre said,
outubro 6, 2011 @ 4:11 pm
Obrigado Dalton… E lendo a sua resposta me dei conta de um erro…
Ao colocar minha dúvida sobre o “Que há anos” eu me esqueci de separar “nos” de “anos”…
Então poderia ficar: “Que-há-a/nos” certo?
admin said,
outubro 6, 2011 @ 11:16 pm
Alexandre:
Agora ficou mais fácil. Perfeito.