O Trânsito da Filosofia e do Poder na MPB

 
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Agora se faz necessária uma nova alteração na cronologia da obra central, do Chico tendo a MPB como periférica, para que se entenda melhor às vindouras Calabar, Fazenda Modelo e, bem à frente, Gota D´Água, como continuidades da filosofia expressada no conteúdo da peça Roda Viva, onde ele tentou mostrar os mecanismos da Fabricação de Ídolos, por intermédio da junção Imprensa-Ibope.

 

Pela própria formação atávica, Chico era um jovem muito bem informado acerca dos trânsitos do poder da imprensa como a oficial historiadora moderna dos paises.

Se por um lado isso o tornava privilegiado, em relação aos demais compositores, por outro colocava sobre ele toda uma carga de responsabilidades e cumplicidades, de ambos os lados, com a qual ele não queria conviver.

Basta que se preste mais atenção nos textos das composições Pedro Pedreiro, Amanhã Ninguém Sabe e Meu Refrão.

Na primeira mostrou uma preocupação social com a sorte dos nordestinos, despejados em migração, inicialmente forçada e posteriormente opcional, na cidade de São Paulo.

Na segunda tentou dar a entender, à legião dos seus colegas compositores de então, que embora simpatizasse com a Bossa Nova, o Samba é quem melhor ritmava a sua filosofia.

Finalmente, na terceira buscou se desvencilhar da figura do “moço bonzinho e fidalgo”, mostrando que o seu melhor amigo era o violão, como que querendo apagar a qualquer possível vínculo com os seus nome e sobrenome: Buarque de Hollanda.

Podem reparar que a partir de uma Coletânea de Sucessos, da Premier, editada entre o quarto LP, o primeiro com o selo Phillips, e o segundo, Construção, passou a utilizar o nome artístico Chico Buarque, embora o original Buarque de Hollanda se mantivesse nos selos interiores dos lps, que costumavam trazer os nomes dos autores e as ordens das composições em cada lado; mas até isso mudou a partir do LP Quando o Carnaval Chegar, se mantendo Chico Buarque até hoje.

Se esse procedimento resultou de possíveis ajustes legais, pela troca das gravadoras, não posso e nem me cabe dizer, mas Meu Refrão fez coincidir tudo isso. Talvez, profeticamente…

Desde o Festival de 1966, com A Banda, o conjunto Imprensa-Ibope já tinha planos para aquele pobre Ben Silver, quando o consagrou com o rótulo: Unanimidade Nacional!

Por um lado, Chico sabia que, se não concordasse com aquilo tudo, não teria mais a propaganda do trabalho, mas, por outro, interiormente, supunha que a aceitação de tal suposto Jogo de Bastidores, além de ser injusto para com os colegas compositores, não lhe daria, com exatidão, a real idéia da aceitação da sua obra por parte do público.

Isso fazia dele um Traidor, tanto da Classe Artística quanto do Povo, o que suponho ter sido a causa principal da feitura da obra Calabar, O Elogio Da Traição.

Em Roda Viva, Chico já procurara alertar, mais à Classe Artística do que ao Povo, sobre o jogo do poder em relação a ele.

Em Calabar, adotou o personagem Sebastião Souto, o Traidor-Mór da peça, como sendo ele em relação à Classe, enquanto se espelhava no próprio Domingos Fernandes Calabar para se justificar conosco, o Povo, num misto de História Oficial do Brasil com Macunaíma, O Herói Sem Caráter, aproveitando para se justificar, ao mesmo tempo em que nos recrutava à Cultura.

Um dado suspeito sempre cercou à peça Calabar: Embora toda a imprensa tenha feito o maior alarde, acerca da iniciativa “inédita”, de se reabilitar historicamente ao polêmico personagem, que trocara de lado, dos portugueses para os holandeses; a coisa não era tão inédita assim, visto que o poeta baiano, Agrário de Menezes, já o tentara um século antes.

Tendo a enorme biblioteca do pai, um historiador, como referência, como é que Chico nunca se apercebera do anterior trabalho do Agrário e tenha se mantido calado a respeito?

- É nessas horas que as figuras de Herói e Cúmplice se confundem na cabeça do analista!

Como em Calabar já enveredara pela História do Brasil, na qual se justificara, ainda, mais à Classe Artística que ao Povo, Chico se baseou em nossa história mais recente, de 1950 a 1961, para escrever Fazenda Modelo, agora totalmente voltado à educação do Povo, ainda que numa ficção de Novela Pecuária, enfadonha no relato objetivo, mas riquíssima na Linguagem Cifrada subjetiva.

Mais uma vez, Chico se misturou aos personagens, mas desta feita dividiu um deles, o Lubino, com um ex-presidente da república, estabelecendo um paralelismo dos universos social e artístico que o cercavam até então, pois os personagens do livro podem atender tanto aos presidentes sob o Poder, quanto os artistas sob o mesmo Poder, ponto comum dos Universos Paralelos da MPB.

É o que veremos no próximo post: Fazenda Modelo (uma novela pecuária). Até lá.

       

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               a

  del.icio.us isto!

1 Resposta até o momento »

  1. 1

    jeanete gouvea said,

    fevereiro 14, 2009 @ 9:40 pm

    Puxa! Calabar é um dos trabalhos do Chico que mais gosto, mas não tinha visto ainda pelo ângulo que vc coloca… Herói e Cúmplice. Isso existe, uma vez que ele queria mostrar sua obra e, para isso, se submetia a certas imposições e, por outro lado, ele tratava de denunciar toda a “tramóia”, o que resultava em censura ao seu trabalho. Seria isso? Bjs.
    Ah, gostaria muito que vc analisasse Gota d’Água.

    Jeanete:

    Calabar foi apenas citado, terá sua análise mais minuciosa adiante, o mesmo ocorrerá com Gota D`Agua, também compatível à idéia de Roda Viva, só que em outro ângulo diferente da Fazenda.

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