“Mesmo Que Seja Eu, o Erasmo Carlos…

a

… da Jovem Guarda, também sou poeta da MPB!”

Os anos cinquenta foram cruciais no desenvolvimento da MPB, pois o Rádio dividia as suas atenções entre dois tipos de música: Nacional e Estrangeira.

Como os americanos, vizinhos do norte, eram os que ofereciam novidades mais próximas,  uma grande quantidade de músicas de lá ocupava o maior espaço no segundo tipo, com uma ou outra entrada de música européia.

Como acabáramos de nos tornar economicamente independentes de credores europeus na primeira metade dos anos cinquenta, mas logo no princípio da segunda voltávamos a ter novos credores, desta vez americanos, era óbvio que estaríamos mais sujeitos às influências culturais dos últimos.

Saindo desse lado ruim da questão, que sempre me exige em presença, tínhamos motivos para aceitar tal tipo de colonização musical por única causa, a música era boa nas três vertentes oferecidas: Jazz Instrumental, Canções de Amor e Rock And Roll, tendo este recém-surgido também por lá. Dizem que foi em 1955(6) com Bill Haley e Seus Cometas.

O que nascera no Brasil na primeira metade dessa década com o nome de Samba-Jazz, à partir da segunda ganhou novo formato e nome: Bossa-Nova, que rapidamente tornou-se uma epidemia nas execuções de rádio no eixo Rio-São Paulo, mas também havia uma forte atração pelo Rock, que embora menos presente, era uma excelente forma para os adolescentes de então baterem de frente com os seus pais com aquela “barulheira e gritaria toda”.

Com a chegada dos Beatles, já no princípio da década de sessenta, aquela idéia paterna de “barulheira” começou a ceder e o Rock começou a ser mais aceito pelos mais velhos. Como a maioria de nós entendia muito pouco das letras em Inglês, a coisa era facilitada pela ignorância do que se dizia em tais músicas, ficando a simpatia mais voltada para a beleza de certas harmonias musicais agradáveis.

Alguma coisa precisava ser feita para que o Rock voltasse a ser adolescente e contestador, porque senão perderia rapidamente a popularidade entre os jovens. O escolhido para isso foi Roberto Carlos, e esse desconhecido cantor de bossa-nova, do final da década passada, acabou virando Rei de um movimento chamado Jovem Guarda. Surgia o Rock Brasileiro com letra compreensível.

Com a chegada da Bossa-Nova no mundo do já existente Samba, a música brasileira começou a ter tais nomes exponenciais no sudeste brasileiro. Como a primeira nascera com a presença do já consagrado poeta Vinícius de Moraes, que resolvendo partir de vez para artes mais complexas do que o simples Poema, que era a da Composição Musical; emprestou à bossa-nova parte do respeito que adquirira como poeta.

Essa situação confortável dos dois nomes durou até a chegada da Jovem Guarda no cenário artístico nacional, já com Televisão, principalmente pela força que ambos perderam com a presença daquela terceira tendência musical, e o que antes rivalizavam nas preferências do Rádio, passaram a dividir o novo pedaço tele-auditivo reunidos num só nome: Musica Popular Brasileira, ou MPB.

Como o próprio nome indica, tanto faria a tendênca musical a que certa composição pertencesse, pois nascida no Brasil pela iniciativa do povo, era óbvia música, popular e brasileira; mas a sigla MPB serviu para diferenciar as nossas tendências musicais por décadas como algo mais próximo das nossas raízes musicais, meio dálmatas, pois não podemos esquecer das manchinhas do Jazz nos anos cinquenta.

Hoje não se pode precisar o que é a MPB, mas se compararmos com o Dálmata visto, é algo semelhante a um cão Angorá, mais próximo do Rotweiller quando grandioso, ou do Pitbull quando menorzinho.

Voltando à MPB ancestral, esta primou por reconhecer-se associada aos belos poemas, enquanto a Jovem Guarda continuou adolescente nas letras. Isso acabou criando dois tipos de fãs rivais: Burguesia Intelectual e Burguesia Adolescente Modista. Puro confronto de valores, pois o que antes dirigia as classes da Pirâmide Social, a Cultura, estava sendo trocada pelo Papel-Moeda do consumismo ofertado pelas telas de TV.

Deixando, novamente, esse lado mais triste da questão, voltemos aos primórdios da Jovem Guarda.

Além do Rei, um nome tinha cadeira cativa em tais programas da Record. Diante de todos os refletores voltados para o primeiro, Erasmo Carlos  se anunciava timidamente como proprietário de obra própria. Usarei uma das suas músicas para tratar do povo que habitava constantemente o mesmo palco. Comparando com a essência filosófica da toada Paratodos, da MPB do Chico, nos anos sessenta Erasmo escreveu isto:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/48604/

Daí pra frente teve a trajetória artística sempre ligada à do Rei, mas devo lembrar que na parceira musical era Erasmo o responsável pelas letras de rock ou canções, que tanto sucesso fizeram na voz do Roberto. Independente disso, Erasmo continuava com a sua composição poética mais do Verso Livre, que embora tendesse a Modernista, apresentava um bom trabalha de rimas.

Por serem voltadas mais aos adolescentes da época, suas letras eram de fácil compreensão, logo, populares. Foram vários os poemas que fez para receberem o rock como melodia nas músicas. Embora populares, sempre apresentavam Rimas de Eco, quase como um vício dele em tal elemento de construção poética.

Erasmo sempre foi meio retraído, quer na exposição de mídia, quer nas letras mais intimistas. Por um lado, a mídia fazia um exercício enorme para transformá-lo em um artista muito mais brilhoso do que a sua essência pessoal lhe permitia:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/1063818/

Ali estava um grande exemplo de tentativa de se “Fábricar o Ídolo” pelo Rock, em choque com a essência poética do artista. Que também escrevia coisas singelas, ou mesmo infantis, como esta:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/45771/

Havia uma garota, talvez, ainda desconhecida, que não se entregando àquela ilusória máquina de fazer fama, sempre o chamava de volta para si:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/48607/

Esse poeta infantil distava muito daquele ilusório Tremendão proposto. Tentava se livrar da paixão juvenil criando outras ilusões machistas essenciais:

http://www.youtube.com/watch?v=bYGUeXd_uO0&feature=related

Mas sempre voltava para a dona primeira, e quem sabe única, que finalmente foi assumida nas canções, ao mesmo tempo em que mostrava ser Erasmo um ”Dominado”, gíria que usávamos na época para rotular os amigos mais fiéis às namoradas, que ao invés de sair com a turma para o resto da noite, porque até as dez  todos batiam ponto nos portões das namoradas, preferia entregar-se ao triste celibato monógamo. Tentava resistir àquela postura doentia com alternativas sambistas mais valentes deste tipo:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/45772/

Passados muitos anos como um Dominado, escreveu uma canção bem menos juvenil, que contava a história da Dominação naquela paixão doentia com um triste final, onde a garota de A Carta continuava solitária na dela, e ele, sempre apaixonado e fiel, se aceitando até como descartável e apenas útil por ainda estar próximo:

http://letras.terra.com.br/erasmo-carlos/45776/

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Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou estava sem ninguém
a
Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
Que no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão
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Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar seu pranto
Aumenta o rádio
Me dê a mão
a
Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu
a
Um homem prá chamar de seu…

a

Muitos são os casos de injustiça da MPB para com os seus poetas musicais, e Erasmo Carlos é um deles. Não pelo que fez com um breve reconhecimento, mas pelo que não fez e poderia, desde que reconhecido na hora certa; pois se manteve, e tomara haja de por anos ainda se manter, tão fiel àquele rock gostoso dos anos sessenta, quanto suponho ainda ser para consigo mesmo nos poemas, quer tratando de um velho amor antigo, ou mesmo de um novo amor antigo, pois cada Salvador usa da sua Espada como bem entender.

Faço apenas a minha parte:

Obrigado Erasmo!

 

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  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    Fábio said,

    novembro 15, 2011 @ 7:22 pm

    Opa, opa…também agradeço ao Tremendão, então!!!!

    Mas, Dalton, quem teríamos mais de bons poetas do rock brasileiro????

  2. 2

    admin said,

    novembro 16, 2011 @ 12:46 am

    Fábio, o assunto virá em nova postagem do Sapiens após eu terminar a atual. Abraços.

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