Do Japão (Gilberto Gil)- Análise de Texto


 

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Embora esta composição tenha menor bagagem científica de análise, não
deixa de tratar do Relativismo sob a ótica poética. Se, por uma lado, foge
das comparações de velocidades, espaços e tempos da Física, por outro,
associa Passados a possíveis Presentes já adequados ao um, apenas suposto,
Futuro próximo.
 
Esse tipo de descrição só é possível ser feito pelo poeta, não por um cientista.
Quando muito, por um analista disposto a baixar todos os seus instrumentos
lógicos de análise para sentir, por exemplo, o som da guitarra imitando a voz
do gavião, num contexto melódico poético de rara felicidade:
 
Vídeo de ARKAHAS
 
Do Japão
Quero uma máquina de filmar sonhos
Pra registrar nas noites de verão
Meu corpo astral leve, feliz, risonho
Voando alto como um gavião
Que filme dentro de minha cabeça
Todo pensamento raro que eu mereça
Toda ilusão a cores que apareça
Toda beleza de sonhar em vão
 
Do Japão
Quero também um trem-bala-de-coco
Pra atravessar túneis do dissabor
Quero um microcomputador barroco
Que seja louco e desprograme a dor
Visitar um templo zen-desbundista
Conversar com um samurai futurista
Que me dê pistas sobre o sol-nascente
Que me oriente sobre o novo amor
 
Do Japão
Quero uma gueixa que em poucos minutos
Da minha queixa faça uma paixão
Descubra novos sentimentos brutos
E, enfeitiçada, tome um avião
E a gente vá viver num outro mundo
Pra lá do Terceiro ou Quarto ou Quinto Mundo
Onde a rainha seja uma açucena
E a divindade, a pena do pavão
 
Essa música faz parte do LP O Eterno Deus Mu Dança, cuja análise minha 
resultou até num livro – Tapete de Mitos – que não levei adiante por motivos
vários, dentre os quais, infelizmente, exigências de direitos autorais por parte
da assessoria da Gegê, responsável pela administração da obra do Gil.
 
Independente dessas observações menores, Gil esbanjou poesia nessa
composição, pois já na primeira estrofe mostra como são os sonhos do
poeta diante da vida que o cerca:
 
Que filme dentro de minha cabeça
Todo pensamento raro que eu mereça
Toda ilusão a cores que apareça
Toda beleza de sonhar em vão
 
Na segunda estrofe é que surgem as comparações de tempos. Quando a 
composição foi escrita, os aparelhos eletrônicos mais sofisticados eram
fabricados no Japão, bem como o famoso Trem-Bala, uma novidade no
transporte urbano, capaz de atingir altas velocidades.
 
Foi com esse quadro cotidiano, ao fundo, que Gil fez as comparações dos
tempos, do Trem japonês com a nossa Bala-de-Coco. Começou a falar de 
microcomputador, mas barroco e louco na concepção poética. 
 
Também no Japão existem os templos Zendi-Budistas, que de certa forma
mancharam a poesia da composição com o gracejo do Gil, ao fazer um
trocadilho, que enxerguei como inadequado ao contexto poético: 
 
Zen-Desbundista
 
Podia ter sido evitado.
 
Mas ainda na segunda estrofe ele retoma a sensibilidade fazendo surgir um
personagem juntando os conceitos de Passado e Futuro:
 
Conversar com um Samurai Futurista
Que me dê pistas sobre o sol-nascente
Que me oriente sobre o novo amor
 
Preparando o clima da última estrofe, onde o poeta retoma o seu lado sexual
ativo, ao buscar uma Gueixa e descrever o seu local sonhado para viver. Um
lugar onde imperasse a natureza e se cultuasse à beleza:
 
E a gente vá viver num outro mundo
Pra lá do Terceiro ou Quarto ou Quinto Mundo
Onde a rainha seja uma açucena
E a divindade, a pena do pavão
 
Do Japão para a próxima composição relativista passaram anos até que
Gil voltasse a trabalhar no tema de forma mais poética, só que dessa vez
dando à obra alguns toques religiosos, camuflados pelo nome comum, tanto
de elemento físico quanto de orixá, mas ambos poéticos.
 
Até lá.
 
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             .

  del.icio.us isto!

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