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| Vídeo de amlajid |
| O Festival da MPB de 1966 terminou com duas composições empatadas em |
| primeiro lugar: A Banda, do Chico Buarque, e a Disparada, da dupla Geraldo |
| Vandré e Theo de Barros. |
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| Lá estavam Vandré e o jovem compositor de Sonho de um Carnaval, que o |
| próprio Vandré defendera num festival do ano anterior. As opiniões estavam |
| divididas entre os jurados, mas entre nós, da platéia, havia uma nítida |
| preferência pela Disparada. |
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| Como adolescentes não podíamos entender a visão adulta do texto da Banda, |
| que embora escrita por um compositor ainda jovem, possuía um texto mais |
| conformista com a perda dos valores culturais que São Paulo estava sofrendo |
| naqueles anos, e que fugia à sensatez da adolescente platéia. |
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| Do outro lado havia uma composição que nitidamente protestava contra algo, e |
| que também não conseguíamos entender bem como adolescentes, mas insinuava |
| tratar austeramente do desnível das classes sociais. |
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| Foi o bastante para ser adotada por nós, que éramos maioria na platéia. O ar de |
| protesto adulto na letra, aquela queixada de boi marcando o ritmo e a excelente |
| interpretação do Jair Rodrigues faziam com que preferíssemos a Disparada, pois |
| A Banda estava muito mais próxima do espírito infantil que todo adolescente |
| quer se livrar para virar logo um adulto: |
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| I |
| Prepare o seu coração |
| Prás coisas que eu vou contar |
| Eu venho lá do sertão |
| Eu venho lá do sertão |
| E posso não lhe agradar… |
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| II |
| Aprendi a dizer não |
| Ver a morte sem chorar |
| E a morte, o destino, tudo |
| A morte, o destino, tudo |
| Estava fora do lugar |
| Eu vivo prá consertar… |
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| III |
| Na boiada já fui boi |
| Mas um dia me montei |
| Não por um motivo meu |
| Ou de quem comigo houvesse |
| Que qualquer querer tivesse |
| Porém por necessidade |
| Do dono de uma boiada |
| Cujo vaqueiro morreu… |
| |
| IV |
| Boiadeiro muito tempo |
| Laço firme e braço forte |
| Muito gado, muita gente |
| Pela vida segurei |
| Seguia como num sonho |
| E boiadeiro era um rei… |
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| V |
| Mas o mundo foi rodando |
| Nas patas do meu cavalo |
| E nos sonhos que fui sonhando |
| As visões se clareando |
| As visões se clareando |
| Até que um dia acordei… |
| |
| VI |
| Então não pude seguir |
| Valente em lugar tenente |
| E dono de gado e gente |
| Porque gado a gente marca |
| Tange, ferra, engorda e mata |
| Mas com gente é diferente… |
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| VII |
| Se você não concordar |
| Não posso me desculpar |
| Não canto prá enganar |
| Vou pegar minha viola |
| Vou deixar você de lado |
| Vou cantar noutro lugar |
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| VIII |
| Na boiada já fui boi |
| Boiadeiro já fui rei |
| Não por mim nem por ninguém |
| Que junto comigo houvesse |
| Que quisesse ou que pudesse |
| Por qualquer coisa de seu |
| Por qualquer coisa de seu |
| Querer mais longe que eu |
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| IX |
| Mas o mundo foi rodando |
| Nas patas do meu cavalo |
| E já que um dia montei |
| Agora sou cavaleiro |
| Laço firme e braço forte |
| Num reino que não tem rei |
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| As estrofes I e II são um fiel retrato dos anseios de um adolescente da década |
| de 60: |
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| - Cheguei e não estou para brincadeiras. Vejo um monte de coisas erradas e, |
| doa a quem doer, vou mudar as coisas por aqui! |
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| Todo adolescente é um respeitável Herói Adulto desde os primeiros dias de |
| vida, que todavia corre atrás da primeira bola que passe à sua frente. |
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| O Não é a sua palavra de ordem. |
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| As estrofes III e IV já mostram o mesmo adolescente no seu estágio seguinte, |
| onde começa a estabelecer comparações entre o Passado, recente e conhecido, |
| com um Futuro emergente, mas apenas imaginável. |
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| Tal estado dele dura até o dia em que junta às premissas, tiradas do passado |
| observado, e chega à conclusão: – Até que um dia acordei! |
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| Quando um Educador presencia a esse instante mágico ocorrendo na vida do |
| Educando, sabe que este pouco precisará dele para seguir a sua vida com maior |
| propriedade nos passos. A idéia do dever cumprido o incentiva a buscar ver |
| cada vez mais à seguinte cena, comum nesses casos de Dedução Adolescente: |
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| - As sobrancelhas do educando erguem subitamente e, naturalmente, as faces |
| ficam vermelhas de vergonha! |
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| Não uma vergonha pelo que acabara de ocorrer com ele naquele instante da |
| dedução primária, mas a uma soma de vergonhas anteriores, do passado |
| Infantil que deixava, rumo ao futuro incerto que o abraçaria. |
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| Embora Disparada tenha sido escrita pelo Vandré já adulto, por ele tentar |
| retratar ao histórico da própria evolução filosófica como artista, tenho que ver a |
| composição escrita por dois vandrés, um anterior e outro posterior ao verso: |
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| - Até que um dia acordei! |
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| O primeiro, ainda ligado ao sonho descrito em Porta Estandarte que, no fundo, |
| apenas seguia à juventude da letra de Sonho de Um Carnaval, do Chico, que |
| o próprio Vandré defendera num festival anterior: |
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| Era uma canção |
| Um só cordão |
| Uma vontade |
| De tomar a mão |
| De cada irmão |
| Pela cidade |
| No Carnaval Esperança |
| Que gente longe viva na lembrança |
| Que gente triste possa entrar na dança |
| Que gente grande saiba ser criança. |
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| Basta comparar com este trecho de Porta Estandarte: |
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| Certezas e Esperanças pra trocar |
| Por dores e tristezas que bem sei |
| Um dia ainda vão findar |
| Um dia que vem vindo |
| E que eu vivo pra cantar |
| Na avenida girando |
| Estandarte na mão pra anunciar. |
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| Quando resolveu “conversar poeticamente” com o jovem compositor em que |
| acreditara, as palavras do primeiro Vandré atingiram, também e em cheio, a |
| toda geração de jovens dos anos 60, e que eram a maioria da platéia em 1966. |
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| Os motivos que levaram o, agora adulto, Vandré a escrever a estrofe V, e |
| que coincidentemente assediavam aos jovens artistas da época, suspeito serem |
| os mesmos que coloquei na postagem Porta Estandarte – O Sonho de Vandré: |
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| A bagagem literária, hoje considerada apócrifa, normalmente accessível aos |
| jovens dos anos 50 e princípio dos 60. |
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| Claro que ele, após acordar do possível sonho de Porta Estandarte e dar de |
| cara com o que o Futuro Artístico anunciava, só poderia não concordar em ser |
| um cúmplice daquela manipulação popular toda que a mídia lhe oferecia, e isso |
| fica bem claro pelo que escreveu na estrofe VI. |
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| E pouco interessava o que a mídia achasse a respeito da sua postura. Apenas |
| não concordava com a cumplicidade oferecida por ela, justificava à recusa e |
| dava a Receita de Liberdade para os demais colegas, compositores e artistas, |
| na estrofe VII. |
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| As estrofes VIII e IX anunciaram que, no Brasil, os ídolos populares ainda não |
| eram “fabricados” pelos mesmos agentes do Rei, ou Soberano Universal, |
| responsáveis pela idiotização popular, dirigida e atuante pelos veículos de |
| comunicação da mídia escrita, irradiada ou televisada; logo cada artista era o |
| Rei do próprio reinado resultante da própria competência. |
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| Disparada foi um marco social da década de 60. Creio que, filosoficamente, |
| muito mais por esta ousada suposição do que pelo protesto aos militares, tão |
| alardeado pela imprensa que, obviamente, não concordaria comigo. |
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| Um marco da grandiosa envergadura capaz de fazer com que Chico escrevesse |
| às peças Roda Viva, Calabar e Gota D´Água, além do livro Fazenda Modelo. |
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| Grandiosa o bastante a permanecer viva até hoje, servindo de base até para Zé |
| Ramalho, muitos anos após, escrever o seu Admirável Gado Novo, com o |
| Vandré reforçando o Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley que, por sinal, |
| era bem lido pela mesma juventude dos anos 50 e 60, que incluia o menino Zé. |
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| Creio que esse festival de 1966 tenha feito Chico lembrar de um passado |
| recente, ocorrido num festival de música estudantil do Colégio Santa Cruz, em |
| que terminou empatado com um concorrente, mas perdeu pelo Voto Minerva, |
| dado pelo diretor. |
Maria said,
agosto 29, 2010 @ 4:54 pm
eu ouvi sobre Vandré e repito: ” Vandré é um gênio e ninguém sabe o que se passa na cabeça de um gênio. Nós comuns é que projetamos suas atitudes e pensamentos”.
admin said,
agosto 29, 2010 @ 5:28 pm
Maria:
Só quem escreve o texto é que sabe dos reais motivos que o resultaram. Ao tentarmos interpretá-los, por menos ou mais que queiramos, emprestamos ao texto a opinião própria, já que um novo texto foi escrito.
Quanto aos compositores musicais em geral, na maioria das vezes, nem eles sabem por que escrevem, já que as obras pertencem à Mamãe Arte, e não a eles.
Grato pela visita e volte sempre.
Dalton.
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