Deus Lhe Pague – Análise de Texto

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A maioria das crianças, das décadas de 40 e 50, tinham um fascínio especial
pelo Trem. Aquela enorme composição formada por locomotiva e vagões,
de carga e de passageiros, era capaz de gerar a sonhos incríveis nas cabeças
das crianças, tais como se imaginarem maquinistas, por exemplo.
 
Todas as Estações Ferroviárias tinham um charme especial. Muito mais
atraentes do que as poucas Estações Rodoviárias da época.
 
Chico deve ter carregado com ele essa idéia infantil, acerca dos trens e das
e das estações ferroviárias, até os primeiros anos da idade adulta, e de 
alguma forma as sensações permaneceram nele por muito tempo.
 
A composição Pedro Pedreiro é um bom exemplo disso, pois contrastou os
sentimentos infantis com a realidade adulta das estações de trem de S.Paulo,
onde acabou observando à chegada de um contingente nordestino que migrou
para Sampa em busca de melhores dias.
 
Como a maioria deles acabou indo parar no ramo da construção civil, como
mão de obra barata, Chico enxergou o Pedreiro como exemplo de sonhos
trocados por pesadelos do cotidiano social, o que acabou resultando na
composição Pedro Pedreiro, como protótipo de outras que cercaram o
mesmo enredo das desigualdades sociais vistas por ele em 1965.
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
A composição encerra com uma onomatopéia que imita o som de um trem.
Essa mesma idéia do trem continuou na composição Roda-Viva, quando, no
final, ele e o MPB-4 aceleram o andamento do canto, como que buscando,
ou sonhando, com alguma estabilização de velocidade da Roda, que era Viva, 
mas levava todo o jeitão de ser a de um Trem iniciando marcha. Confiram:
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/
 Vídeo de rmboemer
 
 
Essa idéia, nascida infantil e evoluída à fase adulta do Trem de Pedro 
Pedreiro, acabou fazendo com que o Chico se comparasse a ele, já que
Roda-Viva foi a música tema de uma peça homônima, em que Chico
tentou mostrar o desenvolvimento do absurdo social do Trem Artístico.
 
O Trem do Pedro continuou na cabeça do Chico após Roda-Viva, bem como
todas as resultantes dos dois absurdos sociais, do Pedreiro e do Artista, que
se encontraram novamente na composição Deus Lhe Pague, cujo arranjo
musical busca à mesma onomatopéia da composição Pedro Pedreiro, só que 
desta vez por instrumentos musicais imitando à marcha contínua:
 
 Vídeo de CarolLioa
 
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
 
Pelo prazer de chorar e pelo estamos aí
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
 
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
 
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
 
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
 
O texto da composição sugere a uma crítica social contra as tendências da
própria sociedade em seu cotidiano. Somos assim, não podemos negar, mas
a quem Chico estaria agradecendo, com um Deus Lhe Pague, pelo quadro
social regular de irregularidades sociais nossas?
 
Ao governo militar da época? Creio que não, pois tudo o visto no texto da 
composição foi apenas uma soma de costumes que precederam a 1964.
 
À Igreja? Em parte, pois ela colaborou, em muito e em qualquer religião, para
que desenvolvêssemos os medos e os pecados, com as benaventuranças
ficando proporcionais às condições sociais dos habitantes.
 
Tudo que é exercitado permanece e cresce. É assim com um músculo nosso,
mas também é assim com os nossos costumes bons ou maus, logo, a
manutenção de todas essas irregularidades sociais na forma crescente 
depende da propaganda para que assim se mantenha:
 
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
 
 - Como viver sem isso?
 
 - A Propaganda é a Arma do Negócio!
 
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              .

  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    bestgirls.com.ua said,

    novembro 24, 2009 @ 5:18 am

    Fiona, it is a great post thanks for writing it!

  2. 2

    admin said,

    novembro 24, 2009 @ 11:19 am

    Grateful Gilr.
    Dalton.

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