março 6, 2009
· Arquivado na categoria Texto
Comecei, no post Sem Fantasia – O Começo do Auto-Exílio, a tratar de uma situação na qual Chico estava no Brasil somente com o Parecer, ou identidade artística, enquanto a sua essência poética, o Ser, já se encontrava exilado da triste realidade que o cercava, denunciada na composição Roda Viva, quando dormiu com os sonhos do poeta criança e acordou com a realidade do artista adulto.
Após a peça, ou mesmo durante a sua feitura, não se pode precisar, Chico fez, ainda pelo Brasil, algumas outras composições cujos textos confirmaram essas minhas suspeitas sobre o seu comportamento.
Independente da ordem em que possam ter sido compostas, isso só ele sabe, já que a data de gravação nem sempre corresponde com a da feitura, por pertencerem ao terceiro LP, gravado antes da sua viagem à Itália, que oficializou o Auto-Exílio, só confirmam que o Ser já se encontrava ausente do Parecer que o cercava em cotidiano.
Começo por uma composição, com sugestivo nome, gravada com a colaboração do Toquinho, seu posterior e fiel parceiro na Itália. Desencontro:
A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
Saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu
De qual mulher estaria Chico tratando na composição?
Uma das maiores dificuldades é saber pra quem Chico endereçou as suas composições, pelo fato dele usar muito figurativo. Numa entrevista, Toquinho contou de certos personagens, com os quais ele conversava e homenageava nas composições. Algumas delas foram feitas para a Frida (geladeira), outras resultavam de altos papos com o Ferreti, que era um personagem fictício, usado para se livrar de certos compromissos desagradáveis: – Não vai dar. Tenho um compromisso inadiável com o amigo Ferreti!
O tal Ferreti, provavelmente, tenha sido tirado do seu Jogo de Botões, que praticava, embora já adulto; pois foi um famoso centro-avante do Botafogo do Rio, que infernizava às defesas. Tocava pouco na bola, embora fizesse muitos gols. Imaginem a eficiência da fera. Ferreti era perigoso.
Voltando à musa da composição, pode ser a Marieta Severo, a Morena Dos Olhos D´Água etc. após algum afastamento. Pode ser, até mesmo, a moça de Ela E Sua Janela, ou a essência Juliana, de Sem Fantasia.
Só suponho que uma coisa era presente nessa fase da carreira dele: A necessidade de compor, mas se ele ainda estava no Brasil, o que lhe dava tanta saudade?
Chamo a atenção para o texto de dois versos da segunda estrofe:
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
O que seria um retrato sem cor? Talvez um daqueles em branco e preto, ainda comuns na época.
Por qual razão um retrato em branco e preto, jogado aos pés dele seria tão importante?
Ou seria, por acaso, alguma letra de música, dentre as muitas que rascunhava, e talvez deixasse espalhadas pelo chão do quarto, como “meros papéis” comuns aos jovens?
Talvez, a próxima composição a ser vista, Retrato Em Branco e Preto sugira algo. Sigamos com a novela do Auto-Exílio Interior.
del.icio.us isto!