Construção – Uma Aula do Chico Buarque.

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À partir do visto na postagem anterior, Deus Lhe Pague, Construção foi um 
típico retrato de Pedro Pedreiro recontado por seu Cotidiano:
 
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento-e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão c´o arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se-ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
 
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão c´o arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
 
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico 
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro 
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
 
Encerra com parte da composição Deus Lhe Pague.
http://mpbsapiens.com/deus-lhe-pague-analise-de-texto/
 
Tenho por hábito iniciar a análise de uma composição olhando o momento
social, que cercava o poeta por ocasião da sua criação, para posteriormente
fazer uma outra análise, a da Construção Poética, bastante a explicar parte da
tradução do pensamento em versos.
 
Com Construção isso é mais difícil, porque muito já se escreveu sobre ela, o
que, de certa forma, deu-lhe certos rótulos históricos, padronizados pelo 
tempo de repetição via propaganda.
 
Embora Sonho de Um Carnaval tenha sido a composição que apresentou o
nome Chico Buarque de Hollanda ao cenário artístico nacional, o seu estilo
de contestação social veio com a música Pedro Pedreiro, que tratava de um
migrante norte-nordestino trabalhador de obras da construção civil em Sampa.
http://mpbsapiens.com/sonho-de-um-carnaval-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
Nada mais lógico do que imaginar que Construção fosse uma continuação do
que Chico escrevera anteriormente em Pedro Pedreiro, cujos anseios sociais
já eram presentes em Marcha Para Um Dia De Sol, que veio antes ainda. 
http://mpbsapiens.com/primeiros-versos/
Em termos filosóficos, devo salientar que Chico baseou o seu estilo num
poema de Vinícius de Moraes, amigo do seu pai, que certamente influenciou
na sua conduta quando ainda era criança: Operário Em Construção.
http://mpbsapiens.com/operario-vinicius/
Como esse poema do Vinícius abrangia a muito mais aspectos sociais do que
Chico conseguira abordar em Pedro Pedreiro, a despeito da imensa letra, 
faltava dizer algo mais, que suspeito ter sido dito em Deus Lhe Pague, que 
deve ter servido de mote para Construção, embora a mesma surja apenas
encerrando a ela.
 
Chico sempre adorou lidar com a Palavra, conforme já citei em As Vitrines.
Desta vez observou, na Literatura Brasileira, o que já fora escrito com todos
os versos terminados em palavras proparoxítonas, e não encontrando a nada
tão expressivo, colocou a cabeça pra funcionar.
http://mpbsapiens.com/as-vitrines-analise-de-texto/
Construiu os versos num texto repetitivo, quase em Anáfora, com sintaxes
repetitivas para as primeira e segunda metades dos versos e adjetivou a cada
um deles com uma proparoxítona que, como adjetivos, poderiam finalizar a
distintos pensamentos, o que acabou dando ao contexto poético um charme
todo especial, com a alternância dos adjetivos nos textos dos versos, num
divertido jogo de palavras. Quase um Anagrama múltiplo.
http://mpbsapiens.com/anafora/
Chico pode até ter, como foco central, a idéia da contestação filosófica numa
composição musical, mas se pode fazê-lo de forma divertida, não pensa duas
vezes em exercitar o seu passatempo predileto: Jogar com a Palavra.
 
Embora eu suspeite que Deus Lhe Pague tenha sido o Mote Filosófico de 
Construção, creio que o Mote Poético tenha sido Rosa Dos Ventos, feita um
pouco antes, onde Chico já ensaiara findar versos em termos proparoxítonos 
e, também nela, tenha enxergado a uma das grandes dificuldades: O Ritmo.
http://mpbsapiens.com/rosa-dos-ventos-analise-de-texto/
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
 
Declamar esse trecho de Rosa Dos Ventos, com alguma dificuldade, até que 
dá, pois os Redondilhas Maiores são versos curtos, que submetidos a uma 
declamação veloz, conseguem ocultar aos três tempos rítmicos existentes
entre a última sílaba tônica do verso anterior e a primeira do seguinte.
http://mpbsapiens.com/redondilha-maior/
Mas, como colocar melodia nisso?
 
Aí a coisa pegou, pois Chico não conseguiu cantar sem acentuar às últimas
sílabas dos versos. Assim:
 
E / do-a / mor / gri / tou / -se-o-es / cân / da /
Do / me / do / cri / ou / -se-o / trá / gi /
No / ros / to / pin / tou / -se-o /  / li /
 
Mesmo tendo constatado a essa impossibilidade poética em Rosa Dos 
Ventos, Chico resolveu tentar a mesma coisa com os versos longos, que são
os de Construção, todos com idênticas Métricas e Cadências:
http://mpbsapiens.com/metrica/
http://mpbsapiens.com/cadencia/
A / mou / da / que / la / vez / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
Bei / jou / su / á / mu / lher / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
E / ca / da / fi / lho / seu / co / / se / fos / se-o / ú / ni /
E-a / trá / ves / sou / a / ru / a / com / seu / pas / so / / mi /
 
Percebam que esses versos têm todas as sílabas pares acentuadas, o que 
torna o Ritmo Poético átona-tônica extemamente repetitivo com as sílabas
2-4-6-8-10-12 acentuadas. Nem que o ouvinte queira interromper a essa
acentuação, após a décima segunda sílaba, a longa repetição rítmica anterior
não deixa. Consequentemente, a última sílaba do verso vira tônica também.
 
Se, poeticamente, não é prudente deixar-se mais de duas sílabas átonas entre
duas tônicas, o que dizer dos versos de Construção, qua apresenta três
sílabas átonas em seguida, sendo duas da proparoxítona que encerrou o verso 
anterior e mais uma que iniciou o verso seguinte? É muita pausa!
 
Um declamador experiente, com muito, mas com muito esforço mesmo,
conseguiria finalizar o poema nas proparoxítonas originais, desde que a sua
velocidade de ação fosse lenta.
 
A melodia de Construção tem um Andamento bem calmo, mas, mesmo assim,
Chico não conseguiu tirar o acento da décima quarta sílaba nem nela, pois
todas da composição apresentam um alongamento de tempo na partitura.
 
Suspeito até que Chico tenha, se tocando do problema,  tentado dar um outro 
texto à composição, de modo a conseguir acentuar à primeira sílaba de cada 
verso, o que diminuiria à quantidade de sílabas átonas entre as tônicas, mas,
se já tivesse construído o texto do primeiro verso, era óbvio que não o
conseguisse, já que ficara escravo do seu Ritmo.
 
Não conseguindo livrar-se do Ritmo do primeiro verso, resolveu então levar
os demais na mesma Cadência, já que a crítica da imprensa, que propagaria
à obra, era formada por acadêmicos, deslumbrados mais com o que liam do
que com o que declamassem, pois se o fizessem notariam a tudo isso que
estou escrevendo. Conclusão:
 
Construção ficou sendo a Obra-Prima poética em versos Alexandrinos (doze
sílabas) Dáctilos (findados em proparoxítonas). Completamente aceitável
para aqueles que somente lêem os textos sem recitá-los.
 
Chico sabia disso anteriormente, pois já houvera se referido à mesma
crítica literária com este pensamento:
 
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar
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E ficou na dele.
 
 - Você também não ficaria na sua, Malandro?
 
Próxima – >  http://mpbsapiens.com/cordao-analise-de-texto/
 

         .

  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    Daniela said,

    novembro 29, 2010 @ 6:05 pm

    Olá, primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo site de muito bom gosto. É interessante ver como os posts tem a ver com musica e textos, enfim, gostei muito. Venho lhe pedir ajuda e sugestões para criar um poema simbolista, a ideia do estilo e os temas abordados eu sei quais são, mas minha dificuldade está na metrificação do poema, já que neste estilo os poemas possuem uma métrica que varia um pouco quanto à escansão dos versos.Então aguardo sua resposnta ansiosamente, desde já agradeço!

  2. 2

    admin said,

    novembro 30, 2010 @ 5:58 am

    Daniela:

    Só poderei ajudá-la no sábado, pois estou saindo agora em viagem e só voltarei na sexta. Pode ser?

    Grato pela confiança e volte sempre.
    Dalton.

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