Como Fazer Um Verso (lição 2)
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| Embora na lição 1 eu tenha dito que iria começar a estudar o Ritmo Poético |
| da obra do Vinícius de Moraes, nela vista, resolvi dar um reforço na |
| construção do Verso à partir de um texto comum e definido como Prosa. |
| Como já citei anteriormente, o poema nasce de um texto simples, que escrito |
| num momento de emoção carrega consigo uma sedimentação natural da arte |
| poética. |
| Transformando-se ou não num poema, o texto permanecerá texto, e disso |
| não podemos nos esquecer. |
| Pelo fato da Ciência Poética ter caído em desuso, nos afastamos da estrutura |
| poética dos textos normais, mas isso não quer dizer que a anulamos em nosso |
| cotidiano emotivo. Apenas a adormecemos, e o meu trabalho é apenas fazer |
| com que vocês despertem à poesia embutida com algumas dicas. |
| Suponhamos que eu seja um carioca, torcedor do Fluminense, que tenha |
| resolvido escrever uma carta a um velho amigo, também carioca e torcedor |
| do Flamengo; que na última vez que esteve em casa foi para presentear à |
| minha filha, recém-nascida, com uma camisa do Flamengo. |
| Conheci o amigo há muitos anos, nos idos tempos de infância da década de |
| 60, quando estudámos dactilografia juntos e aprendemos que todo envelope |
| de carta devia conter o nome do destinatário precedido por algum tratamento |
| respeitoso, do tipo Exmo. Sr. (Excelentíssimo Senhor), em se tratando de |
| algum jurista, ou mesmo Ilmo.Sr. (Ilustríssimo), em se tratando de algum |
| senhor ilustre. |
| O texto da carta ficaria mais ou menos assim: |
| Amigo X: |
| Saiba que o tenho em grande apreço e igual respeito. Suponho que a |
| minha filha esteja grata pelo presente, mas as crianças, se iludindo facilmente |
| com as aparências, costumam não reparar na má fé dos adultos. |
| Ambos sabemos que a camisa, tanto nas cores quanto no brazão, denotam |
| um profundo e desrespeitoso engano, embora, atualmente, nossos brazões |
| preferidos andam tão mal representados nos gramados, que compartilhamos |
| tristezas idênticas, ainda que em lados opostos das arquibancadas. |
| Tenho comigo apenas a esperança de mudanças rápidas na decepção do |
| quadro que agora me aflige. Esperança que se transformará em certeza, e |
| assim que o fizer empresto um pouco do meu verde para substituir a todo |
| esse seu preto, pois saiba: |
| - Em casa Tricolor só nascem novos tricolores, sempre dispostos a ajudar |
| aos mais carentes e necessitados de fé! |
| - Que o Verde Divino o ilumine! |
| Omos; Atos. & Obros. |
| Família Tricolor. |
| Essa seria uma carta padrão dos anos 60, que embora escrita com errados |
| termos (dactilografia) e estranhas acentuações (estudámos), eram comuns na |
| época. O primeiro por digitação normal e o segundo por estilo de escrita. |
| Muitas conjugações apresentam idênticas grafias, mesmo pertencendo a |
| distintos tempos, como o exemplo, Estudamos, com grafia comum com o |
| verbo tanto no Passado quanto no Presente. Naquela época era nobreza de |
| estilo acentuar a tal tempo no Passado e deixá-lo sem acento no Presente, |
| ambos do Indicativo, claro. |
| Essa minha carta fictícia aconteceu como fato na MPB, só que em forma de |
| composição musical, que nada mais é que um poema provido de melodia. |
| Ilmo. Sr. Ciro Monteiro (ou Receita Para Virar Casaca de Neném) é o nome |
| da composição, escrita por Chico Buarque em homenagem ao consagrado |
| sambista Ciro Monteiro, amigo de Sérgio Buarque, pai dele. |
Ver – > http://mpbsapiens.com/amigo-ciro/analise-de-texto/ |
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