Com Açucar, Com Afeto-Análise Poética

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Sílabas nicas em Vermelho
Números – Posição ordinal da sílaba no verso
Letras A, G ou D = Timbres de Verso: Agudo, Grave ou Dáctilo
 A+  Anáclase – captura da sílaba átona inicial do verso posterior pela do anterior
*** – Observação
Nota: Muitos dos termos que utilizarei nesta análise obedecem à época em que a composição foi escrita, para que você, leitor, se situe melhor nela em relação ao quadro social que envolvia o autor.
Muito se escreveu sobre esta famosa composição pelo fato de ter sido a primeira em que o Chico colocou como protagonista a Mulher. O texto mostra a esposa responsável e o marido irresponsável. Não há um confronto, mas um entendimento, a despeito da inversão de valores pregados pelos moldes sociais contemporâneos, ainda bem Patriarcais.
A composição serviu também como uma espécie de Hino das Oprimidas, mas Chico ainda não buscava nada nesse sentido, pois apenas interpretava os resultados sociais das suas experiências poéticas.
Olhando por tal prisma, a questão da Mulher diante do Patriarcalismo vigente na época, para Chico, merecia a mesma atenção social dada ao Pedro Pedreiro diante da opressão social sempre vigente. Ainda estava buscando os seus estilos nas diversas óticas sociais posteriormente trabalhadas.
Precisava escrever como Mulher, mas temia os resultados disso diante do Patriarcalismo. Tinha medo de ser chamado de veado, conforme o próprio assumiu, com outro texto, na contra capa do segundo LP, onde a composição foi gravada:
- Insisti ainda em colocar no disco o “Com açúcar, com afeto”, que eu não poderia cantar por motivos óbvios. O problema foi solucionado com rara felicidade pela voz tristonha e afinadíssima de Jane que, ao lado dos seus dois irmãos Morais, enfeitou a “Noite dos Mascarados” -.
Chico não escreveu nada pelo seu lado feminino, ou passivo. Tampouco usou de qualquer Lirismo na construção poética, que pudesse justificar até ao termo “Eu Lírico”, inventado bem depois da época em que a composição foi escrita. Nem teria cabimento, pois na realidade poética da época a expressão Eu Lírico seria um pleonasmo, já que Lírico ainda era um sinônimo de Eu Poético, vindo dos elementos da Ciência Poética.
À proporção em que se foi perdendo à Ciência nos poemas, novos termos foram necessários para explicar às condutas dos poetas.
Voltando ao assunto menos sério, diante da situação desconfortável em que se encontrava, Chico foi buscar explicações na Ciência Poética para justificar a sua pesquisa de escrever como mulher, indo parar num Trovadorismo em plena guerra entre Poetas e Gramáticos.
Lá chegando pôde entender rapidamente do que se tratava aquela guerra toda. Cansados da Versificação Regular, que exigia Métrica e Ritmo idênticos em todos os versos do poema, os poetas exigiam maior liberdade para compor, alternando versos com distintos comprimentos e cadências. Os gramáticos da Ciência Poética não aceitavam, mas cedendo em parte chegaram ao seguinte acordo:
Os versos poderão ter distintos comprimentos, mas o ritmo deverá ser mantido em todos. Nascia assim,  da Versificação Acentual Trovadoresca, a Versificação Irregular. Isso o Chico já sabia e fazia, mas o problema dele escrever como se fosse a mulher continuava.
Foi quando observou a uma nova discussão, só entre os poetas, na taverna onde costumavam se encontrar para conversar sobre seus poemas. Estavam justamente tratando de um novo projeto a ser apresentado aos gramáticos sobre os personagens dos seus poemas.
Muitos gostavam de alternar as formas como se referiam às musas, ou mesmo, ao cotidiano social que os cercava. No fim das conversas chegaram a uma idéia comum, apresentada aos gramáticos lá naquele local mesmo. 
Foi de grande valia essa iniciativa, pois tiveram as suas idéias transformadas em novas bases, sólidas e literárias, da Ciência Poética, que diziam o seguinte:
Como na época os poemas eram descritos por Trovas e Cantatas, ficou definido que ocorriam em três formas de Cantigas:
1- Cantiga de Amor - Quando o poema tratava dos sentimentos diretos do poeta para com a amada, como declaração de amor objetiva.
2 – Cantiga de Escárnio e Maldizer – Quando o poeta queria fazer alguma gozação com alguém, tanto da plebe quanto da nobreza. Tal Cantiga recebeu também o nome de Sátira.
3 – Cantiga de Amigo – Quando o poeta quisesse falar pela Mulher. Como esse era um assunto polêmico desde a Poesia Grega Clássica, apresentavam-se três tipos de poetas com três intenções:
a) Se espelhando nas possíveis Reações da Mulher em relação ao comportamento dele, assim o poeta se descrevia por ela.
b) Tratando do que mais gostaria de escutar da boca da sua amada, assim o poeta sonhava por ela.
c) Assumindo o seu lado Pederasta (do grego Paederasti) e se identificando como a própria mulher cantante para o jovem amado, assim o poeta se assumia como ela.
Por definição, qualquer composição musical é uma Cantata ou uma Trova. O poema do Chico se encaixava no primeiro tipo de Cantigas de Amigo, e esse, nas originais Trovas, se baseava na Versificação Regular para compor, com discretas fugas na Métrica, sem perder o Equilíbrio Rítmico no poema.
Isso permitiu ao Chico voltar tranquilo pra realidade dos anos sessenta e continuar com as suas experiências poéticas na vertente social iniciada em Com Açúcar, Com Afeto.
Fica definido então que Com Açúcar, Com Afeto é uma Trova em Cantiga de Amigo, na qual o poeta procurou colocar na boca da mulher as impressões que o mesmo tinha do seu próprio comportamento cotidiano, numa típica autocrítica espelhada no comportamento da companheira.
Agora basta reparar na letra abaixo e ver quantas vezes as sílabas em vermelho mudaram de posição, bem como no comprimento da maioria dos versos:

 

   1    2     3    4    5   6   7    8
Com   a   çu  car  com   a   fe   to    
                   
 Fiz  seu   do   de  pre   di   le   to    
                   
 Pra   vo   cê   pa  rar   em   ca   sa    
                   
Qual     o  que              
                   
Com  seu  ter   no mais   bo   ni   to    
                   
  Vô   ce  sai  não    a  cre   di   to    
                   
Quan   do  diz  que  não se-a  tra   sa    
                   
   1     2    3    4     5    6    7    8
  Vô   ce  diz que-é    o   pe   rá   rio    
                   
 Vai   em  bus   ca   do   sa   lá   rio    
                   
 Pra    po  der   me  sus  ten  tar      
                   
Qual      o  que              
                   
  No    ca   mi  nho da-o   fi   ci   na    
                   
  Há   um  bar  em   ca da-es  qui   na    
                   
 Pra   vo   cê   co   me  mo  rar      
                   
   1    2    3    4     5    6    7    8
 Sei   lá   o  que            
                   
 Sei que-al guém  vai  sen  tar  jun   to    
                   
 Vô   ce  vai   pu  xar   as  sun   to    
                   
 Dis   cu  tin do-o   fu   te  bol      
                   
   E    fi  car   o lhan do-as   sa  ias    
                   
  De quem   vi   ve   pe  las  pra  ias    
                   
  Co    lo   ri  das   pe   lo  sol      
                   
    1     2    3    4     5    6    7    8
Vem    a  noi   te mais   um   co   po    
                   
 Sei que-a   le  gre   ma  non  tro   po    
                   
  Vô   ce  vai que  rer  can  tar      
                   
  Na  cai  xi nha-um   no vo-a   mi   go    
                   
 Vai   ba  ter   um  sam ba-an    ti   go    
                   
 Pra   vo  cê   re   me   mo  rar      
                   
    1    2    3    4    5    6    7    8
Quan do-a  noi te-en  fim  lhe  can   sa    
                   
 Vô   ce vem  fei   to  cri   an   ça    
                   
 Pra  cho  rar   o  meu  per  dão      
                   
 Diz pra-eu  não   fi  car  sen   ti   da    
                   
 Diz  que  vai  mu  dar   de   vi   da    
                   
Pra-a  gra  dar  meu   co   ra  ção      
                   
    1    2    3      4    5    6    7     8
E-ao  lhe  ver    as  sim  can   sa   do    
                   
 Mal  tra   pi lho-e  mal  tra   ta   do    
                   
 Ain   da quis me-a  bor   re  cer  ***    
                   
Qual    o  que              
                   
  Lo   go vou-es  quen  tar  seu  pra  to    
                   
 Dou   um  bei jo-em  seu   re  tra to-e-A   A+
                   
  brô meus  bra   ços  pra   vo   cê      
                   
     1     2    3     4    5     6      7     8    
 ***Em algumas gravações o verso apresentou, ao invés de “Ainda quis“, o texto “Como vou“.
 A composição apresentou quarenta versos, com imensa maioria dos Redondilhas Maiores, que totalizaram trinta e seis (10 Agudos e 26 Graves) com o ritmo 1-3-5-7.  Três Trissílabos Agudos com ritmo 1-3 e somente um Tetrassílabo Agudo com cadência 2-4, que aliás foi o único dos quarenta a apresentar tonicidade em sílabas pares.
Embora tenha diferido dos demais, acentuados em sílabas ímpares, não Mancou, pois se manteve em pés binários como os outros. Ele em Jambos e a maioria em Troqueus, que apresentaram o segundo tempo rítmico ou em sílabas átonas ou em pausas finais dos versos.
A presença desses quatro versos curtos foi determinante para que tivéssemos dois tipos de estrofes: Quatro Sétimas, as que os contêm, e duas Sextilhas. Se não fossem eles teríamos um trabalho de Versificação Regular em Redondilhas Maiores totalizando 6 Sextilhas.
As Rimas mostram bem essa tendência, pois caso a composição fosse feita somente em sextilhas teríamos apenas Rimas Opostas, as mais Nobres quanto às colocações em finais de verso. As rimas, nos versos Graves, foram todas Ricas ou Raras (copo com tropo). Em compensação, nos versos Agudos foram Pobres ou Vulgares.
Chico estava ensaiando construir o poema nos moldes Trovadorescos para um texto em Cantiga de Amigo. Não poderia fazê-lo em Versificação Regular, que exigia somente Estrofes Simples, e perdendo a essência do movimento que lhe permitiu escrever, posteriormente, os poemas em Estrofes Compostas.
Por uma questão de Fidelidade Poética ao Trovadorismo, e sem querer perder toda aquela nobreza de rimas conseguida na primeira estrofe, colocou um “Qual o que” no quarto verso, cuja rima tinha parceria nas terceiras sílabas dos versos terceiro e quinto; e conseguiu uma Sétima elegante.
Esse efeito Agudo do “Qual o que”, dentre a normalidade Grave dos demais versos acabou dando à primeira estrofe um total de 51 sílabas.
Na segunda estrofe conseguiu também uma Sétima tentando os mesmos recursos sonoros da primeira pra salvar a rima do quarto verso, mas já conseguiu só com o terceiro.
Ao tentar mais uma modificação nas rimas de final de verso, fazendo surgir dois versos Agudos entre os quatro graves buscando as Rimas Opostas, acabou dando à segunda estrofe duas sílabas a menos e duas pausas a mais totalizando 49 sílabas.
Como o “Qual o que” já se mostrara repetitivo, já que fora o mesmo quarto verso nas anteriores, Chico iniciou à terceira estrofe com a variação “Sei lá o que”, pois, além de trocar de posição o verso, recuperava a quantidade de sílabas e pausas da primeira, mas por insistir em lançar mão de mais dois Redondilhas Maiores Agudos nas rimas opostas,  só ganhou um novo total de sílabas, já que nem atingiu às 51 da primeira, nem se manteve nas 49 da segunda. Além de persistir na pobreza das rimas de mesma categoria gramatical nos substantivos.
As quarta e quinta estrofes mostram bem isso. Cansado daquele exercício métrico todo,  descansou construindo ambas as Sextilhas em Versificação Regular, só que mantendo a mescla nos Redondilhas Maiores, Graves e Ricos nas rimas, com Agudos Pobres ou Vulgares nas mesmas.
Na última estrofe repetiu o mesmo esquema da segunda, uma Sétima com sílabas, métricas e qualidades semelhantes, já que o “Qual o que” descansara por duas estrofes, apresentando contudo o uso do recurso Anáclase, que além de manter o Timbre Grave do penúltimo verso, a métrica e o ritmo do último, usou a primeira sílaba deste para compor uma Rima de Eco com o “retrato”. Retrato  com  e-abrô.
Segue abaixo um quadro de Geometria Poética comparando apenas às variações das estrofes Sétimas, já que as Sextilhas foram idênticas:

 

 

verso Estrofe I Estrofe II Estrofe III Estrofe VI
   1 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 2-4 A 1-3-5-7 G
   2 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G
   3 1-3-5-7 G 1-3-5-7 A 1-3-5-7 G 1-3-5-7 A
   4 1-3 A 1-3 A 1-3-5-7 A 1-3 A
   5 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G
   6 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G 1-3-5-7 G
   7 1-3-5-7 G 1-3-5-7 A 1-3-5-7 A 1-3-5-7 A
Sílabas ->     51     49     50     49

 

Sugestão: Talvez um novo “Qual o que”, no começo da terceira estrofe, causasse menos estragos métricos do que o original “Sei lá o que”…

 

 

  del.icio.us isto!

4 Respostas até o momento »

  1. 1

    With This Diet I Was Able to Lose T h i r t y P o u n d s in Thirty Days said,

    maio 6, 2009 @ 7:13 pm

    Hi, interesting post. I have been thinking about this issue,so thanks for sharing. I will probably be subscribing to your posts. Keep up great writing

  2. 2

    admin said,

    maio 6, 2009 @ 7:40 pm

    I thank its attention. I wait that it finds the correct words in English so that its copy has success.

    Good Luck.

  3. 3

    Marlon Damasceno said,

    maio 10, 2009 @ 2:30 pm

    O termo “sei lá o que” é fundamental no momento em que é proferido, justamente para quebrar a métrica. Desde o começo da letra, a mulher está resignada, apenas constatando o descaso do marido. A partir do “sei lá o que” há uma ruptura, uma revolta da mulher em relação a tal situação. Revolta esta que some e se reduz a resignação novamente a partir do verso “quando a noite em fim lhe cansa”.

    Gostei muito da análise, valeu!!!

  4. 4

    admin said,

    maio 10, 2009 @ 4:09 pm

    Perfeita observação Marlon. A mulher se atrevendo a sair da resignação foi um dos objetivos do Chico, principalmente quando alterou à uniformidade métrica do poema, marca registrada dele.
    Sugeri o Qual o Que para dar à mulher um maior deboche do homem. – Comemorar qual o que? Sem perder a uniformidade métrica. Só isso.

    Grato pela observação.

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