março 12, 2008
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Citando Beatriz, para se entender uma composição do Chico é necessário ter em mãos um dicionário e, se possível, uma enciclopédia, pois a composição começa pelo nome, que pode ser um simples verbete ou um referencial histórico. Vejam o ocorrido.
Além de ser um venenoso peixe de fundo do mar, cuja natural camuflagem o assemelha a uma pedra, quando Beatriz abre as nadadeiras surge um verdadeiro arco-íris, lindo; mas convém não levar nenhuma ferroada desse peixe Scorpinídeo, pois o estrago é bem grande e exige um cuidado urgente.
Mas será que só um peixe seria o bastante para inspirar uma composição tão linda? Não. Beatricce Portinari foi a musa inspiradora de Dante Alighieri na Divina Comédia, que o levou do Inferno ao Paraíso.
“Sim me leva para sempre Beatriz / Me ensina a não andar c’os pés no chão”. A melodia despenca 12 notas se contrapondo ao texto em que o personagem pede para ser alçado, elevado.
Sem considerar os mesmos efeitos melódicos de Beatriz, cito a composição Angélica (1977), como uma das mais significativas no aspecto da relação texto / título, pois trata da jornalista Zuzú Angel que teve um filho, supostamente, torturado e morto pelos militares em 68.
Na contracapa do LP Almanaque, aparece ao lado da letra da composição um alaúde antigo. Esse era um dos significados do termo Angélica que observei no dicionário. Também descobri que o termo significa a fixação de certa harmonia na execução da música. Isso explicava os versos: “Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo”.
Ao passar um dia pela igreja São Bento, em São Paulo, escutei um bonito canto e fui pesquisar. Eram monges Marianos entoando seus cantos litúrgicos do Círio Pascal.
Estávamos nele, e os Marianos, numa espécie de cortesia, cantavam para os irmãos Beneditinos. Conversando com um deles, fui informado que tal canto era conhecido por Angélica e representava uma peregrinação anual dos Marianos em tal data religiosa.
Achei bonito, curioso pelo nome e fui embora. A ficha só foi cair à noite: – Marianos são adeptos de Maria que teve um famoso filho torturado e morto, a exemplo do que se supos ter ocorrido com o de Zuzú Angel.
Posteriormente vim a conhecer Ana Buarque, irmã do Chico, que desconhecia esse terceiro significado muito mais adequado que os anteriores, enquanto Chico só conhecia os outros dois, segundo ela. Desconfiei, pois na composição a mulher cantava também “como dobra um sino”; mas fiquei na minha.
Ana pediu que lhe escrevesse um resumo das análises.
del.icio.us isto!