Chico, o INSS, a Galinha e Jung
…Talvez à noite Quase-palavra que um de nós murmura Que ela mistura as letras que eu invento Outras pronúncias do prazer, palavra…
Esses versos do Chico, da composição Uma Palavra, servem bem para dar uma idéia do tanto que ele fotografou do cotidiano brasileiro, e independendo das ocasiões em que determinadas composições foram feitas, as situações atuais se explicam pela junção dos seus fragmentos.
Há uns dias atrás fui ao Barbeiro dar um trato na crista. Lá chegando, enquanto aguardava a minha vez de ser atendido, vasculhei um bloco de revistas, já bem antigas, para encontrar alguma que me fizesse companhia na espera.
Todas com muitas fotografias de gente sorridente em reuniões. Algumas com o povo sorrindo na própria foto, outras com mulheres nuas, e o povo da barbearia sorrindo fora da foto. Foi quando encontrei, perdida lá no fundo da caixa, uma revista Seleções, muito antiga e ainda com a famosa pergunta: – Você Sabia?
Na hora lembrei da infância, quando o meu pai me arrastava até a barbearia para cortar o cabelo, e a Seleções era bem comum, dentre algumas revistas semelhantes, com muito mais informações do que fotos.
Junto com isso, já veio a primeira composição dele. Almanaque:
Oh menina vá ver nesse Almanaque como é que isso tudo começou Diz quem é que marcava o tique-tac e ampulheta do tempo disparouNão demorou muito chegou a minha vez. Sentei na cadeira e ouvi a pergunta: - O que vai patrão? No que respondi:
- Máquina quatro no geral!
Enquanto o profissional exercia o ofício e eu lia a minha revista, o ambiente apresentava um quase silêncio, aconchegante, alterado levemente pelo som das tesouras e das maquininhas elétricas, quando adentrou no recinto um senhor de pouca idade.
O silêncio foi trocado por uma barulheira de vozes, de alguns dos habitantes até então silenciosos, acolhendo ao recém-chegado com efusivas saudações, e pensei:
- É impressionante como o homem, que em seu estado natural de solidão tende ao silêncio, muda rapidamente para a barulheira quando algum motivo o reúne em grupo.
O assunto, atrás da cadeira, continuou com a seguinte pergunta:
- E aí, conseguiu a aposentadoria? No que veio a resposta:
- Tive de encarar fila por alguns dias,…
Foi quando lembrei da música “Vai Trabalhar Vagabundo”:
Vai trabalhar vagabundo Vai trabalhar criatura Deus permite a todo mundo Uma loucura… …Vai terminar moribundo Com um pouco de paciência No fim da fila do fundo Da Previdência…… mas depois encontrei um velho conhecido, que me devia alguns favores. Deu ”um jeitinho” na papelada, para torná-la legal, e ainda…
Foi quando voltei novamente aos tempos de criança e lembrei de uma Galinha, do musical infantil Os Saltimbancos:
…A escassa produção Alarma o patrão As galinhas sérias Jamais tiram férias……por cima ele conseguiu aumentar o valor do meu Benefício, em troca de dez por cento ao mês por um ano.
Aí a galinha voltou furiosa:
…É esse o meu troco Por anos de choco Dei-lhe uma bicada E fugi chocada Quero cantar na ronda Na crista da onda…O papo continuou animado atrás da cadeira e terminou com a seguinte frase do jovem senhor:
- Recebi o meu primeiro Benefício na semana passada! Todos riram alto, menos a galinha, que resignada cantou:
Pois um bico a mais Só faz mais feliz A grande gaiola Do meu país Todo ovo Que eu choco Me toco De novo…O barbeiro tinha terminado o serviço, e enquanto me escovava o pescoço pude notar entre os meus pés, postados no apoio inferior da cadeira, o sugestivo nome:
- FERRANTE !
Terminei de ler rapidamente o artigo da revista, que dizia:
- Você Sabia, que segundo a Sincronicidade de Jung, em algum lugar do planeta uma outra pessoa está tirando conclusões iguais às suas no mesmo momento?
E fui embora cantando:
Agora já não é normal O que dá de malandro regular, profissional…



































Astroldinho Seu Amor :) said,
fevereiro 24, 2012 @ 11:04 am
Ameeeeei o site vou entrar sempreee
admin said,
fevereiro 24, 2012 @ 11:42 am
Seja sempre bem-vindo Astroldinho.
Dalton.