Chico Buarque Explica

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Trata-se de uma carta enviada a um amigo, escrita à partir de um tópico postado por ele na comunidade CBH, do orkut.

Superpopulação de Carros

Ilmo. Pedro:

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer

Milênios se passaram:

E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr…
 http://mpbsapiens.com/rosa-dos-ventos-analise-de-texto/

Um saltinho no tempo e Oh:

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente (de caminhar pelas trevas)
Levavam pedras feito penitente (de tirar leite das pedras)
Erguendo estranhas catedrais…
 http://mpbsapiens.com/vai-passar-analise-de-texto/

Um pouco antes de começarmos a erguer essa estranha catedral presidencial, o Brasil experimentou um pouco da Independência Real. Não aquela, folclórica, do teu xará famoso, que levantou a espada sem conferir os cofres e saiu pedindo dinheiro emprestado.

Acabáramos de pagar essa dívida primeira e caminhávamos, menos presos, por ferrovias, hidrovias, bondes elétricos e poucos automóveis; mesmo assim conseguíamos ir à maioria das partes em que vamos hoje, só que levávamos mais tempo.

Durou pouco esse estado de independência não folclórica. Precisávamos construir a estranha catedral e fazer o país crescer 50 anos em 5. Para isso, pedimos novos empréstimos, trouxemos as multinacionais automobilísticas para cá e, para justificá-las produzindo os carros, precisávamos construir estradas etc. Conclusão: Mais empréstimos.

Mas como construir uma catedral sem mão de obra?

- Ora. Pegamos aquele sofrido povo do nordeste e trazemos para cá, pois assim daremos à maioria dele uma melhora de vida!

Nobres pensamentos e ausência da principal pergunta:

- Mas o que faremos com todo esse povo depois que a catedral ficar pronta?

Essa pergunta não feita permitiu que “evoluíssemos” enquanto construíamos a catedral, que uma vez terminada, ficou com excesso de contingente periférico.

- A agora. Como resolver esse grande problema?

Brilhante idéia:

- Transporte gratuito para o sudeste!

Pouco importava se outras capitais inchariam demograficamente com a simples Transferência de Periferias, pois, afinal, a catedral seria uma capital principal.

Tiramos uma gente sofrida, mas trabalhadora, das suas casas, a usamos como mão de obra para construir a catedral, a transformamos em problema após a conclusão da obra e, semelhante ao ocorrido na Lei Áurea, a “libertamos” no sudeste sem qualquer planejamento social prévio.

Apesar desses imensos pesares, aquela gente trabalhadora, que não tinha mais casa, ou raíz, ou nem mesmo o ancestral sofrimento controlado, conseguiu se adequar às novas condições de sofrimento em terra estranha pois, afinal, havia no sudeste uma metrópole que tencionava virar Megalópole:

“Todo grande problema é formado por uma grande quantidade de probleminhas loucos para crescer!”

…Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu, muito bem, vindo de trem de algum lugar
Aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar…
http://mpbsapiens.com/gente-humilde-analise-de-texto/

Grande parte dessa gente, mesmo diante de todas as adversidades, se manteve trabalhadora e abriu as portas para a chegada de mais conterrâneos nas, já não tão estranhas, terras do sudeste. Infelizmente, uma outra parte não teve a mesma sorte e se dividiu em dois grupos: Os que voltaram pro nordeste e os que persistiram, ainda que em condições precárias.

Diante de todas aquelas diferenças sociais resultantes e explícitas, só restou aos últimos a criminalidade. À partir de então surgiu uma Nova Educação, paralela à convencional, ainda em maioria, mas doidinha para crescer nos mesmos ensinos fundamental, médio e superior, que por se mostrar, ao longo dos anos, muito mais organizada que a convencional, hoje, propicia colagem de grau em doutoramentos vários.

Os automóveis foram se multiplicando de modo até a trocar a simples multiplicação pela exponenciação, não mais aos humildes fatores de um produto.

Precisávamos de Leis, e elas vieram, inclusive, determinando velocidades mínimas e máximas.

 Nem bem as leis, que determinavam as velocidades máximas dos automóveis, foram criadas, uma outra pergunta ficou no ar:

- Mas, se temos leis de velocidade para os automóveis, por qual razão permitimos que se use, ou pior, se fabrique, carros capazes de atingir velocidades tão superiores às das leis?

Devido à super produção dos automóveis, ainda que providos de ilegalidades “velocimétricas”, as capitais ficaram superlotadas e, consequentemente, as velocidades do trânsito ficaram, obrigatoriamente, inferiores às permitidas por lei.

Um monte deles, como em boiada, seguindo em enormes filas, com ocasionais bovinos menos obedientes, ou mais impacientes, mas, curiosamente, a maioria ocupada por somente uma pessoa. Aí surgiu uma outra pergunta:

- Mas, se a imensa maioria anda sozinha no carro, por qual razão se permite que use carros e camionetes imensos, que ocupando um grande espaço nas ruas só fazem por diminuir a velocidade?

Devido à contundência das respostas às perguntas, só restou a Chico cantar:

…Aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu, que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar.
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Viu como o Chico explica, por música, o que o cara fez de forma agressiva?

Qualquer que seja o presidente, não resolverá esse “nosso” problema a curto, nem mesmo médio, quando sabemos ser fatal que, a longo prazo, todos estaremos mortos.

Sem mais

Omos. Atos. e Obros.

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  del.icio.us isto!

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