Rock Brasileiro – Raízes V
a
Anterior -> http://mpbsapiens.com/rock-brasileiro-p4/
a
Conforme citei na postagem anterior, após o encerramento do programa na Record, o Rock começou a morar lá no Círculo Militar. Surgiram novos conjuntos com nomes divertidos, como Baobás, Memphis (Kompha), Watt 69 (famosa marca de uísque Vat-69), Pholhas etc; onde membros migravam de uns para outros, ou mesmo encerravam um para renascer com outro nome alguns domingos após.
Creio que à partir de 1971 parte desses membros, tanto instrumentistas quanto vocalistas, começaram a migrar para os USA. Lá, se reuniam novamente em conjunto, já como American Band qualquer, gravavam discos em inglês e deixavam todo o processo de divulgação no Brasil para as gravadoras americanas, cujo acesso às Rádios era sempre bem visto, diante do americanismo que imperava por aqui na época. E essa foi uma das formas usadas para que os conjuntos acima citados pudessem gravar os seus compactos a um menor custo. Gravavam a fita matriz por aqui, mandavam-na para lá e voltavam pra cá na forma de disco já meio encaixado nas Rádios.
http://www.youtube.com/watch?v=AK_oZF3jxzs
http://www.youtube.com/watch?v=oF44AWsxszE
http://www.youtube.com/watch?v=KP5S_ujmeBs&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=AWkdWPh4hMk&feature=related
Como depois de um tempo a coisa começou a ficar bandeirosa, pois aquilo que a Rádio anunciava como banda estrangeira os dominicais frequentadores do Círculo sabiam não ser, e dava em gozação; os artistas brasileiros começaram a apresentar mais os trabalhos individuais. Surgiram então no nosso cenário musical nomes como Terry Winter, o anterior Thomas Standen frequentador de alguns programas da Jovem Guarda; Chrystian, que posteriormente formaria a dupla sertaneja Cristian e Half; Mark Davis, que posteriormente faria sucesso como Fábio Jr. e finalmente Morris Albert; cujo nome era Maurício Alberto, que aproveitando alguns trechos de desenhos da Turma da Mônica, bem como um anterior sucesso francês, construiu a música mais cantada no mundo até hoje, Feelings:
http://letras.terra.com.br/terry-winter/566777/
http://letras.terra.com.br/chrystian/899398/traducao.html
http://letras.terra.com.br/mark-davis/1106028/
http://letras.terra.com.br/morris-albert/176150/
Morris Albert só aproveitou-se de uma jogada semelhante ocorrida antes e aqui mesmo no Brasil, com o clássico popular Meu Limão, Meu Limoeiro. Usando-se das falhas que cercavam o Direito Autoral no Brasil dos anos sessenta, o compositor Carlos Imperial conseguiu registrar tal música em seu nome, a partir dos novos arranjos dados a ela para o Wilson Simonal cantar e explodir em sucesso.
Correndo por fora de toda essa agitação, a de artistas brasileiros virando estrangeiros e exportando os seus discos para cá, somada às falcatruas vistas acima; nascia no Brasil em 1973 uma banda de rock pra lá de essencial, quer na parte vocal quer nos figurinos: Secos & Molhados.
A voz feminina de Ney Matogrosso, associada às vestimentas e maquiagens acabaram correndo mundo afora, e foi à partir deles que começamos a exportar conceitos para o Rock, já que surgiria dois anos após o Alice Cooper se aproveitando das mesmas maquiagens do Secos & Molhados, só que colocadas em rock mais ácido, tendente ao tétrico, enquanto os nossos alternavam textos de fábulas, como O Vira, composto em 1971, com sentimentos nacionalistas presentes em Sangue Latino, e protestos sociais, como a colocação de melodia num poema do Vinícius de Moraes, Rosa de Hiroshima:
http://letras.terra.com.br/secos-molhados/70264/
Como a banda nascera no Bexiga, além da capa do LP lembrar mais a uma mesa comum às desse bairro, em Sampa, com aquela imensa “Rosca de Torresmo” entre grãos da culinária popular; nota-se nos instrumentos musicais a presença da Harmônica, uma idéia que o conjunto aproveitou de Os Versáteis, presentes nos primórdios da Jovem Guarda acompanhando o pistonista Ronaldo Lark.
http://letras.terra.com.br/secos-molhados/48770/
Embora Secos & Molhados tenha ficado mais ligado à idéia de deboche folclórico, a letra de Sangue Latino mostra que a coisa não era bem essa, mas uma espécie de Manifesto do Rock Brasileiro contra toda a manipulação artística da mídia. Um grito semelhante ao dado em Woodstock, só que transformado por aqui em folclórico canto de homem com voz de viado e vestido de forma estranha. É claro que nunca a crítica literária da época buscaria tal foco na análise.
http://letras.terra.com.br/secos-molhados/48769/
Rosa de Hiroxima foi só uma tentativa de confirmar que o papo descrito em O Vira, e em Sangue Latino era algo bem mais sério do que as aparências sugeriam como folclórico. Em O Vira fizeram a denúncia dos mecanismos da mídia na Fabricação de Ídolos Populares, aproveitando a essência filosófica da peça Roda-Viva, de Chico Buarque, levada aos palcos em 1968. Rosa de Hiroxima, caso cantada em Woodstock, teria o mesmo efeito do que Jimi Hendrix tentou fazer, associando o hino americano aos sons de aviões de guerra bombardeando, tiros e estilhaços vindos do som da guitarra:
http://www.youtube.com/watch?v=wyGGG1I-rf8&feature=related
Como o famoso som do Hino ao Silêncio também foi misturado ao americano por ele na guitarra, Rosa de Hiroxima seria a histórica apoteose daquele triste depoimento.
O que difere os tipos de música popular: Samba, Jazz, Rock etc; é a fundamental Percussão, dona do Ritmo. Dependendo do Andamento Musical, cada tipo apresenta as suas variações com instrumentais e textos mais compatíveis. Por mais que a letra apresente nos versos comprimentos exatos em relação à melodia, se fizermos uma letra com texto de rock pauleira e tentarmos colocá-la em cima de uma melodia de música romântica a coisa não casa de jeito nenhum.
Quando vemos, a exemplo do ocorrido no Rock In Rio, um grupo roqueiro como Jota Quest cantando Ana Júlia sobre um Trio Elétrico no Carnaval Baiano, onde impera o Axé Music, temos a certeza:
- O espetáculo bem promovido sempre é rentável ($).
Seguido de uma dúvida, que diante do sucesso do espetáculo torna-se quase imperceptível:
- O que é Axé Music? A primeira resposta já vem decorada:
- É a musica com batida do Olodum que toca na Bahia!
Se os termos Axé e Music têm algum parentesco que os justifique próximos, é porque, quando muito, tiveram em comum os ancestrais missionários ingleses colocando alguns dialetos africanos na forma de dicionário. Só isso.
Adquiriram esse parentesco atual por conta da Indústria do Espetáculo, que tende à americanização em tudo quanto seja raiz cultural no país em que atua.
O termo Axé pertence ao Candomblé, como elemento da ligação dos reinos Orum (Invisível) e Ayê (Visível). Para o andamento normal do ritual, cada Orixá tem o seu Axé dirigido aos cânticos próprios com Toques também próprios, tais como Huntó, Ijexá, Batá, Aguerê, Hamunia (Avaninha) etc.
Hoje em dia é comum ver-se um toque próprio de um orixá em homenagem a outro. Por exemplo, Um Aguerê de Oxossi tocado para um Xangô ou um Obaluayê dançarem. Política de boa vizinhança agora?
Isso hoje ocorre no candomblé baiano naturalmente por conta dessa industrialização do espetáculo nas batidas globalizadas Olodum e Timbalada, que nasceram do culto para o povo crente, não para o espetáculo.
Tanto no Brasil quanto nos EUA, os primeiros escravos tinham um mesmo comportamento ritualístico, o de procurar se embrenhar no mato para dar um Grito de Identidade que o lembrasse de onde viera. Por aqui, esse comportamento do negro recebeu o nome Ilá (grito do Santo) cujos toques ritualísticos resultaram em Samba. Nos EUA, que rapidamente destruiram todos os dialetos africanos dos escravos, o nome escolhido foi Blues, cujos toques, também ritualísticos, originaram outros até chegarem ao Rock e os nossos primordiais Ray Charles e Bill Haley destas postagens.
Por quanto tempo esta informação histórica vingará, apesar de todos os pesares vindos das indústrias de propaganda, fama ou espetáculo?
Não sei, mesmo porque me entreguei mais às análises da MPB após 1970, e qualquer coisa dita sobre as trajetórias do Rock Essencial, tanto cá quanto lá fora, correria um risco de tornar-me mais injusto do que provavelmente já tenha sido pela falta de memória.
Como a minha praia atual é a MPB, seria desonesto de minha parte não associar o momento atual a estes antigos versos de Chico Buarque:
a
Acho que tudo acabou Quase que já não me lembro de nada Vida veio e me levoua
Por falar nisso, agora preciso atender à neta que me exige assistir com ela um vídeo sobre o Rock Ordem e Progressivo Brasileiro, que até lembra Woodstock em alguma coisa:
http://www.youtube.com/watch?v=erkXU94UycY
a
Upa vovô!
- Minha Princesa quer dançar Rebolation é?
- Antes deixa o vovô contar: Era uma vez uma princesa que cantava música…
a


































