O Socialismo no Brasil
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Esperando o dia De esperar ninguém Esperando enfim Nada mais além Da esperança aflita Bendita, infinita Do apito de um trem(Pedro Pedreiro – Chico Buarque)
Atire a primeira pedra quem nunca desejou isso, ainda que com outras palavras.
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aa Música – Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo)
Intérprete – Milton Nascimento
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Nas últimas décadas perdemos nas escolas o interesse pelo tema Interpretação de Texto no estudo da Língua Portuguesa.
Essa gradativa perda tornou palavras como Paradoxo, Metalinguagem etc; bem frequentes no nosso cotidiano popular e jornalístico.
Para o estudo da obra do Chico Buarque essa carência na interpretação de textos só fez por distanciar-nos mais ainda da compreensão de suas letras nas músicas.
Em O Grande Circo Místico, Chico apenas enveredou para as posturas mais subjetivas sem ingressar no mundo insensato do Simbolismo. Ele não gosta de perder o controle das palavras nas essências, mas por estender-se ao uso dos significados outros de mesma palavra mantém-se afastado da melhor compreensão pelo simples despreparo cultural nosso. Algo não tão presente em nós no começo de carreira dele.
Como toda música começa por um título, que pode possuir um ou mais significados, quem poderia ser a tal Beatriz?
1- Dicionário – Também conhecido como Peixe Escorpião, sua ferroada pode levar a pessoa à morte. Em repouso, Beatriz é um Peixe de Fundo do mar que se assemelha a uma pedra, porém perde tal aspecto camuflado quando põe-se a nadar, pois sob as suas nadadeiras surgem vistosas cores que atraem os mais desavisados.
2- Enciclopédia – Beatrice Portinari, a musa de Dante Alighieri, responsável por levá-lo do inferno ao paraíso na obra Divina Comédia.
aaaaaaaaaaaaaaaSerá que é pintura o rosto da atriz?
3- A música Beatriz pertence a uma personagem da obra O Grande Circo Místico, de Edu Logo e Chico Buarque, inspirada no poema A Túnica Inconsútil (sem costuras), escrito por Jorge de Lima em 1938.
Com esses três dados já podemos ter uma idéia do texto desenvolvido pelo Chico para a melodia feita por Edu Lobo. Se quisermos adicionar algo mais pessoal a tal idéia básica, podemos imaginar como teria ocorrido o encontro do letrista com a melodia já pronta e com o enredo de outro poeta como referência.
Imaginemos o Edu Lobo mostrando ao Chico um bloco de melodias inéditas e deixando-lhe a partitura de Beatriz para fazer uma experiência.
Qual reação teria um letrista, com a bagagem artísica e cultural do Chico, diante da deliciosa partitura musical vinda de um outro consagrado músico da MPB? As duas primeiras seriam consultar dicionário e enciclopédia para cercar o título com uma letra coerente. Contava somente com um nome e uma partitura. Resolvendo conversar com um e com outra, usou peixe, musa e as alturas das notas musicais como reforço nos textos dos versos. Vejam no que deu:
Olha
Será que ela é moça?
Será que ela é triste?
Será que é o contrário?
Será que é pintura
O rosto da atriz?
Aqui o Chico está se perguntando sobre a incógnita Beatriz nas formas vistas acima. Um peixe ilusionista que pode levar à morte; a famosa musa da Divina Comédia que levou o cara do inferno ao paraíso; a bela estampa de uma partitura.
- Como é que faço para enfiar toda essa informação numa melodia que não fiz?
Se ela dança no sétimo céu?
Se ela acredita que é outro país?
E se ela só decora o seu papel?
E se eu pudesse entrar na sua vida…
Obs. No sétimo verso ele usou no texto um Sétimo Céu para tratar da Dança das Notas na partitura.
Se ela for a Beatrice, certamente conhecerá o Sétimo Céu italiano do Dante, mas o que estaria fazendo no Brasil? Como representar o papel original séculos após e em outras terras? – E se ela só decora o seu papel?
Embora improvável, não podemos descartar a hipótese do Chico ser um assíduo leitor das famosas fotonovelas da revista Sétimo Céu, ainda mais pelo fato da revista sempre trazer gente famosa na capa, como que justificando a absurda idéia de Dançar no Sétimo Céu.
Creio que as coisas ficariam mais claras se olhássemos para a partitura do Edu nessa parte da música, porque os dois primeiros versos dessa estrofe são os que possuem as notas mais altas da composição, em que o Chico, estrategicamente, colocou o termo “Céu” na mais alta, duma melodia incomum à realidade musical brasileira – Se ela acredita que é outro país.
Se fosse Beatrice teria que decorar ou memorizar um texto, por outro lado, pela beleza da sua escrita cifrada, uma partitura sempre fascina pela caligráfica forma de decoração num papel. Aqui há um confronto entre a atriz que memoriza o papel de uma peça e a partitura que o decora num papel propriamente dito como gravura.
Como a dúvida do letrista poderia ocorrer nas duas formas, restou a certeza de como seria se ele a conhecesse melhor – E se eu pudesse entrar na sua vida…
Olha
Será que é de louça?
Será que é de éter?
Será que é loucura?
Será que é cenário
A casa da atriz?
Aqui ele volta a confundir Beatrice e Partitura nos questionamentos interiores, quanto à fragilidade, sublimação e ilusória moradia. Também é nesta parte que ele começa a imaginar-se no enredo, ainda que como louco – Será que é loucura?
nota: A pessoa ferroada por um peixe Beatriz costuma começar a delirar pouco tempo após.
Se ela mora num arranha-céu?
E se as paredes são feitas de giz?
E se ela chora num quarto de hotel?
E se eu pudesse entrar na sua vida…
Ao ingressar no mundo ilusório que criara, o letrista é tomado pela fragilidade da incerteza própria e infantil, imaginando até um arranha-céu construído com paredes de giz. Mas essas dúvidas retornam à Beatrice, desta vez, solitária, que o leva à mesma certeza anterior de que se a conhecesse melhor…
Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar c´os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Certo da sua submissão à incerteza, o letrista se entrega à musa incógnita, tanto na forma de Beatriz Peixe (morte), quanto na de Beatrice Dante (do inferno ao paraíso), e, principalmente, à de Partitura, porque por estar na antepenúltima nota mais alta da composição, o verso ficou “por um triz” da mais alta, que é a do “Céu“, ao mesmo tempo em que, nova e estrategicamente, Chico colocou a nota mais baixa da melodia na palavra “Chão“, duas oitavas abaixo.
Certo de estar tratando diretamente com a Musa Inatingível, o poeta pergunta-lhe sobre os possíveis erros já cometidos, tanto nos poemas anteriormente escritos quanto naquele mesmo em que estava trabalhando – Diz quantos desastres tem na minha mão. Pergunta ainda se ele poderá ser feliz sem que isso lhe cause problemas.
É sabido que quando as pessoas mais sensíveis se sentem felizes, o fazem com a cobrança da infelicidade alheia, porque a primeira costuma ofender a segunda – Diz se é perigoso a gente ser feliz.
Olha
Será que é uma estrela?
Será que é mentira?
Será que é comédia?
Será que é divina
A vida da atriz?
Após o breve encontro com a musa ocorrido na estrofe anterior, o letrista volta à sua posição de terrestre com dúvidas sobre a natureza da inatingível musa, tanto da Beatrice da Divina Comédia, quanto da sublime e inexplicável Melodia surgida do Nada.
Se ela um dia despencar do céu?
E se os pagantes exigirem bis?
E se um arcanjo passar o chapéu?
E se eu pudesse entrar na sua vida…
E encerra com uma soma de dúvidas, com o mesmo “Céu” lá no alto da melodia e a mesma certeza de que tudo seria mais fácil se ele a conhecesse melhor.
Convém também registrar que a gravação original de Beatriz, feita pela voz do Milton Nascimento, muitas vezes diferiu tanto da original partitura do Edu Lobo, quanto das sílabas poéticas dos versos do Chico. Por exemplo, o “Chão” do Milton ficou mais abaixo do que o do Edu.
Como na composição musical toda sílaba poética do verso equivale a uma e somente uma nota musical da melodia, cada vez que o cantor resolve alongar o tempo de duração da sílaba na nota, acaba transformando a sílaba poética em duas, principalmente se envolver ditongos. Foi o que aconteceu com o Milton em relação à composição do Chico e do Edu. Na interpretação musical pode-se reparar versos bem parecidos cantados de maneiras diferentes. Por exemplo:
Se-e/la/ dan/ça/no/sé/ti/mo/céu – aqui o Milton cantou de acordo com partitura e poema
Se/ e/la-um/di/a/des/pen/car/do/ céu – Aqui ele já separou a primeira sílaba poética em duas, e com isso meteu mais uma sílaba no verso do Chico e mais uma nota musical na melodia do Edu.
Fato semelhante ocorre com maior nitidez num verso de mesmo texto nas três estrofes:
Nas duas primeiras, Milton cantou certo, mas na última separou a sílaba nitidamente:
E/ se-eu/ pu/des/se-en/trar/ na/ su/a vi/da
E/ se-eu/ pu/des/se//en/trar/ na/ su/a vi/da
Longe de insinuar qualquer erro nisso, apenas valorizo a interpretação dele como somatória na beleza da Arte Final que nos premiou.
Como a sagrada Liberdade de Expressão permite que escrevamos o que bem entendermos sobre a arte - alguns articulistas literários chegaram até a comparar a Beatriz com a Geni em seus jornais - talvez nada do que tratei aqui seja muito sensato, já que a tal Beatriz pode bem ter sido alguma mulher que o Chico ou o Edu tenham conhecido em tempos idos.
- Mas que parece, parece!
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Vários são os motivos que levam as pessoas ao casamento e à separação, mas são apenas motivos particulares. Como essas sensações poderiam ser descritas pelos poetas da MPB?
Muitas músicas já foram escritas sobre tais temas, mas resolvi escolher seis delas, quatro do Chico e duas do Gil, para supor com menor possibilidade de engano.
Inicio tratando de um clássico da separação na MPB: Trocando em Miúdos, feita por Chico Buarque em parceria com Francis Hime.
Uma letra de música não se resume a um apanhado de versos dispostos em estrofes, onde cada sílaba é parceira de uma nota musical; mas a uma série de ocorrências pessoais do poeta com dados referenciais que lhe permitam dar continuidade ao tema sempre revisto.
Portanto, para tentar entender a letra é bom procurar a maioria de refenciais possíveis. Nesse caso do Chico convém lembrar que as parcerias dele com Francis Hime iniciaram com a música Atrás da Porta, cuja letra registra nitidamente os sentimentos da mulher inconformada com a separação. http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45113/
Como Retratista Social, Chico costuma dar a chance dos dois envolvidos se manifestarem por músicas. Como a mulher deu o recado dela em Atrás da Porta, supostamente, tempos após o homem respondeu com Trocando em Miúdos. Digo “supostamente” porque embora a mulher tenha ficado bem definida na letra em Atrás da Porta, o mesmo não se pode dizer do homem em Trocando em Miúdos: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45182/
Embora a música tenha ficado consagrada por tratar de uma separação conjugal, a letra dá mostras, a exemplo do ocorrido em Atrás da Porta, de que houve muito mais um rompimento do que uma separação, com ambos saindo feridos.
No caso de Drão, do Gil, percebe-se o poeta tratando da mesma separação, só que num estágio muito mais calmo para os envolvidos, que exige a ambos se separarem tanto como casal como das sobras individuais adquiridas no convívio. Esse estágio da separação permite ao poeta ser muito mais lírico do que retratista social: http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/16133/
Esse mesmo estágio de separação encontrado por Gil em Drão só foi ocorrer muitos anos mais tarde com Chico em Todo Sentimento, cuja letra sugere as duas separações necessárias das sobras, tanto no casal quanto no individual. O pensamento “A gente se livrar da gente” pode ir muito além da idéia do casal e invadir o individual: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45181/
Quanto aos reencontros deles com o amor conjugal, também tivemos duas formas bem distintas. Enquanto Gil continuou descrevendo na essência poética própria, Chico também se manteve lírico, só que muito mais inserido às superficialidades visuais do mundo social que o cercava, sendo portanto duvidosa a idéia de ter alcançado o Reencontro atingido por Gil.
A Linha e o Linho - http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/46178/
aaaaaaaaaSou Eu - http://letras.terra.com.br/chico-buarque/1537845/
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Meu Gaúcho Internacionalista:
A história é muito longa, e começou na época em que registrei nesta postagem: http://mpbsapiens.com/falso-brilhante
Como desde cedo eu convivi com o samba e com as construções poéticas era costume meu ajudar os compositores mais velhos nas escolas de samba da zona leste de Sampa.
Quando em 1997 a Mangueira anunciou que o Chico seria o enredo para o carnaval de 98 tratei de procurar logo o carnavalesco, Alexandre Louzada, para “vender o produto” e combinamos um encontro na quadra da escola em maio de 97.
Estando lá na data marcada, com a quadra em plena reforma, o cara não apareceu, resolvi voltar para o Paraná e esquecer do assunto. Mas ao sair da escola e parar numa barraquinha de café em frente o dono dela me reconheceu, lá daquela época de garoto, porque o tinha ajudado em mais de um samba na Nenê da Vila Matilde. Era o Barbosa, que se mudara para o Rio e acabara virando compositor da Velha Guarda da Mangueira.
Conversamos um pouco sobre os velhos tempos e ele começou a cantarolar um samba sem letra me desafiando, como costumávamos fazer quando ele era adulto e eu criança. Alguns versos do samba surgiram naquela hora, inclusive o primeiro, já que tratávamos da soma de muita história naquele momento.
Alguns minutos após surgiu o Pingo do Cavaco, cavaquinho mestre da Mangueira, para tomar o seu costumeiro suco de maracujá que, segundo ele, só o Barbosa sabia fazer e na hora já começou a tirar o acompanhamento daquele samba sem letra do Barbosa.
A barraca ficava bem perto de um ponto de ônibus. Todo mundo estava quieto, mas bastou o cavaquinho começar a agir para os quadris de mulatas começarem a responder no ponto de ônibus. Acho que esse foi o momento crucial para as minhas empoeiradas raízes de letrista se manifestarem com maior vigor. De imediato nasceu um refrão:
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Circo Místico é o artista Que registra na comédia De uma Ópera sambista A receita da tragédia Misturar cortina e luz Prostituta em Folhetim Vida do Brejo da Cruz Num embrulho de cetima
Acabei morando na casa do Barbosa, no morro da Mangueira, durante uma semana, pois não sendo eu um oficial compositor da Velha Guarda o samba do Barbosa não poderia ganhar a letra de um estranho. Mas como as regras sempre mudam quando alguém ganha dinheiro com elas, abri mão do meu salário como compositor da Velha Guarda da Mangueira e acabei virando um membro dela.
Dois dias após houve uma reunião do carnavalesco com os compositores, onde recebemos uma cartilha chamada Sinopse do Samba. Faltava muita coisa nela, como a peça Roda-Viva, o livro Fazenda Modelo, e as peças Gota D´Água, O Grande Circo Místico, Dança da Meia-Lua…
Comentei com o Barbosa durante o café e depois voltamos à reunião. Foi quando o carnavalesco perguntou a nós, compositores, o que achávamos da música Vai Passar, pois ainda não tinha conseguido uma idéia para montar o carro alegórico. O Barbosa, todo orgulhoso, já foi dando bandeira e exigindo que eu falasse alguma coisa. Então sugeri o Palácio do Planalto com um monte de bois em cima.
Sem entender a idéia o carnavalesco pediu as explicações e apenas descrevi o óbvio: A letra de Vai Passar é irmã da de Dr. Getúlio e foi feita para o livro Fazenda Modelo. As “Estranhas Catedrais” eram a mesma Juvenópolis do Juvenal, cuja cidade dos sonhos ficava no plano alto central da fazenda e fora bolada pelo mesmo “J”, mas seguido de muitos Kás Invisíveis: Brasília do JK.
O carnavalesco entendeu bem a ligação das obras e acabei virando parceiro nos refrões de um monte de compositores ali presentes. Foi quando ganhei o apelido de Paraná. Eram concorrentes meus, mas como educador eu não poderia me negar a ajudá-los.
Dois dias após o carnavalesco foi à barraca do Barbosa pra me dar uma dura: – O Chico ficou puto da vida com a idéia do carro Vai Passar!
Rir de uma idéia absurda seria até natural, mas ficar com raiva dela só denunciava o meu acerto filosófico se contrapondo aos “acertos” comerciais outros dele como artista.
Logo em seguida o cara me sugeriu que falasse algo sobre a peça Roda-Viva. Como eu havia assumido um compromisso ancestral com Ana Buarque de Holanda, o de não divulgar a peça, senti que estava sendo testado na honestidade e disse ao carnavalesco o seguinte:
- Diga lá ao seu patrão da censura que agora não direi nada sobre a peça, mas diante desses novos passos nada impede que futuramente não o faça!
Foi como se um caminhão de melancia caísse sobre a minha cabeça de fã. O próprio ídolo, outrora tão censurado, agora tinha virado a Censura Moderna. A letra do meu samba começou a ganhar uma filosofia inversa da original na seguinte forma:
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Fala história, vem contar Brasil, fonte mil de inspirações Na vida e arte de um mito popular Na poesia das cançõesa
Em se tratando das rimas, o Mito cairia melhor na parceria interna com “mil de”, mas os demais parceiros exigiram o “gênio”
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Partiu, quem te viu Pra esperar o sol nascer Quem te vê no raiar de um novo dia que a mentira usa esconder?a
Além de fazer um trocadilho com a música Quem Te Viu, Quem Tr Vê, o pensamento foi tirado da reação do próprio Chico Censor com o carro Vai Passar. O termo correto era “usa”, como cotidiano do artista, e não “ousa”, como sendo algo da censura militar.
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Meu pai, quem Vai Passar? O Cale-se, memória da razão Vem cantar c´o povo Que maltratado na Opressão Hoje é a glória da naçãoa
Um dos truques do Chico sempre foi o de se aparentar Socialista, mesmo sendo um Anarquista convicto com regras próprias. O Vai Passar contava uma história econômica do Brasil, mas o Cale-se, de Cálice, obrigava o enredo da escola a calar o verso de quem o enxergara com minúcias. Aí a coisa transformou a Opressão e o Socialismo em folclore e o cara virou extremo nacionalista em Hoje é a Glória da Nação.
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Olha o drible do malandro Fez que foi depois voltou Roda a vida do seu canto E a torcida grita gol (gol da mulher)a
Naqueles dias tive a honra de conhecer o Júnior, lateral do Flamengo, que servindo à seleção fez aquele gol antológico contra a Argentina. Como o Chico tinha vivido fora do Brasil por uns tempos para negociar com a nova gravadora, o que a imprensa apelidou por Exílio, juntei as duas idéias e sonhei com aquele gol sendo marcado contra a mesma Itália que abrigara o Chico nos anos sessenta. Só que aquela Itália de 1970 levou de 4, com gente que jogava bem e ganhava títulos, ao contrário da do Jr.; que apenas jogava bem e não ganhava porra nenhuma. O refrão é um misto do drible do Chico, que foi por um motivo e voltou por outro, com o do Jr.; que foi e voltou, tornou a ir e revoltar pra cima da zaga hermana.
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Da mulher foi buscar Na Gota D´Água um Jasão sambista Pra ópera do bar então juntar O malandro e o artistaa
Aqui eu coloquei a essência do Chico Gigolô, que vendia os serviços da Joana, personagem central da peça, cujo nome, a exemplo do Jasão, deveria ser Medéia. Joana é um nome estratégico do Chico para se referir ao seu violão e às suas músicas. Desde Bom Tempo que fizera isso: Joana debaixo do braço / E carregadinha de amor. Como a peça conta a história de um gigolô e uma prostituta, não ficou difícil imaginar o Chico como o próprio Jasão diante das Joanas. Quanto à “ópera do bar”, cujo texto original fora feito pra conseguir um eco na rima interna (bar-juntar) também não pude evitar que os parceiros intervissem com o Botequim nas rimas.
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Garoto e poetinha Gente Humilde a desfilar Maroto esse sambinha Num Brasil do Calabara
Como a música Gente Humilde foi escrita em parceria com Vinícius de Moraes (Poetinha) sobre uma partitura original do violonista Garoto, já falecido, usei a coisa para associar à traição do Chico que experimentara naqueles dias, já que Calabar está associado à idéia de traição. O original era “num” mesmo, mas os parceiros exigiram “meu”. Confesso que desta vez eles colaboraram com as rimas enquanto eu sobrei com a filosofia particular.
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Menino meu, vadio Mangueira sempre aberta pra lhe ver Obrigado Meu Guri À poesia Basta Um Dia nascer Vem sem mentir pra vocêa
Aqui eu juntei versos da música Sem Fantasia com outras músicas dele, como O Guri e Basta Um Dia, da peça Gota D´Água; num texto dirigido muito menos à homenagem do que ao deboche; além de usar o trocadilho da mangueira aberta.
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Chico Buarque da Mangueira Vem c´oa Banda da vitória Parabénstação primeira Sete décadas de glóriaa
Como os parceiros me exigiram que colocasse na letra o nome do enredo da escola, me livrei logo da coisa no primeiro verso, já que o poema tinha ido jogar no time dos pernetas há muito. Tentei ainda um nobre efeito de sílabas poéticas em “Parabéstação primeira”, mas perdi a parada pelo repetitivo Parabéns minha Mangueira, já que a escola completava setenta anos, daí o Sete Decadas de Glória.
Aí surgiu um outro problema: – Quem vai cantar o samba na quadra?
Eu já havia entrado em contato com o pessoal da Simone para cantá-lo. Ela e assessores se mostraram bem entusiasmados com ele, mas o pessoal foi enrolando e esperou até próximo ao dia da entrega das fitas para dizer: Não!
Não entendi bem a coisa. Tanto entusiasmo e depois a negativa?
Como uma das parceiras, a Regininha Macedo, era mais da Caprichosos de Pilares do que da Mangueira, sugeriu o nome de Luizito, que se desentendera com o pessoal da Caprichosos e estava sem emprego. O cara adorou o samba e em regime de urgência foi ensaiar com um maestro que fez a lapidação melódica do samba.
Como eu já tinha voltado pro Paraná, tudo foi feito sem que eu soubesse direito como andava a coisa.
Ao perceber que mudara muito voltei pro Rio para ajustar melhor a letra pro Luizito cantar. Como o cara andava magoado com o pessoal da Caprichosos, colocamos a introdução no samba para que pudesse dar o seu recado.
No dia da entrega das fitas dos sambas para a escola parou uma kombi, cheia de instrumentos musicais, na porta e um dos ocupantes me perguntou: Você conhece o Barbosa e o Netinho da Miúda? Respondi:
- O Barbosa é aquele ali!
Eles chegaram no Barbosa, pegaram o gravador deles, pediram uma letra, acompanharam, se divertiram com o samba e perguntaram pelo Netinho da Miúda. O Barbosa apontou para mim e eles foram embora elogiando a letra. Depois o Barbosa me contou que eram músicos da banda do Chico.
Eram mais de setenta sambas concorrendo. Fui no primeiro dia e não gostei nem um pouco do que vi, ou melhor, do que não ouvi, já que a bateria cobria toda a execução do samba e ninguém conseguia escutar algo além da barulheira na quadra. Porém tive a felicidade de poder conhecer muita gente que idolatrava. Com alguns me dei bem, com outros nem tanto. Pude observar lindos sambas dos quais destaco o do Cabeça Branca, compositor do Salgueiro, com uma tirada de mestre. Algo como o Pedro Pedreiro fazendo a sua Construção com as pedras jogadas na Geni. Depois voltei pra casa e não acompanhei direto às demais etapas até a semifinal.
Durante essas etapas tive que fazer outras coisas. Como havia feito amizade com um tal Carlinhos da Mangueira, com o qual conversara sobre uma possível iniciativa do centro cultural da escola em ensinar o Iorubá para as crianças, também me comprometera com ele a fazer uma espécie de descrição do meu samba. Era papo de educador para educador. Foi então que a Mangueira viu pela primeira vez uma explicação do samba, diferente desta particular e rançosa, claro; com o nome Sinopse do Samba do Barbosa. Depois soube que o Carlinhos tinha sido preso e nem tive mais notícias do cara.
À proporção em que as pessoas liam a explicação mais cantavam o samba naquelas fases classificatórias. Próximo à semifinal escrevi O Enredo de um Samba-Enredo; que contou do samba desde a primeira conversa com o Barbosa até os primeiros ensaios, onde fomos salvos pelo Mangueirinha marcando o ritmo num balde e dando vida ao samba.
Na noite da semifinal eu estava lá. O samba foi cantado uma vez por inteiro mas na segunda o Luizito parou de cantá-lo reclamando do retorno. Nem precisava que cantasse, pois a quadra inteira já o fazia, mas mesmo assim o samba foi desclassificado por esse motivo, e no desfile oficial da escola em 98 lá estava o Luizito ao lado do Jamelão cantando. Hoje está só ele. Gozado, né?
O samba ganhador, coincidentemente, era do cara que financiou aquela reforma da quadra que citei no começo.
O compositor de um samba que ía oficialmente para a avenida, na época, recebia cem mil reais da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba). Nada muito diferente do que eu mesmo já experimentara quando virei compositor da Velha Guarda da noite pro dia. O Samba tem dessas coisas.
Acho que deveria ter-me tocado da coisa logo que a Simone mudou de idéia inexplicavelmente. O nosso samba continuaria a natural trajetória perdedora pelos demais parceiros, eu não teria me desiludido e perdido tanto tempo com longas viagens.
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