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O Hino de Duran, o Direito e a Obrigação

 

Comecei a ir à escola nos anos 50, com pouca idade, já que nasci no final de 
dezembro.
 
Lembro que, nos quatro primeiros anos, as professoras corrigiam os nossos 
desvios comportamentais, inicialmente, com uma bronca e, persistindo a falha, 
com a régua em duas posições, proporcionalmente à gravidade do desvio: 
 
De chapa, para os mais leves, ou de de quina, para os mais graves.
 
Se, ainda após a régua, o desvio persistisse, éramos levados à diretoria, que
mandava uma advertência escrita exigindo a presença dos pais na escola.
 
Normalmente, a coisa se resumia à bronca verbal, do diretor pra cima deles, 
seguida, em casa, por surra deles pra cima de nós. A cinta, por ser de eficiente
retorno, era a estratégia mais usada, pois surtia o efeito desejado na maioria.
 
Era assim que aprendíamos a frear às naturais individualidades, e tolerávamos
viver em uma sociedade fundamentada em Leis, que nos cercavam em vários
aspectos cotidianos, para que milhões de nós pudessem levar uma vida com
crescimento, velhice e morte.
 
Inicialmente, poucos discordavam disso, mas, com o passar dos anos, 
o número discordantes não parava de crescer e, munido de uma série de
estratégias racionais, transformou o conceito original do Direito, que resultava
da Obrigação não cumprida e, invertendo as posições do pensamento, fez
com que chegássemos à definição atual:
 
 - A Obrigação resulta do Direito não obedecido!
 
Mas para o que servem a Lei e a Polícia?
 
 Vídeo de gmpxeb
 
Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas, sussurros, ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar
 
Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X (meretriz)
 
Se vives nas sombras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam
 
E se definitivamente a sociedade
Só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
És um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
Depois chamam os urubus
 
Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar infrator
Com seus braços de estivador
 
Se pensas que pensas
Estás redondamente enganado
E como já viste
Vem chegando aí o Dr. “Eiras” (de eiras e beiras)
E junto com o delegado pra te levar…
 
Excepcionalmente, hoje de manhã acompanhei na televisão a um noticiário, em
que vi, numa rodovia com passarela para pedestres, muitos deles cruzando a
estrada diretamente sobre as pistas, assim ignorando a uma série de riscos. Na
mesma cena, vi também um motoqueiro cruzando a rodovia usando a 
imprópria passarela, também ignorando a outros riscos. Ambos com uma
inversão dos valores semelhante à ocorrida com os significados de Direito e
Obrigação vistos lá no começo.
 
Aonde começam, ou terminam, os Direitos Humanos?
 
No cumprimento ou no não cumprimento de leis que, castrando à nossa 
natureza individualista logo na infância, deveriam servir para que tivéssemos 
um posterior ajuste em forma de sociedade?
 
Com palavras bem encaixadas, podemos dar a um texto o que melhor
acharmos, mas até onde vai a nossa Liberdade de Expressão quando a
usamos de forma inconsequente?
 
Será que o uso da Régua era tão errado assim, já que estamos prestes a
tornar o simples beliscão num grave delito social?
 
Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas, sussurros, ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar
 
Se pensas que pensas
Estás redondamente enganado
E como já viste
Vem chegando aí o Dr. “Eiras” (de eiras e beiras)
E junto com o delegado pra te levar…
 

     a

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Chico e a Palavra

 

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra!
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra!

 

Uma das coisas que mais me fascinam, no estudo da obra do Chico na MPB, é o compromisso que ele tem com o significado da palavra usada.

Embora sejam raríssimas as ocasiões em que tenha fugido um pouco da responsabilidade gramatical, como o ocorrido em Sem Fantasia e Tatuagem, quando misturou conjugações em Terceira e Segunda Pessoa do Singular, Chico sempre buscou fidelidade integral, ou “entregal” à Etmologia.

Tendo já um texto original, talvez, acima dos fundamentos da construção poética, na hora de lapidar a gema com rimas, ritmos e metragens, sempre busca palavras, preferencialmente populares, pertencentes aos já consagrados históricos dos textos desenvolvidos.

Vejam o zelo com que ele tratou, na obra inteira, o termo Coitada, no feminino. Por originar de Coito, o uso do termo implica em muito mais responsabilidade do que normalmente temos ao utilizá-lo como sinônimo de infeliz, principalmente, se usado no masculino.

Pode haver até uma possibilidade, mínima, de eu estar enganado, mas tal termo só foi usado por ele em quatro ocasiões:

No Masculino, só em uma, em O Malandro nº 2:

O coitado
Foi encontrado
Mais furado
Que Jesus…

Chamo a atenção para a fidelidade etmológica dos elementos da rima Coitado-Furado. Por maior que seja a baixaria imaginável, o texto apresentou continuidade bem objetiva.

No Feminino, em três músicas:

Umas e Outras:

Mas toda santa madrugada
Quando Uma já sonhou com Deus
E a Outra triste namorada
Coitada já deitou com os seus…

No texto da música, Uma é quase angelical e Outra é prostituta

Geni e o Zepelim:

Mas de fato logo ela
Tão coitada, tão singela…

No texto da música, Geni “deu-se assim desde menina”.

A Rosa:

E chega nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista…

Neste caso chamo a atenção para a complicidade textual dos termos Coitada e Plantonista. Não deixa de ser uma qualidade das prostitutas fazer plantão tanto em bordel quanto em ruas e avenidas.

Na música, Com Açucar, Com Afeto, em que a mulher fala das andanças do homem no cotidiano fora de casa, ressalto o fragmento:

Vem a noite, mais um copo
Sei que alegre “ma non troppo”
Você vai querer cantar…

A expressão Allegro Ma Non Troppo, na teoria da Música, designa a um Andamento Musical, que significa um Allegro (outro tipo de Andamento) menos veloz. 

Além de lançar mão de um trocadilho, ao transformar o musical Allegro no popular Alegre, o significado da expressão musical italiana está intimamente ligado à ação do personagem da música, que, já à noite, tenta ”moderar” a velocidade da farra para não voltar logo para casa.

Outro caso interessante ocorre na música A Ciranda da Bailarina:

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina…

Muitas outras formas de gerúndio poderiam ocupar o lugar de “Confessando”, mas o cotidiano religioso do catolicismo não admitiria a troca, pois o “Confessionário”, além de ser normalmente evitado pela maioria dos fiéis, que é pecadora, para a criança, que é quem canta a música, trata-se de uma verdadeira sessão de tortura.

Quando Chico escolhe as palavras que usará nas letras das músicas, o faz com o incomparável zelo que o difere da maioria dos compositores da MPB, portanto, Caetano Veloso se enganou ao escrever, em sua homenagem, a música Festa Imodesta, que diz:

E acima da Razão a Rima…

A coisa não é bem assim!

 

 

 

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IF – Rudyard Kipling & The Cup

 

O norte-americano Dempsey chuta de longe e Green não segura
 

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build ‘em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on”;

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings – nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man my son!

Tradução de Guilherme de Almeida – SE

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

 

Of an old English for an English contemporary:
- The world is one Poetical Jabulani!
Ou:

De um inglês antigo para um inglês contemporâneo:

- O mundo é uma Jabulani Poética!

  

       .

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O Bêbado E A Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc)

Vídeo de luanborges


 

Caía 
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto 
Me lembrou Carlitos
 
A lua 
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria 
Um brilho de aluguel
 
E nuvens 
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco 
 
Louco
O bêbado com chapéu coco 
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil
 
Meu Brasil!
 
Que sonha 
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu 
Num rabo de foguete
 
Chora 
A nossa pátria-mãe gentil
Choram marias e clarisses 
No solo do Brasil
 
Mas sei 
Que uma dor assim pungente 
Não há de ser inutilmente
A esperança 
 
Dança 
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha 
Pode se machucar
 
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
 
Antes de qualquer idéia à respeito dessa composição é necessário ter em vista
que, vinda de uma parceria de consagrados instrumentista e letrista, a melodia
ficou à cargo de João Bosco e a letra foi obra de Aldir Blanc.
 
Aldir sempre buscou dar às suas letras uma espécie de fotografia do momento
social que observava no cotidiano. Basta observar a letra da composição De
Frente Pro Crime, que nada mais fez do que retratar o nosso comportamento
diante do imaginário quadro proposto.
 
No caso de O Bêbado e a Equilibrista, tais personagens, embora se insinuem
populares, como comuns habitantes das ruas e circos, ambos foram extraídos
do interior dos autores. Onde ambos se confundem nos desequilíbrios que
povoavam as cabeças dos compositores da época.
 
Vivíamos uma ditadura militar, que buscando a reorganização social do país, 
procurava censurar a toda e qualquer tendência menos nacionalista. O 
objetivo maior dos militares era o de controlar a imprensa, que por ter nascido
no berço da queixa popular, percebeu que essa era também a melhor forma,
ou estratégia, de se vender jornais. É assim até hoje.
 
Tal censura se estendeu às obras dos artistas e aí se montou parte do cenário
da composição que trata, fundamentalmente, do sentimento do poeta diante 
dos cotidianos seu (o Bêbado) e da equilibrista (a sua Dúvida interior), que 
por não estar diante só de fatos, mas também de meras suposições vindas do
cotidiano jornalístico suspeito, acabou virando simples Esperança.
 
Caía 
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto 
Me lembrou Carlitos
 
Na época em que foi escrita a música, o Rio de Janeiro passava pela comoção
de ter observado a uma famosa queda de um viaduto, que causou muitas 
mortes. Diante do triste quadro cotidiano, o poeta se viu qual “Carlitos”, um
personagem cômico, vivido pelo ator Charles Chaplin, na época do Cinema
Mudo, cujos filmes eram, antes de tudo, voltados à comédia.
 
A lua 
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria 
Um brilho de aluguel
 
Nesta estrofe o poeta observa o céu, provavelmente à noite, e compara o
poema que estava escrevendo, às possíveis estratégias de marketing que o
mesmo poema sofreria caso virasse música, conforme o Chico Buarque já
anunciara na peça Roda-Viva.
      http://mpbsapiens.com/roda-viva-introducao/
 
E nuvens 
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco 
 
Aqui o poeta transforma a imaginária abóbada celestial, algo comum aos
Gênesis da maioria das religiões, e mistura duas épocas: A atual do poema e a
vivida por ele na infância escolar, pois, afinal, quando Aldir aprendeu a
escrever, ainda não havia Caneta Esferográfica, mas aquelas à tinta, onde as
famosas Parker eram as mais cobiçadas.
 
Tais canetas à tinta exigiam dos alunos um acessório extra nos seus pertences
didáticos: O Mata-Borrão, que servia para secar os excessos de tinta nos
textos recém escritos, pois os professores não admitiam manchas neles. Os
que mais sofriam eram os alunos canhotos.
 
Isso explica à “chupada das manchas torturadas das nuvens”, pois era mais ou
menos o aspecto que os mata-borrões usavam apresentar depois de algum
tempo de uso.
 
Já o dito “sufoco” é comum aos dois tempos do poeta: Ao da infância, diante
da cobrança escolar sobre o texto, e o da realidade ditatorial-jornalística,
diante do teor do atual texto resultante, que viraria música, se submeteria às
prostituições da indústria da fama e poderia ser ou não censurada.
 
Louco
O bêbado com chapéu coco 
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil
 
Aldir se sentia qual Carlitos, comum à época em que usava o Mata-Borrão, 
revisto no presente escrevendo sobre um mesmo país de outrora, o que 
confirma com a expressão:
 
Meu Brasil!
 
Colocada em verso único exatamente para chamar a atenção pelo que já fora
dito e pelo que viria a seguir:
 
Que sonha 
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu 
Num rabo de foguete
 
Quando foi feita a música, o poeta tinha diante dele duas imprensas: A oficial,
dos jornais, que ele aprendera a suspeitar, e a do “boca a boca” da classe
artística, que alternava certezas e incertezas. 
 
Uma das certezas era a do exílio do Betinho, consagrado defensor dos 
Direitos Humanos, e que era irmão do Henfil, famoso cartunista da época, que
habitava as páginas do jornal O Pasquim, tido, pela ditadura, como um 
tablóide com alto teor subversivo, embora cômico.
 
Chora 
A nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses 
No solo do Brasil
 
Diante daquela onda de exílios de artistas, oficiais ou voluntários, o poeta tenta
descrever à possível tristeza, comum a ele e ao povo, só que de forma bem
interessante, misturando as essências de possíveis viúvas às das comuns
prostitutas. Os nomes Maria e Clarice eram bem usados tanto por prostitutas
do Rio quanto de São Paulo.
 
Mas sei 
Que uma dor assim pungente 
Não há de ser inutilmente
A esperança 
 
Existia uma triste realidade, mas o poeta não concordava em fazer do seu
poema um objeto de queixa, e, sim, de possíveis dias melhores, ainda que
baseado somente na suspeita Esperança.
 
Dança 
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha 
Pode se machucar
 
Aqui ele reforça as suas suspeitas, diante apenas da certeza que os Ser e 
Parecer do poeta se equilibravam numa finíssima linha imaginária, que poderia
consagrá-lo ou extinguí-lo, de acordo com as conveniências militares ou
jornalísticas da época.
http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-claro-enigma/
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
 
Confirma que tudo não passava de um Jogo de “Azar”, apesar da Esperança
ter ficado consagrada como exímia equilibrista no circo da vida social, logo,
sempre haveria um lugar para o seu instrumento predileto: O Artista.
 
Acredito que O Bêbado e a Equilibrista tenha servido como parte do Mote 
que levou Chico a escrever, anos após, a música Vai Passar, onde procurou
dar uma idéia mais ancestral do que ocorreu com a “Pátria-Mãe Gentil”, do 
Aldir, comparada à “Pátria-Mãe tão distraída”, dele.
 
Encerrando, se o Aldir pôde usar as imaginárias prostituições da Roda-Viva
dele, porque o Chico não poderia usar-se da mesma Pátria-Mãe, também 
“subtraída” comum às realidades artísticas de ambos?
http://mpbsapiens.com/vai-passar-analise-de-texto/
 
 

         .

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Vai Passar e o Chico Político

 

Muito já se comentou que parte da obra do Chico estivesse relacionada à 
política. É preciso ter em vista que Chico foi filho de um consagrado 
Historiador Social, Sergio Buarque de Hollanda, quando sabemos que a 
maioria de nós, em alguma fase da vida, buscou dar continuidade às atitudes 
dos nossos pais, logo, creio que certas músicas dela não estivessem próximas 
do significado de Política, mas mais adequadas ao de Sociologia, posto que as
letras do Chico sempre tenderam à tradução dos nossos comportamentos 
pessoal e social.
 
Duas das composições mais consagradas por tal engano conceitual foram 
Apesar de Você e Vai Passar. Segundo a imprensa, e sabe-se lá quem mais, 
Apesar de Você foi uma espécie de homenagem ao ex-presidente Médici nos 
anos 70, mas, segundo uma crônica do Mário Prata, jornalista e amigo do 
Chico, houve este episódio:
 http://mpbsapiens.com/apesar-de-voce-analise-de-texto/
No princípio dos anos 70, em algum show não específico do Chico, a multidão
insistia que ele cantasse Apesar de Você e ele se recusava. Em dado momento
houve um silêncio na platéia. Foi quando uma senhora, posicionada numa 
fileira próxima ao palco, bradou a Chico:
 
- Seja corajoso meu filho, cante!
 
Tal senhora era ninguém menos do que Dona Maria Amélia, mãe dele. Apesar
Dela, Chico preferiu não cantar a música, mas, mesmo não cantando, após o 
show foi detido e levado para interrogatório em algum distrito adjacente.
 
Em tal interrogatório perguntou:
 
 - Vocês entendem agora o porque da letra? Emendando em seguida:
 
 - Ela sempre foi assim, desde que eu era criança, e desconfio até que muito 
do que escrevo hoje em dia se deve à influência repressiva dela na minha 
educação!
 
Comovidos com a situação familiar do Chico, os interlocutores encerraram o 
interrogatório por ali mesmo e ele pode seguir o caminho sossegado.
 
Além de escrever bem como poucos, Chico sempre foi um gozador nato, e o 
episódio acima, descrito por Prata, foi apenas mais um exemplo da sua 
agilidade mental na criação das histórias musicais que povoaram as nossas 
cabeças por anos.
 
Existe um pensamento do jogador, Robinho, que se encaixa muito bem ao 
comportamento do Chico como compositor musical:
 
 - Voltei a atuar no Brasil para recuperar a alegria de jogar futebol!
 
Chico é com a Palavra o mesmo que Robinho é com a Bola de Futebol: 
Precisa da Alegria para traduzir pelas palavras às nossas emoções 
comportamentais. Suponho até que escreva sorrindo um drama 
comportamental cujo normal resultado em nós seja o choro.
 
Com a filosofia, resultante em nós, Chico tem a mesma responsabilidade do 
Robinho, cujo drible resulte ou não em gol comemorado:
 
Ambos fazem as suas partes, independente do que sintamos, pois basta 
estarem felizes com o que fazem para que nós sejamos os premiados.
 
Quanto ao Vai Passar foi um samba enredo gravado pelo Chico muitos anos 
depois de feita a melodia que, segundo o parceiro Francis Hime, começou a 
ser elaborada nos primeiros ensaios das parcerias dele com o Chico, em 1972 
com a composição Atrás da Porta.
 
Não se pode precisar a época em que a letra foi escrita.  De 72 a 84, 
conforme consta oficialmente no songbook da cia. das letras, que é muito 
suspeito pela série de adequações dadas à cronologia da obra. Cabe qualquer 
época, inclusive aquela em que o Chico escreveu o seu primeiro livro oficial: 
Fazenda Modelo – uma novela pecuária.
 http://mpbsapiens.com/fazenda-modelo-novela-pecuaria/
A letra de Vai Passar é uma espécie de enredo sobre a História sócio 
econômica do Brasil nos anos 50, conforme o próprio Chico sugeriu em 
entrevista, ao associá-la à letra de Dr. Getúlio, cuja melodia, pertencente a 
Edu Lobo, também lhe foi entregue  bem antes do samba ser oficialmente 
gravado.
 
O final dos anos 60 e começo dos 70 foi um período muito conturbado. 
Qualquer coisa que se gravasse, na época, ao invés de ser associada à 
essência do que Chico tentou transmitir na peça Roda Viva, era 
automaticamente voltada contra os militares pelas conveniências da imprensa.
 http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/
Esse foi o motivo pelo qual, acredito, tanto Vai Passar quanto Dr. Getúlio 
terem ficado tanto tempo à espera da gravação oficial.
 
Podem reparar que Vai Passar só apareceu no mesmo LP que continha Pelas 
Tabelas, essa sim, com alguma aparência política, por ser baseada no 
movimento Diretas Já, em que a letra mostra Chico com todas as suas 
indecisões: “Claro que ninguém se toca com minha aflição”. Apoiar ou não 
àquela folia democrática, elaborada pela Turma Invisível e propagada pela 
Turma Visível, ambas da globo?
 http://mpbsapiens.com/pelas-tabelas-analise-de-texto/
Qualquer um que se disponha a estudar um pouco da História Econômica do 
Brasil verá que a nossa primeira dívida externa foi contraída por Pedro I junto
à casa britânica dos Rotschild. Verá que essa dívida só foi paga integralmente 
pelo Getúlio 130 anos após, ficando o Brasil, por pouco tempo, livre da 
agiotagem dos credores internacionais.
 
Essa liberdade econômica, que nos permitiu até emprestar dinheiro aos demais
países sul americanos na época, teve vida breve, pois ao assumir o poder, JK 
contraiu novas dívidas, com credores americanos, tanto para a construção de 
Brasília quanto para justificar a abertura das portas do país para a entrada da 
multinacional indústria automobilística, cujos carros necessitavam de asfalto.
 
Não tínhamos uma realidade automobilística notável. Nossos veículos eram 
todos importados, accessíveis somente às classes média e alta da sociedade. 
Por outro lado, tínhamos dois outros sistemas de transporte em franca 
evolução: Ferroviário e Hidroviário. Não precisa ser muito velho para lembrar. 
Eu mesmo tinha o hábito de brincar de nadar, no rio Tietê, ao redor das 
embarcações, cargueiras ou de passageiros, que passavam atrás do clube
Corinthians e iam descarregar no porto da Ponte Grande, junto ao Clube de 
Regatas Tietê.
 
A ferroviária Estação da Luz ficava, e ainda fica, logo ao lado, prontinha para 
receber cargas ou passageiros dos barcos e remetê-los aos respectivos 
destinos: Tanto ao interior quanto ao Porto de Santos, quer para embarcarem 
como exportações, quer para gozarem férias no litoral.
 
Poderíamos até demorar um pouco mais do que os paises mais “civilizados” para 
enveredarmos pelas trilhas da Indústria Automobilística, mas o faríamos com a 
direção do país nas próprias mãos, e nunca à mercê dos grandes agiotas 
internacionais que nos manipulam a Cultura e a História até hoje por seus 
veículos de comunicação.
 
Chico, alguns anos mais velho do que eu, certamente testemunhou a tudo isso 
ocorrendo em São Paulo. Tanto o fez, que a composição, que o mesmo 
reconheceu como primeira do seu estilo contestador foi Pedro Pedreiro, que 
retrata parcialmente os resultados daquela arrazoada migração do norte e 
nordeste para São Paulo no princípio dos anos 60.
 
Em síntese, Fazenda Modelo conta a história de Juvenal, o Bom Boi, que 
resolveu construir no plano alto central da fazenda a sede dos seus sonhos: A 
Juvenópolis, mas para atingir tal meta teve que se sujeitar aos chamados 
“Invisíveis”, cujos nomes começavam todos pela letra K. Klaus, Kleber, 
Krieger, Katazan etc.
 
Acho que esteja meio óbvia a associação do presidente Juscelino Kubitscheck
 ao Juvenal, dos Kás Invisíveis, presentes em Fazenda Modelo: J + K; bem 
como Brasília ser a Juvenópolis do plano alto central da fazenda. É muito 
difícil associar?
 
Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade
Essa noite vai se arrepiar
 
Na Velha Cidade do Rio de Janeiro os desfiles das escolas de samba 
ocorriam na Avenida Presidente Vargas, cujo calçamento era feito em
paralelepípedos (Oh, quanta coincidência!).
 
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
 
Muitos sambas se perpetuaram, mas muita gente sangrou para que 
sambássemos com os pés livres, ao mesmo tempo em que muitos ancestrais 
nossos “sambaram” nas mãos dos credores internacionais. Mas, quando?
 
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
 
A forma mais fácil de desbotar a memória das futuras gerações é confundir a 
sua trajetória do passado. O que começou a ocorrer conosco mais fortemente 
na segunda metade da década de 50 com a chegada dos novos moldes 
americanos da imprensa.
 
Vejam o que Chico escreveu em Dr. Getúlio:
 
Lutando contra grupos financeiros
E altos interesses internacionais
 
Agora vejam como ele tratou do mesmo assunto, continuando em Vai Passar:
 
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
 
Notem a interessante coincidência da Juvenópolis, de Fazenda Modelo, 
com o “posterior” Vai Passar:
 
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitente
Erguendo Estranhas Catedrais
 
A Nova História, com os novos “Tapa Olhos” da imprensa, estava resumindo 
cada vez mais as nossas raízes culturais ao Carnaval, uma fértil reserva 
comercial que atuava no mesmo povo que construiu Brasília e foi transferido 
para São Paulo para justificar parcialmente ao atual caos habitacional dessa 
Orgulhosa Megalópole. . Assim:
 
E um dia afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O Carnaval, o carnaval
 
Personagens da nossa História se tornavam elementos banais dessa nova raiz 
cultural desta forma:
 
Palmas pra ala dos Barões Famintos
O bloco dos Napoleões Retintos
E os Pigmeus do Bulevar
 
Tivemos na História os riquíssimos Barões do Café ficando duros subitamente 
por conta das especulações financeiras do produto por mãos de financistas 
do capital externo.
 
Quando Getúlio chegou ao poder em 1930, o fez com o apoio dos chamados 
Integralistas, cujo extremo nacionalismo lhes rendeu o apelido de Novos 
Napoleões, que Chico, por questões de rima, chamou de Napoleões Retintos.
 
Pigmeus do Bulevar foi um apelido que Chico deu aos chamados Novos Ricos
que habitaram as residências luxuosas das grandes avenidas (Bulevar) à partir 
dos anos 40. Grandes fortunas nas mãos de Pigmeus Sociais.
 
Meu Deus vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai que vida boa olerê
Ai que vida boa olará
O estandarte do Sanatório Geral
Vai Passar.
 
Tudo transformado numa Festa de Sonhos, tão atingíveis quanto o significado 
integral dos termos Liberdade, Lei, Ordem…; comuns ao Sanatório Geral do
Carnaval.
 
Vai Passar foi um peculiar estudo da História Recente do Brasil, que apenas 
mostrou estar a ilusão social acima dos presidentes e seus respectivos partidos
políticos, justificados pelos votos que os elege e alimentados pelas próprias
trajetórias posteriores às urnas.
 
Ando com minha cabeça já Pelas Tabelas
Claro que ninguém se toca com minha aflição…
 

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