| Muito já se comentou que parte da obra do Chico estivesse relacionada à |
| política. É preciso ter em vista que Chico foi filho de um consagrado |
| Historiador Social, Sergio Buarque de Hollanda, quando sabemos que a |
| maioria de nós, em alguma fase da vida, buscou dar continuidade às atitudes |
| dos nossos pais, logo, creio que certas músicas dela não estivessem próximas |
| do significado de Política, mas mais adequadas ao de Sociologia, posto que as |
| letras do Chico sempre tenderam à tradução dos nossos comportamentos |
| pessoal e social. |
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| Duas das composições mais consagradas por tal engano conceitual foram |
| Apesar de Você e Vai Passar. Segundo a imprensa, e sabe-se lá quem mais, |
| Apesar de Você foi uma espécie de homenagem ao ex-presidente Médici nos |
| anos 70, mas, segundo uma crônica do Mário Prata, jornalista e amigo do |
| Chico, houve este episódio: |
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| No princípio dos anos 70, em algum show não específico do Chico, a multidão |
| insistia que ele cantasse Apesar de Você e ele se recusava. Em dado momento |
| houve um silêncio na platéia. Foi quando uma senhora, posicionada numa |
| fileira próxima ao palco, bradou a Chico: |
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| - Seja corajoso meu filho, cante! |
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| Tal senhora era ninguém menos do que Dona Maria Amélia, mãe dele. Apesar |
| Dela, Chico preferiu não cantar a música, mas, mesmo não cantando, após o |
| show foi detido e levado para interrogatório em algum distrito adjacente. |
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| Em tal interrogatório perguntou: |
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| - Vocês entendem agora o porque da letra? Emendando em seguida: |
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| - Ela sempre foi assim, desde que eu era criança, e desconfio até que muito |
| do que escrevo hoje em dia se deve à influência repressiva dela na minha |
| educação! |
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| Comovidos com a situação familiar do Chico, os interlocutores encerraram o |
| interrogatório por ali mesmo e ele pode seguir o caminho sossegado. |
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| Além de escrever bem como poucos, Chico sempre foi um gozador nato, e o |
| episódio acima, descrito por Prata, foi apenas mais um exemplo da sua |
| agilidade mental na criação das histórias musicais que povoaram as nossas |
| cabeças por anos. |
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| Existe um pensamento do jogador, Robinho, que se encaixa muito bem ao |
| comportamento do Chico como compositor musical: |
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| - Voltei a atuar no Brasil para recuperar a alegria de jogar futebol! |
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| Chico é com a Palavra o mesmo que Robinho é com a Bola de Futebol: |
| Precisa da Alegria para traduzir pelas palavras às nossas emoções |
| comportamentais. Suponho até que escreva sorrindo um drama |
| comportamental cujo normal resultado em nós seja o choro. |
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| Com a filosofia, resultante em nós, Chico tem a mesma responsabilidade do |
| Robinho, cujo drible resulte ou não em gol comemorado: |
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| Ambos fazem as suas partes, independente do que sintamos, pois basta |
| estarem felizes com o que fazem para que nós sejamos os premiados. |
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| Quanto ao Vai Passar foi um samba enredo gravado pelo Chico muitos anos |
| depois de feita a melodia que, segundo o parceiro Francis Hime, começou a |
| ser elaborada nos primeiros ensaios das parcerias dele com o Chico, em 1972 |
| com a composição Atrás da Porta. |
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| Não se pode precisar a época em que a letra foi escrita. De 72 a 84, |
| conforme consta oficialmente no songbook da cia. das letras, que é muito |
| suspeito pela série de adequações dadas à cronologia da obra. Cabe qualquer |
| época, inclusive aquela em que o Chico escreveu o seu primeiro livro oficial: |
| Fazenda Modelo – uma novela pecuária. |
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| A letra de Vai Passar é uma espécie de enredo sobre a História sócio |
| econômica do Brasil nos anos 50, conforme o próprio Chico sugeriu em |
| entrevista, ao associá-la à letra de Dr. Getúlio, cuja melodia, pertencente a |
| Edu Lobo, também lhe foi entregue bem antes do samba ser oficialmente |
| gravado. |
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| O final dos anos 60 e começo dos 70 foi um período muito conturbado. |
| Qualquer coisa que se gravasse, na época, ao invés de ser associada à |
| essência do que Chico tentou transmitir na peça Roda Viva, era |
| automaticamente voltada contra os militares pelas conveniências da imprensa. |
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| Esse foi o motivo pelo qual, acredito, tanto Vai Passar quanto Dr. Getúlio |
| terem ficado tanto tempo à espera da gravação oficial. |
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| Podem reparar que Vai Passar só apareceu no mesmo LP que continha Pelas |
| Tabelas, essa sim, com alguma aparência política, por ser baseada no |
| movimento Diretas Já, em que a letra mostra Chico com todas as suas |
| indecisões: “Claro que ninguém se toca com minha aflição”. Apoiar ou não |
| àquela folia democrática, elaborada pela Turma Invisível e propagada pela |
| Turma Visível, ambas da globo? |
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| Qualquer um que se disponha a estudar um pouco da História Econômica do |
| Brasil verá que a nossa primeira dívida externa foi contraída por Pedro I junto |
| à casa britânica dos Rotschild. Verá que essa dívida só foi paga integralmente |
| pelo Getúlio 130 anos após, ficando o Brasil, por pouco tempo, livre da |
| agiotagem dos credores internacionais. |
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| Essa liberdade econômica, que nos permitiu até emprestar dinheiro aos demais |
| países sul americanos na época, teve vida breve, pois ao assumir o poder, JK |
| contraiu novas dívidas, com credores americanos, tanto para a construção de |
| Brasília quanto para justificar a abertura das portas do país para a entrada da |
| multinacional indústria automobilística, cujos carros necessitavam de asfalto. |
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| Não tínhamos uma realidade automobilística notável. Nossos veículos eram |
| todos importados, accessíveis somente às classes média e alta da sociedade. |
| Por outro lado, tínhamos dois outros sistemas de transporte em franca |
| evolução: Ferroviário e Hidroviário. Não precisa ser muito velho para lembrar. |
| Eu mesmo tinha o hábito de brincar de nadar, no rio Tietê, ao redor das |
| embarcações, cargueiras ou de passageiros, que passavam atrás do clube |
| Corinthians e iam descarregar no porto da Ponte Grande, junto ao Clube de |
| Regatas Tietê. |
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| A ferroviária Estação da Luz ficava, e ainda fica, logo ao lado, prontinha para |
| receber cargas ou passageiros dos barcos e remetê-los aos respectivos |
| destinos: Tanto ao interior quanto ao Porto de Santos, quer para embarcarem |
| como exportações, quer para gozarem férias no litoral. |
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| Poderíamos até demorar um pouco mais do que os paises mais “civilizados” para |
| enveredarmos pelas trilhas da Indústria Automobilística, mas o faríamos com a |
| direção do país nas próprias mãos, e nunca à mercê dos grandes agiotas |
| internacionais que nos manipulam a Cultura e a História até hoje por seus |
| veículos de comunicação. |
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| Chico, alguns anos mais velho do que eu, certamente testemunhou a tudo isso |
| ocorrendo em São Paulo. Tanto o fez, que a composição, que o mesmo |
| reconheceu como primeira do seu estilo contestador foi Pedro Pedreiro, que |
| retrata parcialmente os resultados daquela arrazoada migração do norte e |
| nordeste para São Paulo no princípio dos anos 60. |
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| Em síntese, Fazenda Modelo conta a história de Juvenal, o Bom Boi, que |
| resolveu construir no plano alto central da fazenda a sede dos seus sonhos: A |
| Juvenópolis, mas para atingir tal meta teve que se sujeitar aos chamados |
| “Invisíveis”, cujos nomes começavam todos pela letra K. Klaus, Kleber, |
| Krieger, Katazan etc. |
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| Acho que esteja meio óbvia a associação do presidente Juscelino Kubitscheck |
| ao Juvenal, dos Kás Invisíveis, presentes em Fazenda Modelo: J + K; bem |
| como Brasília ser a Juvenópolis do plano alto central da fazenda. É muito |
| difícil associar? |
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| Vai passar |
| Nessa avenida um samba popular |
| Cada paralelepípedo da velha cidade |
| Essa noite vai se arrepiar |
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| Na Velha Cidade do Rio de Janeiro os desfiles das escolas de samba |
| ocorriam na Avenida Presidente Vargas, cujo calçamento era feito em |
| paralelepípedos (Oh, quanta coincidência!). |
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| Ao lembrar |
| Que aqui passaram sambas imortais |
| Que aqui sangraram pelos nossos pés |
| Que aqui sambaram nossos ancestrais |
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| Muitos sambas se perpetuaram, mas muita gente sangrou para que |
| sambássemos com os pés livres, ao mesmo tempo em que muitos ancestrais |
| nossos “sambaram” nas mãos dos credores internacionais. Mas, quando? |
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| Num tempo |
| Página infeliz da nossa história |
| Passagem desbotada na memória |
| Das nossas novas gerações |
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| A forma mais fácil de desbotar a memória das futuras gerações é confundir a |
| sua trajetória do passado. O que começou a ocorrer conosco mais fortemente |
| na segunda metade da década de 50 com a chegada dos novos moldes |
| americanos da imprensa. |
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| Vejam o que Chico escreveu em Dr. Getúlio: |
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| Lutando contra grupos financeiros |
| E altos interesses internacionais |
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| Agora vejam como ele tratou do mesmo assunto, continuando em Vai Passar: |
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| Dormia |
| A nossa pátria-mãe tão distraída |
| Sem perceber que era subtraída |
| Em tenebrosas transações |
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| Notem a interessante coincidência da Juvenópolis, de Fazenda Modelo, |
| com o “posterior” Vai Passar: |
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| Seus filhos |
| Erravam cegos pelo continente |
| Levavam pedras feito penitente |
| Erguendo Estranhas Catedrais |
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| A Nova História, com os novos “Tapa Olhos” da imprensa, estava resumindo |
| cada vez mais as nossas raízes culturais ao Carnaval, uma fértil reserva |
| comercial que atuava no mesmo povo que construiu Brasília e foi transferido |
| para São Paulo para justificar parcialmente ao atual caos habitacional dessa |
| Orgulhosa Megalópole. . Assim: |
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| E um dia afinal |
| Tinham direito a uma alegria fugaz |
| Uma ofegante epidemia |
| Que se chamava carnaval |
| O Carnaval, o carnaval |
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| Personagens da nossa História se tornavam elementos banais dessa nova raiz |
| cultural desta forma: |
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| Palmas pra ala dos Barões Famintos |
| O bloco dos Napoleões Retintos |
| E os Pigmeus do Bulevar |
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| Tivemos na História os riquíssimos Barões do Café ficando duros subitamente |
| por conta das especulações financeiras do produto por mãos de financistas |
| do capital externo. |
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| Quando Getúlio chegou ao poder em 1930, o fez com o apoio dos chamados |
| Integralistas, cujo extremo nacionalismo lhes rendeu o apelido de Novos |
| Napoleões, que Chico, por questões de rima, chamou de Napoleões Retintos. |
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| Pigmeus do Bulevar foi um apelido que Chico deu aos chamados Novos Ricos |
| que habitaram as residências luxuosas das grandes avenidas (Bulevar) à partir |
| dos anos 40. Grandes fortunas nas mãos de Pigmeus Sociais. |
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| Meu Deus vem olhar |
| Vem ver de perto uma cidade a cantar |
| A evolução da liberdade |
| Até o dia clarear |
| Ai que vida boa olerê |
| Ai que vida boa olará |
| O estandarte do Sanatório Geral |
| Vai Passar. |
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| Tudo transformado numa Festa de Sonhos, tão atingíveis quanto o significado |
| integral dos termos Liberdade, Lei, Ordem…; comuns ao Sanatório Geral do |
| Carnaval. |
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| Vai Passar foi um peculiar estudo da História Recente do Brasil, que apenas |
| mostrou estar a ilusão social acima dos presidentes e seus respectivos partidos |
| políticos, justificados pelos votos que os elege e alimentados pelas próprias |
| trajetórias posteriores às urnas. |
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| Ando com minha cabeça já Pelas Tabelas |
| Claro que ninguém se toca com minha aflição… |
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