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Sabiá-Análise de Texto

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   Vídeo de Tauil          
Já morando na Itália, Chico e Marieta acabaram por hospedar Toquinho com eles. Ao mesmo tempo em que eram amigos, desde a época pré festivais, Toquinho também era parceiro de Vinícius de Moraes nas composições musicais.
Desconfio até que a presença do Toquinho lá pela Itália, junto com o casal, tenha vindo de algum acordo do pai do Chico com o amigo Vinícius, ambos preocupados com seus filhos natural e “adotado”.
Como diplomata, o constante trânsito internacional dava a Vinícius a categoria de “Eterno Exilado”, e tal aspecto permitiu que se prestasse como uma espécie de Correio Confiável, já que por aqui, na época, a correspondência vinda de qualquer suspeito era digna de censura.
Para se ver a falta de estrelismo de alguns compositores, que se sabiam nobres, Tom Jobim mandou por Vinícius uma fita contendo uma melodia para que Chico a recheasse com letra. Sugeriu a um velho parceiro, e consagrado poeta, que pedisse a outro poeta o favor de letrar a melodia?
Sem qualquer constrangimento, Vinícius levou a fita contendo a melodia do Jobim e entregou ao Chico, conforme combinado.
Para entender o conteúdo do recheio que Chico deu à melodia do Jobim, convém lembrar um pouco da realidade em que ele se encontrava na ocasião:
1 – Tinha saído do Brasil por vontade própria.
2 – Tal exílio espontâneo, como já suspeitei nos posts anteriores, tinha começado, de forma interior, quando ainda morava por aqui.
3 – Por mais que não gostasse da nossa situação social, tinha saudades da terra, o que é comum aos nativos.
4 – Quando se está longe de casa, lembra-se primeiro dos estandartes culturais da História, associando-os à realidade presente no novo habitat.
Creio que baste. Como estava exilado, ainda que de forma espontânea, ao abandonar uma realidade social que não satisfazia, a saudade nativa buscou na nossa literatura um poema de Gonçalves Dias, 1847, famoso pelos versos iniciais, só se lembra mais destes: 
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá… 
Talvez pelo fato de ter um texto exagerado em nacionalismo, o poema, para os jovens das décadas de 50, 60 e 70; era bem chato e nem um pouco memorizável. Justamente por esse motivo só os quatro primeiros versos bastavam para justificar o Sabiá do Chico, acontece que ele costumava ler os poemas inteiros, e esse, que tem o interessante nome de Canção do Exílio, apresenta também estes versos:
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá
 
Em termos do contexto direto de Sabiá, tais versos pouco somariam à conceituação:
- Tudo bem, ele não morreu e sabia que iria “Voltar”, como disse muitas vezes desde o primeiro verso!
 Quem assim pensasse estaria cometendo um grave engano, pois o universo literário do Chico é capaz de buscar informações em diversas partes, tais como nestes versos:
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá…
 
Ocorre que esses versos, de Guilherme de Almeida, além de dois deles serem iguais aos da Canção do Exílio, são também parte do Hino da FEB (Força Expedicionária Brasileira).
Estaria a engenhosidade do Chico se divertindo com os marionetes militares que deixara no Brasil?
Pode até ter ocorrido isso, mas a coisa fica mais interessante quando a História conta que os Expedicionários ficaram mais conhecidos pela tomada do Monte Castela, na Segunda Guerra Mundial, e tal monte ficava na mesma Itália que Chico escolhera para o Auto-Exílio Oficial.
Pode ser até que Chico não tivesse construído a letra de Sabiá com essa idéia na cabeça, mas que ela existiu, não tenho dúvidas, pois é História Oficial aceita até por quem costuma ilustrá-la com lindos “Passarinhos”, a imprensa. 
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
      
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra de uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia
     
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos de me enganar
Como fiz enganos de te encontrar
Como fiz estradas de me perder
Fiz de tudo e nada e te esquecer
     
Repete a primeira estrofe 
Sabiá concorreu num festival de 1968, interpretada por Cynara e Cybele, que teve também a composição Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores (Geraldo Vandré). 
Suspeitando encrencas com a censura e sem avisar o Chico, Jobim adicionou uma estrofe no final: 
Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida já vai chegar
E que a solidão vai se acabar – bis  
Talvez, graças a isso Sabiá passou de fase, porém, se compararmos o texto extra com o anterior, notaremos que o segundo tornou o primeiro apenas uma espécie de desabafo e jogou o Chico Letrista num time bem comum à época da ditadura: A turma do Eu Te Amo Meu Brasil!
 Sem saber de nada, Chico voltou ao Brasil para a finalíssima e encarou a um auditório em alvoroço e protesto. Ainda sem saber de nada, ficou lá em pé, feito bobo, escutando, ao que dava para se escutar da doce interpretação, debaixo da maior vaia da história dos festivais. Escutou a estrofe extra de Jobim, virou as costas e voltou pra Itália.     
Quem me contou o ocorrido foi Ana Buarque, irmã dele, depois que eu disse a ela ter estranhado o final da composição. Primeiro porque  apresentou, pela primeira vez, uma repetição de rimas já usadas por Chico em Carolina, e segundo por não ser do seu estilo ferir e fazer curativo na mesma composição.
Chico não usa uma rima de duas palavras mais de uma vez. Triste com Existe, em final de verso e com a mesma ordem, pertencem só à Carolina. Podem ocorrer numa cruzada, mas nunca em final. Quanto às guerras nas composições, sempre atira depois e ainda se faz de arrependido.
 Para a minha sorte, consegui um compacto do Vandré assim que saiu, o que aconteceu logo depois da primeira apresentação na fase  classificatória. Eu estava lá no festival. Procurei algum panfleto com as letras, não consegui e pensei:
- Pôrra, lá em S.Paulo nunca foi assim, pois o que mais faziam era propaganda em panfletos que continham as letras das composições concorrentes!
Ao escutar o disco estranhei um grupo de pessoas aplaudindo à fatídica terceira estrofe:  
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão… 
…antes mesmo de Vandré começar a cantá-la.               
Se não havia panfleto algum com as letras, como é que aquele grande grupo sabia do conteúdo da terceira estrofe antes mesmo de ser iniciada? Será que algum Anjo os havia contratado para baterem palmas?
Era somente um fragmento do texto, pois no restante dele Vandré incluiu os militares no mesmo barco em que estávamos.
Aliás, a obra do Vandré foi fundamental para o desenvolvimento do enredo, anterior e posterior, da do Chico. Assim sendo, colocarei, neste ponto cronológico da MPB, a essência filosófica do Vandré como Premissas responsáveis pelas Conclusões do Chico, que em algumas composições respondeu nitidamente a Vandré e vice-versa.
A análise de Sabiá continuará depois, visto que gerou uma outra Novela da MPB com um rico diálogo cultural dos dois maiores pensadores sócio-musicais da época:
- Quem pode garantir que o próprio Sabiá não foi uma carta filosófica do Chico, endereçada ao Vandré, como resposta a uma possível cobrança deste, numa espécie de tira-teima do Festival de 1966, quando empataram com A Banda e Disparada?
Ambos eram grandes compositores, e por se suspeitarem assim, estendiam suas grandezas à Ética e à Elegância, qualidades natas dos que se sabem nobres e se bastam.
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Ponteio (Capinam-Edu Lobo)-Análise de Texto

Festival de 1967
Dando continuidade ao post matriz, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma, aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas no festival da Record de 1967, convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência poética, e o Parecer, que é a postura social do poeta  diante da fama.
Descritas as três composições posteriores, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria, a composição vencedora foi Ponteio, escrita por Capinam, sobre uma melodia de Edu Lobo, que junto com Marília Medalha foi o intérprete oficial.
Convém lembrar que Edu já era um ganhador de festivais, o primeiro deles, da TV Excelsior em 1964, com Arrastão, quando teve a honra de compor sobre uma letra de Vinícius de Moraes, e a sorte de contar com uma intérprete, ainda meio desconhecida, mas de retumbante sucesso posterior: Elis Regina.
Embora Arrastão tenha ganho um histórico pioneiro e próprio no cenário artístico nacional, teve por trás, nos bastidores familiares, toda uma Ética, infelizmente degradada ao longo dos anos, e hoje praticamente extinta.
Nos dias posteriores, e próximos à consagração da composição, houve uma entrevista com Fernando Lobo, pai do Edu, também poeta,  compositor e amigo do Vinícius. Quando perguntado o que achava de tudo aquilo, respondeu secamente com outra pergunta:
- Você está entrevistando o Pai do Edu Lobo?
Meio sem jeito, o entrevistador disse que sim, e ao fazê-lo escutou, também secamente, o seguinte:
- Graças ao amigo Vinícius eu sou o maior vencedor!
Meio sem entender, o entrevistador parou com as perguntas.
Mas o que essa entrevista deixou de útil à MPB?
Apenas a certeza de que ela, a MPB, era tratada, acima de tudo, por Cavalheiros, cuja Ética não era disposta em Códigos. Apenas resultava da Elegância Nata, proveniente da Educação Comum, que tinha o Atavismo como óbvio resultado:
- O filho deixar de ser conhecido pelo nome do pai, para este ser mais conhecido pelo nome do filho!
Fernando Lobo, a partir de Arrastão, conseguira ser mais conhecido como “O Pai do Edu Lobo”. Daí a resposta dele, em pergunta, a outra pergunta.
Do Arrastão, com o Vinícius, Edu passou pra Arena Conta Zumbí, com o Guarnieri e ganhou certa fama.
As quatro composições, todas voltadas às denúncias, que misturavam os conceitos de protesto social e artístico – Militares e Imprensa, respectivamente – apresentaram estilos diferentes e apropriados a cada compositor. Caetano foi o poeta surpreso com uma banca de jornais. Chico tentando se livrar do rótulo Unanimidade Nacional. Gil mostrando todo o sofrimento do poeta-narrador, ao fotografar uma cena comum ao cotidiano dos conterrâneos em terras distantes.
Podem perceber que os pesos dos textos foram fundamentais na ordem das colocações: A Surpresa Leve do Caetano em quarto, a Denúncia Cifrada do Chico em terceiro e o Sangue do Gil em segundo.
Embora tivéssemos, cada qual à sua maneira, parte dessas essências vistas, comum aos nossos sentimentos interiores, faltava uma “pegada” mais forte, no conjunto Letra e Melodia, capaz de impressionar-nos. A receita vencedora já era conhecida, mas somente o Capinam e o Edu enxergaram, quando deram à composição a pegada da Disparada do Vandré e do Théo, voltando o texto mais à realidade do artista do que a do povo. Não deu outra: Troféu em Casa! 
Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro…
    
Era um, era dois, era cem
Vieram prá me perguntar:
- Ô voce, onde vai
De onde vem?
Diga logo o que tem
Prá contar…
    
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e não via
Nem sombra, nem sol
Nem vento…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar…(4x)
    
Prá cantar!
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro…
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar…
    
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola
Ponteio!
Meu canto não posso parar
Não!…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar, prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Pontiarrrrrrrr!
    
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro
Quase meio
Encerrar meu cantar
Já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei
Por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim
Prá buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar prá cantar…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Prá cantar
Pontiaaaaarrr!…(4x)
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá Cantar!
 
Embora o texto anuncie, nas três primeiras estrofes, uma Surpresa do Ser poético com o Parecer social que o rodeava, a melodia dava à narrativa uma pegada muito mais forte, já que o quadro do Capinam estava sendo descrito por um pernambucano. Nada da leveza baiana do Caetano, pouco da frieza do Gil e nada do subjetivismo (tanto paulistano como carioca) do Chico. Uma Dura Surpresa Objetiva.
Dentro do Parecer, na época, a palavra de ordem era Engajamento, e isso colaborou muito para o texto do Refrão, quando o Ser pede socorro como um Repentista, que pouco tem a explicar sem a sua fiel companheira: A Viola.
Algo como: -Eu não sei  bem o que estão querendo de mim, com tantas perguntas e exigências de escolher um dos lados, quando não conheço nenhum deles! – Eu só sei cantar, cadê a minha viola? 
Tudo era mal explicado, “Era um dia, era claro, quase meio…”. Acusações, insultos acadêmicos, com a aparência de doutarados, frios protestos musicais, ameaças do Parecer e consequente afastamento da arte musical.
Como diria, muitos anos mais tarde, Fábio Jr.:
Muito cacique pra pouco índio
Muito papo e pouco som
Pessoas querendo ser
O que não são (ou melhor, eram)
Essa parte se encerra no reencontro do Ser Repentista com a Viola Ocultada pelo Parecer social.
Na parte final, já provido da companheira Viola, e ainda com medo dela sumir novamente, o Ser Repentista se manda rapidinho daquela realidade louca do Parecer, mas com a “quase”, ou “meia”, certeza de que um dia achará o mesmo lugar, já muito mais merecedor da sua Arte Espontânea.
Curiosamente, depois de vencer o festival, Edu Lobo e Capinam sumiram do cenário artístico, cuja Roda Viva presente começou, a partir de então, a buscar uma maneira de colocar em conflito as tendências musicais férteis da MPB, comuns aos primeiros colocados. Foi quando o confronto, Chico x Tropicalistas (Caetano e Gil eram os expoentes) começou a ser articulado pelos críticos concretistas do tablóide paulistano a Folha de São Paulo, o que será visto adiante.
Quanto ao Edu, seguiu parcialmente o que o seu Ponteio disse na despedida:
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar 
Se isolou, trocou a viola pelo piano, melhorando consideravelmente a sua concepção melódica, se tornou Maestro, Arranjador e, quinze após, a arte nos premiou, com a dupla Chico e Edu, já num outro lugar pra cantar,  em O Grande Circo Místico.
Aqueles quatro jovens compositores, sobre os quais Tom Jobim, Dorival Caymmi e, principalmente, Vinícius de Moraes, depositavam os sonhos de continuidade artística na MPB estavam sendo colocados uns contra os outros pela ação nociva de Anjos e Capetas, instrumentos comuns da Roda Viva Norte Americana, na destruição dos valores culturais dos povos a serem dominados por seu Capital Credor, já que os colonizadores anteriores, sendo somente agiotas, só haviam feito por progredir a nossa cultura, incentivando o surgimento de Toms, Caymmis e Vinícius, por exemplo.
Hoje, a MPB continua um fiel espelho do nosso quadro Social. O que mudou foi a Educação. Só isso.
Trazer uma aflição dentro do peito
É da vida um defeito
Que se extingue com a razão
(Chuvas de Verão – Fernando Lobo)

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Domingo No Parque (Gilberto Gil)-Análise de Texto

Festival de 1967
Dando continuidade ao post matriz, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma; aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas no festival da Record de 1967, convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência poética, e o Parecer, que é a postura social do poeta  diante da fama.
A segunda colocada no festival foi Domingo no Parque, do Gilberto Gil, na qual o Ser se mostrou de forma mais complexa diante do Parecer.
Pelo fato do Ser do poeta ter-se formado na Bahia, e estar em terra estranha, talvez na capital de São Paulo, tenha se manifestado disposto à narrativa do novo cotidiano, presente na realidade dos conterrâneos, chegados antes nos movimentos migratórios já vistos em Pedro Pedreiro, onde cenas semelhantes às descritas por ele eram bem comuns nos ditos “parques” da periferia, tais como os de São Miguel Paulista e Itaquera, por exemplo.
Na época em que foi composta a obra, provavelmente Gil tenha pego o mote dos jornais Última Hora ou Notícias Populares, hoje, creio, extintos em Sampa, já que os demais jornais assumiram tais estratégias editoriais. Crime vende mais. Posso até supor a manchete: 
Domingo de Sangue No Gasômetro“: Traição da mulher acabou em briga, seguida de morte, entre dois amigos, ambos residentes em São Miguel Paulista, ontem às 14 horas. Informaram os transeuntes que os corpos esfaqueados, da adúltera e do amante, abandonados próximo a um carrinho de sorvetes Kibon, ainda estavam vivos quando a Rádio Patrulha chegou ao Parque de Diversões Xangai, mas não resistiram. O feirante assassino, José de Santana encontra-se foragido, tendo os corpos da doméstica Juliana dos Santos, e do pedreiro João da Silva, sido encaminhados ao Instituto Médico Legal: 
O rei da brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!…
    
A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi prá Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi prá lá
Pra Ribeira
Foi namorar…
    
O José como sempre
No fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo
Um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio…
Foi no parque
Que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu
    
Foi que ele viu
Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João…
    
O espinho da rosa feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
    
O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Foi dançando no peito
Do José brincalhão
    
O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Foi girando na mente
Do José brincalhão
    
Juliana girando
Oi, na roda gigante
Oi, na roda gigante
O amigo João…
    
O sorvete é morango
É vermelho!
Oi, girando e a rosa
É vermelha!
Oi girando, girando
Oi, girando, girando…
    
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Juliana no chão
Outro corpo caído
Seu amigo João
    
Amanhã não tem feira
Não tem mais construção
Não tem mais brincadeira
Não tem mais confusão…
    
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Infelizmente, esse era o provável quadro social observado por Gil na ocasião, todavia, apesar da possível tristeza do poeta, testemunhando a tudo aquilo, é impressionante a frieza do Ser quando se propõe apenas a fotografar um cotidiano do Parecer, pois cada um dos personagens da tragédia foram concebidos pela cabeça do poeta.
Isso costuma deixar marcas no poeta, que mais tarde pode reagir nestas formas:
Eu vim da Bahia cantar
Mas algum dia eu volto pra lá…
Ou mesmo:
A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado…
Ah, mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ah, de um lado este carnaval
Do outro a fome total…
A exemplo do que o Caetano Veloso fez em Alegria, Alegria, quando usou um conjunto de rock para acompanhá-lo, Gilberto Gil fê-lo com Os Mutantes. Foi quando o universo artístico nacional pode testemunhar o surgimento de um dos seus ícones: Rita Lee.
Mas o que Domingo no Parque pode ter de semelhante com Roda Viva?
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Seria o mesmo que dizer:
Mas eis que chega a Roda Viva
E carrega o assunto pra lá.
Pois na terça feira o crime já teria deixado de ser um assunto Paulistano e, com certeza, duraria, no máximo, até o outro domingo em São Miguel.
O Sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?…

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Alegria, Alegria (Caetano Veloso)-Análise de Texto

Festival de 1967 
Dando continuidade ao post anterior, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma, aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas, no Festival da Record de 1967; convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência artística contida em cada poeta, e o Parecer, que é a postura social da fama do mesmo, que muitas vezes exige dele algumas tolerâncias filosóficas, comuns ao nosso cotidiano, mas contrastante com o Ser poético dele.
Tratarei inicialmente da quarta colocada, Alegria, Alegria; de Caetano Veloso: 
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…
    
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…
    
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…
    
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou…
    
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não…
    
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…
    
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…
    
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…
    
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…
    
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou…
    
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
 
Na primeira estrofe o Ser do Caetano, desprovido de qualquer identidade (sem documento) descreve o quadro que o assola, provavelmente em Sampa.
Na segunda e na terceira estrofes ele começa a dar uma idéia figurativa para a imprensa, como Sol, responsável pela “Luz da Informação” que molda o Parecer de cada um, poeta ou não.
Na quarta estrofe o Ser se revolta, com aquela calma característica dos baianos: Quem lê tanta notícia?
Na quinta ele volta a descrever o cotidiano do Parecer, cercado de notícias, comparadas às futilidades dos “amores vãos”, mas insiste em ir levando a farsa.
Na sexta e na sétima o Ser retoma a frente e se descreve no contraste Casamento x Escola e Coca-Cola; desiste e se refugia na canção que o consola daquele quadro deprimente.
Na oitava estrofe o Ser se mostra imperativo, na busca da não identidade, do não engajamento social, já que, na época, a imprensa cobrava dos artistas uma postura mais guerreira, que protestasse contra o domínio dos militares: Sem livros e sem fuzil (não quero saber da história disso tudo e tampouco pego em armas). Mais uma vez sugere estar observando o quadro em Sampa (coração do Brasil).
Na nona o Ser se mostra preocupado com um seu sentimento de amor em conflito com todas as tentações oferecidas pelo Sol do Parecer, mais propriamente os “Anjos e Capetas”, vistos por Chico na peça Roda Viva.
Na décima, o Ser chuta de vez essa disputa toda com o Parecer pra escanteio, se aloja novamente no comodismo da perda de identidade e segue adiante: Por que não?
No festival, Caetano Veloso contou com a colaboração do conjunto Beat Boys, um conjunto de rock “hermano” cujo lider era Toni Ozanah, que posteriormente fundou outro conjunto chamado Raízes de América. Teve até argentino no lance, mas com o fino toque da escola portenha.
A grande jogada, talvez ensaiada, do Caetano, e do grupo, foi a estampa do solista de órgão do conjunto, o Toyo, cuja figura lembrava, em muito, a imagem de Jesus Cristo, talvez, aproveitando o embalo do sucesso que a peça Jesus Christ Superstar fazia nos USA na ocasião, e tinha muita propaganda da imprensa no Brasil.
Tanto é verdade, que na gravação original a música começa por um solo de órgão. Basta juntar a estampa do instrumentista ao instrumento que ele tocava, muito mais comum às igrejas que aos palcos, e o resultado será o Infalível Superstar. 
É só conferir no vídeo!
- Por que não?

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Roda Viva Disparada, um Claro Enigma-Análise de Texto

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Festival de 1967
Comecei a tratar do exílio interior do Chico em Sem Fantasia, pois vejo nela a efetivação do mesmo, mas será que ele não teria dado alguma pista anterior? Quando ele teria aceitado, pra si mesmo, àquela condição subjetiva iniciada em Sem Fantasia?
Da metade dos anos 60 ao princípio dos 70 um escritor francês era muito lido pelos jovens mais dados à cultura: Jean Paul Sartre, que abordava às questões existencialistas de uma forma mais atual que Freud, até então tido como o grande parâmetro.
Creio que a obra de Sartre tenha influenciado, ou se assemelhado, ao que posteriormente Carlos Drummond de Andrade chamaria de Claro Enigma onde, em síntese, observava o poeta em dois estados de contemplação: Ser e Parecer.
O Ser era a verdade interior e o Parecer o verniz social.
Algo semelhante ao que, também na época, só que em outra vertente social, o escritor Carlos Castañeda desenvolvia com o seu gurú, o índio Don Juan. Duas Atenções: a de Espreita e a de Sonho.
A de Espreita conduzia o Parecer, a do Sonho era a essência do Ser, e o equilíbrio delas permitia ao contemplador alcançar o sucesso do Feiticeiro ou do Poeta, dá no mesmo.
Essa era a base literária, que cercava os jovens cultos da época, quando Chico escutou, em 1966, o seguinte pensamento musical: 
E no sonho que fui sonhando
As visões se clareando
Até que um dia acordei
Então não pude seguir
Valente, lugar-tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, berra engorda e mata
Mas com gente é diferente
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar…
 
(Disparada – Geraldo Vandré e Théo de Barros) 
Toda a pressão da mídia com o rótulo Unanimidade Nacional, adquirido com A Banda, o cara que empatou com ele no mesmo festival falando isso; mais Sartre, Castañeda e Drummond cercando pela literatura, só podia dar no que deu: A base literária foi o estopim da composição Roda Viva,  que a Disparada do Vandré detonou na forma de peça.
O “Simancômetro” do garoto entusiasmado ligou e o novo adulto disse o seguinte: 
Tem dias que gente se sente                           
Como quem partiu ou morreu                        
A gente estancou de repente                           
Ou foi o mundo então que cresceu                 
A gente quer ter voz ativa                
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
 
(Refrão)
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
 
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá
 
Refrão
 
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
 
Refrão
 
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade pra lá
 
Refrão (repetido e acelerando) 
Como sempre ocorrerá na obra do Chico o uso da nomenclatura dos recursos poéticos, como reforço do texto objetivo dos versos, por coincidência ou não, cada vez que observar isso citarei aqui neste espaço, pois são essenciais à análise objetiva, ficando o estudo da estrutura poética reservado ao espaço respectivo em outra postagem.
A presença da mesma rima nos versos finais das estrofes grandes (lá) já caracterizaria a composição como Lírica, cujo uso mais nobre, ao longo dos anos, por ocorrer em Oitavas, fez com que a Ciência Poética batizasse a esse tipo de estrofe com o nome de Oitava Lírica, como ocorreu em Roda Viva.
Se a rima final das oitavas já daria à Roda Viva a qualidade de Lírica, tal intenção é reforçada pelo fato de todas as oitavas terem todas os mesmos dois versos finais. Isso não foi coincidência, mas um efeito bem intencional mesmo.
É sempre necessário lembrar do significado original do termo Lírico, que mostra, acima de qualquer outro conceito, que o poeta está falando da própria vida no poema em questão. (vide Meu Refrão).
Uma outra coincidência, que observarei muitas vezes adiante, é a do uso de alteração na Métrica (comprimento do verso), ou do Ritmo Poético (tonicidades das sílabas poéticas); a chamar a atenção para algum texto objetivo de verso.
Cada verso das estrofes oitavas possui oito sílabas no comprimento, e tonicidades nas sílabas dois, cinco e oito, menos um deles, o quarto verso: Ou FOI o MUN do-en TÃO que cres CEU; que além de ser o único a possuir nove sílabas, possui um Ritmo diferente de todos os demais na obra inteira. Basta ler o texto do verso e encontraremos a qualidade “Cresceu“.
Coincidentemente, isso ocorrerá diversas vezes na obra. Ora para reforçar o sentido objetivo do texto, ora para negá-lo e assim por diante.
Outra coincidência interessante ocorre nas Rimas ao longo da estrofe. Todos os versos têm um parceiro sonoro na estrofe, mas, de repente, surge um cujo som não se apresenta em nenhum outro, havendo uma ausência de Rima.
A esse tipo de verso dá-se o nome de Verso Branco. Basta interpretarmos o texto objetivo do mesmo para, na grande maioria das vezes, termos nele alguma idéia de Solidão, embora em Roda Viva Chico não tenha usado de tal coincidência.
Além do já visto até aqui, Chico tentou um efeito poético, que buscou chamar maior atenção para a expressão Roda Viva, usando duas sílabas tônicas seguidas, algo condenável na poesia latina, mas corriqueiro na poesia grega clássica com o nome de Pé Espondeu, um pé de verso quaternário (quatro tempos) que apresenta a seguinte sequência de tonicidades no ritmo: átona-tônica-tônica-átona. Não me atreveria a dizer que foi o único poeta brasileiro da MPB a tentar isso, mas certamente foi um dos poucos. Na composição Carolina voltará a fazê-lo com o mesmo truque de alongar o tempo de duração da nota musical, normalmente Semínima trocada por Colcheia, que abriga a segunda sílaba tônica do Pé, como que dando um breque:
 mas EIS que che GA-A RO da VI va
 O texto da composição bem que poderia ser uma profecia do que viria a acontecer com a MPB nos tempos modernos, principalmente a última estrofe.
 Analise de Texto de Roda Viva (a música)
A primeira estrofe mostra o Ser do poeta atônito espreitando todo o Parecer que o cerca e exige. Aqui, aquele, até então adolescente, sente o peso da responsabilidade escalando as suas costas.
A segunda, o Refrão, se presta a explicar a atitude do Ser poético diante de toda aquela sujeira destrutiva do Parecer social, o que se repete após cada Oitava.
 A terceira já mostra o choque dos sonhos do poeta no Ser com a contrastante postura exigida pelo verniz do Parecer.
A quarta e a quinta só descrevem a destruição total, causada pelo Parecer, das bases poéticas que abrigam os motivos Ser.
A execução do Refrão no final, quando Chico e o MPB4 aceleraram as repetições, serviu para dar uma idéia da rapidez com que aquela loucura do cotidiano acelerava a poesia, que nem um trem aumentando a velocidade, aliás, Chico sempre buscou esse efeito desde o trem de Pedro Pedreiro.
Comparando todo esse resultado textual a uma composição mais recente, destinada até a motivos outros, vejam o que o compositor Peninha diz: 
Tudo era apenas uma brincadeira
E foi crescendo, crescendo e me absorvendo
E de repente eu me vi assim completamente seu… 
Foi mais ou menos isso o que aconteceu com Chico na época, em relação a Ser e Parecer, ou mesmo ao Sonho dominado pela Espreita.
Em outra época adiante, nem tão explicativo, mas igualmente pessoal, vejam o que Gilberto Gil cantou: 
Sabe, gente
    
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer
    
Sabe, gente
    
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder
    
Sabe, gente
    
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer
    
E quando escutar um samba-canção.
Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”.
Reagir e ouvir o coração responder:
    
“Eu preciso aprender a só SER.” 
     

Obs. Percebam o conceito do termo Lírico que coloquei no começo. Basta reparar na som das rimas pertencentes a cada último verso das estrofes. O poeta pode nem saber disso, mas resulta naturalmente nisso, quando o Ser fala e o Parecer cala.
Mas isso veio bem depois do Festival da Record, em 1967, no qual Chico concorreu com Roda Viva, alcançando o terceiro lugar.
A nata da MPB estava lá, nas quatro primeiras colocações. Todas realizando os sonhos de continuidade dos ancestrais, embora ainda atuantes, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi.
Curiosamente, todos os quatro compositores tratavam do mesmo assunto em suas canções, cada qual no seu estilo e linguagem. É sempre bom lembrar o que foi, e ainda é, valioso e atemporal, aqui vai cada uma das composições, mas em distintas postagens. Até lá.
                     

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