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Quando cito que a qualidade das músicas atuais do Chico deixa a desejar, diante do já feito outrora, para alguns a coisa soa meio pedante, ou mesmo reacionária, como usam dizer quando tentam não dar ao significado de Reação a idéia de corresponder a uma Ação igual e contrária, mas um rótulo de algo ultrapassado no tempo, inflexível etc; coisas de dicionário.
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Portanto, ou por menos, tentarei descrever um breve histórico da idéia.
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Nos anais e orais da MPB há um velho e consagrado pensamento de Dorival Caymmi:
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Eu nasci com o samba
No samba me criei
E do danado do samba
Nunca me separei
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No começo da carreira, em meados dos anos sessenta, Chico escreveu certa música que acabou tornando-se uma profecia para os tempos atuais:
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Os anos passaram. Muitas músicas e peças foram escritas, todas com exelentes qualidades melódica e poética, que acabaram por atingir o apogeu no musical A Ópera do Malandro, em que utizou de várias tendências musicais, tais como, Fox, Tango, Hino, Canção, Brega… A criatividade musical era tanta, que juntou trechos musicais de diversas e consagradas óperas numa só Ópera, com um texto denso, poético e adequado ao contexto.
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Chegou até a trocar farpas com o pianista húngaro Franz Lizt, autor do consagrado clássico Sonho de Amor, discordando dele na música, Viver de Amor. Reparem na melodia do primeiro verso do Lizt comparada à do verso: Ah, o amor jamais foi um sonho; da música do Chico.
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Embora o cara do vídeo do Lizt seja meio relaxado, apenas jogando o feltro atrás da tampa do piano, ao invés de colocá-lo entre ela e o móvel, foi a execução mais nítida que encontrei, já que as demais abusam dos originais floreios de piano ao redor da melodia original:
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Na ópera, Chico tomou o cuidado de iniciar e finalizar a peça com sambas: O Malandro 1 e 2.
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Aqui vai o Malandro 2, na voz de João Nogueira:
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À partir do LP Almanaque o texto dele ficou mais voltado ao seu interior, mais subjetivo, mas mesmo assim continuava agradando pelo tanto de objetividade restante.
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Em seguida veio O Grande Circo Místico, que suponho ter ele usado para tratar, basicamente, das suas impressões com a própria trajetória artística. As lindas melodias de Edu Lobo, que abandonara o violão e aprendera a compor com piano, deram o toque magistral para as letras muito bem escritas.
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Depois veio a mescla de músicas bonitas e menos bonitas, durando até a chegada do LP Francisco, que embora apresentasse bonitas letras e uma busca por novas tendências melódicas para elas, mesclou músicas maravilhosas, como Todo O Sentimento, com outras sofríveis, como Uma Menina. Todo O Sentimento é fácil de achar:
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Mas, mesmo os fãs mais ardorosos, gostaram tanto de Uma Menina que não se encontra nenhum vídeo da música na internet. Talvez, lá pelo Morro do Tuiuti tenha alguma popularidade. Por ter tal mescla nas qualidades, o LP Francisco começou a mostrar-se menos diferente da maioria da MPB, já bem assediada pelos famosos e irritantes sertanejos, com aquela “terceirinha alta” numa das vozes.
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Imagino que, num belo dia, Chico tenha sido premiado com igual melodia em samba, e a usado para anunciar-nos que não estava morto, pois, também supondo, não poderia gostar do que fizera em parte do Francisco. Como que se desculpando com o Samba, compôs:
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Vários anos passaram até que um novo pianista mostrasse a Chico uma melodia digna de maior entrega sua para a letra. Num piscar de olhos, voltou toda a criatividade do mesmo poeta, que foi buscar a velha companheira Rosa:
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Há muito tempo, um jovem sambista branco fizera uma profecia, e o Samba espalhou a notícia por todas as suas raízes.
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“O tempo passou na janela”, mas o Samba viu e cobrou. Como encerrara a Ópera do Malandro com o João Nogueira cantando, nada mais justo do que entregar o inédito samba ao filho dele, Diogo Nogueira.
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Lembrando da profecia, em algum terreiro, o Samba recrutou um Ogan, que sem saber bradou: – Gira Rosa!
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Todos “os de Branco” responderam: – Rosa êh, Rosa há!
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Num outro local, não necessariamente perto ou longe dos atabaques de tal terreiro, o egum João Nogueira “soprou” no ouvido do poeta dorminhoco, e assim o samba renasceu majestoso, pela essência negra daquele corpo branco:
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Na minha mão o coração balança
Quando ela se lança no salão
Pra esse ela bamboleia
Pra aquele ela roda a saia
Com outro ela se desfaz da sandália
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Porém depois que essa mulher espalha
Seu fogo de palha no salão
Pra quem que-ela arrasta a asa?
Quem vai lhe apagar a brasa?
Quem é que carrega a moça pra casa?
a
Sou eu
Só quem sabe dela sou eu
Quem dança com ela sou eu
Quem manda no samba sou eu
a
O coração na minha mão suspira
Quando ela se atira no salão
Pra esse ela pisca o olho
Pra aquele ela quebra o galho
Com outro ela quase cai na gandaia
a
Porém depois que essa mulher espalha
Seu fogo de palha no salão
Pra quem que-ela arrasta a asa?
Quem vai lhe apagar a brasa?
Quem é que carrega a moça pra casa?
a
Sou eu
Só quem sabe dela sou eu
Quem joga o baralho sou eu
Quem brinca na área sou eu
Na área o robário(*) sou eu
Desculpe a modéstia, sou eu
Adiós pampa mía, sou eu
Sou eu, sou eu…
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Os surgimentos da letra na internet mostram alguns contrastes. Numa página, a do Chico cantando a versão do seu último CD, há um texto final e na do parceiro, Ivan Lins, outro.
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Na do Ivan surgiu um verso que diz:” Na área o robário sou eu”. Por um lado, creio que o “robário” seja o “Romário”, num típico erro de digitação. Por outro, a imaginação fornece duas possibilidades para a ausência do verso no texto do Chico:
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1- Embora o Romário na área se encaixe bem na trama do texto, Chico, sabidamente torcedor do Fluminense, não poderia homenagear dessa forma um jogador vascaíno consagrado.
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2- O termo “Robário”, sem qualquer esforço, poderia muito bem ser “Roubário” (de Roubo), e como o termo “Penseiro” foi inventado pelo Chico quando fez Pedro Pedreiro, nada o impediria de inventar outro, também encaixado no contexto da música, pois assim como o Pedro era um pensador Penseiro, o homem que canta a música é o mesmo ladrão que “Rouba” a sua mulher dos demais homens do salão, um Roubário na área.
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A quantidade de coisas que esse cara já fez usando o Samba dá margem a tais suposições aparentemente absurdas.
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Quanto ao texto da música, penso ser bem claro e voltado ao personagem de A Rosa.
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Agora começa a análise do que sempre diferenciou Chico na MPB, com a sua entrega, ou mesmo cumplicidade, no envolvimento da objetividade do texto com a essência da Construção Poética:
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Todo o restante da composição apenas repete o que já foi visto acima.
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Temos três tipos de descrição do poeta:
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1- O narrador descrevendo as suas emoções interiores. (versos 1, 6 e 15)
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2- O narrador descrevendo a Mulher em atividade. (vs 2, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 16, 17, 18, 19)
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3- O narrador se gabando da “propriedade” sobre ela. (vs. 11, 12, 13, 14 e improvisos finais)
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No Narrador 1, os versos apresentaram idêntico comprimento, e uma cadência fraco-Forte nas sílabas (tum-TUM). Iguais a uma batida de Coração, cujo ritmo balança ou suspira pelas mãos do narrador, orgulhoso da companheira descrita no verso 6.
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No Narrador 2, os versos apresentaram variações, tanto no ritmo quanto na métrica, conforme mostram as sílabas tônicas em vermelho; iguais aos inesperados comportamentos da companheira, bem diferente dos do poeta narrador, que até tentam se libertar nos versos finais das estrofes, mas são contidos na décima sílaba.
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Observa-se também nas Quintilhas o confronto dos comportamentos de um e de outro personagem. Ele, ciente da sua emoção contida pela construção poética equilibrada. Ela, louca para se livrar de tudo que a prende ao cara: vestimentas, sandálias, moral, medidas… Louca para cair de vez na gandaia.
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Apesar dessa tendência libertária da mulher no salão, o Narrador mostra todo o seu controle da situação por conter, pelo Ritmo Poético coerente, a qualquer tentativa da companheira em se desprender das medidas, no caso, a Métrica, nos versos finais de tais estrofes.
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Feito um Jóquei Poeta controlando a sua Potranca quase indomável.
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No Narrador 3, o do Refrão, observamos que ele também tenta se mostrar tão solto quanto ela, mas o máximo que consegue é alterar o Ritmo Poético de forma equilibrada e em versos do mesmo comprimento, com pequena revelia do primeiro, menor em métrica, e paupérrimas rimas repetitivas nos finais dos versos.
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O uso das Rimas é outra característica marcante do Chico, que usa insinuar estar trabalhando com alguns Versos Brancos (sem rima) nos finais, enquanto mantém as sonoridades rimando o final de um com centro de outro verso, ou mesmo, criando Rimas de Eco dentro deles. Isso pode ser notado mais claramente nos versos 1 e 2 de cada Quintilha:
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Balança-lança; espalha-palha; suspira-atira; mão-coração-salão. Até o último verso, que se sugere sem rimas, apresenta um repetitivo vínculo sonoro com os anteriores pelas quintas sílabas, que são átonas, pois têm em comum o mesmo E, de Ela, nas fusões silábicas, além de uma pegajosa Assonância (repetição de mesma vogal ao longo do verso) com a vogal A, …elA quAse cAi nA gAndAiaA, sonoridade retomada no primeiro verso da estrofe seguinte: … espALHA; para que o enredo também se mostre submisso ao poeta.
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Nessa guerra amorosa, do fingido narrador poeta com a companheira, louca para se livrar dele também pelas rimas mais pobres, restou algo comum entre os dois: Todas as segundas sílabas foram tônicas.
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Chico adora promover esses confrontos desde Olê-Olá, onde nos iludia pelo texto sugerindo um final feliz, mas terminava a música no final triste que só ele sabia.
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Essa característica ele levou até para os romances, onde em diversas situações induz o nosso raciocínio a concluir prevendo um final, para depois mostrar que estávamos enganados.
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Chico, Francisco e o Samba nunca sumirão independentes, tampouco:
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Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una.
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Mas…
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Amanhã ninguém sabe
No peito de um cantador
Mais um canto sempre cabe…
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Ps. - É sempre útil aprender a tocar novos instrumentos, como Piano por exemplo, mas nunca abandone o Violão, para o qual diversas Profecias foram lançadas! Qualquer dia lembrarei de algumas.
a