junho 4, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça
Em seguida Benedito declama:
- Outro dia o poeta se queixou…
O poeta se queixou
Duma queixa frágil
Rouca e desanimada
De velhice
Disse da sua poesia
Suada e mal paga
E da minha tão pouca poesia
Cedo endeusada * (cita algumas homenagens recebidas pelo Chico)
Eu, carregado nos ombros do Brasil
Mas o poeta se queixou
E ninguém ouviu
O poeta se queixou
Duma queixa vã
Se alguém ouviu
Logo fingiu
E desconversou
E disse dos oitent´anos
Oitenta pesados anos
Que o poeta então cumprira
E pra bem dos meus enganos
Dormiu comigo a mentira
De que o poeta nesses anos
Perdera a lira.
O poeta se queixou
Amargamente
Mas o poeta não é amigo do rei
E o espetáculo continuou
Normalmente
Até que um dia notei
Do alto do pedestal
Um desprezo singular
Lá em baixo
Nos olhos dum homem simples
Como se as minhas glórias
Meus prateados e dourados
Fossem roubados
E talvez sejam mesmo, pensei
Da fé dos pequenos
Na igreja sem padre
No altar sem santo
No milagre desmascarado
E, no entanto
Ainda quis me defender
Ainda me expliquei
Não fui eu que comecei *
Não fui eu que me inventei *
Mas aí a festa me chamou *
E eu aceitei *
O rei me convidou *
E eu dei-lhe a mão *
O poeta se queixou
O poeta tem toda a razão
* - Para a nossa sorte, Chico ficou com o pensamento desses versos na cabeça por muito tempo. Basta notar o nome da sua peça seguinte:
Calabar, o Elogio da “Traição”.
Obs. Embora o Chico não cite qual era o velho poeta, cometeu infantilidades típicas de quem esperava que alguém assim o deduzisse.
Basta juntar alguns dados, como em 1966 a mídia rotulando o Chico como Unanimidade Nacional, a alguns trechos do poema, como Oitent´anos, ou mesmo a “amizade com o rei”, por exemplo; conferir os famosos poetas brasileiros que fizeram oitenta anos em 1966 e comparar os textos deles com o do poema declamado pelo Benedito. Experimentem.
- Uma bandeirinha pra quem acertar!
Roda Viva – A Peça – Parte 2
junho 4, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça
Pelo fato do segundo ato da peça ser muito mais denso que o primeiro, o dividi em 3 outras partes, mas convém salientar que ela ocorreu somente em dois atos.
Benedito abre o segundo ato cantando, em resposta para Juliana, a segunda parte da composição Sem Fantasia:
Eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
Obs. Os 4 últimos versos são cantados de forma simultânea com os 4 versos abaixo, fazendo coincidir os sons de Teus e Meu, num bonito efeito de interpretação poética.
Vem que-eu te quero fraco
Vem que-eu te quero tolo
Vem que-eu te quero todo
Meu
Entra em cena uma câmera, com musiqueta prefixo, e uma voz anunciando se tratar do programa O Artista na Intimidade.
Tentando disfarçar Juliana, a voz sugere a Ben Silver que apresente a sua mãe, e quando ele diz ter ela falecido, o Capeta entra novamente em cena:
- Extra! Ben Silver é casado!
Suas fãs o condenam pela traição de seus sonhos, pois é o povo quem faz o ídolo e ao povo ele pertence. Volta o Capeta:
- A César o que é de César! Extra!
Anjo intervém e dá uma grana pro Capeta argumentando ser Juliana irmã de Ben Silver. A quantia leva Capeta a achar que ela não era “tão irmã assim”, no que Anjo retruca “ser irmã até demais”. Terminadas as negociações do parentesco, Capeta brada:
- Extra! Desmentido o casamento de Ben Silver, sua mulher era sua irmã!
Na cena seguinte Benedito se queixa dos fãs a Mané:
- Eles pensam que a gente vai melhorar alguma coisa…eles pensam que a gente é o dono da verdade……Parece que eles não têm mais em quem acreditar, sabe? Então eles confiam na gente. Eles esperam que a gente, não sei o quê…
Apesar de várias tentativas de Mané cortar o papo, Benedito continua:
- Mas a gente não calcula em que vai dar e quando a gente quer parar, cadê força? Então a gente se deixa levar…covarde…envergonhado...
Obs. Esse fragmento da peça certamente explica a pensamentos pertencentes a outras composições vinouras, tais como:
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
(Gente Humilde)
Ou mesmo pertencente à outra composição da própria peça, Roda Viva:
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Roda Viva – A Peça – Parte 1
maio 8, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça
Um humilde e presunçoso cantor chamado Benedito Silva se apresenta ao público.
Em seguida, Anjo entra em cena mostrando a receita do sucesso, dando uma de protetor e rapidamente discute os percentuais das partes nos lucros, determinando que ficará com vinte por cento de tudo.
Benedito acha muito, mas Anjo passa uma receita inversa para mostrar-lhe a porcaria que era, diante do que iria ficar, e declamando a algo que exalta à moda, à propaganda e ao estrangeiro.
Entra em cena Juliana, que se identifica como esposa de Benedito. Anjo não gosta e diz a ela que Benedito vai mudar completamente, inclusive de nome, enquanto tenda seduzí-la discretamente. Juliana lhe dá um chega pra lá e ele declama seus dotes de Anjo da Guarda.
Benedito volta à cena todo brilhoso, Juliana estranha, reclama e o compara a uma bicha louca, no que Benedito diz: New Look.
Entra em cena o personagem Mané, debruçado numa mesa com copo e garrafa de cachaça.
Obs. Mané era um antigo amigo do Chico nos tempos da Consolação e do Sambafo.
Benedito canta pra ele um chorinho que conta dos seus planos e mudanças, no que Mané responde: – Você nunca me enganou!
Em seguida, Anjo descobre um pseudônimo para Benedito Silva: Ben Silver, passa uma receita de sucesso baseada na obediência à televisão, fala da onipotência da câmera e da imensa platéia que ela dá e o artista não vê.
Juliana canta a primeira parte da composição Sem Fantasia:
Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor, não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te-envolver nos cabelos
Vem perder-te-em meus braços
Pelo-amor de Deus
Vem que-eu te quero fraco
Vem que-eu te quero tolo
Vem que-eu te quero todo meu
Em seguida, entram em cena Anjo e Capeta, juntos, cantando a marcha:
Nós somos velhos amigos
Nós somos os maiorais
Quando nós tamos unidos
Ai dos mortais
Eles se alegram com pouco
E depois ficam pra trás
Nós tamos sempre na onda
E não passamos jamais
Não somos como o otário
Que nunca sabe o que faz
Depois de almoçar c´o vigário
Jantamos com Satanás
Capeta grita: - Extra! Extra!
Faz propaganda de Ben Silver, no que é interrompido por Anjo, que anuncia a chegada de Sua Eminência o IBOPE. Em seguida Anjo declama um poema que trata dos poderes do Ibope entre a venerada televisão e o povo.
Depois, Benedito fala dos bens materiais, que ambiciona para si, sonha com um alambique pro Mané e pão para o povo. Se gaba da fama vindoura no que Mané diz ser uma merda. Fim do primeiro ato.