fevereiro 25, 2009
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A peça Roda Viva apresentou algumas composições, e dentre elas duas foram oficialmente gravadas em disco. Para não perder a sequência da peça, nem a observação mais apurada em cada uma, deixei as análises delas para depois, portanto aqui vai a composição, que encerrou o primeiro ato na voz do personagem Juliana, e iniciou o segundo na voz do personagem Ben Silver:
(canta Juliana)
Vem
Meu menino vadio
Vem
Sem mentir pra você
Vem
Mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem
Por favor, não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou
Te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
(canta Ben Silver)
Eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
Tanto Sem Fantasia quanto Apelo, que virá a seguir, são uma espécie de Cantiga Mista, de Amigo e Amor na primeira, e de Amor e Amigo na segunda, onde ficará claro que na de Amor o poeta trata do seu sentimento próprio, e na de Amigo coloca no canto do sexo oposto o que gostaria de escutar dele, no caso de ambos, a Mulher.
A métrica predominante da composição foi o Hexassílabo, que a ciência poética batizou, ao longo dos anos, como Heróico Quebrado, pelo fato de ser a metade tônica do Decassílabo Heróico. Ou seja: um herói de mentira do tipo Ben Silver jamais mereceria “montar” num Heróico Nobre, pois já nascera quebrado, logo, Chico usou esse recurso para filosofar internamente o texto, caracterizando o Herói de Mentira. Se fê-lo propositalmente, ou não, só ele pode confirmar.
Dentro do meio literário, a composição foi uma divertida disputa poética em que ele e o mestre, Vinícius de Moraes, travavam nos poemas. Coisa deles mesmo, conjugando na Segunda Pessoa do Singular, pois vejam esta composição do Vinícius, cujo nome era Apelo, também cantada em duas partes, só que com o homem cantando antes.
O termo Apelo, a conjugação e duas partes – mulher e homem- comuns a ambas, mostram que as composições Sem Fantasia (Chico) e Apelo (Vinícius) têm bastante intimidade e representam um claro diálogo dos compositores.
Se por um lado, Vinícius não lançou mão de qualquer “Você” no seu Apelo, e Chico usou em 2 versos, Vinícius venceu o Jogo Das Conjugações. Vejam a letra do Apelo, de Vinícius e Toquinho:
(canta o homem)
Ah, meu amor não vá embora
Vê a vida como chora
Vê que triste essa canção
Ah, eu te peço não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa
A tristeza que causei
Eu te suplico: não destruas
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que já paguei
(canta a mulher)
Ah, meu amado se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses num momento
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Eu saber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus
E o Vinícius ainda declama, no final, o seu Soneto Da Separação, não se referindo a qualquer conjugação Pessoal, e em Decassílabos Heróicos, que eram obrigatórios nos originais conceitos da Construção Poética de Forma Fixa conhecida pelo nome de Soneto Italiano, que tem, aliás, tinha, como regras, além dos Decassílabos Heróicos, apresentar catorze versos dispostos em quatro estrofes, duas Quadras e dois Tercetos, tendo estes últimos que apresentar uma ligação por, pelo menos, um grupo comum de rimas:
De repente do riso fez se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que nos olhos desfez-se à última chama
E da paixão fez-se o pré sentimento *
E do momento imóvel fez-se o drama *
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Obs. * O versos explicam o instante mágico da Inspiração. O Pré Sentimento gera a fotografia (momento imóvel) que o poeta traduz em Dramas pelos versos, que viram músicas, peças…
Podem reparar que na gravação original de Apelo, onde Vinícius canta com Maria Bethânia, que ele pronuncia claramente o “Pré Sentimento”, pois o usual “pressentimento”, com o som de “prê”, já havia sido vulgarizado pelo som do neologismo e distado muito do significado original, onde se diferenciavam os conceitos de Prefixo e Radical no encaixe lógico de um verbete.
A composição Sem Fantasia foi editada no terceiro LP, (RGE – 1968) e apresentou a irmã de Chico, Cristina, cantando a parte feminina.
Creio ter a confecção da peça Roda Viva ocorrido numa espécie de exílio, precedente ao oficial, que resultou na ida do Chico para a Itália.
Se nota claramente que ele, a partir de Sem Fantasia, já sentia saudades da terra natal, da MPB, ambas distantes mesmo antes de sair do país. Algo como transportar a MPB para o personagem Juliana, ou fazendo da Juliana, como MPB, a mesma moça de Ela e Sua Janela, de Essa Moça Tá Diferente e, quem sabe, até mesmo, o personagem central de Até Pensei, supondo ter ele espelhado a Moça do Bosque na MPB, na qual entrara como criança, a mesma criança de Meu Refrão, que brincava de bola e soltava balões.
Ao constatar todo o Submundo do Poder, que o cercava na carreira, buscou refúgio no mundo próprio interior e jogou a Roda Viva pro lado de fora, se transformando numa espécie de narrador, supostamente isento na narrativa, mas totalmente envolvido, emocionalmente, num Benedito Silva qualquer da vida, que não sofria por mãos de militares, mas por aquelas que sujavam, e continuam sujando, a identidade cultural brasileira.
Chico não protestava contra o Regime Militar, mas contra o Poder Nefasto da Mídia. Era dessa Uma que ele fugia, ainda por aqui, antes de se envolver com a Outra, posteriormente pela Europa. Coisas de Umas e Outras.
Essa fase caracterizou ao que chamei de Fase do Auto-Exílio Interior, que funde, ou confunde, as composições pertencentes aos tempos pré e pós o exílio formal.
Não percam os demais capítulos da Novela do Auto-Exílio.
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julho 11, 2008
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No tópico anterior mostrei as letras de dois sambas que tratavam mais de aula ufanista de História do Brasil, um satírico Samba do Crioulo Doido e uma composição que serviu como estandarte do movimento Tropicalista criado por um jornal de S.Paulo.
Nos anos 60 a matéria Língua Portuguesa usava interpretar textos baseados nas Histórias Oficiais comparadas às Contemporâneas, que abrangiam os últimos 20 anos.
Num período em que se lia mais do que se ouvia, e quase nada se via, a televisão era encarada como a temida “Máquina de Ensinar”, citada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo (1931).
A Locução Roda Viva já era Adverbial e significava um incessante movimento, ou uma Barafunda, ou Azáfama. Em suma, Roda Viva era uma Inquietação Social que Chico transportou para o cotidiano artístico como um Advérbio de Modo ou Conduta.
A História Econômica do Brasil contava do pagamento da nossa Dívida Externa, contraída por D. Pedro I junto aos credores ingleses, por ocasião do Reconhecimento da Independência; ocorrido com Getúlio Vargas em seu segundo mandato.
Contava também a História dos novos pedidos de empréstimos estrangeiros, feitos por Juscelino Kubitscheck aos credores americanos. Em suma: – Desde a oficial proclamação da nossa independência estávamos dependentes dos credores ingleses.
Nem bem Getúlio a proclamou novamente, só que, daquela feita, em forma plena e irrestrita; enveredávamos por nova dependência financeira, só que nas mãos de diferentes credores.
Não sei de que forma hoje é abordada tal época da nossa História Econômica, mas essas informações acima faziam parte dos conteúdos de duas disciplinas escolares – Educação Moral e Cívica – Organização Social e Política do Brasil – para os alunos dos chamados Cursos Científico, Clássico ou Normal dos anos 60.
A partir dessas informações oficiais das redes pública e privada da Educação nos anos 60, tentemos interpretar os textos que Sérgio Porto e Caetano Veloso deram às respectivas composições Samba do Crioulo Doido e Tropicália.
Sérgio bagunçou a História oficial, mas se nota que ele cita JK logo no início, cita a princesa Leopoldina, esposa oficial de D. Pedro I, associada a Tiradentes, um ícone da Liberdade, mas tão mineiro quanto o JK.
Em seguida diz que Tiradentes viajou de Minas para São Paulo, se associou a D. Pedro, acabou com a Falseta e “Proclamou a Escravidão”, para finalizar contando que “o trem (da História) tá atrasado ou já passou”.
Vejamos agora o que Caetano Veloso, talvez de forma tão subjetiva quanto Sérgio Porto, disse em Tropicália:
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
O surpreso Migrante Nordestino, nos chamados “Caminhões Paus de Arara”, chegando às metrópoles, com o pensamento voltado aos “Chapadões”, que sabemos estarem em Minas e Brasília.
Eu organizo um movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro um monumento
No Planalto Central
Do país
O movimento organizado era o Concretismo, a orientação do carnaval era a exigência dos enredos históricos, e o monumento do Planalto Central é obviamente Brasília.
Viva a bossa sa sá
Viva a palhoça, ça ça ça çá
Tanto o movimento literário, quanto o monumento Brasília, como a Bossa Nova foram obras de uma mesma causa: Novas e caras realidades virtuais brasileiras em confronto com a paupérrima situação social do povo surpreso nas suas Palhoças.
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
Brasília, em essência, misturou o material barato das alegorias das escolas de samba com algum luxo caro. Coisa de Novo Rico mesmo, que, por estar cercada pelas selvas, se isola e guarda dos pobres sertões nordestinos que a construiram.
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão..
Viva a mata ta tá
Viva a mulata ta ta ta tá.
Aqui o paradoxo descritivo cresce, mas não deixa de sugerir o quanto tal “nebulosa” iniciativa deva ter custado ao povo miserável estampado na criança.
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Abaixo da rampa do Palácio do Planalto tem a Piscina Amaralina, com faróis submersos. Por cima da rampa passam ventos e sotaques diversos do nordeste, homenageando ao mesmo povo usado na construção.
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis…
Viva Maria ia iá
Viva a Bahia ia ia ia iá
Enquanto, no monumento-sede, o braço direito da mídia, ou mesmo do “Rei” ao qual ela pertence, sugere flores eternas, em seus quintais os urubus fazem a festa sobre a carniça da simplória Maria, da Bahia…
No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança um samba
De tamborim
O pulso esquerdo da mídia sugere ter ela vindo do faroeste americano, no entanto é fria e calculista o bastante a seu coração comandar até as batidas dos nossos tamborins (eu oriento o carnaval).
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim…
Viva Iracema ma má
Viva Ipanema ma ma ma má
Os cinco mil alto-falantes demonstram o Poder dos olhos grandes da mídia sobre o Pobre Artista Nativo, ainda preso à imagem da folclórica e famosa conterrânea índia, Iracema, em contraste com a realidade social vivida por ele na Ipanema do sudeste.
Se Caetano quisesse prender a idéia mais à televisão, poderia até usar:
Emite acordes refletores / Pelos cinco mil receptores
Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem
Viva A Banda da dá
Carmem Miranda da da da dá…
Aqui o Caetano fala do seu cotidiano que lhe alterna a atenção entre as realidades do Ego e da Profissão, associando um sucesso recente do Chico ao anterior da Carmem Miranda, pelo mesmo poder da mídia americana e, de leve, coloca o Roberto Carlos no time dos artistas “Amigos do Rei”, já que usa um pensamento de uma das composições mais famosas dele: “E que tudo mais vá pro inferno”.
Repito: Embora colocados em diferentes times pela mídia, Chico e Caetano falaram da mesma Roda Viva que os assolava. Um da sua ação direta nele e outro dos meandros do poder que a mantinha.
…O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
- Quem lê tanta notícia?…
…Pedro pedreiro, penseiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem…
Eu vou, por que não…?
Por que não?
…O o oô oô
O trem tá atrasado ou já passou…
Roda Viva – Como Andava a MPB
julho 11, 2008
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Embora a maioria dos colegas compositores tenha, de imediato, se esquivado de qualquer engajamento com a filosofia explícita resultante da peça Roda Viva, alguns se aventuraram a tentar algo semelhante na MPB.
Vivíamos sob a óbvia influência da excepcional musicalidade dos Beatles, a objetividade das músicas e textos adolescentes da Jovem Guarda, da Bossa Nova Elitista do João Gilberto (já em menor escala) e dos sambas.
Chico gostava de fazer sambas bem escritos, mas sofria com a concorrência de outros, com musicalidade excelente, porém com textos desta qualidade:
Valeu o sacrifício dos Andradas
E as preces da princesa Leopoldina
A morte de Tiradentes não foi em vão
São hoje símbolos vivos da nossa nação
A maçonaria muito contribuiu
Na surdina do nome conseguiu
E o príncipe regente se fez imperador
Num gesto de coragem e de amor
Independência ou Morte Dom Pedro primeiro bradou
E o sonho dos brasileiros se concretizou
Oh, meu Brasil segue avante
Olha o futuro que lhe espera
Ninguém segura esse gigante
Raiou-se o sol de primavera
Uma delícia de melodia, uma letra fácil de ser cantada e um óbvio sucesso.
Na mesma época Elis gravou este outro samba:
Joaquim José
Da Silva Xavier
Morreu a vinte e um de abril
Pela independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado
Pela nossa liberdade
Esse grande herói
Pra sempre deve ser lembrado
Outra melodia gostosa, que, cantada pela voz marcante de Elis Regina, não poderia resultar em nada diferente de sucesso imediato, mas o que poderia estar se passando pelas cabeças dos velhos e jovens compositores da MPB?
Quando um pensador é amordaçado pelas forças superiores, governamentais ou não, tenta de alguma forma mostrar o seu desconforto e a última delas é a Sátira.
Roda Viva pode muito bem ter vindo do que Chico observou na época, onde destaco o surgimento do FEBEAPÁ – FEstival de BEsteiras que Assolam o PAís – um clube de pensadores presidido pelo jornalista Sérgio Porto, cujo pseudônimo era Stanislaw Ponte Preta.
Com notáveis membros como Nelson Rodrigues, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Leon Eliachar etc; que, diante da censura imposta pelos militares e a insistência da mídia em valorizar músicas que apresentassem textos semelhantes aos vistos acima, se usavam da sátira como último recurso da filosofia.
As escolas de samba eram obrigadas a usar nos enredos somente episódios ocorridos na História do Brasil (a dos Vencedores), contada nas escolas.
Foi quando Stanislaw, com a ajuda do time do Febeapá, construiu o histórico Samba do Crioulo Doido, provido de introdução explicativa:
“Este é o Samba do Crioulo Doido, a história de um compositor, que durante muitos anos obedeceu o regulamento e só fez samba sobre a História do Brasil. Em nome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva… e o coitado do crioulo teve de aprender tudo isso para os enredos da escola.
Até que no ano passado escolheram um tema complicado: Atual conjuntura! Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba:”
Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casaá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes
Bis
Laiá, laiá laiá
O bode que deu vou te contá
Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro Segundo
Das estradas de minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
A aliança a Dom Pedro
Acabou com a Falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi Proclamada a Escravidão – bis
Assim se conta esta história
Que é dos dois a maior glória
A Leopoldina virou trem
E Dom Pedro é uma estação também
Bis
Oo oô oô
O trem tá atrasado ou já passou
Pode-se perceber notável semelhança filosófica no texto do Crioulo Doido com os dos sambas vigentes na época.
Esse era o espírito dos pensadores na década de 60. Todos já sabiam que a História do Brasil sempre fora manipulada pelos “colonizadores” anteriores, intermediários e posteriores: Portugueses, credores europeus e credores americanos, respectivamente.
Em 1968 a MPB estava dividida em várias correntes filosóficas, mas a atenção maior da mídia se voltava a duas delas, criadas pela própria, a partir do festival de 1967: Chico x Baianos.
Por exemplo, embora colocados em distintos times pela mídia de São Paulo, mais especificamente pelo jornal A Folha de São Paulo, tratavam do mesmo tema em formas distintas.
Enquanto Chico tratava mais especificamente da “Fabricação de Ídolos” na Roda Viva, Caetano abordava mais às raízes históricas e próximas do problema.
Aproveitando o estilo do Samba do Crioulo Doido, na época Caetano escreveu a composição Tropicália, também com uma introdução satírica:
“Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis e verdejantes escreveu uma carta ao rei:
- E no que nela se planta tudo cresce e floresce!
E o caos da época gravou…”
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central
Do país…
Viva a bossa sa, sá
Viva a palhoça ça ça ça çá
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão…
Viva a mata ta tá
Viva a mulata ta ta ta tá
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis…
Viva Maria ia iá
Viva a Bahia ia ia ia iá
No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim…
Viva Iracema ma má
Viva Ipanema ma ma ma má
Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem
Viva A Banda da dá
Carmem Miranda da da da dá…
Roda Viva – O Divisor Das Flores
junho 12, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça, Texto
…No milagre desmascarado
E, no entanto
Ainda quis me defender
Ainda me expliquei
Não fui eu que comecei
Não fui eu que me inventei
Mas aí a festa me chamou
E eu aceitei
O rei me convidou
E eu dei-lhe a mão…
Se me pedissem para resumir em poucas palavras a peça Roda Viva, esse trecho retirado da declamação de Ben Silver ao amigo Mané bastaria, pois todo o restante dela foi feito para explicar a essa passagem.
Foi uma espécie de honesta auto-biografia do conjunto Chico – Francisco nos seus poucos 3 anos de carreira, e talvez esse seja o real motivo pelo qual a sua equipe de Anjos e Capetas insista em furtá-la de um melhor esclarecimento público até hoje.
Quando assisti à peça contava apenas com 16 anos. Como nessa idade se usa espernear feito criança, quando não tratado como adulto, valia tudo para protestar. Até aplaudir “Arremessos de Fígado” na platéia, como de fato ocorreu na peça.
Roda Viva teria todos os ingredientes necessários para que nós, jovens de então, recebêssemos uma lição histórica acerca dos meandros do Poder Invisível, que assolava e cercava o Visível dos Militares, através dos veículos de comunicação.
Infelizmente a direção da mesma, talvez propositalmente, acabou por transformá-la em algo semelhante a um programa contemporâneo do Chacrinha, em que oferecia e arremessava coisas no público: “- Vocês querem Bacalhau???”.
Imaginemos o que poderia estar se passando pela cabeça do jovem compositor de 24 anos, cujo pai era um famoso sociólogo, logo, ciente desses movimentos sociais, sentindo o seu talento literário disputado a tapas por dois “Reis”:
- Um europeu, com o trono perdido 10 anos antes, e um americano que lhe sucedera nessa absurda Dinastia Capitalista.
Ainda na sua infância artística, ao ser cobrado pelo “velho poeta” do súbito sucesso na carreira (A Banda), e, talvez, por desconhecer a parte da História à qual o próprio pai participara – Semana Literária de 1922 – Chico não tenha se dado conta de que ambos, o pai e o velho poeta, na tal Semana já podiam ter igualmente recebido os mesmos benefícios e estendido as mãos ao mesmo Rei, só que europeu.
A peça começou a ser escrita em 1967, quando Chico escreveu, e inscreveu, a composição Roda Viva. Acima de qualquer competição dos Festivais, pulsava uma reação honesta do artista a todas essas pressões da mídia, justificada por:
A gente vai contra “a corrente”
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a Roda Viva
E carrega a roseira pra lá
Logo após esse festival, um dos Capetas de São Paulo começou a bagunçar os caminhos da MPB, pois tivemos nas 4 primeiras colocações Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico e Caetano, respectivamente.
Esses quatro compositores poderiam, caso se unissem no propósito da Cultura Popular, fincar de vez as raízes históricas da Razão em nossa consciência artística, mas sendo jovens e entusiasmados com os próprios sucessos, se tornaram presas fáceis dos múltiplos tentáculos do “Polvo Capeta”.
Tínhamos em São Paulo dois Capetas: Um fiel aos interesses europeus, e outro representando à nova realeza americana.
Chico possuia, em atavismo e genética, maior proximidade dos europeus, no entanto estava, profissionalmente, sujeito à chefia americana.
Como se não bastasse esse jogo dos Bastidores do Poder extra militar, havia sido lançado no meio artístico por ninguém menos que Geraldo Vandré, na composição Sonho de Um Carnaval.
Ao escrever a peça, e praticamente assumir a identidade do Ben Silver, Chico acabou dando um mote a Vandré, que talvez por gozação, usou as flores finalizantes dela para escrever a composição “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, inscrita no Festival de 1968, cujo texto apresenta, em um dos fragmentos, a seguinte resposta a Chico:
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções*
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Obs. * “Tijolo por tijolo num desenho lógico” seria uma parede erguida pelo Pedro Pedreiro na Construção, ou uma jovem Lira Poética tentando dizer algo?
Vandré apenas deu um refresco a Chico, pois generalizou o ”assédio” da mídia a todos os artistas, mas não deixou também de alerta-los no trecho final da música:
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A História na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma “nova lição“
Caberia a cada um dos colegas compositores entender o recado do Vandré e optar.
Os articulistas concretistas do tal Capeta Americano conseguiram convencer Gil e Caetano a desenvolverem na MPB um movimento conhecido como Tropicalismo onde, segundo Caetano, tentavam até enfear às letras mas não conseguiam.
Edu Lobo resolveu estudar melhor as suas melodias e sumiu do mapa. Chico continuou na dele, se mandou para a Itália, mas bem incomodado com o fato de ter tentado abrir o jogo, os demais colegas terem fugido da ráia e ele ficado só na questão.
Suspeito até que a ida para a Itália, logo após a peça, já estivesse programada pela dupla Capeta-Anjo, européia, que no futuro o comandaria, antes mesmo da peça ser exibida.
A quantidade de “coincidências” dos caminhos do Ben Silver, que foi transformado no exportável Benedito Lampião, e o da sua esposa-irmã; com os fatos que cercaram os dias de Chico e Marieta Severo, nas imediatas fases pré e pós peça, apenas o sugerem bem possível.
Nos meus estudos preliminares, dessa fase da MPB, acreditava que Chico realmente havia sido mandado para fora do país e se consumado formalmente um Exílio no qual ele optara por passar na Itália.
Imaginava também que, curiosamente, antes mesmo de estar fora do Brasil, já compunha como um exilado, haja vista que algumas composições imediatas futuras possuem os textos com características de terem sido feitos por alguém fora do país. Retrato em Branco e Preto, por exemplo.
Essa fase chamei de Auto-Exílio-Interior. Tudo isso, somado ao que aconteceria com Sabiá, no mesmo Festival de 1968, acabou dando ao Chico uma idéia de Traição aos amigos, companheiros, ou mesmo ao povo brasileiro.
Sentimento esse que nos rendeu belíssimos resultados, frutos da sua consciência, dentre os quais destaco Calabar, O Elogio da Traição, aonde se projetou no personagem Sebastião Souto.
Não me furtarei a melhor explicar esses movimentos ocorridos nos Bastidores do Poder, pois a partir da peça Roda Viva a obra do Chico virou uma romântica e idealística Novela Literária.
Uma novela cheia de linguagens cifradas, nas quais enxerguei a divertidas batalhas entre o que ele, talvez, quisesse dizer e o que os jornais diziam ter Chico dito contra os militares.
Mostrarei adiante o próprio Chico sendo mais claro ainda acerca do tema. Não percam a ousadia do Auto-Exilado, pois não foi mandado embora coisa alguma, logo, o que se afigurou como Tragédia Histórico-Literária, nada mais foi do que uma Bonita Comédia de Bastidores do Poder, visto que voltou da Itália bem acertadinho com a sua nova gravadora, a Phillips.
Roda Viva – A Peça – Parte 4
junho 4, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça
Em seguida, é cantada a música tema: Roda Viva.
Tem dias que gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega roda viva
E carrega o destino pra lá
Refrão
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega roda viva
E carrega a roseira pra lá
Refrão
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola pra lá
Refrão
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega roda viva
E carrega a saudade pra lá
Refrão repetitivo e acelerando
Na cena seguinte Benedito começa a conversar com Mané sobre o que é feito de alguns amigos de outrora, dos quais destaco Rita, que casou, Dora, que morreu, mas renascerá em Gota D´Água (…que amava Dora que amava toda a quadrilha…), do partido comunista, que faliu, e por fim da Ana Maria, a Bahia, apelido de Ana Buarque.
A seguir o Capeta grita:
- Extra! Cachaça derruba Ben Silver!
No que Anjo desmente, apesar da manguaça do Benedito. Dá algum dinheiro pro Capeta, que também desmente. Anjo resolve então trocar o rótulo, Ben Silver, pelo do Nacionalista Benedito Lampião e decide exportá-lo para os USA.
Quando Capeta descobre que não está incluído nos planos de viagem sai com esta:
- Extra! Benedito Lampião trai seu povo! Depois de pregar a reforma agrária, vai receber dólares dos americanos! **
Anjo contrata um outro Capeta, concorrente do original, que louva:
- Fenomenal! Benedito Lampião vai cantar na Casa Branca!
No que o Capeta original revida:
- Extra! Benedito Lampião puxa o saco de Tio Sam!
Obs. Esse momento da peça, onde Anjo contrata um Capeta novo, sugere as primeiras tentativas das trocas de gravadoras para os discos do Chico, o que viraria fato logo após a sua saida do Brasil.
** – Nesse trecho da peça, que tratava da própria carreira, sem perceber Chico acaba expondo a um pensamento seu nunca externado nas composições anteriores: A Reforma Agrária, tratada subjetivamente só muitos anos adiante com a composição Assentamento.
Por fim, Anjo decide matar Benedito de uma vez e substituí-lo por Juliana, que cantará músicas em sua memória. Capeta brada:
- Extra! Benedito Lampião suicidou-se. Rei morto, Rainha posta! E pra Jujú, viúva do Rei, nada? Tudo…!
Capeta e Anjo fazem as pazes e cantam junto com demais personagens, que restaram vivos na peça, a seguinte composição:
Para nós, no Universo
Só existe paz e amores
Nós só cantamos um verso
Que fala em flores, flores, flores
Há quem nos fale de guerra
Morte, miséria terrores
Quando nos falam de terra
Plantamos flores, flores, flores
Flores, flores
Quem não gostou desta peça
Saia daqui, diga horrores
Nos divertimos à beça
E tomem flores, flores, flores
Depois de algumas apresentações o teatro pegou fogo e a peça nunca mais foi apresentada, no entanto, no mesmo ano, 1968, Geraldo Vandré inscreveu num festival a composição “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, que mais tarde recebeu o nome de Caminhando. Nova luta estava começando.
Após o incêndio casual, Chico e Marieta Severo foram para a Itália e o Real Capeta Nosso de Cada Dia nos brindou desta forma:
- Extra! O cantor Chico Buarque é exilado e vai para a Itália carregando junto a amante e atriz Marieta Severo!