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Fazenda Modelo (novela pecuária?)

 

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Conforme citei no post O Trânsito da Filosofia e do Poder na MPB, por possuir um enfadonho enredo direto no texto, me deterei mais nas Minhas Suposições, tangentes ao que chamei de Linguagem Cifrada subjetiva, ou, se preferirem, à tal Linguagem de Fresta, comum nos anos 60 e 70.

Na famosa puxação de saco inicial temos, primeiro, a seguinte dedicatória: 

À Latucha
minha estimada esposa
cuja candura e compreensão
tornaram possível
a realização
deste livro 

A seguir surgem alguns agradecimentos ao Inspetor Klaus, ao Dr. Kapp e ao Prof. Kazuki; sendo apresentado em seguida um Prefácio escrito por K. Kleber (maio de 1974).

Depois vem o título do livro e, abaixo dele, o seguinte pensamento bíblico: 

“Não porás mordaça ao boi enquanto debulha” (Deuteronômio, cap. XXV, vs. 4) 

O livro inicia contando da realidade anterior da fazenda, quando o gado ousava até a copular ao ar livre. Isso ocorre até o surgimento do que considerei como o personagem central do enredo, conhecido por Juvenal, O Bom Boi, cujas decisões principais sempre obedeciam aos pareceres da sua equipe de governo, todos com nomes iniciados pela letra K: Klaus, Kleber, Krieger, Katazan…

Essa equipe de governo só se dirigia diretamente ao Juvenal, eram chamados de Invisíveis, ou mesmo Indizíveis, e representavam toda a força motriz das modificações a serem feitas na realidade anterior da fazenda, tais como proibir o super touro Abá, natural reprodutor, de ficar fecundando vacas ao ar livre, e uma das primeiras providências seria a de reunir o seu sêmem em laboratório, para em seguida ser usado em inseminações artificiais.

Dentre as várias situações cotidianas, comuns à nossa realidade social, mas transferidas para realidade bovina, Juvenal tinha alguns sonhos para a fazenda. O principal deles era torná-la um modelo social, baseado num rigoroso código ético e digno de um orgulho nacional invejável por parte do rebanho, mas, para tal, precisava construir a Juvenópolis, no “plano alto central” da fazenda, para finalmente ter uma sede mais moderna e compatível com a futura grandeza da fazenda.

Outro sonho do Juvenal era o que ficaria conhecido por “Telão do Juvenal”, com o qual se daria toda a educação do futuro gado.

Abá tinha dois filhos prediletos, ambos herdeiros fiéis da sua linhagem nobre: Lubino e Latucha, um casal que virou meta do Juvenal para dar sequência à sua administração no futuro.

Para tal, os afastou do pai, Abá, cujo procedimento se mostrava saudoso de outros tempos e não alinhava nem um pouco com a nova realidade projetada para a fazenda.

Depois de um monte de onomatopéias do tipo blongue-te-blongue, pra lá e pra cá, em inúmeras léguas e situações sociais cotidianas adaptadas, chega o momento crucial de Juvenal contar a Lubino, até então preservado da idéia de sexo, que ele seria o próximo reprodutor da fazenda, em substituição ao Abá.

Lubino fica desencontrado, corre pra todos os lados, faz a “Dança de Obaluayê” e enlouquece.

Fim do livro, ou começo da minha ficção.

Tendo sido Chico o autor do livro, que apresenta uma dedicatória inicial de Lubino à esposa Latucha, tudo me leva a crer que Chico é o primeiro e Marieta Severo, sua esposa na época, a segunda.

Os agradecimentos à turma dos Ks originais só é um reforço do que foi emprestado, adiante, por Chico ao Juvenal.

O pensamento bíblico é uma espécie de alerta aos proprietários do seu passe artístico. Chico ainda não tinha idade para ser beneficiado com a Lei do Passe Livre.

A força do Juvenal estava justamente nos Ks Invisíveis que o coordenavam nas ações, logo, Juvenal era um nome de fachada, menos importante, e como o seu sonho era o de construir uma Juvenópolis, para virar a sede administrativa da fazenda.

Ficou meio óbvio que foi uma alusão ao anterior presidente da república Juscelino Kubitscheck. O pré-nome, Juscelino, de Juvenal, cuja força morava em todos os Ks “Kabíveis” no nome, cujo sobrenome, Oliveira, possuía igual história na época em que os seus ancestrais vieram de Portugal, onde foram obrigados a usar árvores frutíferas no sobrenome.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, o Brasil apresentava uma situação econômica estável, sendo até credor de alguns países, mas, para isso, foi necessário que pagasse uma dívida externa, iniciada por um pedido de empréstimo feito por Dom Pedro I, em 1822, para conseguir o tal do Reconhecimento da Independência.

Como essa dívida foi contraída com uma casa financeira britânica, ao ser quitada, ficamos livres dos credores europeus e finalmente Independentes de direito e de fato, não mais somente de direito.

Além da independência adquirida com a quitação da dívida, parece que Getúlio Vargas, ainda fazendo uso dos empréstimos britânicos, deixara o Brasil com boa malha ferroviária, bastante ao nosso crescimento em ritmo coerente, porém lento para outros anseios de novos e modernos investidores.

Foi quando Juscelino assumiu a presidência, para logo de cara iniciar a construção de Brasília, mas isso necessitava de muito dinheiro.

Novos empréstimos volumosos foram tratados, só que desta feita junto a credores americanos, aos quais devemos até hoje.

Logo em seguida vieram as multinacionais da indústria automobilística, e para justificar à existência delas por aqui, novos empréstimos foram tratados, com os mesmos credores americanos, destinados à construção de estradas de rodagem.

Conclusão: O Brasil se tornara novamente dependente, só que de novos credores.

Se, na Fazenda Modelo, Juscelino foi o Juvenal, nada mais justo do que Getúlio ter sido o Abá.

E essa Juvenópolis não tem muito de Brasília, bem como o Telão do Juvenal não se parece bastante, digamos, com a RedeTV, com a TV Cultura, ou mesmo, exagerando um pouco, com a Globo?

Se na Fazenda Modelo o futuro sucessor do Juvenal, o Lubino, executou a Dança de Obaluayê, e no candomblé esse orixá é conhecido como o Senhor da Morte, a dança do Lubino foi também a Dança da Morte, não sendo muito difícil associá-lo ao presidente Jânio Quadros, marcado pela renúncia, ou morte política, decorrente do que a maioria considerou como ato insano.

Quando Jânio deixou o poder, justificou à renúncia com esta frase:

“Forças Ocultas não me deram outra escolha…”.

Essas mesmas Forças Ocultas do Jânio não poderiam ser as mesmas dos Invisíveis do Juvenal, tão Indizíveis que até um presidente renunciando não tivesse a coragem de dizer?

Voltando às comparações, na MPB, o Abá seria o Vinícius de Moraes, o Lubino seria o próprio Chico, mas assim sendo, quais seriam o Juvenal e os respectivos Ks?

Talvez, revendo um pouco dos personagens da peça Roda Viva, seria a dupla Anjo-Capeta, ou Ibope-Imprensa, cujos proprietários talvez fossem os mesmos Invisíveis do Chico, ou Ocultos do Jânio.

Tudo isso pairou muito tempo, na forma de dúvidas, em minhas análises, até o dia em que tive às mãos um livro, considerado Apócrifo pela imprensa, que teve lá suas razões para isso, cuja edição foi, e talvez ainda seja, proibida no Brasil, mas que possui fragmentos como estes: 

“… Precisamos que as guerras não dêem, tanto quanto possível, vantagens territoriais. Transportada, assim, a guerra para o terreno econômico, as nações verão a força da nossa supremacia, e tal situação nos porá ambas as partes à disposição de nossos agentes internacionais, que têm milhares de olhos e que nenhuma fronteira pode deter. Então, nossos direitos internacionais apagarão os direitos nacionais, no sentido próprio da expressão, governando os povos, do mesmo modo que o direito civil dos Estados regula as relações entre seus súditos.       

     Os administradores escolhidos por nós no povo, em razão das suas aptidões servis, não serão indivíduos preparados para a administração do país. Assim facilmente se tornarão peões de nosso jogo nas mãos de nossos sábios e geniais conselheiros, de nossos especialistas, educados desde a infância para administrar os negócios do mundo inteiro. Sabeis que nossos especialistas reuniram as informações necessárias para administrar os negócios do mundo inteiro. Sabeis que nossos especialistas reuniram as informações necessárias para administrar segundo nossos planos, tirando-as das experiências da história e do estudo de todos os acontecimentos notáveis. *Os cristãos não se guiam pela prática de observações imparciais tiradas da história, mas pela rotina teórica, incapaz de atingir qualquer resultado real. Por isso, não devemos contar com eles; que se divirtam durante algum tempo, vivendo de esperanças ou de novas diversões, ou ainda da saudade dos divertimentos que tiveram. Deixemo-los acreditar nas leis científicas que lhes inculcamos em meras teorias. É com esse fim que constantemente aumentamos, por intermédio da nossa imprensa, sua confiança cega nessas leis. A classe intelectual dos … ficará cheia de orgulho com esses conhecimentos e, sem os examinar logicamente, porá em ação todos os dados dessa ciência reunidos pelos nossos agentes para guiar seu espírito pelo rumo que precisamos.

 Não julgueis nossas afirmações sem base; reparai no êxito com que soubemos criar o Darwinismo, o Nietzchismo. Pelo menos para nós, a influência deletária dessas tendências deve ser evidente.        

     Temos necessidade de contar com as idéias, os caracteres, as tendências modernas dos povos para não cometermos erros na política e na administração dos negócios. Nosso sistema, cujas partes podem ser dispostas diferentemente segundo os povos que encontremos em nosso caminho, somente pode dar resultado se sua aplicação prática for baseada nos resultados do passado confrontados com o presente.               

     Os Estados modernos possuem uma grande força criadora: a imprensa. O papel da imprensa consiste em indicar as reclamações que se dizem indispensáveis, dando a conhecer as reclamações do povo, criando descontentes e sendo seu órgão. A imprensa encarna a liberdade da palavra. Mas os Estados não souberam utilizar essa força e ela caiu em nossas mãos. Por ela, obtivemos influência, ficando ocultos; graças a ela, ajuntamos o ouro em nossas mãos…” (Capítulo II)

“…Toda república passa por diversas fases. A primeira compreende os primeiros dias de loucura dum cego que se atira para a direita e para a esquerda. A segunda é a da demagogia, de onde nasce a anarquia; depois, vem inevitavelmente o despotismo, não um despotismo legal e franco, porém um despotismo invisível e ignorado, todavia sensível; despotismo exercido por uma organização secreta, que age com tanto menos escrúpulo quanto se acoberta por meio de diversos agentes, cuja substituição não só não a prejudica como a dispensa de gastar seus recursos, recompensando longos serviços

     Quem poderá derrubar uma Força Invisível? Nossa força é assim. A franco-maçonaria externa serve unicamente para cobrir nossos desígnios; o plano de ação dessa força, o lugar em que assiste são inteiramente ignorados do público…” (Capítulo IV, parágrafos 1 e 2)

O tal Apócrifo se chama Os Protocolos Dos Sábios Do Sião. Embora se mostre bem elucidativo, para quem gosta de administração, sempre atual, por coincidir com vários procedimentos da imprensa desde a sua descoberta, ocorrida no Congresso Sionista da Basiléia (1895, creio), até hoje; precisa ter muito saco para aguentar o seu texto revanchista e apocalíptico, no entanto, no caso de Fazenda Modelo creio que tenha dado bem conta do recado, pelo menos na minha, talvez insensata, análise do livro. Talvez o Chico nunca tenha ouvido falar do apócrifo, não é mesmo?

Chamo a atenção para algo notável ocorrido nessa mesma época em que Chico editou o livro: A aproximação inicial dele ao parceiro Francis Hime. Falando do seu relacionamento com o parceiro Chico, na composição Trocando em Miúdos, Hime disse que, na época, havia deixado com ele muitas melodias para colocar letra, inclusive um Samba Enredo. Disse Hime ainda que Chico demorava muito para colocar as letras nas melodias.

Curiosamente, cerca de 10 anos após o livro Fazenda Modelo, surgiu uma composição que apresentava os seguintes fragmentos: 

…Cada paralelepípedo da velha cidade
Esta noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui *sambaram nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa História
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitente
Erguendo Estranhas Catedrais… 

Antes do Sambódromo, os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro ocorriam em uma avenida, calçada com paralelepípedos, e que se chamava PresidenteVargas…

Em gíria, *Sambar pode significar levar a pior.

As Estranhas Catedrais não levam todo o jeitão arquitetônico da Juvenópolis?

Esses fragmentos de texto pertencem à composição Vai Passar, de Chico e Francis Hime.

Será que não se parecem nem um pouco com tudo o que foi escrito anteriormente neste post?

As suposições são minhas, mas a conclusão é sua. Quanto à bibliografia citada, bom divertimento para quem, caso goste do assunto, tentar encontrar, tanto o Fazenda quanto Os Protocolos…

* Na peça Roda Viva, Anjo e Capeta falam a mesma coisa de nós, povo ignorante que idolatra ídolos populares.

                       
 

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